Alessandro
A porta do quarto se abriu em um baque seco.
— Eduardo!
— Alessandro, sabia que estava aqui. Não dá mais tempo, você precisa tirá-la daqui agora.
Fiorella me olhou confusa e assustada ao mesmo tempo.
— O que está acontecendo? — perguntei, enquanto Eduardo fechava a porta atrás de si, com o semblante carregado.
— Don Salvatore resolveu antecipar as coisas. A festa de aniversário é só uma desculpa, todos os membros da Cosa Nostra já chegaram... E a segurança foi reforçada.
— Do que vocês estão falando? — Fiorella perguntou num fio de voz, os olhos úmidos pelas lágrimas que ela tentava segurar.
— Vá trocar de roupa, querida! — dei a ordem.
— Não dá tempo... — Eduardo interrompeu. — Saiam agora! Tem um carro parado duas ruas atrás da mansão, a chave está no pneu.
— Não vou fugir do meu aniversário! — Fiorella protestou.
— Não é uma festa, é a iniciação de Dominic. Seu pai está com pressa de colocar o seu irmão como subchefe da Cosa Nostra! Você não pode ficar aqui... — ele deu um tapinha nos cachos dela e forçou um sorriso. — Alessandro, confio a vida dela a você. Vão embora!
— Preciso dos meus remédios. — Fiorella abriu algumas gavetas apressada e pegou uma bolsa pequena.
— Pelo jeito você se importa mais do que o pai — falei baixo para que ela não escutasse. — Dou a minha palavra que cuidarei dela!
Agarrei o primeiro casaco que vi pendurado. Fiorella havia retirado as sandálias e estava pegando um par de tênis e meias.
— Acabou o tempo, os seguranças estão subindo! Saiam agora! — Eduardo apontou para as imagens das câmeras no celular.
Peguei Fiorella pela mão e a puxei para fora do quarto ainda descalça.
— Alessandro, não estou entendendo nada — ela sussurrou, acuada ao meu lado.
— Shhh. Uma coisa de cada vez. Nosso foco agora é sair desta maldita casa.
— Se você conseguiu entrar, então podemos sair pelo mesmo caminho... — ela falou com uma ponta de irritação na voz.
— Não vou arriscar que você caia. Eu entrei pelo muro!
— Eu consigo.
— Fiorella, você não consegue ficar...
Interrompi o que estava dizendo e colei o corpo dela no meu quando alguns dos seguranças passaram por nós. Pela tranquilidade deles, a possibilidade de que Fiorella pudesse estar tentando fugir ainda não era uma hipótese.
Me escondi com ela atrás de uma pilastra, mas o vestido esvoaçante poderia aparecer se não nos apressássemos em sair dali.
— Esse seu vestido vai acabar nos entregando — resmunguei.
— E o que você quer que eu faça?
— Tira isso! Só vai nos atrasar, e esse brilho todo vai deixar um rastro por onde a gente passar. Não somos João e Maria, certo?
— Você só pode estar brincando — ela me encarou com os olhos arregalados.
— Ou você tira ou eu r***o! — Sabia que estava sendo frio, mas era necessário para a nossa sobrevivência.
— Eu não vou andar por aí só de lingerie — ela rebateu.
— Fiorella!
— Você não ousaria rasgar o meu vestido... — Peguei um canivete no bolso da calça e passei por aquela maldita costura que grudava um monte de saias, uma sobre a outra. — Seu troglodita!
Assim que Fiorella tirou o vestido, o abandonamos em uma caixa velha que encontramos em um dos cômodos do último andar.
A visão de Fiorella agarrada em mim só de calcinha e sutiã era o paraíso.
— Assim está muito melhor — dei uma risada cínica, mas entreguei o casaco para ela. Era isso ou não conseguiria me concentrar como deveria na fuga.
Ela não disse uma palavra. Estava com medo e, obviamente, com raiva.
— Coelhinha, aqui é o mais longe que a gente consegue ir por dentro da mansão! Teremos que passar pela área externa até conseguir saltar pelos fundos.
Fiorella pegou um vidrinho da bolsa que estava carregando, colocou algumas cápsulas na palma da mão e, rapidamente, engoliu uma por uma.
— Espero que isso seja suficiente...
— p***a! Você está comigo, e isso deveria ser o suficiente.
— Que audácia a sua achar que a sua presença poderia me curar — ela despejou as palavras em cima de mim.
— Eu espero que sim. Aliás, você está fugindo da sua família comigo. Isso significa que você confia em mim.
— Confio no Eduardo, o conselheiro do papai.
— E por quê? — Senti uma onda de ciúme passar por mim como um tsunami, e por alguns segundos vi tudo cinza.
— Ele sempre cuidou de mim e do Domi... — ela respondeu, cautelosa.
— Interessante! — Senti o maxilar tensionado a ponto de doer.
Fiorella pegou o vidro de remédios novamente, mas eu o tomei da mão dela.
— Já chega! Nós vamos subir para o telhado. Se você desmaiar, eu te carrego!
— Eu preciso de mais — ela choramingou.
— Não, você não precisa. Está viciada nisso!
Ajudei Fiorella a subir para o telhado e apontei para o caminho que teríamos que fazer. Ela olhou para baixo por um breve instante e, em seguida, para mim. Ela estava pálida.
— Domi... — a voz embargada dela fez o meu coração arder. O jovem rapaz de cabelos acobreados como os da irmã, estava cercado por homens armados e completamente imobilizado. — Vão matá-lo?
— Acho que apenas se te encontrarem. Fiorella, se eles olharem para cima, vão nos ver. Temos que sair daqui.
Foi como se só naquele momento ela tivesse noção da gravidade do que estava acontecendo.
— Não vou conseguir atravessar o muro com este casaco, ele pode enganchar em alguma coisa. Eu vou tirar! — ela terminou de falar e já estava arrancando a peça, ficando só de lingerie.
— p***a, coelhinha. Você está realmente disposta a f***r com o meu juízo.
Escondemos o casaco debaixo de uma das telhas que estava solta.
— Eu vou na frente.
— Não se preocupe. Se alguém olhar para cima, eu te garanto que arrancarei os olhos do desgraçado.
Ela balançou os cachos e resmungou um "você é inacreditável", mas logo ambos nos concentramos na tarefa de passar pelo muro.
Estava bem perto do final quando senti Fiorella balançar demais na minha frente. Droga! Fique firme, garota.
Ela olhou para trás. O rosto estava suado, mas mesmo assim percebi que ela estava chorando.
— Me dê a sua mão... — cochichei. — Nós vamos saltar. Você confia em mim?
— Eu confio — os lábios se moveram sem emitir som algum.
Fiz um movimento com as pernas para avançar e conseguir segurá-la. Era uma queda alta para se lançar, mas a agarrei bem firme a mim e pulei.
Fiorella estava muito gelada e me agarrava com desespero.
— Alessandro, por favor, não me solta.
— Vai ficar tudo bem... — Fiquei ali no chão com ela, me sentindo um miserável. Eu havia acabado de ganhar uma confiança que não merecia.
Alguns minutos depois ela se afastou.
— Como você sabia sobre a iniciação do Dominic? E por que tanto interesse em impedir que acontecesse? — Senti os olhos azuis intensos sobre mim.
— Porque eu vou ser o subchefe da Cosa Nostra, e não o seu irmão.