Alice se levantou, trocou de roupa e seguiu para a cozinha com um envelope na mão e um recadinho para Lavínia.
Bom dia amiga, como tive que viajar não vou conseguir pegar o carro hoje. Mas o Jorge me mandou mensagem dizendo que está pronto.
Nesse envelope junto com o bilhete, tem a quantia que falta para quitar o restante do carro. Se você puder ir lá e pegar pra mim.
Bjs, volto logo!
Alice dobrou o bilhete com calma, colocando-o sobre a mesa da cozinha, ao lado do envelope com o dinheiro. Lavínia já a tinha socorrido inúmeras vezes, então ela tinha certeza que dessa vez também poderia contar com ela.
Respirou fundo e olhou ao redor do apartamento, como se estivesse memorizando cada detalhe antes de partir. Ela passa um último olhar pela casa, faz um último ajuste na mala e sai, pronta para encarar o que a esperava em Londres.
No silêncio do táxi a caminho do aeroporto, Alice girou o anel no dedo, e apertou os pulsos, aquele velho hábito de quando estava nervosa. A voz de Enrico ecoava em sua mente, palavras ditas no calor de uma despedida que ainda pesava em sua consciência.
“Você pode fugir, Alice, mas uma hora vai ter que encarar o que deixou para trás.”
Alice abriu a mala mais uma vez, conferindo os itens essenciais. Passaporte, celular, documentos. Nada podia dar errado. Ajustou a alça no ombro e seguiu para o portão de embarque, ignorando o aperto no peito. Ela precisava estar lá. Precisava ver Lorenzo.
Enquanto aguardava na área de embarque, o telefone vibrou em sua mão no instante em que encontrou seu assento no avião. Um número desconhecido havia mandado mensagem, ela já estava exausta de bloquear números e receber ameaças. Revirou os olhos e abriu a mensagem.
“Não faça essa viagem.”
A mensagem era curta, mas carregada de ameaça. Alice apertou os lábios, bloqueou o número e deslizou o celular para dentro da bolsa. Era tarde demais para voltar atrás, pegou seus fones e se acomodou confortavelmente na poltrona.
[...]
Por volta das 8:30 da manhã, Alice desembarcou em Londres, já tinha feito uma reserva, dessa vez em um hotel.
Chegando lá foi direto tomar um banho. A água quente escorria por seus ombros enquanto Alice tentava dissipar a tensão acumulada na viagem. Seu reflexo no espelho lhe devolvia um olhar indecifrável. Ajustou a postura, respirou fundo e saiu do banheiro. Não podia parecer abalada. Não com Lorenzo esperando por ela.
Ao chegar na empresa a cena com o qual se separou já na entrada a assustou, estava cheio de policiais e havia fitas de isolamento por todos os lados. O cheiro de fumaça e destroços tomava conta do ambiente. Alice logo avistou Lorenzo e foi até ele.
— Isso foi um aviso. — falou.
Sem dizer uma palavra, ele assentiu, precisavam sair dali, precisavam conversar sobre aquilo.
— Vem, vamos para uma cafeteria aqui perto. — disse ele a chamando.
Eles saem de lá e vão para a cafeteira, que não é tão movimentada, então não demorando nada para o copo de café estar entre as mãos deles. De repente, Lorenzo estendeu a dele sobre a mesa, tocando a ponta dos dedos de Alice. O calor do toque foi imediato, assim como a lembrança de tudo o que um dia foram. Ela deveria se afastar. Mas não o fez.
— Quem fez aquilo, já sabe do nosso passado e com certeza tem alguma ligação. Mas a pergunta é quem seria. — Lorenzo comenta.
— Deve ter alguma parte dessa investigação que estamos passando por cima. — Alice comenta.
— Você acha que podemos discutir sobre isso num jantar, no meu apartamento? — sugeriu Lorenzo e Alice engoliu em seco com a ideia, mas não tinham tempo.
Apesar de saber o que aquilo significava, ainda assim, ouviu-se dizer:
— Sim.
— Perfeito, agora vou ter que te deixar. Tenho uma reunião daqui a pouco e ainda preciso ver o local. — diz se levantando. — Até mais tarde.
— Até.
Alice o acompanhou com o olhar até a saída, e logo decidiu ir embora também, tinha pendências para resolver também relacionadas a outros trabalhos.
Depois de finalizar e descansar um pouco, Lorenzo mandou um motorista para buscar Alice. O clima entre eles a princípio estava bem tenso, e para aliviar, Lorenzo decidiu abrir um vinho para descontrair um pouco.
O aroma do vinho, a proximidade inevitável. Cada olhar dizia mais do que qualquer palavra. Alice se permitiu sentir, mesmo sabendo que aquele instante era um passo para o desconhecido.
— Eu não consigo mais disfarçar. — diz Lorenzo antes de se aproximar e pressionar levemente seus lábios sob os dela.
Alice se sentiu estremecer por um segundo, ela não dizia nada, apenas o olhava com desejo.
— Eu nunca deixei de te amar, Alice. — disse ele colocando uma mecha do cabelo dela atrás da orelha.
Alice piscou devagar, sentindo o peso daquela confissão em seu peito. Porque, no fundo, ela sabia que sentia o mesmo. Permitiu que ele a beijasse mais uma vez e se entregaram à paixão que tanto lutaram para esconder, mas não tinha outro jeito e se deram conta de que ainda pertenciam um ao outro.
Os lençóis estavam desalinhados, o quarto imerso no silêncio. Alice deslizou os dedos pela pele quente de Lorenzo, seu coração oscilando entre o desejo e a dúvida. O mundo deles não havia mudado. O perigo ainda estava lá, espreitando por perto.
O som do celular vibrou no criado-mudo. Alice esticou a mão, os olhos ainda pesados de sono. Ao ler a mensagem, o frio na espinha foi imediato.
Ele não está seguro com você.
O ar pareceu faltar. Ela sabia que isso não terminaria ali.
— O que foi? — A voz de Lorenzo veio baixa, mas atenta. Alice engoliu em seco, hesitando. Ele merecia a verdade, mas dizer significava expor o passado que ela tentou esconder. E, talvez, colocá-lo ainda mais em perigo.
O som da porta abrindo e batendo na parede com força ecoou pelo ambiente.
— Que p***a, Lorenzo. — Enrico disse.
Lorenzo se levantou de súbito, e Alice sentiu o coração disparar ao ver Enrico ali, a fúria estava estampada em seu rosto.
— Vocês realmente acharam que podiam me enganar? — disse e saiu do quarto.
— Enrico, eu posso te explicar.
Lorenzo dizia, enquanto ia atrás dele pelo corredor do apartamento.