Quando chegou ao apartamento de Lorenzo, Enrico nem bateu, já foi pegando a chave reserva dele que ficava escondida debaixo do tapete e foi entrando. Mas ao passar pela sala, algo lhe chamou atenção, eram os papéis do caso, jogados pela mesa marcados com cores diferentes e haviam duas cópias, não precisou de pensar muito para entender que Alice e seu irmão estavam juntos, e mais tarde pôde comprovar com seus próprios olhos.
Ao alcançar Enrico, Lorenzo vê o quanto o irmão estava indignado com o que tinha presenciado. Enrico sabia que isso aconteceria, mas não diminuia os seus sentimentos de ter sido traído.
— Vocês não passam de dois mentirosos! — fala Enrico. — Sabe que eu até achei que demoraria pra isso acontecer? — finaliza ele em tom de deboche.
— Nós não queríamos, mas… — Lorenzo tenta formular alguma explicação.
— Mas nada, eu sabia. Sabia que ia ser um erro permitir que ela voltasse às nossas vidas, deveria ter a dispensado quando soube. Mas agora é tarde, e se querem saber, eu não preciso mais da ajuda de vocês. — disse ele e saiu da casa de Lorenzo.
Ao sair de lá, Enrico pegou seu telefone e discou o número de Roger, um advogado que tinha se encontrado com ele alguns dias atrás, quando Enrico soube que Alice era a ex-noiva de seu irmão. Enrico já tinha até combinado de se encontrar com Roger, ele estava esperançoso de que fosse mesmo ter a ajuda que necessitava, mesmo que isso significasse passar por cima do que ele e Lorenzo tinham combinado.
Lorenzo voltou para o quarto e Alice terminava de vestir suas roupas toda constrangida e sentindo o peso da culpa sobre seus ombros.
— Por favor, não vai embora. — disse ele se aproximando dela. — Tivemos uma noite incrível. — falou enlaçando a cintura dela.
— Sim, mas eu quebrei a minha promessa, ele nunca mais vai confiar em mim, e eu queria lutar por esse caso. — Alice falou.
— E ainda vai, ele só precisa de um tempo. Vem, vou fazer café da manhã pra gente. — disse ele a puxando pela mão.
Chegando na cozinha, Lorenzo já foi ligando a cafeteira e colocando a água e o pó de café, depois foi preparar um pão com ovo e bacon para os dois. Mas de repente, o celular dele começou a tocar em cima da bancada, ele foi até lá, e atendeu. Quando Lorenzo atendeu a ligação, seu olhar endureceu, a mandíbula travando, à medida que as informações eram passadas para ele. Logo encerrou e ligação e encarou Alice.
— Enrico fez um acordo — disse ele para Alice, a voz carregava uma fúria contida. — Ele nos entregou.
O frio na espinha de Alice veio antes mesmo da explicação, ela sabia que aquilo não acabaria bem.
— Isso não vai terminar bem. Eu preciso voltar. — disse ela se levantando da cadeira.
— Você não pode sair daqui, Alice, é muito perigoso! — ele falou num tom alto, mas de preocupação.
Ela cruzou os braços, encarando Lorenzo com desconfiança.
— E onde exatamente você quer que eu fique? Não tenho para onde ir, e não posso ficar pagando hotéis assim.
Ele soltou um suspiro pesado, passando a mão pelos cabelos.
— Então fica aqui. Pelo menos em um dos meus quartos, onde eu sei que você está segura e que eu também possa contribuir para isso.
— Tudo bem. — se sentou novamente.
Alice estava bem reflexiva e sabia que precisava se decidir se contava ou não um dos principais motivos para ter ido embora, tomou coragem respirando fundo e se virou para Lorenzo.
— Preciso ser honesta com você. — disse e ele assentiu, prestando total atenção nela. — Quando eu fui embora, estávamos sendo ameaçados por um rival seu.
— Quem?
— Maurício. — falou num tom baixo.
— Então talvez ele seja a resposta que estamos procurando. — Lorenzo disse, começando a andar de um lado para o outro.
Alice assentiu, apoiando os cotovelos na mesa e franzindo o cenho.
— Ele sempre esteve um passo à frente. Sempre soube onde eu estava, o que eu estava fazendo. — ela diz.
Lorenzo girou o copo entre os dedos com uma dose de uísque recém colocada.
— Então vamos inverter isso. Vamos descobrir o que ele está fazendo antes que ele descubra sobre nós.
Assim que ele terminou de falar, o celular de Alice vibrou ao lado do prato, ela pegou o aparelho distraidamente, mas assim que leu a mensagem, o sangue gelou.
Você foi longe demais.
Agora é você quem está na mira.
Te avisei inúmeras vezes que não era um blefe!
Ela respirou fundo, tentando disfarçar o tremor nos dedos ao largar o celular. Lorenzo percebeu.
— O que foi? — perguntou ele.
— Só mais uma ameaça. — ele se aproximou. — Eu te falei, só pode ser ele.
— Então realmente precisamos nos aprofundar, eu vou ligar pra alguns contatos. — falou ele se retirando e indo até a sacada. Já Alice ligou para Lavínia, contou toda a situação e pediu que a amiga lhe enviasse algumas roupas pelo serviço postal.
Mais tarde, o jantar entre eles foi um momento raro de calmaria, um respiro em meio ao caos. A troca de olhares ainda era muito intensa e Lorenzo tentava decifrar a nova Alice que estava em sua frente.
Lorenzo queria prolongar o jantar ainda mais e deixar Alice saber que ele estava ali, que poderia ser mais do que apenas um aliado. Quando percebeu que ela ia se levantar para se retirar, segurou sua mão.
— Fica — ele murmurou, os olhos fixos nos dela.
Alice sorriu, mas se levantou.
— Amanhã a gente continua. — disse e deu apenas um selinho nele.
Ele não insistiu, apenas observou enquanto ela desaparecia pelo corredor.
Lorenzo ficou ali por mais um tempo, mergulhado em seus pensamentos, finalmente poderia processar sozinho todos os acontecimentos do dia, mas o que mais dominava sua mente era conseguir de alguma forma reconquistar Alice.
Já Alice tinha muita coisa a lidar, sabia que a culpa também era dela, principalmente por descumprir com sua ética e valores de nunca se envolver com um cliente, mas Lorenzo não era bem seu cliente e era o amor da sua vida, ela nunca tinha deixado de amá-lo e pensava frequentemente se deveria mesmo dar um espaço maior para ele em sua vida.