E eu não tenho visto muitos anjos ultimamente.

1207 Palavras
Minha pele esquenta, mas não é de desejo. A raiva e o desconforto se misturam em uma confusão sufocante, um nó apertado que se forma no meu peito. — Sim, acredito! — minha voz sai firme, mesmo que por dentro eu esteja tremendo. — E gostaria muito que Alice tivesse um papel importante em sua vida. Que estivesse preocupado com ela e não em satisfazer seus desejos. A seriedade retorna ao rosto dele. A tensão muda. Por um momento, ele parece me analisar sob uma nova perspectiva, os olhos percorrendo meu rosto com um interesse diferente, como se estivesse me decifrando. — Quem disse que minha filha não tem um papel importante na minha vida? — A voz dele soa grave, quase ofendida. — Ela é tudo para mim. Tanto é verdade que quero que me acompanhe quando eu levá-la daqui. Meu coração dispara, uma pulsação acelerada e frenética. — Levar Alice daqui? — repito, incrédula. — Ela está muito bem com Rafael. O sorriso frio que surge em seu rosto faz um arrepio percorrer minha pele, uma promessa velada de que ele não aceita ser contrariado. — Ela é minha filha. — A forma como ele diz isso não tem carinho, apenas posse, como se Alice fosse um bem precioso que ele não admite dividir. Eu tento argumentar, mas percebo que é inútil. Dante não é do tipo que cede. Preciso pensar estrategicamente. — Olha, eu não quero arranjar confusão. Faça o que achar melhor. Com sua licença, vou voltar para o meu quarto. — Minha voz sai calma, mas é uma calma ensaiada, forçada. — Não acabamos essa conversa. — A voz dele me faz hesitar, me obrigando a virar para encará-lo. — Não? O que mais quer falar? — cruzo os braços, tentando manter a compostura. — Quero saber se você me acompanharia, caso eu levasse Alice daqui. — O olhar dele me prende, uma armadilha silenciosa. Ele não é apenas um criminoso qualquer; ele está no topo da cadeia alimentar desse jogo perigoso. Mas questiono como se não soubesse de nada: — Você tem um lugar decente para ela ficar? Ele se aproxima mais uma vez, diminuindo o espaço entre nós. Meu corpo reage involuntariamente, a tensão pulsando forte enquanto ele me encara. O ar entre nós parece eletrizado. — Aluguei um apartamento muito bom, mas está passando por umas reformas. Estou montando um quarto para Alice. — Ele diz, a voz rouca, como se quisesse me convencer de que aquele seria o lugar ideal para ela. A resposta sai antes que eu possa me conter: — Eu iria. O sorriso dele retorna, satisfeito. Ele venceu. Mas eu não me importo. Eu também consegui o que queria: me aproximar de Dante. Agora, só me resta jogar esse jogo até o fim. — Bem, então vou para o meu quarto. — Tento sair, mas sinto o calor do seu toque ao segurar meu braço. O aperto firme me faz estremecer, como se ele estivesse me marcando. — Nada disso. — Sua voz baixa carrega um comando silencioso. Uma sensação de pavor me invade, mas tento não demonstrar. Sei que devo ficar calma, mas a sensação de estar sendo observada, de estar sendo controlada por ele, é sufocante. Eu não quero olhar para ele. Mas, contra a minha vontade, levanto o rosto. Seus olhos verdes são penetrantes, como se quisessem me desvendar por completo. Ele fixa o olhar nos meus lábios, e eu me sinto presa naquele instante. — Relaxe. — Ele diz, a ironia evidente em sua voz, seus dedos movendo-se lentamente, massageando meu braço com o polegar. Eu tento recuar, mas minha voz sai baixa, quase implorando: — Por favor, me solta. — Por quê? — Ele pergunta, seus olhos percorrendo meu rosto. — Você é linda, sabia? Com esse narizinho arrebitado, parece um anjo. E eu não tenho visto muitos anjos ultimamente. Eu o encaro, hipnotizada, sentindo-me vulnerável de um jeito que não gosto. — Por favor. — Repito, mais firme. Ele ergue as mãos num gesto defensivo, o sorriso brincando nos lábios. — Está certo. Mas ainda vou ouvir esses lábios me pedirem para serem beijados. — Seus olhos descem para minha boca mais uma vez, e antes que eu possa reagir, ele me puxa contra si. Meu corpo colide com seu peito nu e quente. E então, seus lábios tomam os meus, abafando qualquer protesto. Sua língua invade minha boca, se movendo com posse. Suas mãos deslizam até minha cintura, me apertando com firmeza, me mantendo presa contra ele. Eu estremeço com seu cheiro másculo, envolvente, quase intoxicante. Deus, ele cheira bem. Esse aroma é sua assinatura, algo quente e perigoso. O calor inunda meu corpo, minhas pernas ficam bambas e meu coração dispara como se quisesse escapar do peito. Finalmente, ele me solta. Eu expiro um grito estremecido, minha respiração entrecortada, o rosto em chamas. — Desculpe-me, anjinho, mas uma coisa que eu não sei é esperar. Minha pele ainda arde quando o encaro, minha voz sai exasperada: — Não quero que me toque mais. Foi a última vez que me tocou sem meu consentimento. Ele inclina a cabeça, analisando minhas palavras com diversão. — O que significa isso? Que preciso de permissão para te beijar? — Ele ri. — Seu corpo traidor clama por mim, meu anjo... Eu que rio agora, mas de nervoso, mas ele não sabe disso. — Sou a babá de sua filha. Quando disse que sairia com você, foi por causa dela. — Meus olhos perfuram os dele enquanto cruzo os braços sobre o peito. O rosto de Dante se estica em um sorriso provocador. — Babá, hein? Só isso que realmente deseja? Se ficar comigo, será tratada como uma rainha. Terá tudo. Pense nisso. Isso não vai acontecer. Hah! Hah! Vai sonhando! Com apenas um passo, Dante se move em minha direção. Perto o suficiente para me fazer tremer sob seu olhar intenso. Meu coração se agita novamente. — Pense com carinho... — Ele sussurra. Meu rosto arde ainda mais, e ele observa a cor intensificar com outro sorriso satisfeito. Há algo nele que desperta um sentimento estranho, como se me tocasse apenas com sua presença. Eu não digo nada, apenas me viro e saio apressada, entro no quarto e, aflita, passo a chave na porta. Confusa, me deito na cama, tentando processar os últimos acontecimentos. As horas passam, e meus olhos vão ficando cada vez mais pesados até que acabo cochilando. Só acordo com batidas na porta. Meu Deus! Penso em Leandro quando vejo que já são quase dez horas. Abro a porta e vejo a governanta. — Você não apareceu para jantar, então vim ver se quer alguma coisa para comer ou beber. Talvez um leite quente? Eu sorrio, grata. — Eu não quero nada. Obrigada. E Alice? — Eles já chegaram há um tempo. Eu dei um banho nela e ela já está dormindo. Será que Rafael estava magoado o suficiente para eu perder o meu emprego? Pergunto preocupada: — Por que não me chamou? Rafael aparece atrás da governanta e diz: — Quero conversar com você. Quando a governanta o ouve, pede licença e sai. Rafael me encara com um olhar intenso, como se tentasse decifrar algo em mim.
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