Isabela
Saio do quarto de Alice e me dirijo ao meu, tentando dissipar o turbilhão de pensamentos que me assola. Depois de escovar os dentes, solto os cabelos, mas logo os prendo de novo, como se o ato simbolizasse a necessidade de manter o controle. Fito minha imagem no espelho: postura reta, expressão firme, olhar calculista. Se quisesse seduzi-lo, soltaria os cabelos, passaria um batom provocante. Mas, p***a, eu não quero me aproximar de Dante dessa forma.
Tenho aversão a tipos como ele. Por isso entrei para a polícia, para combater a bandidagem. Ainda assim, não posso negar que há algo irresistível nele. Seu magnetismo é um perigo. Mas prefiro cativá-lo com conversa, com uma boa amizade, algo que me mantenha próxima sem me comprometer.
Deus, mas isso será possível?
Eu preciso enrolá-lo, fazer com que ele confie em mim o suficiente para baixar a guarda. O que me tranquiliza é que, apesar de estar envolvido com armas e drogas, ele faz questão de afirmar que não é um estuprador. Como se isso o absolvesse de seus pecados. Mas, mesmo assim, nunca se sabe.
Saio do quarto e me dirijo à sala. E lá está ele.
Dante está jogado no sofá, fumando calmamente, sem camisa. O cheiro forte do baseado se espalha pelo ambiente, misturando-se com o perfume amadeirado e masculino que parece emanar dele. Meus olhos, contra a minha vontade, percorrem seu peito nu, musculoso, coberto de pelos castanhos avermelhados. As tatuagens salpicam sua pele, cada uma contando uma história que eu não conheço, mas que sei que envolve sangue e poder. Tudo nele é selvagem, perigoso.
Nessa hora, ele me vê.
Seus olhos verdes brilham de maneira intensa, e um sorriso torto surge em seus lábios. É um sorriso carregado de intenção, de uma confiança arrogante que me desestabiliza. O cabelo bagunçado de forma quase provocante só aumenta a tentação latente no ar. Meus dedos se fecham em punho.
Meu estômago revira, e o medo vem junto com o desejo.
Se ele me provoca reações assim de longe, o que aconteceria se ele investisse de perto?
A atração é palpável, indesejada. Tento controlar, mas a verdade é que, em sua presença, meu corpo trai minha mente.
Eu paro na porta, hesito por um momento, e ele percebe. Seus olhos dançam sobre mim, como se já soubesse exatamente o que estou sentindo. Ele não move um músculo, mas sua postura relaxada é um convite silencioso, um jogo de poder e sedução que ele não faz questão de esconder.
— Oi. — Minha voz sai mais baixa do que eu queria, carregada de nervosismo.
Ele solta o fumo de forma preguiçosa, os olhos ainda fixos em mim.
— Rafael saiu com Alice. — Ele dá um sorriso de canto, um gesto carregado de algo que não consigo decifrar de imediato, como se estivesse testando minha paciência, jogando um jogo onde só ele conhece as regras.
— Saiu e você disse que gostaria de conversar comigo. — Minha voz soa firme, mas sei que estou perdendo o controle da situação. Dante parece à vontade, como se estivesse ditando o ritmo da nossa interação, me estudando como um predador observa sua presa antes de atacar.
Ele levanta uma sobrancelha e avança um passo, devagar, intencional. Cada movimento dele é calculado, como se soubesse exatamente o impacto que causa. O ar entre nós se torna mais pesado, carregado de algo que me faz prender a respiração.
— O que você tem com meu irmão? — A pergunta vem baixa, a voz dele deslizando pelo ambiente como um desafio velado. O tom provocante arrepia minha pele contra a minha vontade.
Engulo seco, mas não recuo. Não posso recuar.
— Nada. Ele é meu chefe. Por que essa conversa agora? — Meu tom é controlado, mas há um resquício de impaciência que sei que ele percebe. Dante está me provocando, testando minha resistência, esperando para ver até onde vou me segurar antes de ceder.
Ele não responde de imediato. Em vez disso, me observa, seus olhos me analisando.
— Então, não devo me sentir culpado se eu resolver sair com você? — O sorriso torto que acompanha a frase é pura afronta. Ele sabe exatamente o que está fazendo.
Meu estômago revira, um misto de irritação e algo que não quero nomear. Esse homem é perigoso de mais formas do que eu poderia imaginar.
— Pelo pouco que te conheço, sei que não se sentiria culpado, mesmo que estivéssemos tendo algum lance. — Minha voz sai seca, mais afiada do que eu pretendia.
O sorriso desaparece. Por um instante, a expressão dele se torna séria, os olhos verdes se estreitando levemente. A mudança é sutil, mas eu percebo. Algo o incomodou. Ou será que apenas despertou seu interesse ainda mais?
— Aí que você se engana. Eu e meu irmão temos pontos de vista diferentes, mas se você fosse a garota dele, eu não sairia com você. — O tom dele é inesperadamente sincero, como se quisesse que eu acreditasse nessa afirmação.
Isso me pega de surpresa, e antes que eu possa evitar, minha mente busca entender o motivo. Por que ele faz questão de esclarecer isso?
— E meu namorado? Você não me perguntou dele. — Tento mudar o foco da conversa, desviar a tensão que se instala como um peso invisível entre nós.
A risada baixa e rouca dele ressoa no ar, e é quase pior do que um insulto. Ele acha graça da minha tentativa ridícula de escapar.
— Eu não acho que você tenha um. Se tivesse um, você não teria dançado comigo naquele dia no Eden Carioca. — A voz dele carrega um tom de certeza que me incomoda.
Ele não está apenas me provocando. Ele está me desafiando.
Tenho medo de mencionar "Ricardo" e arriscar perder a atenção dele. Meu objetivo é me aproximar, entrar no jogo.
— Está certo, eu me rendo. Eu não tenho ninguém. — A confissão escapa antes que eu possa pensar melhor. Minha voz sai mais baixa, quase derrotada, e isso parece satisfazê-lo.
Dante se levanta, aproximando-se de mim sem pressa, cada passo diminuindo ainda mais a distância entre nós. Quando percebo, já está perto demais.
Então, sem aviso, ele me envolve nos braços.
Meu corpo fica rígido no mesmo instante, o choque percorrendo minha espinha como um raio. Tentei prever as jogadas dele, mas essa me pegou desprevenida.
Meu coração bate forte contra meu peito. O calor dele, a firmeza de seus braços... É sufocante. Instintivamente, tento me afastar, mas a pressão da sua mão me mantém presa ali, cativa em um contato que me deixa desnorteada.
— Eu te assustei? — A voz dele é baixa, quase suave, mas há algo escondido ali. Um peso, um perigo latente.
Eu não respondo. Meus músculos estão tensos, minha respiração acelerada.
— Sei que não sou o tipo de cara que você escolheria para sair. Bebo, fumo, falo o que penso… e você é toda certinha. Mas seu corpo clama pelo meu. Sabia disso? — Ele sussurra contra minha pele, sua respiração quente causando arrepios involuntários. — Experimentei isso desde aquele dia que dançamos pela primeira vez. A atração sempre nos afeta de maneira covarde.
Meus olhos se fecham por um instante, uma tentativa falha de bloquear a onda de sensações que ele provoca.
— Olha, eu sairei com você, mas meu intuito é falar a respeito de Alice. E você realmente não faz o meu tipo. Eu sou mais razão do que sentimentos. — Tento soar firme, mas minha voz carrega um leve tremor que me denuncia.
Ele ri, mas é um riso sombrio, um riso que carrega uma certeza perigosa.
— Você está se enganando. Você acredita mesmo nisso? — Seus olhos prendem os meus, a intensidade me fazendo engolir em seco.