Quando ele me olha, seus olhos verdes, profundos como um abismo, parecem penetrar minha alma, desafiando minha resistência. Eu o encaro, séria, para que ele não veja nenhuma fraqueza.
— Eu cuido de uma criança. Isso é zelo.
—Deixe-a, Dante.—Rafael grunhi.
Ele apenas dá um sorriso torto, o tipo de sorriso que me deixa inquieta, que parece saber mais do que deveria. E então, sem pressa, Dante vira o copo e se serve de mais vinho, sem jamais tirar os olhos de mim. Como se, nesse simples gesto, ele estivesse dizendo que está no comando da situação.
— Me fale da fazenda. Sempre tive curiosidade de entender como é viver em uma.
Rafael lança um olhar rude para o irmão, mas isso me afasta apenas por um momento. Eu mordo o pedaço de carne e tento falar com a calma que já não sinto mais. Sinto as palavras saindo como se fossem o único escudo que me resta.
— Hoje, meu pai cria gado e os vende. Mas antes não era assim... Ele era um agricultor. Era um trabalho árduo mexer com a terra,
Dante ri. O som da risada não é agradável, mais como uma provocação disfarçada de diversão.
— Você acredita que nunca montei em um cavalo?
— Acredito. A maioria da população nunca montou. — Eu dou um sorriso rápido, tentando esconder a crescente tensão que sinto ao ser observada por ele. Seus olhos, intensos e famintos, percorrem meu rosto, e sinto o calor subindo por todo o meu corpo. Ele não se importa com a minha resposta, ele quer ver até onde pode me levar.
Incapaz de manter o contato visual, encaro meu prato, distraindo minha mente com a comida, mas há algo em Dante que parece me prender, como se ele soubesse exatamente como me desestabilizar.
— Por que saiu de lá?
A pergunta de Dante é direta, e me sinto exposta por um instante. Eu mastigo lentamente, tentando encontrar uma maneira de escapar dessa conversa, mas a resposta sai sem que eu possa evitar.
— Eu me sentia muito presa. Ia acabar me casando com algum fazendeiro da região, sem amor. Meu pai estava louco para me arranjar casamento com meu vizinho.
Dante me encara, me estuda.
— Você então é do tipo que acredita em amor?
A pergunta de Dante soa como um desafio, mas antes que eu possa responder, Rafael já solta um suspiro de frustração.
— Chega, Dante! Podemos comer em silêncio?
Dante não se importa com o tom ríspido do irmão. Ele me observa, atento, e eu me sinto cada vez mais desconfortável, como se estivesse em um campo minado, onde uma palavra errada poderia causar uma explosão.
— Estou te incomodando?
Sua voz é baixa, quase sedutora, como se ele soubesse que me afeta. Tento manter a calma, mas meu coração começa a acelerar, e meu estômago dá voltas.
Eu apenas balanço a cabeça com um não, tentando disfarçar o nervosismo que se instala no meu peito. Não quero brigar. Não agora. Mas, ao mesmo tempo, não posso deixar que ele vença.
— Não, mas depois conversamos.
O sorriso de Dante se alarga. Ele me observa com uma intensidade que parece me atravessar. Seus olhos brilham com um misto de desafio e diversão, e eu sei que ele está se divertindo com essa dança. Ele sente que está no controle, e isso só aumenta o meu desconforto.
— Vou cobrar. E vou cobrar também o que me prometeu.
Rafael me encara, e eu me forço a engolir em seco, sentindo o nó na garganta crescer. Tento tomar um gole de água, mas isso não me ajuda. A tensão é palpável, e eu sei que tudo está prestes a desmoronar.
— Que promessa é essa, posso saber?
Eu não estou pronta para a resposta, mas não posso impedir que a pergunta saia. Dante parece considerar isso por um momento, e depois responde, com um sorriso enigmático nos lábios.
— Sairemos juntos...
As palavras dele caem como um peso sobre mim. Eu fico paralisada por um momento, a ideia de sair com ele, de estar ainda mais próxima dele, me faz tremer por dentro. Mas eu não posso demonstrar o quanto isso me afeta. Não posso mostrar o quanto ele mexe comigo, como se fosse um vórtice que me puxa para dentro.
Eu desvio o olhar, tentando me concentrar em Alice, que está comendo alheia a tudo, mas isso só aumenta o meu desconforto. Eu sei que estou sendo observada. Sei que, em algum lugar, Dante está me analisando, medindo cada reação minha. E isso me desarma. Ele tem o poder de fazer com que meu corpo traia minha mente.
Finalmente, o silêncio se instala na mesa, mas não é um silêncio confortável. A tensão é palpável, e tudo parece estar prestes a explodir. Quando termino a refeição, observo Alice brincando com a comida e tento mudar de foco.
— Parou de comer? Não quer mais?
Ela balança a cabeça, negando. E eu, tentando não me perder nessa tensão toda, me levanto.
— Então vamos! — Eu encaro os irmãos, mas o meu tom, apesar de firme, não consegue esconder a ansiedade que sinto. — Com licença.
Quando saio de lá, sinto os olhos de ambos em mim, e, mesmo sem virar, sei que o olhar de Dante é como uma marca, uma presença que me acompanha a cada passo que dou.
Passo o resto do dia com Alice, mas a sensação de estar sendo observada nunca me abandona. Quando Estela traz os lanches, estou tomando o último gole do meu café, tentando ignorar a confusão crescente em minha mente, quando ouço três batidinhas na porta. Rafael entra, e Alice corre para ele, com um sorriso puro e adorável.
— Tio Rafael!
Ela se lança nos braços dele, e o gesto simples de carinho entre os dois me faz um nó no peito. Eu ainda estou imersa na presença de Dante, mas agora, mais do que nunca, sei que há muito mais em jogo do que apenas uma missão.
Ele entra e, sem me olhar diretamente, diz:
— Vou sair com Alice. Tire o resto do dia de folga. E...lembre-se do que eu lhe falei. Fique longe do meu irmão. Você está aqui um dia e já sairá com ele?
Dante tinha que abrir para o irmão que eu ia sair com ele? Rafael não sabe quem sou, não sabe que eu me apego a qualquer oportunidade para colocar Dante atrás das grades, que no fundo sou uma policial infiltrada.
—Eu aceitei o convite para ele parar de implicar comigo e já avisei que é apenas para conversar sobre Alice.
Ele não diz nada e então seus olhos se desviam dos meus para falar com Alice.
—Vamos sair com o titio?
—Aonde nós vamos? —Alice pergunta animada.
—Vamos ao parque. O que acha?
—Eu quero.
Sem olhar para mim Rafael se vira e sai com Alice nos braços, no mínimo está achando que eu caí na lábia do irmão.
Paciência!
Suspiro.
Quando fico sozinha, vejo que é hora de agir, de me aproximar mais de Dante.