Rafael sorri, mas o gesto não atinge os olhos, que continuam carregados por algo entre a dor e a exaustão. Ele traga o cigarro com calma, soltando a fumaça como se quisesse aliviar o peso das lembranças que carrega. Sua voz sai rouca, baixa, carregada de mágoa e honestidade crua.
— Eu e meu irmão, Dante, nascemos no Morro de Ouro. Crescemos no meio do caos. Minha mãe... ela era garota de programa antes de se envolver com meu pai. Quando se casaram, a vida virou um inferno. Ela se afundou no álcool, e ele, nos negócios ilícitos. Era violento. Um homem que achava que o respeito vinha na ponta da faca.
Seus olhos perdem o foco, como se buscassem em algum canto distante um eco da infância roubada. A pausa que ele faz pesa, o silêncio preenchido apenas pelo som baixo da rua lá fora. É como se cada palavra fosse uma ferida que ele se obrigasse a reabrir.
— Quando eles morreram, eu tinha 21 anos, e Dante, 19. O que restava de uma família se desfez, mas isso nos uniu. Pelo menos, por um tempo.
A dor em suas palavras paira entre nós como uma nuvem densa. Eu o observo, tentando decifrar aquele homem que mistura força e vulnerabilidade com uma naturalidade desconcertante. Cada palavra sua parece carregada de histórias que ele não tem coragem de contar por inteiro.
— Deve ter sido duro para você — digo, minha voz mais suave do que o normal.
Rafael Ferreira
Não sei por quê, mas ela faz com que eu me abra de uma forma que há muito tempo não acontece. Talvez seja a maneira como ela me olha, sem julgamentos, apenas curiosidade genuína. Ela não é como as garotas daqui. Há algo nela que a diferencia... talvez seja a sensatez nos olhos, ou a maneira como parece ouvir de verdade. Quando ela usa essa palavra, "duro", quase dou uma risada amarga.
Duro.
A verdade? Não foi duro. Quando ele morreu, foi um alívio.
Manoel Ferreira, o homem que fazia até os mais bravos abaixarem a cabeça, foi encontrado morto com uma bala cravada no meio da testa. Estava sentado na varanda de casa, o lugar onde sempre dizia que ninguém o tiraria.
Deveria ter sido chocante. Deveria ter causado luto. Mas tudo o que senti foi um alívio profundo, como se alguém tivesse me libertado de um cárcere invisível. Castigo divino, pensei na época. Era a única explicação que me fazia sentido. Mas esses pensamentos eu não divido com ela. Apenas digo:
— A casa deveria ser um lugar onde nos sentimos seguros. Mas isso nunca aconteceu. — Minha voz soa firme, mas as palavras pesam como um confessionário.
Ela me observa com cuidado, como quem pisa em terreno frágil. Depois, pergunta:
— Por quê? Ele batia em você?
Solto uma risada curta, sem nenhuma alegria.
— Não. Não era ele quem nos machucava diretamente, mas sua vida, seus negócios. Vivíamos com medo. Minha mãe... — Respiro fundo, as palavras demorando a sair, como se fossem presas por um nó na garganta. — Ela não aguentou a pressão. Passava os dias caída pelos cantos da casa, sempre bêbada. Acho que também se drogava, tentando encontrar algum tipo de paz.
Acendo outro cigarro, a fumaça criando uma cortina densa entre nós, mas não o suficiente para esconder a tensão no ar. Continuo, minha voz mais áspera.
— Ela morreu antes dele. E logo depois disso, meu pai foi jurado de morte. O mataram na varanda, como um cachorro velho. — Dou de ombros, tentando soar indiferente, mas sei que minhas palavras carregam um peso que não consigo esconder. — E agora... meu irmão está indo pelo mesmo caminho.
Isabela
As palavras dele me atingem com força, como um soco que não esperava. Congelo, a mente tentando absorver o que ele acaba de revelar. Meu coração acelera, um misto de compaixão e tristeza me envolvendo.
— Por que você diz isso? — Minha voz m*l passa de um sussurro.
Rafael demora a responder, seus olhos fixos em algum ponto fora do meu alcance, perdido em pensamentos que parecem destruí-lo aos poucos.
— Ele é inconsequente — responde, finalmente, a exaustão evidente na voz.
Há uma tristeza quase palpável em suas palavras, como se ele já tivesse desistido de salvar Dante. Isso me machuca de uma forma que não sei explicar, talvez porque vejo o peso que ele carrega por conta disso.
— Do jeito que você fala, parece que há uma grande distância entre vocês dois agora.
Ele suspira profundamente, esfregando os olhos como se tentasse apagar o cansaço acumulado de anos.
— Não somos iguais. Ele é mais parecido com o meu pai. Acha que o respeito vem da violência, do medo. Eu só quero viver, seguir em frente. Mas ele... Ele parece gostar disso.
O silêncio que se segue é quase insuportável. Parece que tudo ao nosso redor desaparece, deixando apenas a gravidade das palavras dele entre nós.
Dou um passo hesitante, minha voz mais firme, embora o coração bata descompassado.
— Rafael, todos nós temos escolhas. Talvez ele ainda possa mudar.
Ele solta uma risada seca, sem nenhuma alegria.
— Você não entende. Às vezes, o mundo não nos dá escolhas. Ele nos molda, nos prende em um ciclo que é quase impossível de quebrar. Eu consegui sair... mas meu irmão? Não sei se ele quer.
Com um movimento brusco, ele apaga o cigarro no cinzeiro, como se quisesse enterrar ali todas as emoções que acabaram de transbordar.
— Eu não quero ser como ele. Não quero acabar como o meu pai.
As palavras pairam no ar, carregadas de dor e uma determinação sombria. Há algo em Rafael que me faz querer ir além, descobrir o que o mantém de pé apesar de tudo.
— O que você faria se tivesse uma chance de salvá-lo?
Ele me encara, seus olhos azuis intensos como um mar agitado prestes a transbordar. Mas, no fim, ele não diz nada. O silêncio fala por ele, e eu sinto que talvez ele já tenha desistido de encontrar essa chance.