— Preciso ir.
Seu olhar segue o meu, e eu sinto o calor subir pelas minhas bochechas enquanto ele me observa. Há algo nele que é desconcertante, como se pudesse enxergar além do que eu demonstro.
— Foi bom conversar com você. — Ele diz, sua voz baixa e controlada, mas os olhos se movem lentamente pelo meu rosto, quase como se tentassem gravar cada detalhe.
— Eu também gostei de te conhecer. — Respondo, tentando soar casual.
Levanto-me da cadeira.
— Posso te levar em casa? — A pergunta vem carregada de intenção, mas não há como aceitar.
— Não, eu vim com o “Ricardo” — digo, mencionando o nome falso do meu parceiro infiltrado. É então sinto a presença de Leandro ao meu lado, tão sólido e protetor, como sempre.
— Podemos ir embora? — Leandro pergunta, sua voz firme, mas seus olhos analisando a cena com cautela.
— Parece que você leu meus pensamentos. — Respondo, aliviada por sua chegada.
Rafael se levanta também, seus movimentos lentos, quase calculados, e nos encara.
— Espero vocês no sábado.
Leandro força um sorriso, algo frio e ensaiado, enquanto diz:
— Será um prazer. — Mas é evidente que seus olhos, tão sombrios quanto a noite sem estrelas, carregam dúvidas e desconfiança. Ele se vira para mim, suas palavras ecoando em tom autoritário: — Vamos?
— Vamos. — Confirmo com um aceno, mas ainda lanço um breve sorriso para Rafael.
— Até sábado.
— Até. — Ele responde, os olhos fixos em mim por um segundo a mais, carregados de algo que não consigo decifrar.
Enquanto seguimos pelo labirinto de pessoas na saída da boate no coração do Rio de Janeiro, sinto a tensão crescente entre mim e Leandro. Sua mão quente pousa sobre meu ombro, um gesto que mistura preocupação e possessividade. Ao sairmos do lugar, Leandro entrega o papel ao manobrista e finalmente me encara, com uma expressão tão grave quanto a situação.
No carro, o silêncio é cortante até ele finalmente explodir:
— Incrível. — Ele lança um olhar breve, mas intenso. — Eu sabia que você era boa, mas conseguir sentar com ele? Isso foi um feito e tanto.
Eu sorrio levemente, mantendo meu olhar baixo.
— Consegui mais que isso. Arrumei um emprego na casa dele. Vou trabalhar como babá.
Leandro pisa no freio com tanta força que o carro derrapa, parando bruscamente no meio-fio. Se não fosse o cinto, eu teria sido jogada contra o painel.
— Que p***a é essa que você está falando?! — Ele vira para mim, os olhos brilhando de raiva, seu rosto tão próximo que quase posso sentir o calor de sua respiração.
— Vou trabalhar para Rafael. — Minha voz é firme, mas sinto meu coração disparar.
—Trabalhar para Rafael? Ah, mas não vai mesmo! Pode esquecer disso!Não vou permitir que entre nesse matadouro! — Ele rosna, sua expressão um misto de choque e fúria.
Meu corpo treme levemente, mas eu ergo o queixo, decidida.
— Para com isso. Você está exagerando.
— Exagerando? Você não faz ideia do que está falando! Esse é seu primeiro trabalho como infiltrada e você já está se jogando no meio de uma situação que nem entende direito. Você não conhece as regras do jogo, Isabela! — Ele grita, batendo a mão no volante.
— O objetivo era chegar até eles, não era? — Minha voz vacila, mas mantenho a postura.
Leandro passa as mãos pelos cabelos curtos, seu rosto uma mistura de frustração e cansaço.
— O objetivo era me infiltrar, não você, porr@! Não era pra ser assim, não desse jeito Ca.cete!
Eu respiro fundo, tentando ignorar a dor crescente no peito ao vê-lo tão transtornado.
— Mas aconteceu, Leandro. As coisas fluíram, e eu não podia deixar essa oportunidade escapar.
Ele me encara, sua expressão endurecendo ainda mais. Por um momento, ele parece perdido em pensamentos, revivendo algo doloroso que não compartilhou comigo. Quando ele finalmente volta a olhar para mim, seus olhos estão cheios de uma raiva contida, quase fria.
— Merd@, Isabela. Isso vai dar merd@.
Suspiro, tentando manter a calma.
— Não adianta você tentar mudar minha decisão. Já está feito.
Ele arranca o carro com uma manobra brusca, e o restante do caminho é feito em silêncio. Quando paramos em frente ao meu apartamento, ele finalmente diz:
— Saia.
Eu fito seu perfil rígido, hesito por um segundo e saio, batendo a porta com força. Mas, para minha surpresa, quando chego ao portão do prédio, ele está logo atrás de mim.
— O que tá fazendo? — Pergunto, irritada.
— Subindo com você. A gente ainda não terminou essa conversa.
O porteiro me reconhece assim que me vê e abre o portão sem hesitar. Caminhamos em silêncio pelo hall de entrada. O ar é pesado entre nós, e cada passo ecoa em um compasso tenso. Quando alcançamos o elevador, a porta já está aberta. Entramos, e eu aperto o botão do décimo andar com dedos ligeiramente trêmulos. Olho para os meus sapatos, tentando fugir do olhar penetrante de Leandro, que parece pesar sobre mim como uma tempestade prestes a desabar.
A tensão se estica como um fio prestes a se romper enquanto o elevador sobe, cada andar marcado com um leve solavanco. Finalmente, a porta se abre, e eu sou a primeira a sair, minhas chaves já em mãos. Destranquei a porta do meu apartamento com movimentos hesitantes e entro, acendendo as luzes. Leandro passa por mim sem pedir licença, sua presença dominando o ambiente como sempre.
Fecho a porta atrás de nós, ignorando sua proximidade. Coloco minha bolsa sobre a mesa e caminho até as persianas da janela da sala. Abro-as para observar a vista do morro ao longe, as luzes da favela piscando como estrelas na escuridão. Tento encontrar algum alívio na familiaridade daquela paisagem, mas o peso da presença de Leandro me mantém tensa.
Respirando fundo, finalmente me viro para ele, encarando-o de frente. Seus olhos estão cravados em mim, ainda carregados com a gravidade de tudo o que aconteceu. Sua expressão não suaviza nem por um segundo desde que saímos da boate. Meus nervos se inflamam ainda mais agora que estamos a sós, trancados no meu apartamento.
— E então? Estamos aqui. O que você tem para me dizer que eu já não sei? — pergunto, tentando manter minha voz firme.