💋 CAPÍTULO 1

1264 Palavras
FLASHBACK Cinco anos antes… Londres, inverno. AMARA O cheiro de chuva e fumaça sempre a fazia lembrar do pai. Gabriel Lewis, um homem de riso fácil e mãos marcadas pela tinta das obras de arte que restaurava. Ele dizia que cada rachadura em uma pintura era como uma ferida da alma , e que o dever de um restaurador era curar histórias quebradas. Amara acreditava nisso. Até a noite em que tudo foi destruído. Ela voltou da universidade quando viu a rua interditada. Luzes vermelhas, fitas de isolamento, som distante de sirenes e vozes apressadas. O apartamento deles , o mesmo onde ela aprendera a misturar tintas com o pai agora ardia em chamas. Os bombeiros lutavam para conter o fogo. — Há alguém lá dentro! — ela gritou, tentando avançar, mas mãos a seguraram. — Senhorita, é perigoso! — disse um policial, impedindo-a de passar. Minutos depois, o corpo de Gabriel Lewis foi retirado do prédio. Sem vida. Queimado. O mundo terminou ali. As autoridades chamaram de acidente elétrico. Mas Amara sabia que seu pai nunca deixaria cabos expostos, nunca. E no meio das cinzas, ela encontrou algo que mudaria tudo , uma pasta parcialmente queimada, com o selo dourado de uma empresa italiana, De Santis Arte & Finanças. Nos dias seguintes, ela tentou entender o que significava. Descobriu que seu pai havia trabalhado como consultor para uma galeria em Roma, ligada a uma poderosa família de colecionadores , os De Santis. E que, antes de morrer, ele havia tentado denunciá-los por lavagem de dinheiro através de obras de arte roubadas. Foi quando começaram os “acidentes”. Telefonemas sem voz do outro lado. Carros estacionados por tempo demais em frente à sua casa. Sombras que a seguiam à noite. Quando um homem desconhecido apareceu na porta de sua casa dizendo que ela “deveria esquecer o nome De Santis se quisesse continuar viva”, Amara entendeu que a verdade custaria caro. Mas a verdade era a única coisa que ela queria. Ela fugiu. Trocou de nome, queimou seus documentos originais. Isabella Romano nasceu naquela noite. Nos dois anos seguintes, viveu escondida entre Florença e Paris, estudando restauração e se infiltrando em círculos de colecionadores para entender como o submundo da arte operava. Aprendeu a observar, a mentir com elegância, a sorrir quando precisava disfarçar o medo. E, acima de tudo, aprendeu a controlar o próprio coração. Até que recebeu uma proposta anônima, “O Palazzo De Santis precisa de uma restauradora para o Salão de Caravaggio. Boa paga. Silêncio absoluto. Você é perfeita para o papel.” O e-mail vinha de um endereço criptografado. Mas ela sabia que nada na vida era coincidência. Era o momento de entrar na toca do lobo. Amara encarou o espelho pela última vez antes de embarcar para Roma. A mulher que a encarava tinha os mesmos olhos escuros do pai, mas o brilho era outro mais frio, mais perigoso. — Por você, papai — murmurou, passando o batom vermelho como uma armadura. — E por mim. Naquele instante, Amara Lewis morreu de vez. E Isabella Romano começou a caçada. ********** AGORA O amanhecer tingia Roma com tons de ouro e cinza quando Amara Lewis, agora Isabella Romano, desceu do carro diante do Palazzo De Santis. A mansão erguia-se imponente no alto de uma colina, envolta por muros de hera e segredos. O ar cheirava a poder, vinho e perigo. Ela respirou fundo, sentindo o frio da manhã cortar a pele. Aquele era o início do seu plano. E nada poderia dar errado. O motorista indicou a entrada lateral a usada por funcionários e visitantes não convidados ao círculo interno. Isabella ajustou a blusa branca de seda, o coque firme e os óculos discretos. Cada detalhe era calculado. Uma mulher de arte, não de vingança. Pelo menos por fora. Quando atravessou o portão principal, um homem de terno escuro a esperava. — Signorina Romano, sou Sergio, o administrador do palácio. O senhor De Santis pediu que eu a acompanhasse até o Salão de Caravaggio. — Claro. Obrigada — respondeu ela, com voz controlada. Os corredores do palácio eram longos e silenciosos, adornados por obras raras. Mas o que mais chamava atenção era a ausência de cor tudo parecia frio, intocado, como se ninguém ali soubesse o que era calor humano. — O senhor De Santis aprecia a discrição — comentou Sergio, enquanto andavam. — Evite questionar demais. E nunca, nunca, toque em algo que ele não tenha autorizado. Ela sorriu, cortês. — Sou restauradora, não curiosa. Sergio não respondeu. Apenas abriu as portas de madeira entalhada que davam para o salão principal. O Salão de Caravaggio era um santuário de sombras. O teto pintado com cenas bíblicas, as cortinas pesadas filtrando a luz. No centro, o quadro que ela restauraria. A Crucificação de São Pedro, original do mestre. Mas o que realmente a fez prender o ar não foi a pintura. Foi ele. Lorenzo De Santis. De costas, observava a obra. O terno escuro realçava a força das costas largas, e a postura exalava autoridade. Quando se virou, o tempo pareceu prender o fôlego. — Signorina Romano — disse ele, com aquele sotaque rouco que parecia arranhar a pele. — Finalmente nos conhecemos à luz do dia. Os olhos de Amara percorreram o rosto dele, cada traço marcado por confiança e controle. — Senhor De Santis — respondeu, inclinando levemente a cabeça. — É uma honra trabalhar em uma peça tão valiosa. Ele se aproximou lentamente, como um predador avaliando uma presa. — Espero que entenda o valor de tudo o que está sob este teto. Cada obra, cada segredo. — O olhar dele pousou nos lábios dela. — Principalmente os segredos. Ela sustentou o olhar, mesmo sentindo o estômago revirar. — Prometo tratar ambos com o mesmo cuidado. Um sorriso curvou os lábios dele. — Cuidado é uma virtude rara, Isabella. Mas me pergunto, até onde vai sua obediência? Amara prendeu a respiração, mas respondeu sem hesitar. — Até onde for necessário para proteger a arte. Lorenzo riu baixo. Um som perigoso, quente. — E se a arte que você proteger for uma mentira? Por um instante, ela sentiu o chão sumir. A pergunta parecia atravessar o véu da sua fachada, como se ele soubesse mais do que devia. Mas o olhar dele era enigmático demais para decifrar. — Então restauraríamos a verdade, senhor De Santis — respondeu ela, firme. — Mesmo que custe caro. Ele parou diante dela, tão próximo que o perfume amadeirado dele envolveu o ar. — Verdade — murmurou. — É uma palavra perigosa nesta casa. Os olhos de Lorenzo percorreram o rosto dela uma última vez antes de se afastar. — Comece amanhã às oito. Quero o relatório do estado da pintura em minhas mãos antes do jantar. E, Isabella. Ela ergueu os olhos. — Sim? — Evite circular sozinha à noite. Nem todos aqui são tão controlados quanto eu. O modo como ele disse controlados fez o corpo dela arrepiar. Quando Lorenzo saiu do salão, o som dos passos ecoou como uma promessa. Sergio se aproximou. — Ele raramente fala tanto com alguém no primeiro encontro comentou, quase surpreso. — Parece que o senhor De Santis gostou de você. Amara observou a porta fechar. Gostar não era o que ela queria. Gostar tornava as pessoas descuidadas. Mas, pela primeira vez, sentiu algo que não deveria. Um calor estranho, nascido entre o medo e o fascínio. Ela passou os dedos sobre a pintura antiga e murmurou para si mesma — Ele não vai me destruir, eu vou destruí-lo primeiro.
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