FLASHBACK
Cinco anos antes…
Londres, inverno.
AMARA
O cheiro de chuva e fumaça sempre a fazia lembrar do pai.
Gabriel Lewis, um homem de riso fácil e mãos marcadas pela tinta das obras de arte que restaurava.
Ele dizia que cada rachadura em uma pintura era como uma ferida da alma , e que o dever de um restaurador era curar histórias quebradas.
Amara acreditava nisso.
Até a noite em que tudo foi destruído.
Ela voltou da universidade quando viu a rua interditada. Luzes vermelhas, fitas de isolamento, som distante de sirenes e vozes apressadas.
O apartamento deles , o mesmo onde ela aprendera a misturar tintas com o pai agora ardia em chamas.
Os bombeiros lutavam para conter o fogo.
— Há alguém lá dentro! — ela gritou, tentando avançar, mas mãos a seguraram.
— Senhorita, é perigoso! — disse um policial, impedindo-a de passar.
Minutos depois, o corpo de Gabriel Lewis foi retirado do prédio.
Sem vida.
Queimado.
O mundo terminou ali.
As autoridades chamaram de acidente elétrico.
Mas Amara sabia que seu pai nunca deixaria cabos expostos, nunca.
E no meio das cinzas, ela encontrou algo que mudaria tudo , uma pasta parcialmente queimada, com o selo dourado de uma empresa italiana, De Santis Arte & Finanças.
Nos dias seguintes, ela tentou entender o que significava.
Descobriu que seu pai havia trabalhado como consultor para uma galeria em Roma, ligada a uma poderosa família de colecionadores , os De Santis.
E que, antes de morrer, ele havia tentado denunciá-los por lavagem de dinheiro através de obras de arte roubadas.
Foi quando começaram os “acidentes”.
Telefonemas sem voz do outro lado.
Carros estacionados por tempo demais em frente à sua casa.
Sombras que a seguiam à noite.
Quando um homem desconhecido apareceu na porta de sua casa dizendo que ela “deveria esquecer o nome De Santis se quisesse continuar viva”, Amara entendeu que a verdade custaria caro.
Mas a verdade era a única coisa que ela queria.
Ela fugiu.
Trocou de nome, queimou seus documentos originais.
Isabella Romano nasceu naquela noite.
Nos dois anos seguintes, viveu escondida entre Florença e Paris, estudando restauração e se infiltrando em círculos de colecionadores para entender como o submundo da arte operava.
Aprendeu a observar, a mentir com elegância, a sorrir quando precisava disfarçar o medo.
E, acima de tudo, aprendeu a controlar o próprio coração.
Até que recebeu uma proposta anônima,
“O Palazzo De Santis precisa de uma restauradora para o Salão de Caravaggio. Boa paga. Silêncio absoluto. Você é perfeita para o papel.”
O e-mail vinha de um endereço criptografado.
Mas ela sabia que nada na vida era coincidência.
Era o momento de entrar na toca do lobo.
Amara encarou o espelho pela última vez antes de embarcar para Roma.
A mulher que a encarava tinha os mesmos olhos escuros do pai, mas o brilho era outro mais frio, mais perigoso.
— Por você, papai — murmurou, passando o batom vermelho como uma armadura.
— E por mim.
Naquele instante, Amara Lewis morreu de vez.
E Isabella Romano começou a caçada.
**********
AGORA
O amanhecer tingia Roma com tons de ouro e cinza quando Amara Lewis, agora Isabella Romano, desceu do carro diante do Palazzo De Santis.
A mansão erguia-se imponente no alto de uma colina, envolta por muros de hera e segredos.
O ar cheirava a poder, vinho e perigo.
Ela respirou fundo, sentindo o frio da manhã cortar a pele.
Aquele era o início do seu plano.
E nada poderia dar errado.
O motorista indicou a entrada lateral a usada por funcionários e visitantes não convidados ao círculo interno.
Isabella ajustou a blusa branca de seda, o coque firme e os óculos discretos. Cada detalhe era calculado.
Uma mulher de arte, não de vingança.
Pelo menos por fora.
Quando atravessou o portão principal, um homem de terno escuro a esperava.
— Signorina Romano, sou Sergio, o administrador do palácio.
O senhor De Santis pediu que eu a acompanhasse até o Salão de Caravaggio.
— Claro. Obrigada — respondeu ela, com voz controlada.
Os corredores do palácio eram longos e silenciosos, adornados por obras raras.
Mas o que mais chamava atenção era a ausência de cor tudo parecia frio, intocado, como se ninguém ali soubesse o que era calor humano.
— O senhor De Santis aprecia a discrição — comentou Sergio, enquanto andavam.
— Evite questionar demais.
E nunca, nunca, toque em algo que ele não tenha autorizado.
Ela sorriu, cortês.
— Sou restauradora, não curiosa.
Sergio não respondeu. Apenas abriu as portas de madeira entalhada que davam para o salão principal.
O Salão de Caravaggio era um santuário de sombras.
O teto pintado com cenas bíblicas, as cortinas pesadas filtrando a luz.
No centro, o quadro que ela restauraria.
A Crucificação de São Pedro, original do mestre.
Mas o que realmente a fez prender o ar não foi a pintura.
Foi ele.
Lorenzo De Santis.
De costas, observava a obra.
O terno escuro realçava a força das costas largas, e a postura exalava autoridade.
Quando se virou, o tempo pareceu prender o fôlego.
— Signorina Romano — disse ele, com aquele sotaque rouco que parecia arranhar a pele.
— Finalmente nos conhecemos à luz do dia.
Os olhos de Amara percorreram o rosto dele, cada traço marcado por confiança e controle.
— Senhor De Santis — respondeu, inclinando levemente a cabeça.
— É uma honra trabalhar em uma peça tão valiosa.
Ele se aproximou lentamente, como um predador avaliando uma presa.
— Espero que entenda o valor de tudo o que está sob este teto. Cada obra, cada segredo. — O olhar dele pousou nos lábios dela.
— Principalmente os segredos.
Ela sustentou o olhar, mesmo sentindo o estômago revirar.
— Prometo tratar ambos com o mesmo cuidado.
Um sorriso curvou os lábios dele.
— Cuidado é uma virtude rara, Isabella.
Mas me pergunto, até onde vai sua obediência?
Amara prendeu a respiração, mas respondeu sem hesitar.
— Até onde for necessário para proteger a arte.
Lorenzo riu baixo. Um som perigoso, quente.
— E se a arte que você proteger for uma mentira?
Por um instante, ela sentiu o chão sumir.
A pergunta parecia atravessar o véu da sua fachada, como se ele soubesse mais do que devia.
Mas o olhar dele era enigmático demais para decifrar.
— Então restauraríamos a verdade, senhor De Santis — respondeu ela, firme.
— Mesmo que custe caro.
Ele parou diante dela, tão próximo que o perfume amadeirado dele envolveu o ar.
— Verdade — murmurou.
— É uma palavra perigosa nesta casa.
Os olhos de Lorenzo percorreram o rosto dela uma última vez antes de se afastar.
— Comece amanhã às oito. Quero o relatório do estado da pintura em minhas mãos antes do jantar. E, Isabella.
Ela ergueu os olhos.
— Sim?
— Evite circular sozinha à noite. Nem todos aqui são tão controlados quanto eu.
O modo como ele disse controlados fez o corpo dela arrepiar.
Quando Lorenzo saiu do salão, o som dos passos ecoou como uma promessa.
Sergio se aproximou.
— Ele raramente fala tanto com alguém no primeiro encontro comentou, quase surpreso.
— Parece que o senhor De Santis gostou de você.
Amara observou a porta fechar.
Gostar não era o que ela queria.
Gostar tornava as pessoas descuidadas.
Mas, pela primeira vez, sentiu algo que não deveria.
Um calor estranho, nascido entre o medo e o fascínio.
Ela passou os dedos sobre a pintura antiga e murmurou para si mesma
— Ele não vai me destruir, eu vou destruí-lo primeiro.