O sol ainda não havia rompido completamente o céu de Roma quando Amara chegou ao Palazzo.
O ar da manhã era frio, úmido e pesado.
Cada passo ecoava no silêncio dos corredores, como se o palácio inteiro observasse sua presença, como se as paredes tivessem olhos.
Carregava sua pasta de couro com os instrumentos de trabalho, luvas, pincéis, solventes e lâminas.
Ferramentas de restauração e de disfarce.
Naquela manhã, ela deixava de ser Amara.
Era Isabella Romano.
A mulher de aparência calma, sorriso controlado e passado inexistente.
Mas, por dentro, o coração batia rápido.
Era o primeiro dia sob o olhar direto de Lorenzo De Santis o homem que, sem saber, estava ligado à ruína da vida dela.
O Salão de Caravaggio estava silencioso quando ela entrou.
As cortinas deixavam entrar faixas de luz dourada que atravessavam o ar empoeirado.
No centro, a pintura esperava, coberta por um lençol branco como um corpo antes da autópsia.
Amara prendeu o cabelo e calçou as luvas.
A ponta dos dedos tremia levemente enquanto removia o tecido.
Sob o véu, o rosto de São Pedro emergiu rachado, ferido, mas ainda grandioso.
Ela se inclinou, estudando as fissuras na tinta, o desgaste nas bordas.
Aquela pintura carregava histórias escondidas e talvez segredos mais valiosos do que qualquer confissão.
— Trabalhar sozinha, signorina? — a voz grave e rouca ecoou atrás dela.
Amara quase deixou cair o pincel.
Virou-se, e o encontrou ali .
— Lorenzo — apoiado no batente da porta, observando-a.
Sem terno hoje, camisa branca aberta no colarinho, mangas dobradas até os antebraços, mostrando as veias salientes e o relógio caro.
Parecia menos chefe e mais homem.
Mas era justamente isso que o tornava mais perigoso.
— Costumo me concentrar melhor sozinha, senhor De Santis — respondeu, recompondo-se.
Ele se aproximou devagar, como se saboreasse cada passo.
— Não confia na companhia dos outros?
— Confio quando conheço as intenções. — Ela levantou o olhar, firme.
— O senhor me parece um homem de intenções complexas.
Um sorriso discreto apareceu nos lábios dele.
— Complexas, ou perigosas?
Ela inclinou a cabeça, fingindo inocência.
— Às vezes é a mesma coisa.
Lorenzo parou atrás dela, tão próximo que ela podia sentir o calor do corpo dele mesmo sem ser tocada.
O perfume dele amadeirado, intenso misturava-se ao cheiro de tinta antiga.
— Deixe-me ver o que tanto a prende a essa tela — disse ele, baixando a voz.
Amara sentiu o coração acelerar quando ele se inclinou sobre o ombro dela.
O rosto dele quase roçava o dela.
A respiração dele tocou o pescoço dela como uma confissão muda.
Ela manteve os olhos na pintura, tentando se concentrar.
— Caravaggio pintava a dor com uma beleza que incomoda. — Sua voz saiu baixa, controlada.
— Ele via pureza no sofrimento.
— E você, Isabella? — murmurou Lorenzo, próximo demais.
— O que vê na dor?
Ela respirou fundo.
— A verdade.
Por um instante, o silêncio pesou entre eles.
Ele virou o rosto, e seus olhos encontraram os dela.
A distância era mínima, Tensa, Quase elétrica.
— Verdade — repetiu ele, como se testasse o sabor da palavra.
— É curioso. Quase ninguém aqui fala sobre ela.
Amara forçou um sorriso.
— Talvez porque ninguém aqui esteja pronto para ouvi-la.
O olhar dele se estreitou.
— Está me provocando, signorina Romano?
Ela respondeu sem recuar.
— Apenas sendo honesta, senhor De Santis.
Lorenzo segurou o pulso dela com firmeza, não com violência, mas o suficiente para fazê-la sentir o poder que ele exercia mesmo em gestos sutis.
Os dedos dele eram quentes, a pele áspera.
Um toque que dizia tudo o que as palavras não ousavam.
— Aqui dentro, Isabella — murmurou, os olhos fixos nos dela até a honestidade tem um preço.
Ela engoliu seco, mas manteve a compostura.
— E o senhor está disposto a pagá-lo?
Um segundo de silêncio.
Depois, ele soltou o pulso dela e deu um passo para trás.
— Talvez — respondeu com um meio sorriso.
— Mas eu nunca compro algo sem testar o valor antes.
Ele caminhou até a janela, acendendo um cigarro.
O gesto parecia simples, mas carregava controle e domínio.
— Fale-me de você — ordenou, sem olhar.
— De onde vem, Por que escolheu Roma.
Ela respondeu com a frieza de quem havia ensaiado,
— Florença. Estudei restauração na École du Louvre.
Vim a Roma por causa da oportunidade. Sou fascinada pela forma como os italianos tratam a arte.
Ele deu uma risada curta.
— Tratar não é bem o verbo, nós a possuímos.
— Virou-se, olhando diretamente para ela.
— Como tudo o que valorizamos.
O olhar dele era uma promessa e uma ameaça.
Amara manteve-se firme.
— Talvez algumas coisas não possam ser possuídas.
— Está enganada — respondeu, aproximando-se outra vez.
— Tudo tem um dono, Isabella.
Às vezes, só falta coragem para admiti-lo.
O coração dela acelerou.
Ele estava perto demais.
Demais.
Lorenzo baixou o olhar para a boca dela, e por um instante, o tempo parou.
Ela sentiu o impulso o desejo de recuar, de escapar, mas também o de se aproximar.
Um fogo interno que ela não queria sentir, mas que queimava mesmo assim.
Ele ergueu uma mecha do cabelo dela, deslizando os dedos até o ombro.
— Tem mãos delicadas — murmurou.
— Mãos que escondem força.
Ela respondeu, num tom quase sussurrando,
— Força e segredos, senhor De Santis.
O sorriso dele voltou, lento, perigoso.
— Gosto disso. — O toque se afastou, mas o efeito ficou.
— Continue o trabalho, Isabella. Quero ver o progresso à noite.
E lembre-se.
— Sim? — perguntou, sem conseguir disfarçar o tom rouco.
— A arte pode ser restaurada. As pessoas, nem sempre.
Ele saiu, deixando para trás o rastro do perfume e a tensão.
Amara soltou o ar preso.
Os dedos ainda tremiam.
Por fora, ela era uma profissional fria e controlada.
Mas por dentro havia algo nascendo que ela não queria reconhecer.
Desejo.
Curiosidade.
Perigo.
E no meio disso tudo, uma promessa silenciosa.
Entre eles, nada seria simples.
Nem puro.
Nem seguro.