Cheguei na recepção ensopada por causa da tempestade que estava acontecendo fora das portas giratórias. A chuva caia com tamanha agressividade que não dava coragem de voltar para lá, e eu ainda vim obrigada para cá. Samanta disse que seria uma boa ideia sair de casa um pouco, ela não queria é muito menos gostava de me ver deitada na casa o dia inteiro onde só saía para comer um miojo ou fazer xixi. Apenas o básico é necessário.
Então eu saí. Mas claro que uma ida ao parque só hoje não seria o suficiente, ela queria todos os dias, então me arranjou uma entrevista de emprego. Para que eu saísse todos os dias e não ficasse “enfurnada em casa jogada na cama o dia todo”, como ela dizia. Eu sei que ela não faz por maldade, ela faz o que pode para ainda me ter por perto e poder cuidar de mim. Depois de tudo que houve, ela é a única que se importa e está comigo ainda.
Eu passara pela porta giratória com um guarda-chuva pingando e eu por inteira derramando tantas gotas quanto cabem no oceano. Ou seja, o meu guarda-chuva veio comigo de enfeite, pois o coitado m*l conseguiu conter a chuva que se instaurou por Londres naquele dia.
Cheguei na recepção e a garota logo lançou um doce sorriso de adolescente no primeiro emprego, crua, ingênua e cheia de esperanças. Ela tinha feições bem jovens, uma pele quase dourada, cabelos pretos bem escorridos presos em um r**o de cavalo alto, dando-lhe um ar mais sério, e não tão meigo se estivesse solto.
— Bom dia, senhorita. Em que posso ajudá-la? — disse ela extremamente simpática.
Olhei para ela e vi que não estava acostumada com tanto açúcar e arco-íris vindo de alguém para mim. Fiquei ali por um tempo processando tamanha simpatia.
— Oi… bom dia, moça. — falei o tanto quanto conseguia ser simpática e sorrir — estou aqui para falar com … — olhei o papel em minha mão novamente pois havia esquecido com quem iria falar.
— É para a entrevista com a Srta. Hills? — ela perguntou novamente alegre e já presumindo o que eu viera fazer ali.
Olhei no papel e assenti.
— Isso mesmo, vim falar com Bárbara Hills sobre uma entrevista para agora às 08:00.
Ela sorriu, pegou duas folhas grampeadas uma na outra e as colocou em uma prancheta e me entregou-as, junto com uma caneta azul. A caneta tinha a logo da empresa: duas cobras entrelaçadas verdes formando um “S” vermelho entre elas.
— Preciso que a senhorita preencha este formulário de entrevista, por favor. — disse ela apontando para a prancheta com as folhas. — Ao terminar, pode me entregar.
Balancei a cabeça e dei o meu melhor sorriso. Fui sentar nas poltronas a esquerda para preencher com calma.
Era 07:40 da manhã, havia um certo tempo antes do horário marcado com a entrevistadora. Era um formulário até que bem simples de se preencher, a primeira folha era apenas de perguntas objetivas e no verso, na segunda folha eram perguntas descritivas, era a hora de gastar a caneta. Pois segundo Samanta, era para eu “não ficar mentindo ou me fazendo na entrevista só para não passar”. Era tentador não fazer isso, mas não; ela estava certa, eu precisava sair de casa um pouco mais que uma vez por mês.
Preenchi todas as perguntas e finalizei o formulário, levei quase todo tempo que precisava, eram 08:58. As perguntas dissertativas tinham que ser o mais completa possível, apesar de ser estranho perguntar o que mais gosto de comer no café da manhã e meu doce preferido. Mas de resto, foram perguntas quase normais para uma entrevista.
— Aqui está — e entreguei a prancheta com os formulários para ela.
— Obrigada, Srta… — ela leu meu nome no início da folha — Sabrina. — sorriu ao pronunciá-lo — aguarde só um minuto que vou avisar a Srta. Hills que está pronta.
Assenti e me sentei um pouco mais.
Só agora pude analisar mais detalhadamente minhas roupas escolhidas por Samanta para vir aqui hoje. Um salto simples preto, do qual não sou muito fã do que possa me tirar do chão mesmo que alguns centímetros; uma saia vermelha bem escura, quase bordo junto com uma meia calça preta para não ter o realce da minha pele tão branca quanto era possível, devido a todo aquele tempo que passei em casa sem sair. Na parte de cima tinha sido escolhido uma blusa social preta com babado nas mangas e em seguida uma manga comprida em renda.
Samantha não era a melhor das estilistas mas ela não me deixava passar vergonha pelo menos, pois ela queria que eu fosse bem, ou o melhor que pudesse, na entrevista de hoje; pois se dependesse de mim eu iria com uma calça jeans, uma bota preta e uma camisa social branca, bem simples na verdade. Demandava muita energia para escolher roupas e eu não tinha paciência. Ainda bem que eu tinha Samanta para me ajudar.
Não deu dois minutos e surgiu vindo do corredor ao lado da recepção uma mulher alta com a estatura de uma modelo, loira de cabelos em ondas bem feitas, com uma calça social preta até o joelho, um salto de mesma cor e uma camisa social branca. Parecia um conjunto simples, mas ela ficava tão bem nele que dava um ar de profissionalismo e elegância.
Ela chegou até a recepcionista e trocou duas palavras com ela e as duas olharam para onde eu estava e a loira assentiu e veio em minha direção.
— Srta. Roberts? — perguntou ela me olhando. Seus olhos eram verdes cor de jade, intimidadores e meigos ao mesmo tempo.
— Sim, sou eu — falei me levantando.
— Sou Bárbara Hills — disse ela se apresentando e esticando a mão para me cumprimentar — pode me acompanhar por gentileza?
— Claro — falei e a segui.
Passamos pela recepção e seguimos por um longo corredor branco, onde via-se três portas à esquerda e duas à direita. Entramos na segunda porta à direita e seguimos por mais um corredor não tão extenso quanto o anterior e subimos uma escada escada caracol de madeira de carvalho branco. Entramos na porta ao final do corredor . Era uma porta de vidro que se via o que estava lá dentro e onde lia-se “Sebastian Queen – Diretor Geral”. Bárbara empurrou a porta, passou à minha frente e estendeu a mão solicitando que eu me sentasse.
Ela uma sala com carpete cor de cimento por seu chão, não era tão grande quanto às de reunião onde havia uma mesa de carvalho cor de avelã retangular com espaço de dez lugares, sendo quatro lugares em cada lado do cumprimento da mesa e dois lugar um em cada ponta dela. Essa era, por sua vez, um pouco menor, com a mesa do CEO tendo duas poltronas para seus convidados à frente. Me sentei na poltrona da esquerda, eram pretas de couro, bem confortáveis, dais quais eu não iria querer levantar tão cedo após o término da conversa.
— Esta é a sala do nosso CEO, hoje ele não virá à empresa, então usaremos esta sala para não ocuparmos as salas de reunião com apenas nós duas — falou ela em tom firme, mas simpático.
Eu assenti com a cabeça e esperei.
— Certo, Srta. Roberts, aqui no seu currículo consta que você já trabalhou como secretária antes. Me conte um pouco como foram estas suas experiências.
— Ah, sim… — eu estava um pouco nervosa, já fazia tempo que eu não falava com outras pessoas — eu já fui secretária por cinco anos de dois advogados, Steve e Oliver, eram irmãos e sócios no escritório de advocacia deles, acho que a senhora deve conhecê-los, não é? — eles eram bem famosos na cidade, impossivel quem não os conhecesse, inclusive eu… e os dois.
— Mas é claro que conheço! — ela praticamente gritou, emocionada — eles são os advogados mais famosos da cidade, não tem como não conhecê-los. Como conseguiu trabalhar para eles? — ela falou tentando retomar a calma e seriedade, mas uma pontada de inveja.
— Sim, minha amiga é prima deles e me indicou ao cargo e eles me entrevistaram e gostaram do meu currículo — falei o mais calma e causal que consegui.
— Que ótimo, parabéns atrasado. Vejo que suas referências são ótimas, as melhores do mercado na verdade — falou — Então só posso dizer Srta. Roberts que…
De repente a porta de vidro se abriu com tamanho estrondo que Bárbara e eu nos assustamos, mais ela do que eu, pois foi cortada sua frase ao meio.
No batente da porta eu o vi, ele usava um terno todo de preto carvão riscado, apenas a camisa social por baixo do blazer era branco cor de nuvem. Ele estava afrouxando a gravata, mas parou no ato ao nos ver e voltou a apertá-la; o que antes era uma expressão de alívio agora era uma de amargura. Ele tinha cabelos pretos em topete bagunçados e molhados por causa da tempestade que ainda se instaurava lá fora.
O seu maxilar era bem marcado e agora rígido de desgosto, com a barba por fazer e uma expressão séria. Então os seus olhos castanhos impactantes e cheios de malícia encontraram os meus e o que antes era amargura e desgosto, logo se transformou em raiva e ódio.
— Mas que *p***a* está acontecendo aqui? — ele explodiu em um grito luxuriante e obscuro de quem estava faminto por ser calado — Bárbara! O que você pensa que está fazendo com ela?