Capítulo Cinco

2295 Palavras
Hoje faz uma semana desde que me demiti, não vejo ou ouço falar de Sebastian ou Bárbara desde então. Na verdade, muito menos Sebastian. Sinto sua falta, mas não posso me envolver com esse tipo de gente, principalmente depois dele me rejeitar à plenos pulmões. Eu não saio de casa desde que saí correndo de lá após enunciar um “eu me demito” para Bárbara, já que Sebastian estava bêbado demais para entender o que quer que lhe fosse dito. Se bem que até eu ficaria naquele estado ou até pior, se tivesse bebido mais de 10 copos de Whisky que já é forte por si só, quem dirá vários e vários copos, um atrás do outro. Eu até me lembro que ele jogou a garrafa na estante com raiva fazendo-a se estraçalhar no chão sem ter seus cacos juntados após sua última gota ir ao copo, então abriu outra garrafa de bourbon. E foi aí que tudo virou um caos completo. Estava no final de setembro e o clima era de um frio quase ameno, suficiente para se enrolar nas cobertas e colocar um filme na TV enquanto come uma pipoca com brigadeiro. Eu já estava com o meu moletom do Green Day do álbum do American idiot, que era o mais confortável que eu tinha e estava enfiada debaixo das cobertas, me esquentando. Desde o ocorrido, Samanta está vindo todos os dias à minha casa para se certificar de que eu não faça nenhuma besteira; mesmo assim está irada comigo desde que soube que eu me demiti. Não sei se é pelo fato de eu ter voltado à estaca zero e agora estar novamente enfurnada em casa só jogada no sofá comendo besteira e assistindo a filmes estranhos na Netflix ou pelo fato que ela tinha conseguido o emprego para mim e agora eu tinha jogado fora uma oportunidade única, segundo ela mesma. Samanta e eu estávamos no meu sofá verde kiwi de quatro lugares debaixo da coberta fofa vermelha cornalina extremamente confortável tomando sorvete com colher direto do pote, era o meu favorito desde os 11 anos, de Oreo Original. Então pela milésima, talvez mais que isso, Samanta solta seu bordão da vez: — Eu ainda não acredito que se demitiu no primeiro dia de trabalho — disse ela jogando e largando os braços por cima da coberta frustrada. — Eu já te falei, Sam! — reclamei revirando os olhos com impaciência por ser o sétimo dia consecutivo que respondo isso a ela — eu não posso trabalhar no mesmo lugar que alguém com ele — falei colocando outra colher de sorvete na minha boca. Ela me olhou séria, fitou bem o fundo dos meus olhos tentando detectar o que estava me acontecendo; eu sabia que ela não estava mais acreditando nessa minha versão. Até porque não contei a versão completa a ela, era de se esperar essa desconfiança. — Eu te conheço, Sabrina — ela me fitou com os olhos semi-cerrados de modo desconfiado e analisando minhas expressões — o que está escondendo de mim? Eu não contei toda a verdade a ela, se não iria surtar com tudo que aconteceu em tão pouco tempo, no caso dois dias foi o suficiente para que eu quase surtasse. Imagine contar que eu estava em uma pegação forte e quente com o meu chefe, um CEO milionário e gostoso pra c*****o, mas que na verdade havia me rejeitado na frente da outra subordinada, dos Recursos Humanos, após beber mais que um Opala, porque foi uma garrafa inteira de Whisky e finalizar com a cereja do bolo que eu iria receber que era confessar ser associado à Máfia. Contar isso era como armar uma bomba chamada Samanta Becker e esperar que ela fosse explodir a qualquer momento após tocá-la. — Você não acredita em mim? — perguntei como se estivesse ofendida com sua pergunta capciosa, apesar de correta. — Me fala a verdade — ela olhou bem para mim e prosseguiu séria: — o que realmente aconteceu que fez você se demitir sem mais nem menos? Eu não sabia se deveria e também não queria reviver as emoções tudo de novo com Samanta me fazendo tantas perguntas, o que certamente ela faria. Melhor me desviar para depois pensar em como dizer a ela. — Na verdade eu… — fui interrompida pelo som da campainha tocando, entretanto eu não estava esperando ninguém, muito menos quase meia-noite em um quinta-feira. Samanta e eu nos olhamos com uma interrogação na cara uma da outra. Samanta se ajeitou no sofá e eu fui atender à porta. Eu estava com o meu mais simpático e confortável pijama de unicórnios que eu havia achado naquele dia, como eu não saía mais de casa eu passava o dia inteiro de pijama e este era espetacular pelo simples fato de ser a calça de pijama toda em estampa de vaquinha conjunto com uma camisa de manga longa branca com as mangas pretas, igual ao que as crianças usam nos filmes de natal. Meu cabelo estava extremamente bagunçado, em um coque bem desajeitado de quem recém acordou e que o cabelo estava amarrado ao dormir; soltei e amarrei o cabelo no melhor rapo de cavalo que consegui após estar quase três dias sem o pentear, ou lavar. Cheguei à porta e a abri. Quase dei um pulo para trás com a surpresa. Desde o ocorrido, eu não atendia mais a telefonemas, e-mails, mensagens ou directs para não ter que lidar com tudo de novo, pois eu estava fingindo tão bem não me importar com nada, sendo que um terapeuta teria me internado por um ato como esse. Talvez evitar de forma indireta fizesse que a pessoa viesse até mim, mas eu não esperava que isso realmente acontecesse, na verdade esperava que entendesse e me deixasse em paz. — Oi, Bárbara — falei surpresa ao abrir a porta, pois realmente era uma vê-la ali, em frente à minha porta com cara de quem precisava de ajuda — está tudo bem? Está pálida — falei arqueando uma sobrancelha. — Desculpe vir aqui assim e a essa hora, mas você é a única que pode me ajudar, Sabrina — disse ela com cara de preocupada. — Venha, Bárbara, entre — falei dando espaço para entrar no meu apartamento. Ela estava usando um vestido preto por baixo de um sobretudo de lã batida cor bordô, suponho que da linha trench. O seu cabelo loiro iluminado estava sempre bem feito e arrumado, como uma modelo pronta para desfilar, mas não estava aquela mulher meiga e simpática que conheci na semana passada, ela estava abalada e parecia não dormir há dias. Samanta foi até a cozinha e pegou um copo d’água que Bárbara aceitou de imediato assim que lhe oferecemos. Ela bebeu metade do copo, então conseguiu se acalmar um pouco. Samanta estava à sua direita e eu à sua esquerda. Então finalmente disse o que estava acontecendo. — Sabrina, preciso da sua ajuda — disse ela com os olhos cheios de lágrimas em súplica, parecia realmente desesperada — ele não volta vai ao escritório desde que você pediu o desligamento. — Sebastian? — perguntei mesmo já sabendo a resposta de minha pergunta. Ela assentiu — Desde que contei o que havia acontecido na sala a ele, Sebastian não voltou mais ao escritório e muito menos para casa. — Pra casa? — perguntei sem pensar, mas agora que iniciei precisava finalizar o que queria saber — vocês dois… — eu só podia pensar o pior agora, depois de tudo que fizemos e dissemos. Ela suspirou fundo e então disse com uma voz triste: — Não era bem assim que gostaríamos que você soubesse — minha cabeça já estava à milhão, pensando em mil e uma possibilidades e possíveis perguntas que faria, repulsa e culpa que teria, mas nenhuma delas precisou ser feita pois todas as possibilidades que pensei não chegaria perto do que viria a seguir: — Sebastian e eu somos irmãos e vivemos na mesma casa. Como eu disse, nada do que eu pensasse me levaria e isso que a realidade agora me colocou como situação. Parecia que Bárbara havia me dado um tiro no meio da testa, pois eu não conseguia assimilar a informação com clareza. Como podia? Eles eram tão diferentes, em tantos aspectos. Eles ficavam sempre se alfinetando, o que fazia certo sentido, mas uma coisa não batia como informação. — Mas vocês têm sobrenomes diferentes, você é Hills e ele é Queen — falei olhando-a confusa por conta do meu questionamento principal — como pode? Ela balançou a cabeça como se concordasse que era uma pergunta razoável a se fazer perante a revelação. — Na verdade, eu sou adotada — disse um pouco envergonhada e em seguida fez uma cara que me lembrava uma melancolia antiga — mas nosso pai morreu antes que pudesse terminar a burocracia de me registrar na Família Queen. — Sinto muito. Ela assentiu como se não houvesse de toda forma o que fazer, tentou engolir as lágrimas que estavam tentando voltar à tona e falou o mais forte que conseguiu apesar de toda a melancolia que estava sentindo naquele momento. — Sabrina, me ajude — ela pegou em minhas mãos e me olhou fundo nos olhos, seus olhos eram verdes esmeraldas, tão lindos, uma pena estarem encharcados das lágrimas que ele deixou para ela — por favor, me ajude a encontrar Sebastian. Soltei minhas mãos das dela e falei o mais calma e firme que pude, apenas do burburinho que estava aqui dentro. Sebastian estava sumido e eu só queria sair correndo por cada rua da cidade em busca dele, precisava encontrá-lo, mas sabia que precisava me acalmar e ser racional apenas dessa vez. — Bárbara, o que aconteceu antes dele sumir? — perguntei procurando entender exatamente com o que estávamos lidando. Ela se endireitou no sofá e pensou um pouco, buscando na mente o que lembrava da última semana, antes de finalmente responder. — Eu contei a ele que você havia se demitido após… — ela olhou furtivamente para Samanta, engoliu em seco e disfarçou o que pôde — você sabe, então ele surtou, ficou se martirizando, teorizando que merda ele tinha feito e disse que iria sair para espairecer — ela disse explicando quase chorando de novo — desde então não o vi mais e isso já faz uma semana. Era minha culpa ele ter sumido e deixado Bárbara desse jeito, em prantos à procura do irmão. Eu não devia ter me demitido daquele jeito, sem mais nem menos, devia pelo menos ter conversado com ele antes. Até porque ele merecia saber os meus motivos de me afastar. Prometi a mim mesma que se o encontrasse novamente, iria ser sincera com ele. Eu sabia que era meu dever agora ajudá-la, mas não tinha como fazer isso. — Bárbara, mesmo que eu aceitasse ajudar, não saberia nem o que fazer e muito menos por onde começar, eu o conheço muito menos que você — falei com franqueza para ela, olhando-a nos olhos com a melhor expressão de empatia que eu podia expressar no momento — por que veio me procurar? Ela ficou cabisbaixa, olhando para as mãos com as unhas longas e vermelhas descascadas pela ansiedade que Sebastian a estava causando, como se estivesse pensando melhor sobre a atitude que estava tomando naquele momento. — Ele gosta muito de você — ela disse com a sinceridade estampada em seu rosto, fique feliz com ela — achei que pudesse saber onde ele estava ou pelo menos ter um palpite. Me senti feliz em saber que compartilhamos do mesmo sentimento, Sebastian e eu. Mas agora não adiantava mais, era tarde demais para qualquer coisa, pois ele havia sumido e nenhum de nós podia ficar com o outro, apesar de querermos muito nossas presenças. — Bárbara, eu o conheço há dois dias — falei francamente — não tinha esse tipo de relação ainda com ele. Samanta que estivera calada ao nosso lado todo o tempo durante a nossa conversa, finalmente entrou no assunto e disse com uma mistura de surpresa e traição: — Então você — disse olhando para mim — e o seu chefe — e olhou para Bárbara em lágrimas tímidas — estão juntos?! Fui obrigada a assentir. Bárbara desabou a chorar, as lágrimas rolando pelo seu rosto quase de porcelana de tão perfeito. Seus olhos já estavam visivelmente inchados de tanto chorar e ela veio até mim em sua última tentativa, a mais desesperada, de encontrar o irmão. Ela estava realmente preocupada com o paradeiro dele, pelo visto ele não era de fazer isso e realmente causava preocupação. Eu o conhecia há apenas dois dias, mas parecia que já o pertencia há uma vida inteira, não iria me perdoar se eu fosse a causa de algo r**m a ele, não gostava nem de pensar nisso. — Sabrina… — ela falou em prantos, tentando se acalmar, mas não conseguia mais parar de chorar, agora estava soluçando — por favor… Ela estava prestes a entrar em estado de súplica novamente até que tudo que estava acontecendo foi interrompido por um único som em todo o apartamento, era o meu telefone tocando, Bárbara viu a minha tela do celular quando o coloquei diante de mim e ficou assustada ao reconhecer o número que não estava salvo no meu celular: — É o número dele, Sabrina — ela gritou em prantos com o que estava vendo — Sebastian está te ligando! — ela disse em uma mistura de nervosismo, medo e alívio. Olhei para as duas, em seguida para a tela do meu celular que estava tocando enlouquecidamente. Apesar de tudo que estava ocorrendo, um pânico me percorreu por completo, então perguntei atônita: — O que eu faço agora?
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR