Sebas
Estava em meu quarto, que também era dos meus pais e das minhas irmãs… E por falar nisso, pensei na Luna, por mais chata, implicante e irritante que ela fosse, eu sentia sua falta, até porque não éramos muito acostumados a ficar tanto tempo longe um do outro, será que ela estava se saindo bem em 1957? Será que estava precisando da minha ajuda?
Logo Martininha entrou no quarto enquanto brincava com um carrinho de madeira que papai havia feito pra ela.
- O que você está fazendo? - Perguntou ao entrar no local.
- Nada não.
- Ótimo, então você pode brincar comigo. - Deu um largo sorriso.
- Sabe que eu acabei de lembrar que combinei de sair com a Angela?
- Chato! Você nunca tem tempo pra mim. Mas deixa, não precisa brincar comigo, eu vou é ver TV que eu ganho mais, e só pra tua informação, se um dia você precisar de ajuda com algo, não conte comigo.
Mostrou a língua e saiu do quarto batendo o pé, deixando o carrinho jogado no chão. Peguei e olhei o brinquedo por alguns segundos, coloquei em cima da cama e fui até a sala, onde a garota estava, parecia concentrada em um programa tosco de culinária.
- Martininha, eu vou mesmo sair com a Angela, mas prometo que na volta brinco com você, ok?
- Mentiroso, eu não acredito em você, é sempre a mesma história, ‘’depois eu brinco com você’’, mas o depois nunca chega, tá esperando eu completar 40 anos, é? Depois pode ser tarde, Sebas.
- Prometo que dessa vez será diferente, tá? Já sei, podemos fazer um programa só de irmãos, só você e eu, e vou deixar você escolher o que quiser, prometo. Vai pensando em algo bem legal, ok?
Dei um beijo na testa da garota e sai de casa, acho que se eu não tivesse compromisso com a Angela, eu teria ficado para brincar com a menina, que por sinal, é mais legal e mais divertida que o Martin, pelo menos ela fala bastante em comida e não em astrologia, pois eu achava tão chato quando ele começava a falar de cometas, planetas, meteoros, e blá, blá, blá.
(...)
Me encontrei com Angela em uma praça perto de casa, ela estava sentada em um banco, me aproximei da garota e toquei levemente em seu ombro, fazendo-a se virar para mim.
- Demorei? - Perguntei.
- Não, chuchu. - Ela me abraçou me deixando meio envergonhado.
Desde que Luna foi para 1957, eu busquei conhecer um pouco melhor a nova Angela, e bom, eu sentia falta da antiga, que era tão bonita e fashion, mas ela não era nada carinhosa, tá certo que essa Angela meio que exagera em ser carinhosa, mas pelo menos ela demonstra gostar bastante de mim.
A garota e eu caminhamos pelo parque e tomamos um sorvete, ela que acabou pagando para mim, o que me deixou meio sem graça, pois eu queria ter comprado nossos sorvetes, só que meus pais falaram que não tinham dinheiro para isso, ah, saudade da minha vida de luxo, bons tempos…
Angela e eu conversamos um pouco sobre alguns assuntos, e era estranho, porque eu gostava de estar com ela do mesmo jeito que eu gostava antes dela virar essa Angela.
Fui pra casa pouco após o anoitecer, papai ainda não havia chegado da rua, tinha ido largar uns currículos, já mamãe, estava vendo novela na sala. Fui até o quarto, e vi Martininha deitada na cama, como ela estava de costas para a porta, a garota não viu quando eu entrei. Me aproximei vagarosamente dela e toquei em seu ombro, a menina gritou, o que acabou me assustando, fazendo eu gritar também. A menina, então, se virou para mim e ao me ver parou de gritar, eu fiz o mesmo.
- Você me assustou, Sebas.
- Desculpa. Eu queria saber se você escolheu do que vamos brincar.
- Pode ser de qualquer coisa? - Deu um sorriso travesso.
- Qualquer coisa. Claro, se não houver perigo para ninguém.
Por que eu fui falar isso? Com certeza, Martininha resolveu se vingar por eu não ter brincado com ela antes, pensei que ela escolheria uma brincadeira normal, e não isso, eu fiquei parecendo um palhaço.
- Você está lindo. - Falou ao terminar de me maquiar com algumas maquiagens da Luna.
Me olhei no espelho e gritei ao ver minha cara toda pintada, e ainda não contente, ela colocou um par de brincos em mim, fiquei parecendo uma garota.
- Nunca mais brinco com você. - Falei ao tirar os brincos.
- Ah, foi divertido. - Falou com um sorriso vitorioso.
Fui para o banheiro na esperança de tirar toda aquela maquiagem do meu rosto, demorou um pouco, mas saiu, quer dizer, saiu quase tudo, pois aquela pestinha tinha colocado um batom mate da Luna, e aquela porcaria estava impregnada na minha boca, tentei tirar o máximo que consegui, mas ainda ficou um pouco vermelho. Tá, acho que estou começando a sentir saudade do Martin, pelo menos, ele nunca brincou assim comigo.
- Quando a Luna volta do acampamento? - Perguntou a criança.
- Não sei, querida, mas acho que não vai demorar muito. - Respondeu mamãe, que ria da minha cara de indignado.
(...)
Resolvi ir ao Meia Lua, quando jantei com Angela não pude observar tanto porque era noite e estava escuro, mas parando para analisar cada detalhe, a lanchonete estava tão diferente, as mesas, bancos e cadeiras não eram mais os mesmos, a decoração era outra, até o logo já não era o mesmo, não tinha o brilho de antes, parecia que tudo estava sem vida.
Me dirigi até o balcão de atendimento, e logo um rapaz de cerca de 30 anos veio me atender.
- Pois não? No que posso ajudar?
- Hã… O Seu Luís está?
- Quem? Não tem ninguém com esse nome aqui.
- O Seu Luís, sabe… Um senhor, baixinho, meio gordinho, de cabelos brancos e que parece que está sempre m*l humorado.
- Desculpa garoto, não tem ninguém com essa descrição. - O homem me deu as costas voltando ao trabalho.
- Ah claro, com certeza o Seu Luis deve ser um vovôzinho de uns 100 anos, ou… ou talvez nem esteja mais vivo.
Nisso, avistei Angela entrar na lanchonete, foi aí que pensei em algo. Me dirigi até a garota, que demonstrou ficar muito feliz em me ver e logo pulou em meu pescoço.
Nos sentamos à mesa e então eu resolvi propor algo pra ela.
- Angela, o que você acha de fazer uma coisa bem legal comigo?
- Bem legal, tipo o quê?
- O que você acha de visitarmos a Luna?
- No acampamento? - Perguntou confusa.
- Não, o acampamento é mentira, na verdade ela está em outro lugar, ela está em… em 1957.
- 1957? - Repetiu quase gritando.
- Fala baixo! Quer que o bairro todo escute?
- Como assim? - Falou em tom de voz baixo. - Como isso é possível?
- É uma longa história, mas resumindo… Vovô criou uma máquina do tempo e através dela a Luna foi parar em outra época. Ah, eu também já fui pra lá, é bem legal. Quer ir comigo?
Sem dizer uma mísera palavra, a garota começou a rir de forma estridente, fazendo meus ouvidos doerem, pedi para que ela parasse com isso, e ela parou de rir.
- Você tá mesmo falando sério?
- Estou. Quer ir comigo? Aposto que você vai adorar, vai ser legal. Vamos?
- É, acho que pode ser divertido, se isso for verdade.
- É sim, você vai ver.
Só precisaria dar um jeito de encontrar novamente a Franken TV, pois quando vovô me pegou em sua casa, eu tentei inventar uma desculpa qualquer, mas ele acabou encontrando uma pulseira que minha irmã tinha deixado cair antes de viajar no tempo, e com isso ele deduziu tudo e eu não tive como negar, e por conta disso, ele acabou escondendo a Franken TV em outro lugar, que eu teria que descobrir onde era, mas sei que eu daria um jeito.