- Rica? O que houve com você?
Nisso olho ao meu redor, seu Luis, os funcionários do Meia Lua e todos os demais clientes (cerca de uns dez ou doze), todos, sem exceção estavam imóveis, era como se o tempo tivesse parado, mas por que eu não? Para mim isso não fazia sentido algum.
Sai da lanchonete e notei que todos na rua também estavam parados, o fruteiro, uma senhora que passeava com um carrinho de bebê, duas crianças que jogavam bola na calçada, uma moça que levava um cachorrinho para passear…
Toquei no braço de uma moça, mas ela nem se mexeu, nem piscou, nada… Eu já estava começando a ficar assustada, não sabia o que fazer. Corri até a casa do meu avô e o vi com Isa, os dois estavam se olhando com sorrisos bobos, e ambos também estavam completamente imóveis.
- Sebas? Sebas?
Corri pela casa em busca do meu irmão, mas ele não estava em nenhum lugar. De repente, ele entrou às pressas, ofegante e parecendo muito assustado.
- Luna, Luna… - Pegou um pouco de fôlego. - Que bom que te achei. A cidade parou. Todo mundo virou estátua, estão assim. - Fez uma pose e ficou alguns segundos parado.
- Eu sei, eu estava na lanchonete com o Rica e de repente ele ficou imóvel, e todo mundo que estava no Meia Lua também. Ai, o que será que aconteceu?
- Será que foram enfeitiçados?
- Não foi um feitiço. - Falou Martina surgindo sei lá de onde.
- Ah, tinha que ser você. Como não pensei nisso antes? - Cruzei os braços.
- Luna, Sebastián, o tempo de vocês acabou, está na hora de voltarem para 2023. - Falou a loira.
Eu olhei para o meu irmão enquanto lembrava de tudo o que eu vivi naquele ano tão especial, me arrependi de não ter dito mais ‘’Te amo’’ para o Rica, de não ter saído mais com a Mercedes, de ter perdido tanto tempo com implicâncias da Caro. Mas me lembrei de cada momento que eu vivi e viveria mais mil vezes, como do concurso Christóvão Colombo Tem Talento, as viagens pra Itália, o fato de eu ter conhecido meus avós e de cada momento que vivi com eles, mesmo não sabendo que Isa era minha avó, momentos que eu lembrarei pra sempre. É, acho que havia chegado o momento de me despedir de 1957.
Meu irmão pegou em minha mão me passando confiança, lhe sorri achando lindo seu gesto.
- Martina, o Rica vai ficar bem, né? - Perguntei.
- Vai ficar ótimo. Assim que eu mandar vocês para 2023, vou resetar o tempo, então ninguém mais se lembrará dos saltos no tempo, e nem de vocês.
- O quê? Mas por quê? - Questionei.
- Luna, se eles lembrarem, vão querer dar um jeito de entrar em contato com vocês, vão dar mais trabalho, e sem contar que sentirão bastante saudade.
- É… Pensando por esse lado…
- Prontos? - A loira perguntou.
- Sim. - Respondemos Sebas e eu ao mesmo tempo.
A mulher ajustou a Franken TV, e meu irmão e eu nos posicionamos na frente dela, Sebas apertou delicadamente minha mão, e eu lhe sorri, ainda que estivesse bastante triste com toda essa situação.
E de repente já não estávamos mais em 1957.
Sebas e eu aparecemos no escritório do nosso avô, eu olhei para aquele lugar e estava tão diferente do que era há anos e anos.
- Você está bem? - Perguntou meu irmão.
- Vou ficar. - Sorri tristemente.
Escutamos a voz do vovô, que parecia estar reclamando de algo. Corremos para a sala de onde vinha a voz, e então avistamos aquele velhinho sentado no sofá.
- Vovô! - Falamos em uníssono.
Corremos até o nosso avô e o abraçamos, ele parecia surpreso com nossa reação.
- O que houve com vocês? Parece que não me veem há décadas.
- Quase isso. - Falei.
- Ai, que exagero, vocês ficaram apenas algumas semanas no acampamento. - Ele disse.
- Vovô, o senhor viu a minha maquete do sistema solar?
Sebas e eu nos olhamos sem acreditar no que estávamos vendo, não podia ser. Era ele. Era o nosso irmãozinho, e dessa vez era ele mesmo, do jeitinho que era antes.
- Martin? - Perguntei ainda surpresa.
- Sim, e quem mais seria?
Sebas e eu abraçamos o nosso irmãozinho, que também se surpreendeu com nossa atitude, chegando a perguntar o que havíamos bebido. Ah, eu estava muito feliz por ter meu irmão de volta, e acho que de uma certa forma a estrela cadente que eu vi no acampamento havia atendido o meu pedido.
Em seguida, chegaram mamãe e papai, eles estavam normais, sem roupas chiques e sem roupas esfarrapadas, Sebas e eu também os abraçamos, acho que eu nunca tinha dado tanto abraço em um único dia. E o melhor, era que meus pais haviam voltado a serem aqueles pais carinhosos, e que mesmo trabalhando bastante, ainda conseguem ter um tempinho pra gente.
- Mãe, você sabe da Stef? - Perguntei.
- Ué, ela deve estar na casa dela.
Assim que escutei isso, sai correndo até a casa da minha amiga, queria ter certeza de que ela não estava em outro estado. E quem abriu a porta para mim foi Mercedes, sorri ao vê-la por lembrar todos os bons momentos que tivemos.
- Mercedes! - Abracei a avó da Stef. - Desculpa por não ter me despedido melhor de você.
- Hey, querida, do que você está falando? - Desfez o abraço.
- Nada não. - Sorri. - A Stef está?
- Está sim, tá lá trancada no quarto na frente daquele computador. Pode ir lá.
- Obrigada.
Dei mais um abraço em Mercedes, que sorriu carinhosamente, e então me dirigi ao quarto da minha amiga. Bati à porta e ela concedeu permissão para entrar, e assim eu o fiz. Logo a vi deitada em sua cama mexendo no notebook.
- Oi amiga. - Ela disse.
- Oi. - Sorri, me pondo a abraçá-la.
Eu dormi na casa de Stef nessa noite, acho que tínhamos muito o que conversar, ah, eu contei pra ela sobre os saltos no tempo, e ela achou incrível, embora tenha demorado um pouco para acreditar.
É, acho que a minha vida havia voltado ao normal…