Nova vida

1823 Palavras
Dois dias haviam se passado. Tudo estava normal como antes. Meus pais, vovô e Martin eram os mesmos de sempre. Stef era minha vizinha como antes, e Sebas e eu estávamos indo à escola do nosso tempo. Era como se os saltos no tempo nunca tivessem acontecido. E eu… Bom, eu ainda estava triste, sei lá, era como se eu sentisse que não fazia mais parte de 2023, eu pensava a todo instante no Rica, e em todos os meus amigos. Já era noite, todos já estavam dormindo, eu era a única que ainda estava acordada, fiquei vendo um pouco de TV na sala enquanto o sono não chegava. ‘’Rica, o que será que você está fazendo?’’ - Pensei. Nisso Martina apareceu do nada, me pegando de surpresa, o que fez eu quase dar um pulo do sofá. - O que você quer agora? Eu estou quietinha no meu canto, vou no máximo até o colégio, que por sinal fica em 2023 mesmo. - Luna, me escuta. - Martina se sentou ao meu lado. - Eu não sou uma pessoa má, e eu estou vendo que você está muito triste com tudo isso. Então eu vim te propor algo. Tenho duas opções pra você, mas só é possível escolher uma. Bom, eu posso deixar você ficar em 1957 com o Ricardo pra sempre. Ou… Ou, eu posso trazer sua avó de volta do loop temporal. - Quê? Mas… São duas coisas tão diferentes… E… Eu não sei se consigo escolher. - Você tem 24h para tomar uma decisão, após esse tempo eu voltarei para saber o que você escolheu. Mas pense com o coração, veja o que você realmente quer, pois depois não será permitido mudar de ideia. E do mesmo jeito que Martina apareceu, ela desapareceu como em um passe de mágica. Limpei duas lágrimas que haviam começado a cair, e então escutei alguns passos. Era vovô, que calmamente se sentou ao meu lado. - Tá a bastante tempo aí? - Um pouco, mas o suficiente pra escutar a sua conversa com aquela moça. - Então, você ouviu? - Perguntei surpresa. - Sim, querida. Sabe, logo que você e seu irmão sumiram, eu percebi que a Franken TV havia sido usada, e logo seus pais vieram com a história do acampamento, mas no fundo eu sabia que não era verdade. - Sorri com a fala de meu avô. - Vovô, a Martina, aquela moça que estava aqui, é guardiã do tempo, e ela quer que eu escolha… - Sim, meu bem, eu escutei. Ricardo, né? Você gosta dele? - Muito. - Sorri ao lembrar do garoto. - Ele é demais. - Então, acho que você já tem a sua escolha. - Sorriu docemente. - Mas e a vovó? Eu quero que ela volte. - Oh, meu bem… Eu tive uma vida inteira ao lado da sua avó, fomos tão felizes, curtimos nossa juventude, namoramos, casamos, tivemos uma linda filha, que nos deu três netos maravilhosos. Nós tivemos a nossa história, agora está na hora de você fazer a sua. Sorriu novamente, me deu um doce beijo na bochecha e se retirou em direção ao seu quarto, enquanto eu permaneci mais alguns minutos na sala tentando pensar em qual decisão tomar, e eu mudava a todo instante de ideia. Eu amava o Rica, mas eu também amava a minha avó. Ah, essa escolha era tão injusta, não queria ter que escolher um e anular o outro, queria poder ter os dois, mas infelizmente isso não era possível. (...) As horas se passavam e se aproximava do fim o prazo que Martina havia me dado, e eu ainda não sabia o que fazer. E enquanto eu pensava, Sebas e Angela entraram em casa, estavam de mãos dadas e rindo, acho que haviam feito as pazes, o que me deixou muito feliz. - Luna, os pais da Angela foram jantar fora e voltam tarde, daí convidei ela para dormir aqui, será que ela pode dormir com você no seu quarto? - Claro. - Dei um leve sorriso. - Obrigado irmãzinha. Os dois se retiraram enquanto eu continuava tentando decidir o que fazer, e após pensar muito acho que eu havia chegado a uma decisão. Algumas horas depois, Martina apareceu para saber o que eu havia escolhido. - E ai Luna, pensou bem? - Pensei, e eu já tomei uma decisão. (...) No dia seguinte, um sábado, eu acordei ainda bastante sonolenta, e olhei as horas no relógio, que marcava 10:00, ouvi algumas risadas do andar de baixo e decidi me dirigir até o local. E então tive uma enorme surpresa. - Isa? - Hey, cadê o respeito, garota? - Perguntou em tom de brincadeira. Corri e abracei a minha avó, que me deu um abraço apertado e caloroso. É, acho que eu tinha feito a escolha certa, pois eu não sabia a falta que minha avó me fazia até vê-la novamente. Olhei para vovô que sorria com os olhos brilhando, e o vi gesticular um ‘’obrigado’’, sorri para ele enquanto abraçava a minha avó. Acho que agora a minha família estava perfeita. Isso podia até ser um final feliz se Rica estivesse comigo. Nisso notei Martina escondida no escritório do meu avô, sem que os outros vissem, ela fez sinal para mim me chamando, e então fui discretamente até o local, e entrei sem que ninguém percebesse. - Obrigada. - Acho que você fez uma boa escolha, Luna, a família deve vir sempre em primeiro lugar. - Eu sei. - Falei meio cabisbaixa. - Eu amo a minha família mais que tudo, mas… Eu sinto falta dele. Por favor me diga, como ele está? - Quer ir ver? - Quê? - Perguntei sem entender. - Se quiser você pode ir ver. Dez minutos. Esse é o tempo que você tem, e depois disso, adeus Ricardo, adeus 1957. Você aceita? - Claro. Aceito. - Falei sem pensar duas vezes. - Mas Luna, lembre -se que agora o Ricardo tem outra vida. - Tá bem. Fechei os olhos, respirei fundo por dois segundos e então eu não estava mais em casa. E então eu me surpreendi ao aparecer na Itália, não demorei muito para reconhecer aquela rua, eu já tinha passado por ela quando fui pra Europa com Rica. De repente comecei a ouvir uma música e uma voz que eu conhecia muito bem, segui aquela canção até chegar à lanchonete do seu Lorenzo, onde avistei Rica cantando, enquanto Nico que estava ao seu lado, tocava violão, já Francesca estava sentada em uma cadeira vendo os dois, fiquei atrás da garota sem que ela notasse minha presença e fiquei admirando o garoto, enquanto me segurava para não correr e abraçá-lo. Assim que a música terminou, Rica sorriu e eu fiz o mesmo, ele então correu na minha direção, e eu dei um passo para abraçá-lo, porém Francesca foi mais rápida, se levantou e abraçou o garoto, e então, ele deu um selinho nela fazendo meu coração se partir em mil pedaços. - Olá, posso ajudá-la em algo? - Perguntou o garoto para mim. - Hã… Não, obrigado. Ele deu outro selinho na garota, e eu sai dali, acho que não tinha mais nada para ver, é, acho que eu havia entendido o que Martina quis dizer com ‘’agora o Ricardo tem outra vida’’. (...) Eu estava em casa, recém havia chegado, sentei no sofá e tentei ficar feliz por ver Rica tão bem, mas na verdade eu estava triste por ele não se lembrar de mim. - Onde você estava? - Perguntou vovô ao chegar na sala. - Fui ver o Ricardo. - Ele se sentou ao meu lado. - Mas ele não se lembra mais de mim porque os guardiões reiniciaram o tempo. - Oh, meu bem, não fica assim… - Me abraçou docemente. - Por que você não escolheu ficar com ele? Você o ama tanto. - Vovô, eu fiz o que meu coração mandou. Não seria certo deixar minha avó em um loop temporal pra sempre por conta de um garoto, mesmo esse garoto sendo o Ricardo. - Você é incrível, sabia? - Me abraçou novamente. Ao desfazer o abraço, notei que algo faltava e então coloquei a mão no pescoço e percebi que minha correntinha não estava, o que era estranho porque eu não tirava ela pra nada, pois havia sido um presente da minha avó e para mim tinha um valor muito importante. Eu cheguei a procurar por ela por toda a casa, inclusive no escritório do meu avô, mas não estava em lugar nenhum, onde será que ela havia parado? (...) Algumas semanas haviam se passado. Minha vida estava como era antes, e eu estava tentando não pensar muito em tudo o que vivi em 1957. Sebas, Angela, Stef e eu fomos para o colégio. Os preparativos para o Christóvão Colombo Tem Talento, de 2023 haviam começado, eu não sei se participaria, pois isso me trazia grandes lembranças, mas meus amigos e Sebas falaram que eu deveria participar. Talvez eu participasse. Eu estava pegando alguns livros no meu armário quando noto uma presença se aproximar de mim. - Luna, você fez o dever de Português? - Claro, eu sempre faço os deveres porque sou uma boa aluna. - Dei um sorriso f*****o ao fechar meu armário. - Não tenho culpa se sou bom só em exatas. Você pode me ajudar? - Ai Santiago… Eu até ajudo, mas vou querer algo em troca depois. - O que você quiser. - Deu um sorriso malicioso, fazendo eu revirar os olhos. (...) Eu estava no auditório do colégio. Olhei para aquele palco vazio e lembrei do Christóvão Colombo Tem Talento de 1957. Eram tantas saudades. Escuto alguns passos atrás de mim, mas não me viro para ver quem era. - Eu estava te procurando. Você não vem? - Sebas parou ao meu lado. - Vou sim. Ele se sentou no palco e eu fiz o mesmo. - Eu também sinto falta. - Falou. - Como você sabia que eu estava lembrando… - Luna, eu sou teu irmão. E por mais que eu não seja o melhor irmão do mundo e nem o mais inteligente, eu ainda te conheço como ninguém. E sei que agora mesmo você está triste. - Verdade… Mas eu vou ficar bem. - Claro que vai. E conte comigo para o que você quiser, seja para fugir de casa, ou para m***r aula, ou até mesmo para saltar no tempo… - Obrigada. - Eu ri. - Luna… - Fez uma pausa. - Eu… Eu... Hã... - Eu também te amo, Sebas. - Por que pra você é tão fácil? - Perguntou me fazendo rir. - Vem cá… - Me puxou para um abraço. E ficamos ali, abraçados por algum tempo, não sei quanto, não vi as horas passar, pois naquele momento, eu só queria sentir o abraço do meu irmão, era como se fizesse todas as dores passar.
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