Capítulo 02 - O que você fez, Afrodite?

1208 Palavras
Afrodite Bueno Minha vontade era arrancar Alejandro da face da terra com as próprias mãos. Queria encontrar aquela vädia loira e fazer com que ela sentisse na pele o gosto da humilhação que eu engoli em silêncio por tempo demais. Eu queria que os dois sangrassem. Que engolissem cada mentira sussurrada entre quatro paredes. Cada palavra falsa que me jogaram como se eu fosse estúpida. Eles brincaram com fogo achando que eu era frágil. Mas eu era o inferno em pessoa — só ainda não tinham provado. Mas o que eu fiz? Saí. Tarde da noite. Sozinha. Como uma i****a ferida que precisava respirar para não explodir. O pior? Na pressa, na raiva, no impulso, vesti um maldito moletom dele. Aquele mesmo moletom que ele usava quando dizia que sentia minha falta. Que queria construir algo comigo. Estava impregnado com o cheiro dele — e o cheiro me enojava, mas ainda assim, me fazia chorar ainda mais. Chorar de ódio. De nojo de mim mesma por ter sido tão cega. Por ter acreditado naquela farsa, por ter me esforçado em surpreendê-lo, em ser suficiente para ele, quando a verdade é que ele nunca foi nem metade do que eu merecia. Cinco anos. Cinco malditos anos jogados fora por um cafajeste que nem merecia o ar que respira. Eu tremia. De raiva. De frustração. De dor. Minha cabeça girava com todos os momentos que compartilhei com ele. As promessas. Os olhares. As risadas. Tudo parecia tão real... e agora? Agora tudo não passava de um teatro m*l encenado, uma armadilha emocional. Eu queria gritar. Arrebentar a porta do apartamento dele e enterrar a porrä da adaga no peito daquele traidor. Mas ao invés disso, continuei andando. Sozinha. Perdida em meus pensamentos e engolindo o gosto amargo da decepção. E então... não percebi. A van encostou sem som, sem aviso. Mãos fortes me agarraram. Gritei, tentei reagir, chutei, mordi. Algo foi pressionado contra meu nariz. Um cheiro forte, enjoativo. Tentei lutar. Meu corpo lutou. Mas minha visão ficou turva, minhas pernas cederam. A última coisa que senti foi o moletom dele colado ao meu corpo, como um lembrete c***l da estupidez que foi amar Alejandro. Depois, só escuridão. (...) Minha cabeça latejava, e até levantar a caneca imaginária que parecia pesar toneladas exigia esforço. Meu corpo inteiro estava moído, como se tivesse sido atropelado por um caminhão. A consciência foi voltando aos poucos, como se eu estivesse emergindo de um pesadelo. Mas a realidade que me esperava era bem pior. Fui sequestrada. A constatação caiu sobre mim como um balde de água fria. Tentei me mexer, mas meu corpo não respondeu como eu queria. Estava presa a uma cadeira, braços firmemente amarrados para trás, e uma venda cobrindo meus olhos, mergulhando tudo numa escuridão sufocante. Não sabia onde estava, tampouco quem havia feito aquilo comigo. Mas meu coração acelerou por um único motivo: Interpol. Ninguém sabia... nem Alejandro, nem minhas amigas, ninguém. Mas além de engenheira de computação, eu era uma hacker. E não qualquer uma — eu era uma das mais procuradas pela Interpol. A rainha invisível do submundo digital. Sempre agi nas sombras, com perfeição e anonimato, mas sempre soube que, mais cedo ou mais tarde, eles poderiam me encontrar. Será que era isso? Será que eles finalmente haviam me localizado? Engoli em seco. O medo, verdadeiro e gelado, subiu pela minha espinha como uma serpente. Respirei fundo, tentando manter a calma. Precisava pensar. Precisava agir. Comecei a balançar o corpo para frente e para trás, tentando soltar alguma parte da cadeira, qualquer coisa que cedesse. Nada. Então forcei os pulsos, tentando romper a corda que me prendia. Ardia. A pele parecia querer rasgar, mas continuei. Desesperada, tentei mexer os pés — e nesse movimento, perdi o equilíbrio. Caí no chão com um baque seco. — Vai tomar no cü! — rosnei entre dentes, sentindo a fúria subir junto da frustração. Mas talvez... talvez essa queda fosse útil. A cadeira agora estava de lado. Eu podia tentar rolar, buscar alguma quina, algo afiado, uma borda que cortasse essa merdä de corda. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, senti. Alguém se aproximava. Passos firmes, pesados. A cadeira foi erguida com facilidade, como se eu pesasse nada. Merda. Eu não estava sozinha. — Quem é você? — disparei, minha voz afiada como uma lâmina. Amigável? Nem em sonhos. Eu não era o tipo de mulher que pedia socorro — eu era o tipo que fazia o inferno queimar. — A pergunta certa é: quem é você? — disse uma voz grave, vinda de algum ponto à minha frente. Mesmo naquela situação miserável, meu corpo reagiu de forma traidora. Um arrepio percorreu minha espinha como se a voz dele tivesse me tocado. Era masculina, profunda... carregada de poder, mistério e um tipo perigoso de magnetismo. Mas eu não era tola. Meu lado afrodisíaco (que ironia, não é mesmo Afrodite?) que se calasse. Aquilo era uma emboscada, não uma fantasia sexuäl. — Se me sequestrou, então sabe muito bem quem eu sou — disparei, cuspindo as palavras com veneno. Odiava aquilo. Estar vulnerável. Estar vendada. Odiava não ter controle da situação, não saber o que viria a seguir. Eu era a mente por trás dos códigos, das ações invisíveis. Lá fora, eu comandava o caos. Mas ali... eu era só mais uma mulher presa numa cadeira. Ele riu. Um som gélido, cortante, que me fez odiá-lo ainda mais. E então senti. Sua presença se aproximou como uma sombra — silenciosa, mas intensa. E algo frio e afiado tocou minha bochecha com delicadeza c***l. Uma lâmina. Meu coração disparou, cada batida uma explosão contra meu peito. A respiração ficou presa na garganta. Ele era real. Aquilo era real. — Acha que estou brincando, não é? — murmurou, com uma calma que era pior do que qualquer grito. Não era a Interpol. Eles não faziam esse tipo de abordagem. Jamais colocariam uma faca no rosto de alguém para intimidar. Pelo menos, não oficialmente. Então só restava uma outra resposta. Máfia. E, sinceramente? Eu preferia mil vezes a Interpol. — Eu não sei quem você é, nem por que me sequestrou... mas juro que, se fiz algo contra você, foi sem intenção. — Tentei soar firme, mas havia uma nota sincera no meu tom. Era minha única cartada. Silêncio. Nenhuma resposta. Apenas uma tensão densa, sufocante. De repente, a venda foi arrancada com brutalidade. Meus olhos arderam com a luz repentina, mas assim que consegui focar, vi. Ele estava ali, a centímetros de mim. Alto, de pele bronzeada, maxilar marcado, olhar escuro como a noite — e perigoso como ela. Por um instante, o tempo desacelerou. Meu coração fez questão de bater mais forte, como se quisesse anunciar: perigo, perigo. Ele se afastou lentamente e só então consegui analisar o ambiente. Uma sala fria, feita de concreto cru, com apenas a minha cadeira no centro. Ao redor, pelo menos cinco homens armados até os dentes. Olhos fixos em mim como predadores diante de uma presa indefesa. Eu engoli em seco. Estava cercada. Sem saída. E pior, sem saber o motivo. Eu estava födida. E o mais aterrorizante de tudo? Eu não fazia ideia do que tinha feito para merecer aquilo. O que você fez, Afrodite?
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