Geovana
Não sei de onde tirei a calma.
Somente me virei de costas e escutei a outra saindo de seu transe de enganação.
— Quer dizer que você tem uma namorada, seu cachorro?
— Tem, não. Tinha! — corrijo, ao sair do cômodo.
Escuto os estalos da mão da outra na pele de meu ex-namorado e caminho na direção da saída.
— Espere, Geo, me escute.
Bato a porta ao deixar a casa e vi que a rodinha estava ainda maior do lado de fora, as fofoqueiras, todas elas sabiam que ele estava com outra em seu quarto. Por isso os cochichos e as risadinhas.
Passo por elas sem nem olhar, mas então vejo que seus olhos e risadas não estão mais voltadas para mim e sim para o alto, no segundo andar de onde saí há poucos minutos.
Pedaços de roupas caíam pela janela do quarto. Gritos masculinos e femininos se misturavam. A garota cortava suas camisas, calças, cuecas, meias... tudo... e jogava pela janela do quarto.
Atravessei o portão com a promessa feita a mim mesma de jamais pisar naquele lugar.
Ao chegar no ponto de ônibus, pego meu telefone e sinto o choque do momento passar, a dor começa a me invadir, a realidade começa a se assentar em meu peito e em minha mente e um soluço explode por minha garganta. Uma torrente de lágrimas ganha a liberdade, escorrendo por meu rosto, deixando minhas bochechas molhadas.
Ligo para Nataly que me atende de imediato.
— E aí, sortuda, qual a novidade agora? — Ela fala alegremente, pena que dentro de mim não há uma gota de felicidade neste momento.
— O Willian, Naty, ele estava me traindo... — falo sem conseguir controlar o choro. Agradeço aos céus por estar sozinha no ponto e o ônibus estar demorando a passar.
— O quê? Não acredito, aquele filho da p**a não podia fazer isso com você. Onde está?
— No ponto de ônibus na frente da Vila que ele mora.
— Sai desse ponto, agora, vai para o outro mais a frente. Vou te pegar lá.
— Mas... e seu trabalho, Nataly? Não pode largar o seu salão, assim. — falo já andando para o outro ponto de ônibus.
— As meninas ficam aqui pra mim. Respira fundo, compra uma água e engole esse choro. Não chorou na frente dele não, né, amiga?
— Não, estava em choque demais pra isso.
— Ótimo, ele pode ir atrás de você e te pegar de cara inchada. Compra uma água gelada e lava a cara, bebe e se acalma. Em casa você chora tudo o que puder.
Balanço a cabeça concordando, mesmo sabendo que ela não pode me ver.
— Tudo bem — respondo.
— Ótimo, já estou saindo.
Escuto o barulho das chaves em sua mão, antes da ligação ser encerrada. Faço o que ela falou e compro uma água gelada de um senhorzinho que aparentou preocupação me perguntando se eu estava bem.
Jogo um pouco da água no rosto, mas percebo que é melhor colocar a garrafa mesmo. Seguro-a contra os olhos e bochecha e já sinto refrescar a pele que antes estava quente. Tento afastar da mente o que eu vi, pois sempre que me lembro uma lágrima teima em escorrer.
Alguns minutos depois vejo o carro de minha amiga chegar, um lindo sedan branco que ela batalhou para comprar. Um carro é o meu próximo objetivo, ou era, pois agora estou desempregada.
Ela abre a porta preocupada e vem até mim e me abraça.
— Vem, Geo, entra no carro.
Fiz o que ela pediu, suspiro fundo e conto o que vi. Ela me ouviu, chocada. Nem ela desconfiava de Willian. E eu já estava esquecendo de contar a ela o que mais de r**m aconteceu neste dia.
— E isso não é tudo.
— O que ele fez? Não me diz que ele te bateu?
— Não, Naty. Meu emprego. Contei ao Dr. Carlos sobre meu prêmio e sobre precisar de dez dias, ele disse para eu escolher entre meu emprego e o prêmio.
Ela me observou com seus olhos injetados de raiva.
— Ele não fez isso.
— Fez.
— Processa ele, Geo.
— Ele é advogado, eu posso tentar, mas será difícil. Eu assinei um monte de papel pra ele. Agora até penso em ligar dizendo que me arrependi da decisão.
Desanimada. Libero meus ombros para frente, totalmente derrotada.
— E desistir do seu prêmio, amiga?
— Sozinha, Naty? O que eu vou fazer em um cruzeiro sozinha?
— Conhecer um gato maravilhoso que também esteja sozinho.
Eu ri dela, nunca que em um cruzeiro luxuoso como aquele eu encontraria outro azarado como eu. Pego meu telefone.
— Sem chances, Nataly, eu não vou. Vou é ligar pro Dr. Carlos. Chifruda já é bem r**m, chifruda e desempregada é bem pior.
Ela pega meu telefone e joga no chão do carro.
— Você vai nesse cruzeiro, sim, e vai encontrar um boy lindo lá.
Eu não fazia ideia se Nataly tinha razão ou não, mas o fato é que eu acabaria dentro daquele cruzeiro.