Gosto de Verdade

824 Palavras
O relatório estava aberto na tela, páginas e páginas de texto frio, fotos, datas, números, tudo organizado demais para a bagunça que ele sentia por dentro. Adrian descia com o mouse, quase esperando que, a qualquer momento, surgisse a prova de que tinha razão sobre ela: um depósito suspeito, um amante rico, uma viagem paga, qualquer rastro de oportunismo. Não veio nada. Só hospital, remédio, aluguel vencido. Um restaurante simples herdado da mãe, depois perdido num golpe sujo. Contas de luz atrasadas. Plantões como garçonete. Uma foto dela sorrindo de avental, segurando um prato de comida caseira. Ele ampliou a imagem. O sorriso era cansado, mas verdadeiro. O avental, barato. O fundo, apertado, mais pobre do que qualquer coisa que ele tinha visto nos últimos dez anos. Não havia luxo, nem joias, nem pose de quem sabia usar pessoas. Aquilo irritou mais do que se o dossiê tivesse confirmado que ela era uma interesseira. Ela não é como a Maura. O pensamento atravessou a mente dele e ficou. Adrian cerrou os dentes, fechou o notebook com força demais; o estalo seco ecoou pelo escritório e chamou Marco à porta, discreto como sempre. — Senhor… o almoço está servido. Adrian nem levantou da cadeira. — Onde ela está? — Na cozinha, senhor. Ajudando a Rosa. Claro que estava. Desde que pisara ali, Celine parecia ter decidido infiltrar vida em cada canto daquela casa morta. Ele passou a mão no rosto, como se quisesse apagar a imagem da tela, e falou sem pensar muito: — Manda trazer o que ela fez pra mim. Marco assentiu com um leve inclinar de cabeça e desapareceu, deixando o silêncio e o cheiro de papel quente ocuparem o espaço até a porta se abrir novamente. Quando o prato chegou, alguns minutos depois, veio com um cheiro que não combinava com aquele escritório. Adrian tirou a tampa e o vapor subiu, carregando um aroma que parecia puxar memórias pela gola. Nada de prato montado com frescura, nada de redução disso ou espuma daquilo. Era um ensopado grosso, carne, legumes, cheiro de alho e alguma erva fresca, tudo junto, pesado, quase íntimo. Ele pegou a colher. Levou à boca. O gosto bateu com força, e por um instante rápido demais outra cozinha se insinuou na mente: fogão antigo, uma panela enorme, uma mulher rindo enquanto mexia o caldo. Ele quase ouviu a voz, quase sentiu a mão no cabelo de menino. Piscou. Empurrou a lembrança de volta pro buraco onde guardava esse tipo de coisa. O incômodo ficou. Largou a colher, empurrou levemente o prato pra frente, não porque estivesse r**m, mas porque estava mexendo onde não devia. Quando Marco reapareceu na porta para recolher a bandeja, Adrian já tinha decidido o próximo passo. — Manda ela subir — disse, sem explicar de quem falava. Não precisava. Celine entrou alguns minutos depois, ainda de avental, o cabelo preso de qualquer jeito, o cheiro de tempero grudado na pele. Os olhos foram direto para o prato quase vazio sobre a mesa, depois subiram cautelosos até o rosto dele. — Não gostou? — perguntou, já pronta pra se defender. — Senta — ele respondeu, chamando-a com um gesto curto. Ela sentou na ponta da cadeira, como se uma palavra errada fosse jogá-la de volta na rua. — Foi você que fez — ele disse, mais constatando do que questionando. — Foi. Se não gostou, eu… — ela levantou um ombro, sem graça — Rosa deixou eu mexer na panela um pouco, só isso. Ele podia simplesmente dizer “não gostei” e matar o assunto. Era a reação automática. Em vez disso, ficou olhando pra ela por um momento a mais, o suficiente pra sentir a própria resistência incomodar. — Você tem talento. Não era isso que ele tinha planejado dizer. Celine piscou, sem acreditar. — O quê? — Não vou repetir — cortou, seco, como se uma segunda vez fosse tornar o elogio mais perigoso. Ela respirou fundo, mexendo as mãos no colo. — Minha mãe que me ensinou — murmurou, quase num pedido de desculpa. — Dizia que comida boa é abraço pra quem não tem abraço. Um músculo no maxilar dele saltou. Precisava recuperar o controle daquela conversa. — E ela também te ensinou a vender o corpo? — devolveu, a voz carregada de veneno. Os dedos dela pararam de se mexer. Apertaram o próprio joelho, firme. — Minha mãe nunca soube disso — ela respondeu, cada palavra medida. — E se soubesse, provavelmente ia me odiar. Mas… estaria viva. Aquilo entrou direto onde ele não queria que nada entrasse. Adrian se recostou na cadeira, cruzou os braços, tentando fazer o tom voltar ao lugar de sempre. — Acabou o drama ou ainda falta um monólogo? — provocou. Ela soltou um meio riso, sem graça nenhuma. — Você me chamou aqui pra quê, afinal? — perguntou. — Pra me jogar na cara que eu sou uma p**a enquanto lambe o prato?
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