Capítulo 5

1065 Palavras
A manhã chegou com a precisão de um corte. Eva levantou-se cedo, como sempre. Sua disciplina era uma armadura, e naquele dia ela precisaria de todas. Tomou banho sem pressa seus pensamentos permaneciam claros. Vestiu-se com cuidado cirúrgico: uma calça de alfaiataria impecável, blusa de seda fechada até o colarinho, blazer ajustado. Nada chamava atenção pelo corpo — apenas pela postura. Tudo nela gritava: sou profissional, estou aqui por trabalho, você é passado. O batom era neutro. O salto, sóbrio. O perfume, discreto. Ela não estava ali para seduzir ninguém. Estava ali para lembrar a si mesma quem era agora. Ao cruzar as portas de vidro do prédio onde estava estampado em letras imponentes Santini Enterprise, Eva não hesitou. Caminhou pelo saguão como se já conhecesse cada centímetro. Era assim que gostava de operar — como se tudo lhe pertencesse antes mesmo de tocar. A recepcionista a recebeu com gentileza e, ao dar seu nome, Eva esperava ser direcionada a um dos andares inferiores, onde os departamentos técnicos normalmente funcionavam. Mas não. O segurança surgiu quase de imediato, e disse: — Décimo andar, por favor. Já estão esperando. Décimo. O topo. Ela ergueu uma sobrancelha. Claro. Aquilo tinha assinatura de Marco Santini. Mais um jogo. Mais uma tentativa de se impor. Está me trazendo para perto do trono, Santini? Então veja quem sobe por vontade própria. No elevador, Eva cruzou os braços e manteve o olhar firme no próprio reflexo no espelho da parede de aço. A expressão era inabalável. Mas, por dentro, o coração martelava com mais força do que deveria. Quando as portas se abriram, foi conduzida até uma sala envidraçada no fim do corredor. E ali, pela primeira vez, algo a surpreendeu. Não era Marco quem a esperava. E sim Diego. E Daniel. Diego mantinha o semblante sério. Analisava tudo. Daniel, por outro lado, abriu um leve sorriso e caminhou até ela. — Estamos aqui para lhe dar as boas-vindas — disse, com gentileza. — Em nome do Marco. E de toda a Santini Enterprise. Eva assentiu em silêncio. Era isso que queria, certo? Que Marco mantivesse distância. Que tudo entre eles ficasse enterrado no passado. E ainda assim... o estômago revirou. Frustração? Ou apenas orgulho ferido? Ela mesma não sabia. Daniel prosseguiu, conduzindo-a por um corredor lateral até o escritório reservado a ela. A sala era ampla, com iluminação natural, mobília nova, e uma porta de vidro que dava acesso a uma área de descanso. Havia também um banheiro privativo. — Marco mandou preparar isso para que você possa trabalhar com total liberdade. — Diego foi quem disse, finalmente. — Sabemos que vai passar longas horas aqui. É bom que esteja confortável. — Agradeço. — Eva manteve o tom neutro, polido. O coração já havia voltado ao ritmo normal. Daniel olhou ao redor, satisfeito com o tour, e então fez menção de sair. Mas, antes, virou-se para ela. — Você é Eva Portinari, não é? O mundo parou por um segundo. Diego virou o rosto em direção ao colega, os olhos cortantes. — Cala a boca, Daniel. — O quê? Só tô dizendo o óbvio. Todo mundo sabe. — Daniel deu de ombros, sorrindo, como se nada importasse. — Isso não interessa — Diego rebateu, já caminhando para a porta. — Desde que ela faça o trabalho dela com perfeição. Daniel ergueu as mãos em rendição. Ambos deixaram a sala. Eva permaneceu imóvel por alguns segundos. Aquela era a primeira vez, em sete anos, que alguém falava seu verdadeiro nome dentro de um ambiente corporativo. E mesmo que não fosse uma acusação, doeu. Inspirou fundo. Endireitou os ombros. Caminhou até a mesa e ligou o computador. Tinha um projeto monumental à sua frente. E era só nisso que precisava pensar. Eva caminhava até a mesa determinada a começar o dia, mas parou ao notar a presença inesperada. Sobre a cadeira principal, cuidadosamente posicionada, havia uma caixa preta grande, com um laço vermelho profundo, grosso como fita de cetim. Nenhum cartão. Nenhuma explicação. Ela soube na hora. Marco. Sua mão hesitou por um segundo antes de tocar a superfície lisa. A tensão no peito se expandia como uma faísca prestes a atingir combustível. Com gestos calmos — mas controlados — ela puxou o laço. A fita deslizou como uma serpente. A tampa ergueu-se com um leve rangido. E então o ar foi arrancado de seus pulmões. Ali, repousando sobre um fundo vermelho aveludado, estavam uma algema preta de metal, um chicote de montaria, e uma venda de cetim escuro dobrada com perfeição. Ela fechou os olhos. Mas foi inútil. As lembranças vieram com violência e precisão. Como se Marco estivesse ali, agora. O estalo das algemas se fechando em seus pulsos. O toque firme dele guiando seus braços para trás, o calor do metal invadindo sua pele nua. Seu corpo curvado, exposto, vulnerável — exatamente como ele gostava. E ela também. Sentia o chão frio sob os joelhos, o corpo em expectativa. Marco a contornava como um predador silencioso. O som da respiração dele contra sua nuca a deixava em combustão, antes mesmo do primeiro toque. O chicote vinha em seguida. Mas não com brutalidade. Ele usava com precisão, provocando seu corpo com toques de intensidade calculada — o suficiente para arder, mas jamais machucar. O som do couro cortando o ar fazia seu ventre se contrair. Cada marca deixada era como um selo, uma assinatura. Ela pertencia a ele. Naquele tempo, com toda a alma. E então, a venda. Ele a posicionava com lentidão. O tecido de cetim deslizava sobre seus olhos, cobrindo a visão, silenciando o mundo. Tudo ficava mais intenso: os sons, os cheiros, o calor. Ela não via mais nada — apenas sentia. Sentia os dedos dele passeando por suas costelas, a palma firme contra seu quadril, a respiração entrecortada dele misturada à dela. Sentia quando ele sussurrava em seu ouvido: — Você é minha. E, por um tempo, ela acreditou que sempre seria. Eva abriu os olhos. A caixa ainda estava aberta. As lembranças ainda vibravam sob sua pele. Fechou a tampa com um gesto rápido, quase desesperado, como se o simples ato de esconder os objetos pudesse conter o que pulsava em seu corpo. Era só um presente de provocação. Só mais um jogo dele. Só mais um teste. Ela não permitiria cair. Mas... o corpo dela já havia respondido.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR