Capítulo 4

1126 Palavras
Marcos desceu o elevador do hotel com os ombros tensos e a mente em ebulição. A cada andar que passava, mais firme era a certeza: não iria pressioná-la naquela noite. Ainda não. Eva havia mudado. Estava fria, centrada, perigosa. E se ele forçasse agora, ela fugiria. De novo. O saguão estava vazio, e o motorista o esperava do lado de fora com a porta já aberta. Marcos entrou no carro em silêncio, afrouxou a gravata e soltou o ar com força. Passou a mão no rosto, como se quisesse apagar as últimas horas. Ela não era mais a mesma mulher que o deixara sete anos atrás. E isso o corroía. A Eva de agora era calculista. Independente. O olhar dela o desafiava de um jeito que ele ainda não conseguia decifrar. Mas o que mais doía era o velho padrão se repetindo: ela o acusava sem provas. Sempre. Sete anos atrás foi o mesmo. As fotos íntimas, os escândalos, a fúria dela o acusando de ter vazado tudo. Na época, ele tentou seguir em frente. Tentou cortar tudo. Mas ela apareceu. Em sua porta. Entregue. Submissa. Com o olhar que ele conhecia tão bem, faminta por tudo o que eles compartilhavam. E ele cedeu. Deixou-se levar por um sentimento que agora desprezava: amor. E o que recebeu em troca? Nada. A morte dos pais dela. A fuga. O silêncio. A condenação sem julgamento. Ela nunca investigou. Nunca o ouviu. Só fugiu — como se ele fosse o monstro de todas as tragédias. Marcos olhou pela janela enquanto o carro se afastava. A cidade de Nova York passava como um borrão lá fora, mas o passado estava cristalino em sua mente. Ele podia não ser santo. Era o herdeiro da máfia Di’Angelo. Tinha matado. Mandado m***r. Não se arrependia. Mas aquelas mortes — os pais dela — essas ele nunca ordenou. Na época, ele queria vingança. A mãe dela e o padrasto haviam destruído os Di’Angelo. Arruinaram os negócios da família, minaram suas rotas, jogaram seus aliados contra si até que seus pais fossem mortos. E ainda assim, por amor, ele não tocou neles. Desistiu da vingança. Desistiu de tudo por ela. E Eva o abandonou. Sem perguntas. Sem chance de defesa. Sem volta. Marcos fechou os olhos, sentindo o gosto amargo da memória. O carro seguia, e ele abriu o compartimento ao lado, puxando uma pequena garrafa de uísque. Destampou e tomou um gole direto da garrafa, sem cerimônia. — Amor é coisa pra fracos — murmurou, como um voto particular. Mas nem ele acreditava mais nessa frase. Tentava convencer a si mesmo de que era só obsessão. Que Eva era um troféu perdido que ele queria recuperar. Um jogo de controle que precisava vencer. Ela era um item raro. Um objeto de desejo que escapou das mãos dele uma vez, e que ele se recusava a perder de novo. Sim, era isso. Negócios. Vontade. Domínio. Nada além disso. Nunca mais se permitiria amar. Nunca mais daria poder a ninguém. E muito menos a ela. O carro parou diante de uma mansão cercada por colunas brancas e vigilância discreta. Marcos desceu sem pressa. O uísque ainda queimava na garganta. A casa era de Mel. Ou, mais precisamente, do pai de Mel — um dos banqueiros mais influentes da costa leste. Foi por isso que Marcos aceitou a aproximação dela um ano antes. Mel o perseguia desde os tempos da faculdade, mas ele só cedeu quando precisava. Com as operações da máfia entrando nos Estados Unidos, precisava de rotas seguras. Precisava de favores bancários, de blindagem institucional. Mel ofereceu tudo isso — e ele aceitou se tornar o genro do homem mais útil para seus planos. Mas agora? Nem os negócios vinham antes de Eva. Ele tocou a campainha. Mel abriu a porta com um sorriso largo, os olhos brilhando. — Amor... você veio — disse, antes de se lançar em um beijo. Ele virou o rosto. Ela parou no ar, confusa. — Vamos terminar — disse Marcos, com frieza. A voz baixa, precisa. Uma lâmina. Mel congelou. O sorriso morreu antes de se formar por completo. — O quê? — É isso. Terminamos. Virou-se, pronto para voltar ao carro. O ar atrás dele parecia ter sido sugado da sala. Mel continuou parada. O rosto dela não demonstrava dor. Era outra coisa. Estratégia. Cálculo. Ela não correu atrás dele. Não gritou. Não implorou. Porque ela sabia. Sabia que não adiantava. Sabia que, seja quem fosse a mulher por trás da mudança repentina de Marcos, aquela pessoa tinha que desaparecer. Como aconteceu sete anos atrás. E se ela já fizera uma vez... faria de novo. Um tempo depois , Mel estava sentada na beira do sofá, a coluna ereta, os dedos apertando com força o celular. A taça de vinho repousava intocada ao lado, já esquecida. Desde que Marcos saiu por aquela porta, ela não conseguia pensar em mais nada. Ela havia passado anos se preparando para ser a esposa perfeita. Controlada. Acessível. Sempre no lugar certo, ao lado certo, com a expressão certa. E agora ele simplesmente virava as costas, com aquela frieza cortante, como se nada daquilo significasse coisa alguma? Soltou um palavrão entre os dentes. Aquilo não fazia sentido. Mais cedo, ele estava normal. Duro, como sempre, mas previsível. Distante, sim, mas seu. Do jeito que ela aprendera a lidar. Nada indicava que, horas depois, ele estaria batendo à sua porta só para dizer — sem explicação — que tudo havia acabado. Alguma coisa aconteceu. Alguma coisa naquela noite mudou tudo. E se havia algo que Mel sabia fazer era identificar ameaças antes que se tornassem irreversíveis. Levantou-se devagar e começou a andar pela sala, descalça, com os passos suaves sobre o mármore frio. Pensou no passado — no que fora necessário para chegar até ali. Não foi difícil, na verdade. Bastou um envelope. Jogado no lugar certo, no momento certo. Era só isso. Um gesto pequeno. E ainda lembrava da expressão de Marcos quando ele a confrontou, os olhos brilhando de raiva. Lembrava do jeito que ele a segurou pelo pescoço, o olhar cortante como faca. Achou que ele fosse sufocá-la ali mesmo. Mas as câmeras do prédio a salvaram. Ela explicou com naturalidade: alguém deixara aquele envelope em sua porta, ela não deu importância e jogou no lixo. Nunca pensou que aquilo fosse chegar a alguém. E ele acreditou. Ou, pelo menos, fingiu acreditar. O importante é que a situação se dissolveu. E, com o tempo, ela se aproximou de novo. Um movimento por vez. Discreto. Inteligente. E agora era noiva de Marcos Santini. Ou era. Mel apertou o celular com mais força. Desbloqueou a tela. Se alguém cruzou o caminho dele naquela noite, ela descobriria. E resolveria. Como fez da outra vez.
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