*Narrado através da perspectiva de Baroni*
Baroni havia crescido pulando de galho em galho. Naquela época ainda era conhecido como Lucas, o garoto que nunca teve uma família de verdade, não uma tradicional. A mãe morreu no seu parto, usava dr*gas demais, a pressão subiu e ela teve eclampsia ou algo do tipo, ele nunca soube ao certo, nunca teve muitas informações sobre ela, nada além de uma foto dobrada ao meio que a avó lhe dera após muita insistência da sua parte quando completara uns seis ou sete anos. O pai dele ninguém nunca soube quem era, provavelmente outro viciado, homem o bastante para fazer, covarde demais para assumir. Nenhum caso atípico, na verdade, aquele tipo de coisa acontecia bastante onde ele morava.
Lucas foi criado pela avó materna até os dez anos, ela não tinha muito, mas nunca deixava faltar nada. O alimentava, vestia e educava. Cuidava para que ele tivesse o suficiente para viver bem, mesmo isso custando boa parte da vida dela, que se dividia entre vários serviços prestados nas casas de famílias ricas no centro da cidade. A avó sempre fez questão de lhe dizer como ele precisava estudar para não seguir o caminho da mãe nas dr*gas, ou para não penar como ela própria, dependendo de salário mínimo e da boa vontade dos patrões. Ela nunca cansava de repetir para ele qual era a importância de crescer e se tonar alguém, alguém que lhe desse orgulho.
Ele só conseguia imaginar o que a avó diria se o visse agora, liderando o morro, chefiando tudo, inclusive a entrada e a saída das m*lditas dr*gas que a avó tanto odiava. Imaginava o que ela diria o vendo no comando de uma comunidade inteira, e não da forma moralmente correta que a sociedade costumava ditar. A avó morreria de desgosto, ele sabia. Mas como ela já não estava mais viva, ele não tinha porque se preocupar.
A avó havia morrido quando ele tinha dez anos, a fatalidade foi causada por um ataque do coração, ou ao menos foi o que os médicos do postinho da comunidade disseram a ele no pior dia da sua vida, enquanto ele via o corpo da avó m*l coberto em uma maca no corredor do prédio m*l pintado que atendia as necessidades básicas de saúde das famílias da comunidade. Como Lucas não tinha mais nenhum parente vivo por perto, ou ao menos nenhum que ele conhecesse ou que se importasse o bastante para o procurar, acabou ficando largado no morro. Porque lá não havia a tal história de assistente social ou juizado subindo para buscar os menores de idade das ruas. Então para ele só restavam duas soluções: morrer de fome ou fazer os próprios corres para matá-la.
Como vocês podem ver, ele acabou na segunda opção.
Mas não pensem que foi assim, fácil. Ele levou quase um ano penando na rua. Até via as chances de colar na boca, virar aviãozinho ou ficar de vigia por aí para os homens com cargos mais elevados no morro, mas toda vez que tentava se aproximar, lembrava da avó chorando por conta da d3sgraça em que a sua mãe havia se metido por causa das dr*gas. E com a sua mente de criança e a consciência que naquela época ele ainda tinha, sentia culpa demais para simplesmente atravessar a linha e ir para o lado que a avó sempre se esforçou tanto em o manter afastado.
Só que os meses passaram e a vida de mendigar um lanche e um trocado pelas ruas não estava mais dando certo para ele. Lucas já tinha decidido que iria colar na boca na segunda-feira, quando uma senhora o viu na rua e o levou para casa. Simples assim. Era domingo de noite quando ela o encontrou deitado na pracinha, tentando ignorar o vento frio e o banco duro demais sob as costelas. Ela estava voltando da igreja, usava saia longa, tinha uma bíblia na mão e uma garota da idade dele grudada na barra da saia dela.
Aquela noite foi a primeira vez que Lucas acreditou mesmo que poderia ter alguém lá em cima olhando por ele.
Levou cerca de três anos na paz. A tia que lhe deu abrigo se chamava Luísa, mulher de bem e trabalhadora. Sempre cuidou sozinha da filha e ainda assim achou lugar no barraco para encaixar Lucas. Ela o fez voltar a estudar, lhe dava conselhos e cuidava dele com o mesmo carinho que cuidava da Elisa, a filha dela. Para Lucas era quase como ter uma família, mas no fundo ele sentia que nunca faria parte de verdade daquilo.
Não era ingratidão. Ele sempre teve a maior consideração pela dona Luísa, mas sabia que o que vivia com ela não era absolutamente igual ao que ele viveria caso tivesse uma mãe de verdade desde o começo, não totalmente. E para ele não tinha mais importância, havia ficado bem com aquela história há bastante tempo.
Ele viveu com a dona Luísa e com a Elisa um dos maiores períodos de sossego da sua vida. Era até feliz, mas aí vinha aquele velho ditado, aquele que todo o morador da favela parecia conhecer: Alegria de pobre dura pouco. E a dele, aparentemente, já havia durado demais.
As coisas desandaram de vez. A dona Luísa perdeu o emprego, Elisa entrou na fase da rebeldia adolescente, a dona Luísa só chorava de desgosto pela vida e aí para completar, ela teve o primeiro AVC. Lucas levou um dos maiores sustos da sua vida quando aquilo aconteceu. Era como ver a sua avó passando m*l e o deixando. Ele entrou em pânico. E o pânico pior foi quando Luísa voltou do hospital com um monte de aparelhos implantados no coração e uma pilha de restrições médicas. Tantas que logo ficou claro que jamais poderia voltar a trabalhar como auxiliar de serviços gerais, que sempre foi a profissão dela.
Não se passaram nem seis meses até que as coisas apertaram em casa. O governo, claro, não aposentava Luísa por nada. Elisa começou a namorar um zé dr*guinha da comunidade, o que fazia Luísa surtar quase todo dia, o que levava Lucas ao limite por saber que a tia não podia se estressar ou agravaria o estado de saúde frágil que já tinha. E para completar, o armário ficava mais vazio de alimentos a cada refeição que eles faziam.
O trabalho de Lucas no mercadinho m*l rendia o suficiente para comprar os remédios da dona Luísa, que viviam faltando no postinho do SUS. O dono do mercado não podia lhe dar um salário mínimo com o estabelecimento pequeno que tinha. Lucas não conseguia achar um emprego melhor por ainda ser só um garoto menor de idade e sem estudo completo. O resultado? Ele parou na boca de tr*fico poucos meses depois do AVC de Luísa, sem pensar muito daquela vez. Duvidava que fosse ser alvo de outro milagre como foi o caso da tia o achar na rua como na noite de domingo há anos atrás.
E a partir dali ele decidiu que não tinha mesmo ninguém lá em cima olhando na sua direção. Aquele domingo há anos atrás quando a tia o resgatou no último momento? Lucas decidiu que havia sido apenas um acaso e não a obra de algum ser benevolente.
E foi isso. Ele entrou para o movimento, mas começou de baixo, é claro. Ninguém vira patrão do morro do dia para a noite. A vida não é nem de longe como os filmes fáceis que passam na TV. O primeiro cargo de Lucas na comunidade foi como aviãozinho. Era o trampo disponível para a maioria dos adolescentes que colavam por lá de primeira. O trabalho que poderia acabar em laranjada, se vocês querem saber. Mas ele precisava do dinheiro, e você pode não acreditar, mas trabalhar de aviãozinho dava a Lucas quase o dobro do que ele ganhava no mercadinho suando e carregando fardos de alimentos a semana toda.
Enquanto ele era aviãozinho, a tia Luísa não sabia de nada. Lucas havia inventado um trampo imaginário em um mercado mais longe, e como o barraco da dona Luísa era quase no meio do morro, ela nunca o via na parte mais baixa, fazendo os corres, vendendo para as pessoas do asfalto que iam comprar.
Quando ele completou dezesseis anos, foi promovido a olheiro pelos bons serviços. Sinceramente, na opinião de Lucas, foi uma promoção de m*rda. Mas tudo bem, porque ele ganhava mais. Só que aí o trabalho ficou mais difícil de ocultar da tia Luísa. Não dava para ser olheiro só nas horas vagas do dia, era uma atividade que deixava a pessoa à disposição da escala. E os caras com posição mais alta no comando tinham preferência de mandar Lucas vigiar a noite, porque sabiam que ele não ficava vacilando.
Os olheiros normalmente eram posicionados perto da entrada do morro, os menos suspeitos vagavam por lá. Os que tinham cara de flagrante, como Lucas, ficavam de tocaia nas lajes dos barracos em posição estratégica. A missão era simples: eles observavam e apitavam no radinho sinalizando qualquer movimentação estranha, principalmente dos policiais. Era um trabalho arriscado, porque os olheiros podiam m*rrer facilmente por qualquer vacilo. Se fossem pegos pelos policiais, era interrogatório e vala. Se dormissem no trabalho e deixassem algo passar, era p*rrada e vala. Por isso ele achava que havia sido uma promoção de m*rda, entende? Mas Lucas fazia o que o mandavam fazer, porque sempre soube que para chegar onde ele queria, teria de subir degrau por degrau. E ele sempre quis chegar no topo.
Como o trabalho não tinha hora, ele teve que abrir o jogo com a tia Luísa. Tentou contar de uma forma mais suave, até levou chocolates para ela, para acalmar a fera. Para a sua surpresa, ela disse que já sabia, com lágrimas nos olhos, e que estava orando por ele. E aquela reação o deixou ainda pior do que ele imaginava que ficaria caso ela gritasse com ele. Vê-la chorar quase o fez querer desistir, só que aí ele lembrou dos remédios dela, dos que a mantinham viva, lembrou da sensação desesperadora que foi perder a avó para aquela mesma doença, e voltou para o próximo turno no morro naquele mesmo dia.
Foi trabalhando como olheiro que Lucas conseguiu a sua primeira promoção de responsa. Em uma tarde de calor, ele estava na laje de olho no movimento dos caras na contenção quando viu dois carros se aproximarem da entrada da rua principal que levava a subida do morro. Daria para passar despercebido se os vidros das janelas dos veículos não estivessem fechados e as placas não fossem estranhas. A verdade é que ninguém se aproximava da barreira com carro desconhecido de vidro fumê todo fechado se não tivesse uma má intenção por trás, porque todo mundo sabia que fazer algo assim era o mesmo que pedir para levar bala.
Assim que notou os carros, ele pegou o rádio para dar sinal aos caras lá em baixo, que estavam empolgados demais assobiando para algumas garotas que voltavam do colégio. O bendito do rádio não funcionou.
Você não tem noção do que é ter adrenalina e medo correndo nas veias. Naquele momento Lucas sabia que tinha de dar um jeito de avisar sobre os carros ou sofreria a retaliação mais tarde, quando a coisa desse m*rda. Por isso não contou conversa, desceu da laje como um louco, pulando na cobertura de baixo e caindo agachado no chão. Nem ligou para a dor no tornozelo que veio com o impacto, sabia que o carro iria chegar na contenção mais rápido que ele. Correu como um condenado e gritou no exato momento em que os carros aceleraram. Os caras na contenção se deram conta do caô que estava prestes a acontecer assim que ouviram o seu grito, já erguendo as armas. E aí a coisa ficou feia. Lucas levou o seu primeiro tiro naquela tarde. No entanto, a recompensa veio no dia seguinte, quando o próprio gerente da boca foi lhe cumprimentar e dizer que pela sua atitude, ele seria promovido a vapor.
Lucas comemorou por dentro e manteve a fachada séria por fora, fez cara de durão, por saber que naquele lugar ficar de sorrisinho não trazia respeito a ninguém. Mas a verdade é que foi um alívio deixar o posto de olheiro. Ele até ganhou uma folga de sete dias para se recuperar da b*la que atravessou o seu ombro. Sem danos colaterais, voltou para a boca na semana seguinte, ainda com o ombro enfaixado, para pegar as dr*gas e vender.
Como vapor ele passava mais tempo no alto do morro, o que diminuiu bastante a sua conivência com a dona Luísa e a Elisa, no entanto, se o novo cargo serviu para algo, foi para botar ordem nas coisas. Não só para ajeitar o barraco da coroa que lhe dera abrigo por todos aqueles anos, mas também para mandar logo o papo para os carinhas que queriam se engraçar com a Elisa. Não dava para ele cantar de g**o para cima dos outros caras da boca, mas tinha como garantir que com zé dr*guinha ela não ficava mais.
Claro que a Elisa ficou p*ta com ele de primeira, passou semanas sem falar com ele. Lucas deixou, os dois eram como irmãos e ele sabia que uma hora ou outra ela voltaria a encher a sua paciência como sempre. E não deu outra, bastou o zé que ela namorava meter um filho em uma outra garota do morro, para ela vir cheia de dentes o agradecer por a livrar daquela roubada.
Depois de virar vapor, Lucas não foi mais promovido na hierarquia, mas foi ganhando o seu espaço. Colava no gerente sempre que tinha chance, dizia que estava interessado em ajudar, e assim, sempre que surgia coisa boa o gerente o incluía no meio. Foi o gerente quem o colocou para fazer treinamento de t!ro com os soldados, mesmo a sua função não sendo a de trocar t!ros nas invasões. O gerente o arrastava para cima e para baixo pelo morro como se ele fosse parte dos que faziam a sua segurança e, por fim, apresentou Lucas ao antigo patrão da comunidade, o temido Têga.
Você tem que saber que é preciso chegar nos lugares com jeitinho, pisando devagar até ganhar o seu espaço. Foi isso o que Lucas fez. A cada dia se tornava mais chegado aos caras do topo, todo mundo sabia da sua lealdade e da sua eficiência. Todo mundo sabia que ele colava no gerente e ajeitava os trampos com ele. Por isso, quando fizeram o gerente de peneira em um tiroteio de trairagem no barraco dele do asfalto, o patrão não pestanejou antes de designar Lucas para ocupar o cargo vago.
Isso mesmo, em oito anos ele havia ido de aviãozinho à gerente. E levou só mais dois anos e meio para chegar no topo. Virou patrão quando o Têga morreu nos seus braços depois de ser alvejado em uma invasão dos policiais. Lucas até tentou salvar o cara, tirou o corpo do lugar onde caiu, o levou para o barraco de uma coroa que só sabia gritar no seu ouvido no desespero... Mas não deu jeito, o cara morreu, passando tudo para ele. Àquela altura Lucas nem queria mais chegar no topo, estava satisfeito na gerência, ganhando o bastante para comprar casa e carro e dar tudo o que a Luísa e a Elisa precisavam. Mas o patrão lhe passou o comando e fez isso na frente dos aliados que estavam sendo solenes aos seus últimos momentos. Então Lucas assumiu. Deixou de ser Lucas de uma vez por todas e passou a ser Baroni, nome chique, italiano. A Elisa que inventou, disse que significava combatente. Lucas achou mesmo que combinava com ele, e mesmo se não combinasse, ele aceitaria só por ter sido ideia da pentelha que ele sempre considerou a sua irmãzinha.
Uma pentelha que lhe dava trabalho até agora, depois de ser mulher feita.
Ele estava no morro, na base, na visão, porque ser chefe não significava ser otár*o e deixar tudo de qualquer forma, quando recebeu uma chamada no celular particular. Achou estranho a tia Luísa estar ligando às duas da tarde, ela nunca ligava naquele horário, na verdade, ela nunca ligava a menos que fosse importante. Mas ele entendeu o motivo da ligação assim que ela começou a falar em meio ao choro.
Elisa havia sofrido um acidente de carro com uma garota do asfalto e estava em um hospital público. Baroni não contou conversa, a única coisa que fez antes de levantar e deixar tudo para trás, foi avisar ao seu braço direito que estava metendo o pé. Depois disso ele montou na moto descendo em alta velocidade até o tal hospital, que para a sua sorte ficava bem perto da saída do morro. Não que nas suas condições pudesse ficar passeando por ali, mesmo tão perto. Só que Baroni não estava dando a mínima para aquilo enquanto imaginava o estado da irmã. No fim das contas, não importava o que podia acontecer, família era família, e ele não deixaria a sua abandonada em um hospital qualquer.