Capítulo 1 - Justiça falha

1868 Palavras
Alguns meses antes... *Narrado através da perspectiva de Camila* Camila era o orgulho da família Garcia, uma das famílias mais tradicionais e admiradas do país. Ela, aos vinte e três anos, era basicamente a imagem de bons modos e educação na alta sociedade. O seu comportamento era impecável, o modelo do que eles denominavam “filha de ouro”. E a sua aparência era o exemplo dos sonhos de qualquer diplomata: um e setenta de altura, pele bem cuidada, cabelos hidratados e sempre bem penteados, roupas de marca, mas sempre dentro do bom senso. Nada de mostrar demais, porque ela não era nenhuma oferecida, segundo o seu pai, mas também sem mostrar de menos, porque não poderia se tornar uma mulher sem sal, segundo a sua mãe. Camila viveu basicamente todos os primeiros vinte e três anos da sua vida sendo moldada completamente pelos desejos dos seus pais. Acredite, não era fácil ser filha de pessoas tão perfeitas e bem sucedidas como eles. O pai era tenente coronel da polícia militar do estado, responsável pela maioria das ações bem sucedidas contra o tráfico de drogas local. A mãe era uma agente federal temida, envolvida em várias operações contra o tráfico nacional, além do combate a corrupção e milícias, conhecida por não deixar passar nada quando estava no comando de uma operação. A mídia adorava os seus pais. A classe alta adorava os seus pais. E todas as pessoas ao redor de Camila faziam questão de exaltar o sucesso deles, o casal bem-sucedido que contribuía para a justiça do país. Todos faziam questão de lembrá-la de como precisava se esforçar para manter o progresso e sucesso do nome da família. Apesar da fama dos pais, por questões de segurança, Camila havia crescido longe da exposição da mídia. Todos sabiam que o casal de policiais tinha uma filha brilhante, mas ninguém de fora do seu círculo social tinha ciência de como ela era fisicamente, o que não diminuía a cobrança dos pais em cima do desempenho, aparência e comportamento da garota. Afinal de contas, eles sempre tinham aquela velha obrigação não verbalizada de impressionar os seus “amigos” da alta sociedade. A obrigação de vencer a disputa silenciosa entre eles sobre quem era ou não a melhor família do círculo. E Camila, que nunca pedira para fazer parte do tal círculo, se via presa naquela disputa infinita de poder e status social. Ela foi criada com rigidez, educada na maior escola militar do estado. Com dezessete anos estava entrando na faculdade, queria cursar filosofia, mas o pai achava que filosofia era coisa de hippie e a mãe acreditava que filosofia era profissão de preguiçosos sem ambição. Por isso ela acabou entrando para a faculdade de contabilidade, algo rápido e útil que não atrapalharia os planos de se tornar delegada o quanto antes. Planos dos seus pais, é claro, como você deve imaginar. Ela nunca gostou muito da ideia de virar delegada, na verdade. No começo até achou legal, a hipótese de ser uma mulher comandando uma delegacia cheia de marmanjos, falando e vendo a sua palavra virar lei... mas isso foi até os seus dezoito anos, quando se deu conta de que passar a vida em um escritório não era mesmo a sua vocação. Por coincidência, foi nessa idade também que descobriu como o título de agente da lei não significava muita coisa na vida real no país em que morava. A justiça era uma palavra bonita de falar, mas raramente colocada em prática. E essa verdade só começou a ser revelada para Camila após o seu aniversário de dezoito anos, logo depois de se ver abandonada por seu pai, que deveria valsar com ela na festa enorme que ele mesmo lhe proporcionou. Vejam bem, na época ela ainda era uma filhinha de papai mimada e egocêntrica que achava que boa parte do mundo girava ao seu redor, e assim, na madrugada do dia seguinte à festa, ficou tão chateada com a ausência do pai que decidiu ir até ele falar tudo o que sentia. A intenção dela naquela noite jamais foi acabar ouvindo a conversa do pai atrás da porta. No entanto, ficou meio difícil ignorar as palavras que ele bradava ao telefone. E foi essa conversa ouvida sem querer que abriu os seus olhos para todas as outras imperfeições que achou na sua família modelo depois dali. O pai se envolvia com propina, ela descobriu naquela noite mesmo. E pareceu que a descoberta foi a deixa para uma avalanche de outras descer sobre a sua cabeça. Em três anos ela teve conhecimento de muitas coisas ocultas sob a fachada de família tradicional que os pais sustentavam. Camila era ótima em seguir rastros, quando realmente queria saber da verdade. Descobriu traições no casamento dos pais, armações de flagras para pessoas que sequer estavam envolvidas em nada, acordos duvidosos e cheios de lucros com políticos em troca de uma “falta de atenção a detalhes em uma operação”. Mas o auge foi descobrir que o pai tinha outra família, e que faltara à valsa dos seus dezoito anos porque estava com a amante gravida de cinco meses, a mesma mulher que agora era mãe de um bebê de cinco anos que Camila provavelmente jamais conheceria. Aquela descoberta a fez querer explodir, jogar toda verdade na cara dos pais, abandonar a faculdade de contabilidade e se tornar mesmo uma filósofa hippie, se possível, uma que ficasse conhecida, para acabar de vez com a imagem da família. Camila só não sabia como fazer algo assim. Não a julguem, ela havia sido criada e educada sob uma redoma de proteção e regras. Não fazia ideia de como se revoltar. Não tinha muita experiência em aborrecer os pais, como você pode imaginar. Por isso foi descobrindo aos poucos, ao lado das amizades que arranjou na faculdade. O seu primeiro ato patético de revolta foi virar a noite bebendo em um bar de quinta categoria da cidade. Foi péssimo. Ela vomitou, deu vexame, chorou na frente de um bando de desconhecidos e no fim sequer foi vista pelos pais, que haviam viajado, cada um a mando do próprio trabalho. Depois disso ela descartou a ideia da bebida, não era para ela. Tomar aquela coisa quente que queimava na garganta e depois a deixava completamente s*******o? Não mesmo. Ela sequer entendia porquê havia gente por aí que gastava dinheiro com algo assim. Riscando a bebida da lista, partiu para outras estratégias, mas nada dava certo, na verdade, ela não fazia ideia do que achava que seria o “certo” nessa situação. E era covarde demais para partir para medidas extremas como, por exemplo, usar dr*gas ou sair por aí dormindo com qualquer um. De qualquer forma, a raiva pela descoberta do bebê do pai foi passando e ela foi aquietando o ânimo... até descobrir mais e mais podres. Então voltou a sentir aquela vontade infundada de magoar eles também. Só que levou mais de um ano para o seu próximo grande ato de rebeldia acontecer. Dois dias após o seu aniversário de vinte e três anos, decidiu ir a uma festa com uma “amiga” da faculdade, uma patricinha loira que a levou em uma boate nova. A patricinha queria o filho do dono da boate, o filho do dono da boate queria Camila. E como resolver essa equação? A patricinha e o filho do dono da boate a dr*garam. Pois é, acredite, esse tipo de coisa acontece bastante no mundo real. Em um momento ela estava dançando no meio da pista, fingindo não ser ela mesma entre aquele monte de gente bêbada e suada, no momento seguinte estava bebendo algo que a amiga trouxera, e depois... bom, depois tudo virou euforia, tontura e adrenalina nas veias. As luzes da boate pareciam grandes bolas dançantes acima da sua cabeça e envolta do seu corpo, o calor emanava dos seus poros e as pessoas ao redor pareciam mais brilhantes e engraçadas do que nunca. E Camila mergulhou naquelas sensações até o seu corpo começar a amolecer e ela sentir os braços fortes de alguém a guiando por escadas. Camila acordou em um quarto luxuoso com um espelho no teto que permitia que si visse por inteiro. Assim que ela abriu os olhos, o seu reflexo deplorável e despido na cama a atingiu como um golpe no fundo do estômago. Ela se sentou tão rápido que acabou ficando tonta e vomitando sobre o lençol. Mas o que a deixou extremamente apavorada foi a mancha de sangue no tecido branco abaixo do seu corpo e o ardor no meio das suas pernas. Ela vomitou novamente, e depois mais três vezes antes de conseguir respirar e entender o que havia acontecido. Você deve imaginar que àquela altura não havia sinal de amiga na festa, certo? Na verdade, sequer havia uma festa. Quando Camila foi capaz de encontrar as suas roupas pelo quarto e se vestir com as mãos trêmulas que mais atrapalhavam do que ajudavam, achou o caminho de volta ao espaço geral da boate no andar de baixo e viu que tudo estava vazio, exceto pelos funcionários limpando o espaço. Foi um daqueles funcionários, uma mulher de cabelos brancos, pele n***a e sorriso amigável, quem lhe ofereceu um copo com água e tentou a confortar mesmo sem saber o que exatamente a fazia chorar desconsolada. Com o celular descarregado e muita coisa tomando os seus pensamentos, tudo o que ela fez foi entrar em um Uber e dar o seu endereço ao homem que a olhava com preocupação e receio pelo espelho retrovisor do carro. E foi assim que ela chegou em casa despreparada para a sessão de esporro que tomaria dos seus pais. É claro que ela não tinha visto as dezenas de ligações deles. É claro que havia ignorado as centenas de mensagens ameaçadoras que enviaram. Tudo isso enquanto o seu celular estava descarregado e a sua mente estava em uma viagem alucinada causada por dr*gas que ela sequer sabia que havia consumido. Mas dessa última informação os pais não sabiam, e, por isso, não viam motivos plausíveis para terem sido ignorados. Aos vinte e três anos, Camila foi colocada de castigo. E como em todas as outras vezes, não retrucou. Por que retrucaria? Os pais a bancavam completamente, desde a alimentação às roupas caras e à faculdade em que cursava o último ano do ensino superior. Ela dependia deles. E aprendeu desde muito cedo que devia obediência inquestionável as pessoas que a sustentavam. Além disso, estava mais preocupada em descobrir o que acontecera na noite anterior, mesmo já imaginando o que havia passado. Ao longo do dia, novos flashs vinham na sua mente. Mãos no seu corpo, bocas na sua. E então o flash daquela dor horrível entre as pernas e da mão de um homem tapando a sua boca para abafar os seus gritos e protestos fracos. Ela achou que jamais fosse parar de chorar depois daquilo. Mas parou. E como cresceu ouvindo dos seus pais que nunca deveria deixar o outros a machucarem sem reagir, arrancou o celular do carregador e abriu no w******p, direto na conversa com a amiga pat que a arrastou para a boate.
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