Processo Natural

1449 Palavras
— Foi uma semana bem chuvosa. – Vovó comenta enquanto me serve uma xícara de chá. — Não pensei que fosse chover a semana inteira. – Dou um sorriso agradecido ao receber a xícara. — Desde que você chegou, não teve um dia de sol. – Vovó senta no sofá. – Já deve estar cansada de ficar só em casa. — Realmente não era assim que pensei que seriam as minhas férias. – Rio sem graça. — Hoje não está tendo tempestades como nos outros dias. – Ela sorri amigável. – Você poderia aproveitar para ir à cidade. — Eu estou bem. – Sorrio envergonhada. – Quero aproveitar minhas férias ao seu lado, vovó. — Ainda teremos muitos momentos juntas. – Ela sorri amigável. – Não se preocupe comigo, aproveite o dia para rever seus amigos na cidade. Sorrio observando vovó beber seu chá. Ela sempre estava tão preocupada comigo, sempre querendo me ajudar a aproveitar a vida ao máximo. Eu a amava mais que tudo no mundo. Escuto a voz de Ícaro se aproximando e, ao vê-lo entrar na sala, não consigo disfarçar meu descontentamento. Seus olhos negros me estudam por alguns segundos, seu rosto estava sem expressão, algo que me impedia de analisá-lo. — Querido, não sabia que estava em casa. – Vovó fala alegre ao perceber sua presença. Ícaro sorri, algo que me parece sincero. Ele anda até o sofá e beija a mão da vovó. — Vim dar uma carona para o Ricky, aproveitei para ver como a senhora estava. – Sua voz é calma e doce. — Estou bem, meu querido. – Ela sorri e passa sua mão na bochecha de Ícaro. Ícaro fecha os olhos apreciando o carinho. Um sentimento confuso surge dentro de mim e a angústia cresce à medida que vejo a troca de carinho entre eles. Era estranho ver como ele era uma pessoa boa com minha avó e como ela o considerava um neto, era como se ele fosse mais íntimo da família do que eu mesma. Odiava admitir, mas talvez ele tivesse razão quando disse aquelas palavras sobre mim. Me assusto ao ver que Ícaro sentou no braço de minha poltrona. O cheiro de seu perfume percorria toda a sala. — Soube que vocês andam brigando muito. – Vovó fala enquanto serve uma xícara de chá para Ícaro. Ícaro e eu nos olhamos por alguns segundos. Era possível ver a surpresa e desespero em seus olhos negros. Podíamos ter muitas coisas contra o outro, mas algo que tínhamos em comum era o amor por minha avó. Sei que ele não queria machucá-la ou causar qualquer tipo de situação que piorasse seu estado de saúde. — Então? – Vovó fala com autoridade. – Estou esperando uma explicação de vocês dois. — Bem… eu… eu – Ícaro gagueja envergonhado. — Não é nada de que devam se preocupar. – Seguro seu pulso, interrompendo-o. – A senhora sabe como Ícaro e eu somos, desde sempre temos essa forma caótica, mas não é nada demais. Ícaro parece relaxar, seus olhos encontram os meus rapidamente antes de ele começar a falar. — Anna e eu temos esse jeito de nos relacionar. – Ele bagunça meu cabelo. – Mas ela sempre será a pirralha chata dessa família. Empurro sua mão e lanço um olhar duro. — Vocês nunca mudam. – Vovó n**a com a cabeça e ri. — Coisas boas nunca mudam. – Ícaro diz sorrindo. Vovó olha para seu relógio de pulso e suspira antes de beber um gole de chá. — Pelo jeito, seu primeiro irá se atrasar para me acompanhar ao centro médico. – Ela disfarça o desânimo de sua voz. — Centro médico? – Ícaro gagueja. – A senhora está bem? Vovó sorri e se estica para acariciar o rosto de Ícaro, que suspira. — Estou indo apenas para realizar a organização dos grupos. – Ela volta ao seu lugar. Desde muito nova, vovó era responsável por liderar os grupos de trabalho voluntário da cidade; era impressionante como mesmo doente ela ainda fazia sua função com tamanha felicidade. — Eu posso acompanhar a senhora. – Ícaro sugere prontamente. Tento disfarçar meu descontentamento por vê-lo tão empenhado em ajudar a minha avó. Oliver passa por nós correndo e acaba derrubando um vaso de cerâmica. — Meu Deus do céu… – Vovó leva a mão à testa. – Essa criança ainda vai acabar se machucando desse jeito. Dou uma risada baixa de seu comentário. Apesar da seriedade da situação, não deixava de ser engraçado ver como ela lidava com as coisas. — Ele não é tão agitado como o Ross nessa idade. – Vovó fala antes de rir. – De todos os meus netos, Ross e Oliver foram os mais agitados na infância. Sorri lembrando de minha infância; Ricky e eu éramos bem próximos, vivíamos ajudando a vovó a cuidar dos animais no rancho enquanto tio Daniel estava em seu trabalho. — Oliver, meu amor. – Chamo o pequeno que para de correr e sorri. — Oi, tia. – Ele se aproxima com um sorriso grande em seu rosto. Suas bochechas estavam vermelhas, e seus fios de cabelo grudados em sua testa pelo suor. Ofegante, ele para ao lado da minha poltrona, e seus grandes olhos me observam atentamente. — Você sabe que não devemos correr dentro de casa, não é? – Pergunto depois de beber um gole de chá. — Eu sei… – Oliver fala sem ânimo. Seus olhos brilham, e seu sorriso se transforma num biquinho. — Desculpa. – Ele diz triste. — Você já derrubou várias coisas, até quebrou um vaso. – Suspiro olhando em seu rosto. – Sabe que isso não é legal, não é? Oliver olha para seus pés e balança a cabeça, confirmando que entende a situação. — Vamos arrumar essa bagunça. – Digo com calma. – Eu vou jogar fora esses cacos, e você coloca de volta no lugar todas as coisas que deixou cair. Ele faz uma expressão divertida que denuncia seu descontentamento com minhas ordens. Mesmo assim, o pequeno balança a cabeça, confirmando. — Depois você vai tomar um banho. – Seguro meu nariz e faço uma careta. – Você está fedorento! Seus olhos brilham novamente, e sua risada fofa preenche a sala. Percebo que Ícaro estava me encarando, e isso me faz corar. — Você sempre teve jeito com crianças. – Vovó fala orgulhosa. Vovó estuda meu rosto com seus olhos claros, uma expressão séria surge em seu rosto. Tentava adivinhar seus pensamentos, temia que ela soubesse a verdade sobre minha relação conturbada com o Ícaro. — Queria estar viva para vê-la com meus bisnetos. – Sua voz é triste. Meus olhos se arregalam, e sinto meu coração acelerar. Lágrimas rolam pelo meu rosto, e um nó se forma em minha garganta. — Não diga isso! – Minha voz falha. Limpo minhas lágrimas de forma bruta e sinto minha garganta se apertar enquanto meu estômago dói devido ao nervosismo. — Você ainda vai viver tempo o suficiente para me ver arrumar alguém especial, me casar e formar uma grande família. – O desespero é evidente em minha voz. Vovó passa sua mão em meu rosto de forma afetuosa, um sorriso calmo surge em seus lábios. — Minha querida, lamento suas lágrimas. – Seu polegar seca o meu rosto. Nossos olhares se encontram, e consigo sentir sua paz. Ela já havia se conformado com seu destino. — Mas você sabe que isso não é verdade. Não se engane, a ilusão é bela, mas a decepção é amarga. – Vovó fala de forma tranquila com um sorriso em seu rosto. Me afasto e n**o com a cabeça. Levanto da poltrona e abraço meu próprio corpo. — Não, isso não é verdade. – Falo balançando a cabeça em negativo. — Minha querida, isso é um processo natural da vida… Eu… – A interrompo. — Não diga que isso é natural! – Grito apontando para seu rosto. – Você pode ter desistido, mas eu nunca vou desistir! — Anna… eu… – Ela tenta se aproximar. — Não, não adianta insistir! – Recuo um passo. – Não venha novamente tentar me convencer de que isso é algo natural, parte do plano divino, pois eu nunca vou cair nesse papo religioso! Meus soluços preenchem a sala. Seu rosto estava calmo, ela já havia se conformado com seu destino, não iria mais lutar. Não entendia, na verdade eu me recusava a entender tal pensamento. Nunca ia aceitar que ela iria se entregar assim, não depois de tudo que passou e de tudo que vi essa mulher fazer. — Não adianta… – Sussurro. – Nada que eu fale fará diferença. Corro para fora da sala, ignorando sua voz me chamando.
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