Rose me abraça e sinto seu beijo na minha bochecha, meus braços a envolvem, e me permito chorar tudo o que segurei esses dias. Minutos passam até que eu a soltasse; seus olhos tinham compaixão, ela era pura, uma pessoa boa, amava isso nela. Ross beija minha testa, e dou uma risada fraca com a nostalgia que seu olhar preocupado me passou; era o mesmo olhar que ele me dava na minha adolescência quando algo abalava meus sentimentos.
— Acho que você precisa de uma bebida, isso sim. – Rose diz em um tom humorado.
Ross a repreende rapidamente, fazendo-me rir com seu jeito protetor. Ele odiava que nós duas ficássemos perto de bebidas alcoólicas, pois sempre ficávamos bêbadas e fazíamos coisas bem constrangedoras.
Dou uma risada perversa ao me lembrar que o estoque de bebidas da vovó estava sem supervisão, e Rose sabia exatamente onde ela escondia a chave.
— Que tal a gente beber um pouco do whisky caro da sua avó? – Rose pisca enquanto ri.
Sua sugestão tentadora parecia uma ideia vinda diretamente do demônio. Se a vovó nos visse com sua preciosa garrafa de whisky Dalmore 62 em nossas mãos, nem sei que atrocidade ela faria conosco. Esse whisky era mais caro do que minha cobertura no Rio de Janeiro, até mesmo mais caro do que meu carro e meu apartamento juntos! Existiam apenas 12 garrafas de whisky Dalmore 62 no mundo, e uma delas, por sorte, pertencia à vovó, que sempre foi apreciadora de bebidas caras. Eu entendia o seu lado; whisky era uma das minhas bebidas favoritas. Nunca tive o prazer de experimentar o Dalmore, pois a vovó era completamente ciumenta em relação a ele.
A expressão diabólica de Rose era tudo de que eu precisava para embarcar nessa loucura.
— Nem pensem nisso, nossa avó não pode sofrer grandes emoções! – Ross fala em uma falha tentativa de afastar nossas ideias maquiavélicas.
Rose corre em direção à porta que leva ao porão, onde a vovó guardava todas as suas bebidas em um cofre gigante com climatização apropriada. Fico surpresa quando ela tira um interruptor da parede, revelando que ele era apenas uma forma de esconder o espaço vazio que continha a caixinha com a chave do porão. Ela abre a porta e pisca para Ross, que estava boquiaberto.
— Acha que nesses anos todos frequentando essa casa, eu não observei os detalhes nela? Queridos, eu poderia ser uma agente da CIA se eu quisesse! – Rose bate em seu peito com uma expressão confiante em seu rosto.
Seu comentário orgulhoso me causa uma crise de risos. Descemos os degraus, Ross puxa a corda que liga as luzes do porão, e sinto um alívio ao poder enxergar os degraus.
Rose abre o cofre, tirando de lá a garrafa mais cara que ela seguraria em toda a sua vida. Era engraçado o seu cuidado, era como se ela segurasse um bebê recém-nascido.
Pego no armário três copos que imediatamente são cheios por Rose. Com ansiedade, seguro o copo e sinto o aroma achocolatado do whisky. Suas notas eram tão envolventes e sedutoras, fazendo jus ao seu valor. Agora entendia a paixão da vovó por bebidas caras, ia além do valor, era pela sua preparação, pela sua experiência.
— Eu ainda não acredito que você vai fazer isso… – Ross lamenta enquanto segura sua cabeça com as mãos. – Vamos beber apenas um copo!
O remorso de Ross causa uma risada histérica em sua namorada, que beija sua bochecha e a aperta.
— Se você continuar sendo um chato, irei fazer greve de s**o até sua próxima reincarnação. – Rose diz com um sorriso em seu rosto.
Sua voz calma faz o militar ficar tão vermelho quanto as rosas que a vovó cultivava em seu jardim. Ele me olha pelo canto do olho envergonhado e olha para seus pés, algo que acho cômico. Ora, ele achava mesmo que ninguém pensava que eles dois transavam? Sua timidez às vezes era estranha.
— Chega de papo, vamos aproveitar isso. – Digo animada, tirando o clima vergonhoso.
Bebo um grande gole do whisky e sinto como se anjos entrassem na minha alma, partida a juntando com uma boa tira de silver tape.
(...)
Já tinha perdido a noção das horas, tínhamos experimentado grande parte das bebidas que estavam no cofre. Jamais pensei que apenas alguns copos de bebidas antigas e caras iam me deixar completamente bêbada. Ross e Rose também não estavam tão bem, ambos pareciam adolescentes após uma festa escondida dos pais; era algo cômico.
Andava em direção ao meu quarto, precisava dormir, mas o destino ama testar minhas emoções. Vejo Ícaro levantar-se do sofá ao me ver sair do porão.
— Espera, como você entrou no porão? – Ele me analisa da cabeça aos pés. – Lá não é onde sua avó guarda as bebidas?
Me apoio na parede ao ver tudo girar, ele elevou uma sobrancelha e me encarou de cima abaixo, senti vontade de socar seu belo rosto por algum motivo.
— Quando isso vai parar? – Ícaro esbraveja. – Toda vez que você tem um probleminha, você faz coisas infantis, você sempre foi assim.
Meus olhos ficam marejados; suas p************s eram como facadas em meu coração.
— Quem pensa que é para falar assim comigo? – Gargalhei ao ver sua expressão de raiva. – Você nem é da família de verdade, você só foi o cara rejeitado pelos pais que meu tio pegou por piedade!
As palavras saem mais rápido da minha boca do que minha noção dos padrões moralmente aceitos. Cubro minha boca com as mãos e vejo seus olhos ficarem escuros; seu maxilar trinca, e seu olhar frio parecia que congelava minha alma.
— Sempre sendo essa mimada, não é à toa que todos os seus relacionamentos são fadados ao fracasso. – Um sorriso diabólico surge em seu rosto. – Acha mesmo que eu me importo com a sua opinião infantil, Anna?
Ele se aproxima, e sinto meu coração acelerar; sua mão esquerda toca a parede. Estávamos tão próximos que sentia o cheiro de seu perfume.
— Sua presença nessa família é inútil, você vir a esse rancho nesse verão é inútil, você é inútil. – Ele sussurra em meu ouvido. – Entenda, Anna, você nunca foi uma boa neta, essa é a verdade.
Nossos olhares se encontram, e vejo a indiferença em seus olhos pretos; era como se eu não significasse nada para ele, era possível ver as faíscas da raiva em suas íris.
— Você apenas se aproxima de sua avó quando lhe é conveniente, quando não tem escolha ou quando precisa renovar sua ficha de boa moça com a sociedade. – Ele sussurrou entre dentes, olhando nos meus olhos.
— Você não pode falar isso! – Meu protesto sai tão baixo que m*l consigo ouvi-lo.
Meu peito subia e descia com a raiva, meu corpo tremia, e o ódio crescia dentro de mim; mas, mesmo assim, não conseguimos quebrar o contato visual, era como se seus olhos negros me atraíssem cada vez mais.
— Vai chorar? – Ele faz biquinho e gargalha. – Eu não dou a mínima para você, pirralha insuportável!
Meu corpo fervia com a raiva, sentia como se fosse explodir a qualquer segundo.
— Você acha que pode falar assim comigo? – Gritei, empurrando seu corpo. – Você nem tem uma família! Nem mesmo a sua família te quis, se não fosse o meu tio e o meu pai, você teria crescido em abrigos!
Vejo seus olhos ficarem vermelhos, algo que sempre acontecia quando ele chorava, mas, dessa vez, nenhuma lágrima caiu de seus olhos.
— Esses anos todos, eu, o cara que não é da família, estive ao lado dessa mulher, mesmo depois da perda de seu filho, eu ainda estive aqui. – Ele fala entre dentes.
Nossos rostos estavam tão próximos que conseguia sentir o calor de sua respiração e ver a fúria em seu rosto. Ícaro estava irreconhecível, como se a fúria e o ódio o consumissem.
— E você, senhora perfeita? Onde estava nesses últimos cinco anos? – Ele ri sarcástico e n**a com a cabeça. – Já sei a resposta, na cama de um homem qualquer e depois em alguma festa patética que a bosta da sua agência te faz ir.
Sem pensar duas vezes, o empurro com toda a minha força, o fazendo cambalear.
— Cala a boca! – Grito antes de socar seu nariz.
— Gente… mas que m***a tá acontecendo aqui? – Rose pergunta surgindo na sala ao lado de Ross.
O sangue escorria pelo rosto de Ícaro, e um sorriso surge em seu rosto.
— Não adianta negar, você sempre será uma piada. – Ícaro cospe seu sangue. – Essa sua atitude só comprova minhas palavras.
Cubro meus ouvidos com as mãos e grito com raiva. Meu coração estava acelerado, sentia como se a qualquer momento ele fosse explodir.
Ross observava a cena sem expressão facial; ele nunca intervia em discussões entre Ícaro e eu.
— Você não sabe de p***a nenhuma, não sabe de nada da minha vida e age como se soubesse. – Me aproximo de seu corpo. – Você nunca vai saber a dor que carrego, a culpa, os sofrimentos que passei.
— Pobrezinha. – Ícaro ri e revira os olhos. – Me poupe, Anna, você e eu sabemos que isso não é desculpa para a sua negligência. Essa sua pose de boa moça pode enganar a todos, mas não a mim!
Seu comentário foi a gota d'água que faltava para transbordar minhas lágrimas, olho em seus olhos tentando buscar palavras em minha defesa. Meu soluço foi a única resposta; sua expressão vira de preocupação, como se ele percebesse o quão foi c***l, agora era tarde.
Corro degraus acima em direção ao meu quarto. Ao entrar nele, bato a porta, tranco-a e deito na cama em posição fetal, sentindo a culpa me consumir.