— Estava... aceitável. – Falo após limpar meus lábios com o guardanapo.
Ele revira os olhos escuros e suspira.
— Sempre arrogante, não é? Sua sorte é que você é muito... – Ele corta a frase e vira de costas rapidamente.
Pego o prato e vou em direção à pia para lavar o mesmo.
— Pode deixar isso comigo, tampinha. – Dessa vez, sua voz soou carinhosa e não provocativa ao falar o apelido que ele havia me dado.
Encaro suas costas, agora eram largas, malhadas. Seu corpo havia mudado, era forte, cheio de tatuagens... ficava me perguntando quanto tempo ele gastou na academia para chegar nesse físico perfeito.
— Eu sinto seus olhos me encarando, sabia? – Seu tom é sarcástico. Ele ri e se vira em minha direção.
— Então, você sabia quem eu era na festa? – Pergunto envergonhada.
Ícaro balança a cabeça confirmando e isso faz minhas bochechas corarem e meus olhos se arregalarem. E se ele achar que eu realmente faço isso com frequência? Pior, se ele contou a alguém?
— Eu... eu quero que você saiba que eu não costumo fazer isso, ficar bêbada e beijar as pessoas. Eu estava tendo um dia difícil. – Minha voz sai trêmula entre gaguejos.
— Eu sei... eu vi. – Ele fala com calma.
Sinto o frio percorrer minha coluna, ele viu? Será que ele realmente viu meu encontro com Otto?
— Viu? – Pergunto cautelosa.
— Eu te vi no bar em uma conversa nada amistosa com um homem e depois te vi saindo do banheiro e fui ver como você estava... bem, fiquei preocupado. – Ele ri envergonhado enquanto passa a mão em sua nuca.
Escondo meu rosto entre as mãos e solto um gemido de frustração. d***a, ele me viu em um momento onde eu estava totalmente vulnerável!
Sinto seus braços em volta do meu corpo, seu corpo era quente e macio, Ícaro me surpreende ao beijar meu cabelo.
— Sei que as coisas estão difíceis pra você... desculpa ter sido um i****a. – Ele sussurra sincero.
Tento me afastar de seus braços, mas ele me prende com mais força, coloco minha cabeça em seu peito e sinto seu cheiro amadeirado, algo que me faz sentir conforto.
— Quem é você e o que fez com o Ícaro i****a que não se importava com minha existência? – Pergunto desconfiada e escuto o som da sua risada fraca.
Seu jeito protetor estava sendo reconfortante, era algo bom, uma das poucas coisas boas que tive nos últimos dias.
— Bem, eu cresci. – Ícaro responde de forma calma.
Ele aperta seus braços em volta do meu corpo, o abraço de volta com força e sinto seu coração acelerar.
Era estranho sentir algo positivo ao seu respeito, especialmente depois de tantas coisas ruins que aconteceram entre nós dois no passado.
Mas como meu pai sempre me dizia: não devemos julgar as pessoas.
Mas ainda preferia a minha versão da frase: Devemos ficar atentos ao comportamento das pessoas no presente com base em suas atitudes do passado.
Esse meu lema me livrou de muitas coisas ruins, de confusões que potencialmente poderiam ter afundado minha carreira e tirado meu bem-estar.
Me afasto de seus braços e isso o deixa confuso. Não ia conseguir esquecer tão facilmente as coisas que ele disse e fez comigo quando eu era mais nova, as pessoas não mudam em um passe de mágica, eu sei disso mais do que qualquer um.
— Desculpa, Ícaro, mas não consigo confiar em você... não é como se eu pudesse apertar um botão no meu cérebro e apagar tudo que já aconteceu. – Falo o mais firme que consigo.
Sua mão passa em seu cabelo e ele suspira. Vejo sua postura voltar ao "Ícaro irritante."
— Céus, você ainda pensa naquelas coisas? Foram brincadeiras infantis! – Seu tom era debochado.
Pisco os olhos incrédula, brincadeiras? Não acredito que ele disse isso. Não depois de todas as coisas que ele fez comigo durante anos da minha vida!
— Ícaro, não foram brincadeiras. Você fazia minha vida um verdadeiro inferno! Você fazia bullying pesado comigo. – Minha voz sai alterada enquanto gesticulava de forma exagerada. – No meu primeiro baile você jogou lama em mim, você apostou meu primeiro beijo com o capitão do time de basquete! Por sua causa eu quebrei meu braço logo na semana em que eu iria fazer meu primeiro desfile importante!
Seus olhos ficam escuros e ele faz uma expressão de desgosto, como se não se importasse com as coisas que fez.
A cada coisa que eu lembrava e dizia, mais sentia raiva dele, raiva por ele estar se fazendo de bom moço quando claramente era uma pessoa h******l.
Eu ainda me lembrava das risadas do time de basquete quando eu descobri que meu primeiro beijo era apenas uma aposta, as lágrimas caindo pelo meu rosto, as pessoas da bancada da quadra rindo, a chacota que eu me tornei nos meses seguintes, a troca de escola…
Era impossível confiar nele depois de tudo isso. Ícaro era uma das piores pessoas que eu conhecia, nunca o fiz m*l e ele sempre me tratou com desprezo e de forma c***l.
Mesmo sendo mais velho que eu, ele era um cara h******l. Me tratava como inimiga, nunca entendi o motivo disso. Ele era uma pessoa que gostava de maltratar os mais fracos, que sentia prazer em ser um bosta.
Ícaro ri de forma debochada e isso me faz voltar no tempo onde ele era uma pessoa tão r**m que afetava totalmente meu mental, minha confiança, minha segurança, minha autoestima e meu autocontrole.
Abraço meu corpo e sinto as lágrimas quererem sair, olho para o teto em busca de mantê-las em meus olhos e suspiro me sentindo frustrada sentindo elas caírem pelo meu rosto.
Olho para Ícaro que me encarava sem expressão, ele tenta se aproximar e eu recuo um passo, batendo as costas com força na bancada me fazendo gemer de dor.
Ele se aproxima mesmo com meus protestos e toca meu rosto secando minhas lágrimas, seus olhos brilhavam de uma forma diferente, era quase como se ele se arrependesse de ter me feito m*l.
— Me deixa consertar tudo isso... – Sua voz sai de forma calma e seu rosto estava com uma expressão preocupada.
Tiro sua mão do meu rosto e me afasto de seu corpo. Não suportava seu toque em minha pele.
— Você foi o responsável pelos piores momentos da minha adolescência. Ainda tem a cara de p*u de dizer que eram "brincadeiras." Nunca vou confiar em você. Nunca irei deixar você tocar em mim novamente, eu odeio você! – Minhas palavras saem de forma dura.
Ícaro arregala os olhos, ele abre e fecha a boca em busca de palavras. Saio da cozinha antes que ele tentasse explicar seus atos horríveis.
As lágrimas caem pelo meu rosto e a sensação de ser uma adolescente indefesa volta ao meu corpo. Estava farta desses sentimentos, de toda essa loucura. Em poucos meses minha vida virou de cabeça pra baixo, como se um tornado tivesse passado por ela, era surreal como passei de uma mulher confiante e bem-sucedida para uma pessoa completamente emocional e fraca. Desde meu término traumático com Otto, minhas emoções pareciam mais uma montanha-russa do que qualquer outra coisa. Era evidente o declínio mental e emocional, eu estava em ruínas depois de toda essa tempestade; como se isso não fosse o bastante, ainda tinha que passar pela tortura de ter que ver minha avó pior a cada segundo diante dos meus olhos e não fazer nada para mudar isso, me sentia inútil, impotente. Não estava chorando apenas pelo ódio que sentia de Ícaro e sim por toda essa situação, por me sentir de uma forma tão confusa que não sabia como agir, não tinha alternativas a não ser chorar. Meus soluços eram altos, como se viessem da minha alma angustiada, era como um grito de socorro pedindo a piedade do criador. Ícaro me olha envergonhado, sua mão tenta tocar meu rosto mas eu recuo, ele se aproxima e repete seu gesto anterior.
— Anna, eu...– Sua voz é nervosa.
Dei um t**a em sua mão o impedindo de me tocar. Ele arregalou seus olhos quando percebeu minha fúria, mas isso não o impediu de tentar me tocar novamente. Recuando alguns passos, sinto minhas costas baterem na parede, Ícaro me prende com seu corpo e toca meu rosto de forma carinhosa. Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, o som da porta da sala o distrai e ele se afasta ao ouvir as vozes animadas de Ross e Rose, aproveito seu momento de distração para correr em direção ao corredor.
— Anna, você está bem? – Rose perguntou preocupada.
Seco as lágrimas em meu rosto e dou um sorriso de lado. Ross segurou o ombro de sua namorada e suspirou.
— Deixe ela, essa situação está sendo difícil para Anna. – Ross fala me olhando com compaixão. – Ela e a vovó são muito apegadas e ela sempre quer ser forte na frente de nossa avó, entendo sua fragilidade.
Dou um sorriso forçado, ao menos eles não achavam que minhas lágrimas tinham uma ligação com o grego i****a que estava no cômodo ao lado.