O telefone de Rodolfo tocou no criado-mudo ao lado da cama. Um toque seco, insistente. Do lado de fora, a chuva tamborilava no telhado como um aviso sombrio.
Com os olhos ainda semicerrados, ele atendeu.
— Alô?
— Rodolfo. — A voz era firme, conhecida. Pedro Vitorino do outro lado da linha.
Rodolfo se ergueu na cama, instintivamente. — Aconteceu alguma coisa?
Pedro respirou fundo. Do outro lado da linha, ouvia-se o som abafado da chuva e do motor ligado de um carro.
— Ritinha voltou hoje. Estava fora do Brasil a trabalho. Fui buscá-la no aeroporto... e lá estava sua ex-mulher.
Silêncio.
— Isabela? Tem certeza?
— Tenho. Ritinha falou com ela, tentou entender o que estava acontecendo, mas... — Pedro hesitou. — Ela estava diferente. Parecia assustada, tensa. Não parecia a Isabela de antes.
Rodolfo ficou em silêncio por alguns segundos. O nome de Isabela não ecoava em sua casa fazia anos — por acordo mútuo.
Ela não devia voltar, pensou Rodolfo. O combinado era claro. Nunca mais.
— Ritinha pediu que eu te avisasse. Achou melhor você saber.
— Obrigado. — Rodolfo desligou sem dizer mais nada.
A escuridão do quarto parecia mais densa agora. Rodolfo olhou para a janela embaçada pela umidade.
“Ela voltou?”
Mas o que ele ainda não sabia — e talvez nem imaginasse — é que quem havia pisado novamente em Recanto das Flores não era Isabela, a mulher que no passado fez um acordo com ele, mas Isabele, a irmã gêmea que ele jamais conheceu. Uma bailarina doce e assustada, que jamais trocou uma palavra com Rodolfo, mas que agora, por força do destino — ou de uma fuga desesperada —, ocupava o lugar da ex-mulher que jurou nunca mais voltar.
Enquanto a cidade dormia sob a tempestade, um novo engano começava a se formar — não um reencontro, mas um erro, prestes a reacender rancores que Rodolfo preferia manter enterrados. Ele deitou-se novamente, decidido a ignorar aquela mulher. Se era Isabela quem andava rondando o aeroporto, que ficasse por lá. Para ele, aquela história estava morta e enterrada.
Mas o sossego durou pouco.
Antes que o sono viesse, três batidas secas ecoaram pela porta do quarto. Rodolfo cerrou os dentes.
— Rodolfo? — era a voz de dona Isadora, sua mãe.
Ele fechou os olhos por um segundo, respirou fundo. Sabia que, se ela estava ali, era porque algo mais havia acontecido. E ignorar sua mãe, não era uma opção.
Rodolfo se levantou da cama com um suspiro impaciente. Caminhou até a porta do quarto e a abriu. Do outro lado, estava dona Isadora, de camisola e xale sobre os ombros, com a expressão firme de quem não aceitava ser ignorada.
Eles moravam juntos. Sempre foi assim — até mesmo durante o casamento com Isabela, quando os três dividiram o mesmo teto, entre silêncios, olhares atravessados e rotinas forçadas.
Rodolfo cruzou os braços.
— Diga, minha mãe.
Isadora foi direta:
— Ritinha me ligou. Disse que Isabela está no aeroporto. Eu sei que você já está sabendo, mas Ritinha sabia, assim como eu, que você deixaria aquela moça plantada lá.
Rodolfo passou a mão pelo rosto, buscando a pouca paciência que ainda lhe restava.
— Minha mãe, eu e Isabela não temos mais nenhum acordo. Eu não sei por que ela voltou, mas isso não me interessa.
— Você vai buscá-la no aeroporto. — Isadora afirmou, com a autoridade de quem não fazia pedidos.
Rodolfo olhou para a mãe, incrédulo.
— Eu não vou, não, minha mãe. Já disse: não sei por que ela voltou aqui.
— Saberemos quando você chegar. — respondeu ela, virando-se e voltando pelo corredor, deixando Rodolfo com o gosto amargo de um passado que pra ele estava encerrado — e que agora batia à porta, mesmo que ele não tivesse aberto convite.
Rodolfo sabia que não tinha escolha. Desde o momento em que a mãe bateu à sua porta, já estava decidido por ela: acabaria indo até aquele aeroporto, mesmo contra sua vontade. Não por Isabela — ela não significava nada — mas por respeito à mãe, e isso, sim, ainda carregava peso.
Vestiu-se com rapidez e praticidade. Calça, camisa, botas. Pegou sua capa de chuva, pendurada ao lado da porta, e quando estava prestes a sair, a voz firme de dona Isadora o deteve mais uma vez.
— Leve essa capa pra menina Bela. Ela vai precisar.
Ele virou o rosto com expressão dura. A mãe estendia a capa com um gesto simples, mas carregado de ordem.
Rodolfo pegou a capa sem discutir. Não gostava, não queria, mas com Isadora não se criava caso. E, verdade fosse dita, não tinha motivo pra brigar — aquela mulher no aeroporto não era mais problema dele.
Saiu, enfrentando a chuva sem pressa. O céu despejava sua fúria sobre Recanto das Flores, e a estrada de terra já se tornava um desafio por si só.
No volante, Rodolfo mantinha o rosto sério, sem pressa de chegar, mas com a mente alerta. Não entendia por que Isabela — que havia saído da cidade sem olhar para trás, conforme o combinado — estava agora ali, rompendo uma promessa.
Curiosidade não era bem o nome, mas algo o incomodava. Talvez por saber que pessoas como ela nunca voltam sem motivo.
E Rodolfo queria saber qual era o dela.
O aeroporto era pequeno, acanhado, quase uma rodoviária com pista de pouso. A chuva tornava tudo mais cinza e abafado. Rodolfo estacionou a caminhonete, desceu e jogou a capa sobre os ombros, caminhando com passos decididos em direção à área de desembarque.
Por dentro, o saguão era simples, com poucos bancos, luz fria e cheiro de café requentado. Foi ali que ele a viu.
Sentada num dos bancos, com uma mala modesta aos pés e os cabelos presos num coque malfeito, estava ela — Isabela. Ou pelo menos era o que parecia.
Mas havia algo de errado.
Rodolfo não era homem de reparar em detalhes à toa, mas aquele olhar… aquele olhar não era o mesmo. Isabela tinha um olhar desafiador, duro, sempre pronta pra uma disputa. Essa mulher, diante dele, tinha o rosto igual, mas os olhos… eram assustados, gentis. Frágeis até.