O Mistério

1047 Palavras
Ela se levantou ao vê-lo, ajeitando o casaco fino que m*l servia contra o frio úmido. — Boa noite… você é o Rodolfo? — perguntou com a voz baixa, quase educada demais. Ele estreitou os olhos. — Boa noite? Que história é essa? Tá me estranhando por quê, Isabela? — respondeu seco. Ela hesitou. Por um segundo, pareceu perdida. Mas se recompôs rápido. — Desculpa… é que faz tanto tempo… — improvisou, como quem pisa em terreno desconhecido. Rodolfo não respondeu. Estendeu a capa de chuva. — Minha mãe mandou isso. Vamos logo. Ela pegou a capa com um aceno de cabeça e o seguiu em silêncio. Mas enquanto caminhavam juntos pela chuva, o desconforto crescia em Rodolfo como uma farpa enfiada no pensamento. A caminhonete avançava pelas estradas lamacentas de Recanto das Flores, o limpador de para-brisa lutando contra a chuva pesada. Lá dentro, o silêncio era cortante. Rodolfo dirigia com o maxilar travado, sem lançar sequer um olhar para a mulher ao seu lado. Mas ele viu, de relance, que ela tremia. Os ombros encolhidos, os dedos entrelaçados no colo, o queixo quase encostado no peito. Ele ignorou. Deu de ombros internamente. Não era problema dele. Já quase chegando à fazenda Campos, ele quebrou o silêncio: — Por que voltou, Isabela? A mulher demorou a responder. O olhar dela estava perdido na janela embaçada. — Eu juro que não vou causar problemas… — disse, num tom baixo. — É temporário, Rodolfo. Só preciso de um lugar pra ficar por enquanto. Ele freou diante da entrada da fazenda, o portão de madeira ainda aberto. A casa grande iluminava-se parcialmente sob a tempestade. — Como pode voltar pra um lugar que detesta? — ele perguntou, já com a mão na maçaneta da porta. Ela virou-se para ele com um súplica contida. — Por favor, Rodolfo… é só por um tempo. Eu preciso mesmo ficar. Ele soltou uma risada seca, sem humor algum. — Tá com problemas? É isso? Quer dinheiro? Mais do que já me arrancou? Olha aqui, Isabela, não vou te dar mais um centavo. Ela o encarou, surpresa e confusa. — Eu não quero seu dinheiro. Eu… eu vou trabalhar. Só preciso ficar aqui. Ele virou o corpo, apontando para ela como quem expunha uma piada. — Trabalhar? Você? Ah, qual é, Isabela… — sorriu com desdém. — Pessoas como você não trabalham. Vivem de arrancar dos outros o que podem. Isabele sentiu o sangue gelar. Aquela não era uma provocação qualquer. Era uma acusação carregada de mágoas e de um passado que ela não conhecia. Ela não fazia ideia do que ele estava falando. Nunca havia visto aquele homem antes. Não sabia o que sua irmã tinha feito, ou o que havia entre eles. Mas de uma coisa estava certa: — A Isabela que você conheceu… — murmurou, quase sem perceber — …eu não conheço. Rodolfo a olhou de lado, com as sobrancelhas levemente franzidas. Mas não disse nada. Simplesmente desceu da caminhonete e bateu a porta com força. Isabele desceu logo atrás, encolhida dentro da capa de chuva, pisando na lama como quem entra num mundo que nunca foi seu — e onde o nome que carrega, infelizmente, já vem com culpa. A porta da casa se abriu com um rangido arrastado. Rodolfo entrou sem dizer palavra, apenas jogou a capa de chuva sobre a cadeira mais próxima do corredor. Isabele o seguiu em silêncio, com passos hesitantes, os olhos tentando captar cada detalhe do lugar que, embora nunca tivesse pisado antes, de alguma forma parecia lhe cobrar presença. Dona Isadora surgiu na sala com um xale nos ombros e olhar atento. Ela havia acendido algumas luzes, colocara uma chaleira no fogo, como fazia sempre que pressentia noites longas. E ali estava ela, esperando. Ao ver a moça entrar, Isadora ficou imóvel por um instante. — Boa noite, minha mãe. Já entreguei a encomenda. — disse Rodolfo, com a voz seca, o olhar distante. Isadora não respondeu de imediato. Seus olhos repousavam sobre Isabele, observando com minúcia a postura encolhida, os olhos assustados, o rosto pálido. Aquela não era a Isabela que ela conhecia — a mulher firme, altiva, que batia o salto no chão com a mesma certeza que escolhia as palavras afiadas. A moça diante dela parecia… de vidro. — Boa noite, Isabela. — disse por fim, com cautela. — Entre, menina. Você está molhada, venha se aquecer. Isabele forçou um sorriso e assentiu com um tímido “obrigada”. Tirou a capa com delicadeza e ficou parada, como se não soubesse se devia ou não avançar pela sala. Rodolfo já subia as escadas. — A sala de hóspedes continua no mesmo lugar. Se vira com o que tem. Boa noite. — disse, sem sequer olhar para trás. A porta do quarto dele bateu logo em seguida. Isadora permaneceu ali, em silêncio. Não disse nada, mas seus olhos continuaram sobre a moça. Algo havia mudado. Algo profundo. Aquela não era a mulher que deixara a casa anos atrás cuspindo veneno e mágoas. Talvez, pensou a senhora, o tempo tivesse cobrado caro. Talvez Isabela — fosse ela quem fosse — tivesse se arrependido de ter pagado o bem com o m*l. Talvez tivesse aprendido. Sofrido. Amadurecido. Mas Isadora era mulher experiente. Não diria nada naquela noite. Não ainda. — Venha, vou preparar um chá pra você. — disse com gentileza, pegando a capa molhada das mãos de Isabele. — Depois você descansa no seu antigo quarto. E enquanto a jovem caminhava atrás dela, envergonhada, calada, um tanto perdida, dona Isadora carregava no peito uma dúvida que não sabia nomear — mas que logo se revelaria. Na cozinha aquecida pelo vapor suave da chaleira, Isabele se aproximou da mesa com passos cuidadosos. Seus olhos brilharam ao ver o bolo simples, ainda fresco, repousando sobre uma toalha florida. Somente o chá foi servido, dona Isadora sabia que Isabela não costumava comer bolo e por isso não ofereceu. — Dona Isadora… eu posso comer um pedaço de bolo? — perguntou, quase num sussurro, como se ainda duvidasse do lugar que ocupava ali. A senhora, que mexia o chá com calma, ergueu os olhos. — Claro que pode, menina. A casa é sua… ou quase. — respondeu, com um sorriso que não alcançou os olhos.
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