Tudo no Momento

948 Palavras
Isabele cortou um pedaço generoso, sentou-se à mesa e, após a primeira garfada, seus olhos se fecharam brevemente em prazer. Estava faminta, mas também era mais do que isso. Havia ali um gosto de memória que nem lhe pertencia. — Está maravilhoso… eu amo bolo de milho. Com um cafezinho então… nossa senhora, tem cheiro de lar. — disse, sincera, pegando mais um pedaço e aceitando mais uma xícara de chá que Isadora lhe ofereceu. A senhora parou no meio do movimento. Seus olhos estreitaram. — Quando isso? — perguntou, deixando a chaleira de lado. — Como assim? — Isabele franziu o cenho, confusa. — Quando passou a gostar de café… e bolo de milho? — a voz da senhora era suave, mas certeira. — Você nunca bebeu café antes. Dizia que dava dor de estômago. E torcia o nariz pra qualquer coisa feita com milho. O silêncio pesou por um segundo. Isabele engoliu seco, apoiou a xícara no pires com um pequeno tremor e forçou um sorriso frágil. — Ah… então… é que as coisas mudam, né? O paladar também… acho que a vida ensina a gostar de coisas simples. — disse, desviando os olhos, como quem buscava refúgio em qualquer canto da cozinha. Dona Isadora a observou por um longo instante. Não respondeu. Apenas assentiu com a cabeça devagar e foi até o armário, como se não quisesse apertar o nó daquela estranheza — ainda. Dona Isadora se sentou à mesa devagar, com a postura firme de quem carregava a autoridade dos anos e da experiência. Observou a jovem à sua frente por um longo instante, antes de soltar, com voz mansa e afiada: — Simples nunca foi seu forte, não é mesmo, Bela? Isabele engoliu em seco. O bolo parecia crescer na boca de repente. Desviou o olhar, sentindo o peso daquele nome que não lhe pertencia. Respirou fundo antes de responder: — Poderia… poderia me chamar de Isa? A senhora franziu a testa, desconfiada. — Por que isso agora? — Nada demais, só… só prefiro ser chamada assim. — disse rápido, os olhos vasculhando a xícara como se houvesse ali alguma explicação melhor do que a que dera. Dona Isadora não insistiu, mas também não disfarçou o incômodo. Ficou alguns segundos em silêncio antes de falar, direta: — Rodolfo quer saber por que você voltou. Isabele ergueu os olhos devagar, sustentando o olhar da senhora. Sua voz saiu mais baixa, mas carregada de sinceridade: — A senhora também quer saber, né? Isadora não disse nada — apenas balançou a cabeça em afirmação. Isabele então abaixou o olhar novamente, apertando a borda do prato com os dedos. — É por pouco tempo… eu juro. — murmurou. — Só preciso de um lugar seguro… por enquanto. Dona Isadora ficou calada. A verdade é que ela não fazia ideia do que estava acontecendo ali — havia algo diferente naquela moça, nos olhos, no jeito de falar, no modo de se sentar à mesa. Mas, naquele momento, preferia aquela versão em sua frente. Era mais calma, mais doce… e, quem sabe, mais arrependida. Levantou-se com a tranquilidade de quem sabia muito mais do que dizia, e falou apenas: — Você pode dormir no seu antigo quarto. Boa noite. Isabele apenas assentiu. Não teve coragem de perguntar qual era, afinal, aquele nunca foi seu quarto, nunca fora sua casa. E mais do que isso: ela nem sabia por onde começar a procurar. Esperou a senhora se afastar, tirou o celular do bolso com a intenção de mandar uma mensagem para a irmã. Talvez uma pergunta simples: “Qual era o seu quarto na fazenda?” Mas a tela preta não lhe deu escolha. O aparelho estava completamente descarregado. Suspirou fundo. Teria que descobrir sozinha. Isabele suspirou exausta e começou a caminhar devagar pelos corredores silenciosos da casa, os passos leves como quem não queria perturbar os fantasmas do passado — mesmo que eles não fossem seus. Tudo ali era estranho e, ao mesmo tempo, carregado de uma familiaridade inquietante. Os móveis rústicos, o cheiro da madeira molhada pela chuva, os retratos... tudo parecia observá-la, como se soubessem que ela não era quem dizia ser. Virou um corredor escuro, tentando adivinhar qual porta seria o tal quarto antigo, quando a voz cortante de Rodolfo a parou no ato: — Tá perdida, Isabela? Ela virou-se devagar. O olhar dele estava cravado nela, duro como pedra. — Não... só estava tentando lembrar onde era o quarto. Rodolfo riu, sem humor nenhum. — Claro que estava. Esqueceu até onde dormia nessa casa, foi? Ela engoliu seco, sem ter como se defender de algo que realmente não sabia. E o mais difícil de tudo era perceber que ele não olhava pra ela com mágoa, nem com dor — mas com desprezo puro e simples. Como se vê um fardo que a vida insiste em devolver. — Olha — ela tentou explicar, sem encará-lo —, eu só preciso de um canto por um tempo. Não vou incomodar ninguém. — Já tá incomodando — ele retrucou, jogando uma pequena mochila surrada no chão em frente a uma das portas. — Seu quarto é esse. Ou pelo menos foi. Cuida bem pra não esquecer de novo. Ela olhou para a porta, depois para a mochila caída. Não disse nada. Não havia o que dizer. Rodou a maçaneta, empurrou a porta devagar e entrou, fechando com cuidado atrás de si. O quarto era pequeno, com móveis antigos e uma janela estreita que dava vista para os fundos da fazenda. Ela agora sabia onde dormiria. Mesmo que, no fundo, soubesse que aquela cama, aquelas paredes, aquele nome... nada daquilo lhe pertencia. Mas era tudo que tinha por agora.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR