Na fazenda, a lida começava cedo. Os galos cantavam antes mesmo do sol despontar no horizonte, e os primeiros sons da manhã — o arrastar dos passos na varanda, o mugido distante de uma vaca, o canto insistente dos pássaros — invadiam a casa com a mesma naturalidade de quem sempre pertenceu àquele lugar.
Isabele adorou aquilo tudo.
Apesar de não ter muito contato com a natureza, havia algo de reconfortante naquela rotina que não era sua, mas que parecia chamá-la com uma estranha familiaridade. Ela acordou antes mesmo do primeiro canto do g**o, os olhos abertos no escuro, como se o corpo já soubesse que ali, naquela casa, o dia pedia pressa e silêncio.
Não era novidade para ela acordar cedo — sempre trabalhou desde jovem, em empregos onde o relógio mandava mais do que a vontade. Mas ali, havia uma diferença: não era o dever que a tirava da cama, era uma espécie de urgência interna, uma vontade quase instintiva de pertencer.
Vestiu-se com discrição, penteou o cabelo às pressas, e foi direto para a cozinha. A casa ainda dormia, o chão de madeira rangendo sob seus passos leves. Procurou o café entre os armários como quem procurava lembranças. Achou o bule, o coador, a garrafa térmica. Acendeu o fogão com mãos mais firmes do que esperava.
Quando a água começou a ferver e o cheiro do pó fresco se espalhou pela cozinha, ela se sentiu, pela primeira vez, fazendo algo certo.
Fez também um cuscuz, do jeito que lembrava de ver em vídeos e programas de receita. Simples. Um pouco de sal, manteiga, e fé. Nada mais.
Estava arrumando a mesa, com cuidado quase cerimonial, quando ouviu passos lentos pelo corredor. Virou-se a tempo de ver Dona Isadora entrando na cozinha, os olhos ligeiramente apertados de sono — mas despertos o suficiente para notar o cheiro do café.
A senhora parou na soleira da porta.
— Acordou cedo… — disse, num tom mais de constatação do que de surpresa.
Isabele sorriu, sem pressa.
— Achei que seria bom deixar o café pronto. E o cuscuz… bom, eu tentei.
Dona Isadora avançou lentamente, como quem caminha dentro de uma memória.
— Não lembrava que você sabia fazer cuscuz.
Isabele hesitou, e depois respondeu:
— Acho que tô reaprendendo umas coisas… ou aprendendo pela primeira vez.
A senhora sentou-se devagar. Pegou a caneca que Isabele havia deixado à mão e tomou um gole com calma.
— Tá forte. Do jeito que eu gosto.
— Que bom — ela respondeu, quase num sussurro, tentando conter o alívio que lhe subiu ao peito.
Por um instante, nenhum som além do cantar dos pássaros e o tilintar da colher no prato se ouviu na cozinha. Mas naquele silêncio havia uma espécie de paz — frágil, recente, mas real.
As duas estavam tomando café no mais puro silêncio, um silêncio quase confortável, quando o som firme e marcado das botas de Rodolfo cortou o ar, anunciando sua chegada. Cada passo parecia pesar sobre o chão de madeira como um lembrete de que, naquela casa, ele era uma presença que não passava despercebida.
Isabele levantou os olhos por um breve instante — e só ali percebeu, com clareza, o homem que ele era. Havia algo de imponente em sua postura, um certo cansaço nos ombros largos e nos olhos fundos, como quem carregava o peso do mundo — ou, pelo menos, de uma família inteira. Era bonito, sim. De um jeito rústico, envelhecido pelo sol e pelo trabalho, com as mãos grandes e marcadas por calos, e uma barba que parecia m*l ter tempo de crescer antes de ser aparada às pressas.
Mas não havia delicadeza em Rodolfo. Nem simpatia.
Ele não deu bom dia. Apenas fez o sinal da cruz diante da mãe e murmurou, seco:
— Bença, mainha.
— Deus te abençoe, meu filho. — respondeu Dona Isadora, com um tom neutro, já acostumado à rispidez das manhãs dele.
Rodolfo se sentou, puxando a cadeira com pressa, e serviu-se de café sem dizer uma palavra. Pegou um pedaço do cuscuz com carne de sol que estava na travessa ao centro da mesa, cortou um pedaço generoso e levou à boca. Mastigou com a mesma intensidade com que vivia — rápida, direta, sem rodeios.
Depois de engolir, ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— A senhora acertou no ponto do cuscuz hoje, minha mãe. Tá bom demais.
Dona Isadora sorriu, com um brilho sutil no olhar, e respondeu sem pensar:
— Foi Isabela que fez.
O efeito foi imediato.
Rodolfo engasgou com o que ainda tinha na boca e, num movimento brusco, cuspiu o resto no prato. O som do garfo batendo na cerâmica foi alto, seguido do estrondo do prato voando ao chão. A porcelana se quebrou em pedaços contra o piso, espatifando-se num susto que cortou o ar da cozinha.
Isabele se levantou num pulo, assustada, a cadeira rangendo atrás de si. Dona Isadora também ficou de pé, os olhos arregalados, a mão no peito como quem tenta segurar o impacto do gesto do filho.
— Que d***o é isso, Rodolfo?! — exclamou a senhora, indignada.
Por um instante, o tempo parou.
Mas só por um instante.
— Você tá maluco?! — a voz da senhora veio forte, autoritária, como um tapa.
Ele ainda estava de pé, o peito arfando, olhando para Isabele como se ela fosse um erro que nunca devia ter voltado.
— Você não tem o direito de... — começou ele.
Mas Dona Isadora não deixou terminar.
— Cala essa boca agora mesmo! — ela estalou os dedos na direção dele, como fazia quando ele era pequeno e se passava dos limites. — Você vai baixar esse tom dentro da minha casa e vai catar esses cacos, um por um!
— Mãe…
— Agora, Rodolfo! — ela interrompeu, o olhar cortante como faca. — Não me interessa o que você pensa, nem o que você sente. Você não quebra a casa dos outros quando tá com raiva, e não desrespeita quem te serviu comida. Ainda mais sem saber de nada! — E completou, puxando-o pela orelha com firmeza, como nos tempos de menino. — Cresceu, mas não criou juízo, foi?
Rodolfo ficou parado, surpreso e constrangido, mas não ousou contrariá-la. Baixou os olhos, bufando, e se agachou devagar para catar os pedaços do prato.
Isabele, ainda em pé, não sabia onde enfiar as mãos, os olhos. Queria sumir. Mas também havia, no fundo do peito, uma pontinha de gratidão — pela primeira vez, alguém a defendia.
Dona Isadora, ainda com a respiração acelerada, se virou para ela e disse com a voz mais baixa:
— Senta, menina. O café vai esfriar. Deixa que o “homem da casa” cuida da bagunça hoje.
E assim, enquanto Rodolfo recolhia os cacos de seu próprio descontrole, Isabele voltou a se sentar, silenciosa. O cheiro do café ainda estava no ar.