Depois de terminar o café em silêncio, Isabele recolheu a caneca, lavou tudo com calma e agradeceu em silêncio pela firmeza inesperada de Dona Isadora. Ainda sentia o estômago apertado, não pela comida, mas pelo susto. Mas também havia ali uma pequena chama de força, reacendida por aquele gesto de proteção.
Subiu para o quarto com passos contidos. Precisava se aprontar. Tinha um compromisso marcado na prefeitura de Recanto das Flores — era o dia de resolver a documentação burocrática do novo emprego como professora. Vestiu-se com praticidade: um vestido leve de algodão, coque no cabelo e, nos pés, um par de tênis brancos e confortáveis. Mistura improvável, mas coerente com a mulher que ela estava tentando ser — prática, firme, mas ainda delicada nos detalhes.
Pegou a bolsa com os documentos e desceu com pressa, o coração acelerado. Já ia sair pelo alpendre quando ouviu o ronco da caminhonete sendo ligada no terreiro. Correu.
— Rodolfo! Rodolfo! — gritou, quase sem fôlego, com a bolsa balançando no ombro.
Ele já estava dando marcha à ré quando a viu pelo retrovisor. Parou o carro com um tranco seco. A janela do motorista desceu com um rangido, revelando o rosto impassível, os olhos escondidos sob a aba do chapéu.
— Que foi?
Isabele se aproximou, ainda ofegante.
— Você poderia me dar uma carona até Recanto das Flores?
A resposta veio sem hesitação. Fria.
— Não.
E então ele engatou a primeira e arrancou sem dizer mais nada, sem olhar para trás, levantando poeira pelo caminho como se varresse qualquer traço dela da estrada.
Isabele ficou parada, encarando a estrada vazia diante de si. Sentiu o silêncio pesar de novo — não como o da cozinha, que era paz — mas como o de uma solidão antiga, aquela que a fazia caminhar sozinha desde sempre.
Olhou para os próprios pés. Pelo menos, pensou, usava tênis. Tênis e vestido — uma combinação que não chamava atenção, mas dizia muito sobre quem ela era: uma mulher entre mundos, firme na caminhada, mesmo quando o chão parecia sumir.
E sem pensar duas vezes, começou a andar.
O coque bem preso no alto da cabeça, os olhos fixos no horizonte, e a coragem, essa vestida por baixo de tudo.
Isabele não andou muito quando uma buzina soou atrás dela, cortando o silêncio da estrada de terra. O som seco e insistente a fez virar-se num sobressalto. Um carro se aproximava rápido, levantando poeira como um pequeno vendaval. Parou a poucos metros dela, com as rodas chiando, e de dentro saltou um homem.
Ele usava um chapéu de palha desbotado e camisa de linho aberta no peito, gasta pelo tempo. Era ainda mais rústico que Rodolfo, com mãos grossas, olhos fundos e um semblante que misturava dor e indignação. Tinha algo descontrolado no modo como desceu do carro e caminhou na direção dela.
— Isabela? — chamou, com a voz embargada. — O que faz aqui?
Ela parou, o coração disparado. O nome soou estranho nos ouvidos, como um eco antigo, mas ela não corrigiu. Não sabia quem era aquele homem, e seu instinto dizia que qualquer passo em falso ali podia custar caro.
— Bom, eu...
— Você prometeu que não voltaria! — ele a interrompeu, e a mágoa em sua voz era quase palpável. — Voltou pra acabar de vez com a minha vida, foi? Achou pouco o estrago que fez?
Isabele recuou um passo. O peito apertado. As palavras travadas na garganta. A poeira em volta parecia pairar no ar, pesada.
Ela não fazia ideia de quem era aquela criatura magoada à sua frente. Nunca o vira antes. Mas havia algo no olhar dele, na dor que transbordava, que deixava claro: ele acreditava que a conhecia. E odiava o que ela representava.
Isabele tentou encontrar alguma explicação, alguma desculpa — mas não havia nada. Só aquela certeza cada vez mais incômoda de que sua irmã deixara rastros pesados por onde passara. Rastros que agora caíam sobre ela como sombras.
Mas ela não podia dizer que não era Isabela. Não agora. Não assim. A única coisa que conseguiu fazer foi baixar os olhos e tentar respirar fundo.
— Eu não vim pra causar confusão — disse por fim, em voz baixa. — Só tô de passagem.
O homem a fitou por mais alguns segundos. Depois virou o rosto devagar, como se tentasse conter algo dentro de si — um choro, talvez, ou um grito que ficou entalado há anos.
— Deveria ter ficado longe, como prometeu — murmurou. — Isso aqui nunca mais foi o mesmo desde que você foi embora.
Isabele apenas assentiu, sem saber o que dizer. O homem deu meia-volta, subiu no carro e arrancou estrada afora, deixando-a sozinha de novo, com a poeira suspensa no ar e a alma cheia de perguntas.
Ela ficou ali, parada, observando o rastro que o carro deixou. Não fazia ideia de como descobrir quem ele era. Só sabia de uma coisa: não podia mais fingir que aquele caminho era neutro. Ela estava, ainda que sem querer, pisando nas pegadas de alguém que deixara um passado inteiro para trás.
E agora, parte desse passado parecia disposto a cobrá-la.
Isabele caminhou mais alguns minutos, ainda sentindo no peito o peso do encontro inesperado. O sol já não queimava tanto, mas a poeira da estrada grudava na pele e nos pensamentos. Ela pensava em dar meia-volta, em se esconder, em correr. Mas sabia que fugir não adiantava. Não tinha pra onde ir, e nada lhes parecia seguro.
Foi então que outro carro desacelerou ao lado dela. Era um veículo moderno, limpo demais para aquelas redondezas. O vidro do passageiro abaixou com um chiado leve.
— Bela, entra no carro.
Ela hesitou. Duas mulheres estavam lá dentro, ambas bonitas, bem arrumadas, os cabelos brilhando ao sol, sorrisos fáceis nos lábios. Uma delas estava ao volante; a outra, no banco ao lado. Pareciam seguras, como quem sabe exatamente onde está e por quê. Isabele, no entanto, não fazia ideia de quem eram.
Mas algo em seus olhos não parecia ameaçador. Apenas… familiar.
Entrou no carro sem dizer uma palavra.
As duas a observaram por um instante, depois uma perguntou com delicadeza:
— Como você tá?
— Bem — respondeu Isabele, apesar de tudo. Não sabia o que mais poderia dizer. Nem quem elas esperavam reencontrar.