O carro seguiu estrada adentro, e as duas começaram a conversar entre si, trocando olhares e frases soltas, como se estivessem retomando uma conversa que havia sido interrompida minutos atrás. Isabele apenas ouvia, tentando juntar as peças.
— …a gente devia ter vindo antes — disse a do banco do carona, com um leve sotaque interiorano.
— Ah, Ritinha, agora estamos indo. E sem ela. — respondeu a outra, ao volante.
__ Você não tem jeito, Rayra.
Foi assim que Isabele descobriu os nomes. Ritinha era a mais falante, com olhos expressivos e jeito maternal. Rayra, mais contida, parecia observadora e prática, mas sorria com leveza quando Ritinha se animava.
Elas pareciam conhecer Isabela — a verdadeira. A irmã de Isabele.
— Onde você vai ficar? — perguntou Rayra.
— Na prefeitura — respondeu. Foi tudo o que conseguiu pensar. Precisava de tempo, precisava entender quem era cada peça naquele quebra-cabeça que sua irmã deixara para trás.
As duas assentiram, sem questionar. Pouco depois, pararam em frente ao prédio da prefeitura, uma construção antiga, com fachada amarelada e janelas de venezianas gastas pelo tempo.
— Obrigada pela carona — disse Isabele, já alcançando a maçaneta da porta.
— Espera — disse Ritinha, com um tom mais sério. — Bela… eu não tenho nada a ver com sua vida, mas… já viu Simão?
O nome caiu como pedra no peito de Isabele. Ela piscou, surpresa.
Simão?
Será que era o homem perturbado da estrada? O que a acusou, o que carregava nos olhos a mágoa de quem foi abandonado?
Mas não podia ter certeza. E não queria errar agora.
— Não… ainda não — respondeu, cautelosa.
Ritinha assentiu devagar, os olhos se perdendo um pouco na paisagem. Depois murmurou, mais para si mesma:
— Ele nunca mais foi o mesmo depois que você foi embora. Ficou… quebrado demais.
Isabele engoliu em seco. Aquelas palavras não eram suas, mas caíam sobre ela como se fossem. Não sabia o que responder. Não sabia como lidar com dores que não causara, mas que agora pareciam se dobrar ao seu redor.
— Obrigada pela carona — repetiu, quase num sussurro.
Respirou fundo. E saiu do carro.
O calor parecia outro ali fora. O sol ainda queimava de leve, mas era a expectativa que mais pesava. Ela atravessou a calçada e entrou no prédio da prefeitura com o coração em silêncio — mas a mente em chamas.
A conversa com a atendente da prefeitura foi rápida. Isabele, com a segurança ensaiada de quem já havia decidido não hesitar, entregou a documentação no nome da irmã — Isabela.
O currículo.
Seco, resumido, preenchido à mão. A irmã havia listado poucas experiências — nada que se aproximasse do domínio técnico necessário para ensinar baile. Nenhum curso específico, nenhum registro profissional, nenhuma menção ao tempo que passaram juntas no estúdio de dança. Era como se a irmã tivesse apagado essa parte da própria história. Ou talvez nunca a tivesse considerado importante.
Isabele mordeu o lábio inferior. Imaginara que, ao entregar os documentos, seria questionada. Alguém poderia olhar para ela, desconfiar, exigir comprovação da experiência que não constava no papel. Preparou-se mentalmente para mentir, para improvisar, para preencher as lacunas com firmeza e olhar direto.
Mas nada disso aconteceu.
A verdade era que Isabela, a irmã verdadeira, não tinha formação. E, ainda assim, havia conseguido o cargo. Isabele, com anos de experiência nos palcos e em salas de aula, agora precisava fingir que sabia menos do que realmente sabia. Tinha que ser boa sem chamar atenção. Invisível, competente e calada.
A atendente da prefeitura sequer levantou os olhos. Recebeu o currículo com uma pressa burocrática, carimbou os papéis e deu a vaga como preenchida, como se não importasse quem estava ali — apenas que alguém estivesse.
— É na zona rural — avisou, apontando para um mapa encardido na parede. — Perto das fazendas vizinhas. Você vai dar aula de baile. As mães têm pressionado muito por essa atividade. Parece que virou moda entre elas.
Isabele apenas assentiu, fingindo naturalidade. Era uma dançarina e professora profissional. Precisava manter a farsa, pelo até encontrar um lugar mais seguro.
Enquanto assinava a última folha, um rapaz se aproximou. Alto, pele bronzeada de sol, cabelo preso num coque improvisado. Tinha olhos atentos e um sorriso aberto. Estendeu a mão para ela com firmeza.
— Oi, sou o Tiago. Judô. A gente vai dividir o horário, mas com turmas separadas. Vi seu nome na lista hoje de manhã.
— Isabela — ela respondeu, forçando um sorriso e apertando a mão dele.
Tiago pareceu simpático. Não fez muitas perguntas, só comentou casualmente:
— As crianças são animadas. E meio arteiras. Mas acho que você vai gostar.
Ela torceu para que ele estivesse certo.
Isabele saiu da prefeitura com os papéis confirmando sua nova identidade e sua nova função. Ainda não sabia o que encontraria na zona rural, nem quem mais reconheceria nela o rosto de sua irmã. Mas, por ora, precisava apenas chegar lá, se manter em silêncio e não levantar suspeitas.
Ela não estava ali pelo dinheiro. Nem pelo cargo. Estava pela fuga. Mas, ao menos, havia um alívio nisso tudo: faria o que amava. O baile era sua paixão desde menina — e, por anos, trabalhara em um espaço renomado, onde aperfeiçoou sua técnica e desenvolveu um olhar atento para ensinar. Tinha experiência, segurança no que fazia. E mesmo que tudo ao redor fosse estranho, confuso e marcado por silêncios que não lhe pertenciam, ao menos dentro da sala de aula ela saberia exatamente quem era.
Isabele saiu da prefeitura com os papéis em mãos, a mente cheia de perguntas e o coração batendo num ritmo inquieto. No entanto, seus olhos buscaram refúgio nos arredores — a cidade, ainda que pequena, lhe pareceu organizada, tranquila. Havia uma pracinha com bancos de madeira e um coreto pintado de branco, árvores frondosas oferecendo sombra, e um movimento calmo de gente que ia e vinha sem pressa. A fachada das casas era simples, mas havia flores nas janelas, e isso sempre dizia muito sobre um lugar.
Ela inspirou fundo. Era estranho, mas, ao mesmo tempo, reconfortante. A cidade parecia ter parado no tempo, e isso criava uma sensação de abrigo, de uma rotina previsível — exatamente o oposto do turbilhão que se instalara dentro dela desde que chegara.