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2886 Palavras
DULCE A viagem de jatinho teve um desfecho péssimo para mim. Quando a turbulência começou, o medo de morrer e ir direto para o limbo me atingiu. Naquele momento eu entendi de fato que estava realmente viva. Agi totalmente por impulso, como um animal ferido precisando de colo. Em outras circunstâncias, eu jamais imaginaria que Christopher me daria algum tipo de apoio se um dia eu pulasse em seus braços do nada, mas ele foi muito gentil, exceto quando a turbulência terminou e os ânimos diminuíram.  Depois que o perigo passou, ele voltou a ser o mesmo babaca de sempre e eu ainda cogitei em pedir desculpas por chorar em sua camisa, quando a única coisa que eu deveria fazer era mandar ele se envergonhar por ser tão c***l. Mas eu preferi ficar quieta e ignora-lo até que a minha chateação cessasse.  Com o coração mole que eu tinha, não demorou até eu estar sorrindo de novo, ansiosa para fazer tudo o que pudesse naquele hotel de luxo. Agora eu estava na área da piscina, sendo observada por Christopher enquanto espalhava protetor solar por minha pele. Ele estava tentando disfarçar o interesse na minha imagem, mas estava falhando como qualquer homem t**o com testosterona elevada. Fiquei feliz em saber que o afetava naquela proporção.  Não era meu plano inicial usar a minha aparência para atraí-lo, porque qualquer uma poderia fazer aquilo e a única coisa que despertaria amor nele seria a minha personalidade. Sobre isso, eu achava que ele me via como uma amiga, uma irmã mais nova super chata, uma mosquinha irritante zumbindo em seu ouvido. Sobre a minha aparência, bem... Eu não podia ler pensamentos, mas deduzia que talvez ele estivesse imaginando como seria me tocar com um pouco mais de intensidade do que o que era considerado profissional. E se para chegar em seu coração eu tivesse que primeiro chegar em seu p*u, tudo bem, eu aceito a condição.  — A água deve estar uma delícia. — falei inocentemente, ficando de pé e me espreguiçando.  — Sim... Uma delícia. — o ouvi dizer com a voz levemente mais rouca.  Olhei sutilmente para trás e o peguei olhando a minha b***a por cima dos óculos escuros. Pigarreei, tomando sua atenção para o meu rosto.  — Não vai entrar na piscina? — Depois. — ele se ajeitou na espreguiçadeira e retirou a camisa térmica. — Vou aproveitar mais um pouco o calor do sol. — sorriu de canto, olhando para mim com malícia.  Eu engoli em seco e senti que minhas pernas iriam tremer se eu não saísse dali imediatamente. O desgraçado tinha mesmo que ser tão bonito sem camisa? O que era que tinha nessa genética?  Será que nossos filhos vão ser lindos assim?  Ok, hora de parar de fantasiar e me concentrar em não continuar babando tão descaradamente na frente dele. O pior era que ele olhava para mim como se soubesse o que eu estava pensando e não se preocupava em me olhar de cima a baixo como um predador analisando sua presa. A troca de olhares provocante seria o próximo nível do nosso flerte?  Dei as costas para ele e fui direto para a piscina. Entrei e mergulhei em seguida, nadando como uma forma de relaxar o corpo e a mente. Quando voltei à superfície e olhei na direção dele, o notei ainda me observando com seriedade, sem os óculos agora. O encarei de volta e nós ficamos assim por alguns segundos, até eu notar uma movimentação ao meu lado.  — Oi, meu anjo, você não me disse o seu nome. — o homem que me abordou quando cheguei ali nadou até mim com um sorriso galanteador, ficando na minha frente.  Olhei novamente para Christopher, que agora pareceu ficar ainda mais sério depois que o homem se aproximou de mim. Eu sabia que um traço da personalidade de Christopher era ser territorialista e podia usar aquilo a meu favor.  — É Dulce. E o seu? — fui gentil, retribuindo o sorriso.  — Larry. Está aqui de férias?  — Mais ou menos. Eu vim para uma conferência financeira, hoje é a primeira noite.  — Não me diga! Que mundo pequeno. Eu estou aqui com os meus pais, sou herdeiro das indústrias Gavin, deve ter ouvido falar sobre nós.  Não.  — Mas é claro! — soei o mais animada possível. — É um prazer conhecer você.  — Você está representando qual empresa?  — Sou a acompanhante de Christopher Uckermann.  — Espera... — ele olhou para trás, para Christopher, que se mantinha firme na tarefa de nos encarar. — Aquele é Christopher Uckermann? Caramba, nem o reconheci, ele está sempre tão formal!  — Só quando está trabalhando. — completei.  — E vocês estão juntos? — havia um interesse em sua pergunta. — Juntos de forma mais... Você sabe.  — Não. — neguei com a cabeça. — Sou só uma amiga.  — Imaginei. Ele nunca traz alguém a esses eventos.  — Nunca? — franzi a testa. Christopher havia me dito que era quase uma regra levar alguém.  — Nunca. Talvez você seja especial.  — Talvez... — sibilei mais para mim mesma.  Outra coisa que deveria significar algo.  — Mas já que vocês são só amigos, talvez nós dois possamos tomar alguma coisa no bar do hotel mais tarde depois do evento. — Larry chegou ainda mais perto, de modo que sua respiração batia em meu rosto. Pisquei, nervosa com a situação. Eu não me dei conta de onde esse flerte poderia chegar quando o iniciei. Eu deveria aceitar o convite? Mas eu não queria fazer aquilo!  — Dulce! — Christopher me chamou.  Afastei-me de Larry e avistei o meu chefe sentado na borda da piscina com os pés dentro da água. Em uma mão ele segurava uma garrafa de Budweiser e na outra um drink bem colorido com um morango na borda do copo e um canudo cor de rosa.  — Eu pedi uma bebida pra você. — ergueu o drink.  Eu sorri para ele e assenti, voltando meu olhar para Larry outra vez.  — Desculpe, Larry. Talvez depois. — me afastei e nadei até onde Christopher estava.  Ainda dentro da piscina, peguei o drink e suguei no canudo, bebendo um grande gole. Doce e alcoólico. Não era bem o meu tipo de bebida, eu preferia uma boa cerveja gelada, mas talvez Christopher tivesse achado que aquele copo doce e colorido se parecesse com o tipo de coisa que ele deduziu que eu gosto.  Ele encarou Larry com irritação até o cara sair da piscina e tornar a se juntar ao seu grupo de amigos. Depois Christopher bufou e olhou para mim.  Arfei em surpresa quando ele segurou meu queixo com certa arrogância e ergueu meu rosto, de modo a me obrigar a olhar para ele e apenas para ele. Abri bem os meus olhos e fiquei estática enquanto Christopher despejava a raiva de seu olhar em mim. — Um aviso sobre Larry Gavin, Saviñon. — aproximou seu rosto do meu, mantendo sua voz baixa e grave. — A única coisa que ele quer é f***r você e depois esquecer que existe, não se deixe iludir.  — E como você pode ter certeza disso? — tive coragem de perguntar, o desafiando.  — Porque ele é igualzinho a mim. — sorriu de maneira perversa, dando dois toques em meu lábio inferior usando seu polegar. Quando tornou a se afastar, eu senti uma espécie de frio ao perder o toque de sua mão em meu rosto. E mesmo que sua frase tenha soado babaca e maldosa, eu fiquei excitada.  Não disse nada em resposta, apenas levei o canudo de volta à minha boca e bebi quieta enquanto o observava de relance.  [•••] Eu estava falando por chamada de vídeo com a Anahi. Ela estava me ajudando com a maquiagem, já que eu não fazia ideia do que usar no século XXI. Na minha época as coisas pareciam mais simples, eu usava meus dedos para tudo, agora existiam diversos pincéis para várias regiões do rosto. A parte mais difícil foram os olhos, fiz e refiz a sombra várias vezes, até me dar por vencida e me contentar em usar apenas rímel e lápis preto na linha d'água.  — No Nebraska as pessoas costumam bater em suas próprias caras com um chinelo? — Anahi perguntou.  — Como assim? — perguntei, parando de espalhar o blush em minhas bochechas.  — Coloca um pouco de pó compacto em cima desse blush agora! — riu alto.  — Mas não é assim que se usa?  — Sim, no circo! — aumentou o volume da risada.  — Tudo bem. — sorri, buscando o pó compacto e começando a aplica-lo.  — Isso. Está bom.  — Ok. E o batom?  — Como você não fez nada nos olhos, pode usar uma cor forte nos lábios. Vai ficar ótimo com esse vestido preto que está usando.  Peguei um batom vermelho escuro e passei em meus lábios. Anahi sorriu em aprovação enquanto eu limpava as bordas da boca.  — Saviñon, está pronta? — ouvi Christopher perguntar do outro lado da porta do quarto.  — Sim! — gritei de volta.  A porta foi aberta e ele já entrou falando, olhando em seu relógio de pulso.  — Nós precisamos descer em... — ele parou ao erguer o rosto para mim.  Fiquei de pé e sorri, o observando enquanto ele me comia com os olhos, atento a cada parte do meu corpo até parar em meu rosto.  — Uau... — murmurou baixo, mas não o suficiente para que eu não ouvisse.  Eu estava usando um preto longo de seda com uma f***a que começava na minha coxa. Meus cabelos estavam soltos em ondas que eu fiz no babyliss e eu usava uma sandália preta de salto bem delicada. Sem muitos detalhes, mas ainda sim perfeita.  — O doutor gostou? — provoquei, dando uma voltinha.  — Você está... Bem. Muito bem. — pigarreou. — Vou te esperar na recepção para irmos ao salão de festas. — mesmo fazendo menção de sair, ele ainda ficou parado por um tempo, me secando com o olhar.  Alguns segundos depois ele me deixou sozinha novamente e eu tornei a sentar na cadeira da penteadeira para checar os últimos detalhes.  — O que acabou de acontecer!? — Anahi, que ainda estava na vídeo chamada, perguntou boquiaberta.  O notebook estava aberto, Christopher poderia muito bem ter visto que eu falava com ela, mas ele nem notou, não olhou para nenhuma outra coisa no quarto que não fosse eu.  — Não aconteceu nada. — me fiz de desentendida.  — Pareceu que ele ficou chocado com você. — sorriu surpresa. — Nem parece o nosso chefe ranzinza e explosivo.  — Parece que o Christopher é mais do que isso. — dei de ombros. — Tenho que ir agora, falo com você depois.  — Se ele der em cima de você, não ouse esconder de mim! — avisou.  — Pode deixar! — ri, acenando para ela. As portas do elevador se abriram na recepção e eu avistei Christopher a me esperar. Ele estava fantástico naquele smoking, um manjar para os meus olhos e um deleite para a minha calcinha molhada.  Ergui a cabeça e caminhei até ele, desfilando com maestria, imponente e com uma autoestima que eu jamais tive. Eu nem parecia a mesma Dulce destrambelhada de sempre. Me sentia poderosa naquela roupa e ainda mais poderosa com aquele homem me olhando com tanto desejo que m*l conseguia disfarçar.  — Podemos ir? — perguntei parando em sua frente, sorrindo de canto.  — Sim. — assentiu, oferecendo-me seu braço em seguida.  O salão de festas ficava dentro do hotel. Era como uma enorme sala de jantar, com mesas que estariam sendo servidas após as palestras. As pessoas eram finas, usavam roupas caras e se comportavam como se fossem feitas de gesso. As mulheres eram muito bonitas e uma parcela era bem mais jovem do que seus acompanhantes milionários. Eu, na minha mais completa humildade, me senti uma intrusa.  — Ali estão os meus pais. — Christopher suspirou. — Por que parece que você não gostou de vê-los? — fiquei curiosa.  — Não é da sua conta, Saviñon. — foi grosso.  — Eu entenderia se eles não gostassem de ver você. — rolei os olhos.  — Por que você sempre tem que me responder? — chegou perto de mim, com aquela irritação comum em sua face.  — Porque eu não sou seu capacho, doutor Uckermann. — me aproximei também, com a mesma expressão que ele, tão perto que o cheiro de seu perfume me impregnava.  A respiração dele ficou mais tensa e ele desceu o olhar para os meus lábios. Os entreabri involuntariamente, desejando que ele esquecesse que era meu chefe e me tomasse ali mesmo, naquele momento. E então ele se afastou de novo, ficando sério enquanto me encarava. Nós dois sabíamos o que estava acontecendo.  — Filho! — a voz estridente de uma mulher cortou totalmente o clima. — Como você está lindo! Aqueles que deduzi serem Victor e Alexandra se aproximaram de nós. Ela abriu os braços para Christopher, que sorriu e aceitou o abraço carinhoso da mãe. Logo depois, foi a vez de dar um abraço em seu pai, mas ele não sorriu o tanto quanto. O que estava acontecendo?  — Nós sentimos tanta saudade! — Victor disse enquanto olhava para Christopher com carinho.  — Eu também. — Christopher sorriu fraco.  — E quem é essa moça? — Victor sorriu para mim e me ofereceu sua mão para um cumprimento.  — Eu sou a Dulce. — respondi, apertando a mão dele.  — Finalmente está saindo com alguém. — sua mãe disse, olhando para mim com aprovação. — Meu Deus, você é tão linda! Que olhos majestosos! — tocou uma mecha do meu cabelo.  — Obrigada, senhora Uckermann. — sorri, me sentindo um pouco tímida.  — Nós não estamos saindo. Dulce é minha assistente. — Christopher deixou claro.  — Ah, foi com você que eu falei ao telefone outro dia! — Victor disse animado.  — Sim, senhor Uckermann. — respondi educadamente.  — Já disse que pode me chamar de Victor.  — Ok, Victor. — assenti.  Era bom ver que o pequeno Victor havia puxado ao seu pai. Parecia que ele havia ficado com a personalidade de Nathan, enquanto Christopher ficou com a aparência.  Me senti muito bem recebida pelos pais de Christopher, que foram super gentis comigo. Alexandra não parecia ser a megera de que tanto Blanca falava. Fiquei pensando sobre o fato de Christopher ser tão ranzinza tendo sido criado por aquelas pessoas tão legais. Será que a mulher que partiu seu coração o destroçou tanto ao ponto de transformá-lo em outra pessoa? Possivelmente.  — Mas você sabe que eu estou aqui para facilitar a sua vida. — Victor disse, colocando uma das mãos sobre o ombro do filho. — Você é jovem, está jogando sua vida fora enquanto se concentra na presidência, eu estou disposto a...  — Ah, pai, por favor. — Christopher o interrompeu, irritado. — Aqui não é a hora nem o lugar para isso. Eu preciso me preparar para o meu discurso. — sem mais delongas, ele saiu andando, afastando-se de nós três. — Desculpe por ter que presenciar isso, Dulce. — Alexandra disse envergonhada. — Eu e Victor achamos que Christopher precisa diminuir um pouco o ritmo e viver de verdade.  — Eu estou disposto a assumir a presidência da empresa e sei que os outros acionistas vão concordar por eu ser mais velho e portanto mais experiente no ramo. — Victor completou.  — Eu duvido que o Christopher deixe isso acontecer. — falei convicta. — Ele é osso duro.  — Sabemos bem. — Alexandra riu.  Continuei na companhia dos dois até alguém anunciar o primeiro discurso que seria o de Christopher. Ouvi ele dizer que usaria esse evento para alavancar os negócios e criar novas parcerias, então a palestra seria uma espécie de marketing.  Olhei para o pequeno palco e assisti Christopher falar muito bem em público, mostrando o quanto era inteligente e perspicaz quando se tratava de administrar uma empresa. As palavras dele foram cativantes e até eu, que não entendi metade dos termos, me sentiria tentada a fazer parte da Uckermann se já não trabalhasse lá.  Ele finalizou o discurso e todos aplaudiram. Enquanto caminhava por entre as pessoas, Christopher era parado, sendo elogiado e respondendo aos gentis cumprimentos com apertos de mãos, tapinhas nas costas, sorrisos e palavras gentis. Ele ergueu a cabeça e então prendeu seus olhos em mim. Eu estava orgulhosa dele pela excelente apresentação e queria lhe dar um abraço e parabeniza-lo. Christopher sorriu para mim também, vindo em minha direção. Quando estava a poucos metros de mim, dei um passo à frente e me preparei para falar, mas alguém se enfiou em meu caminho e tomou a minha vez.  — Christopher! Você foi brilhante, como sempre! — a mulher alta e bem aparentada jogou seus braços nos ombros dele e o abraçou com muita i********e.  — Obrigado, Megan. — Christopher respondeu durante o abraço.  Megan. Megan Morgan. Eu vi ele saindo com ela enquanto o observava do céu. Eles ainda estavam dormindo juntos? Pelo jeito como ela olhava para ele era muito provável que sim.  Senti o ciúme queimando em meus ossos enquanto observava os dois conversarem não muito longe de mim.
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