DULCE
Nós estávamos sentados em uma mesa enorme junto a outros tantos empresários e suas esposas. Coincidentemente, Larry Gavin, o cara que encontrei mais cedo na piscina, também se juntou a nós com os seus pais, que começaram a falar de negócios com Christopher, interessados em algum tipo de aliança. Megan Morgan, que mais tarde descobri ser filha de um dos sócios de Christopher, foi apresentada a mim como uma amiga do meu chefe, mas eu sabia que não era bem assim. A mulher me olhou de cima abaixo, avaliando a minha aparência e sorrindo com desdém como se tivesse se dado conta de que eu não era uma ameaça. Uma ova que eu não era, v***a metida!
Megan não trocou mais do que duas palavras falsas comigo e sentou na mesa entre Christopher e seu pai, fazendo questão de puxar assunto com Christopher a todo momento, tocando o seu braço de modo que ele tivesse que virar o seu corpo para ela, praticamente dando as costas para mim. Bufei de maneira impaciente diversas vezes enquanto tomava o meu champanhe, desejando alguma coisa mais forte do que o espumante.
— Você está bem? — Larry, que estava do meu outro lado, perguntou gentilmente.
— Estou. — forcei um sorriso. — É que esse é um evento bem diferente dos quais eu costumo frequentar.
— E que tipo de lugares você frequenta?
Bares acima das nuvens que servem suco celestial agridoce.
— Eventos bem informais, pra ser curta.
— Eu também prefiro locais mais simples. Adoro ir a karaokês com meus amigos, é divertido encher a cara e zoar enquanto cantamos.
— Aposto que a bebida é bem melhor do que essa droga de champanhe caro. — ri. — Sério, não tem nenhuma garrafa de cerveja passeando por aqui? — olhei em volta.
— Parece que você é das minhas. — piscou. — Quer ir até o bar beber algo mais forte?
Olhei de relance para Christopher, que estava distraído conversando alguma coisa com a Megan e ainda me ignorando. Talvez sair dali com Larry fizesse sua consciência despertar.
— Claro, por que não? — sorri.
Larry assentiu e depois pigarreou, chamando a atenção de seus pais, que cessaram a conversa sobre negócios com um outro homem.
— Com licença, eu e a Dulce iremos beber alguma coisa no bar. — avisou.
— Não demorem, o jantar já vai ser servido. — sua mãe disse carinhosamente, assentindo para mim em seguida.
Eu sorri em retribuição e levantei depois de Larry, que afastou minha cadeira de forma educada.
— Onde vai? — Christopher perguntou, agarrando minha mão antes que eu me afastasse.
Olhei para ele, que estava com a testa franzida e intercalando seu olhar entre mim e Larry. Observei sua mão quente ainda dentro da minha e tive vontade de suspirar, mas me contive.
— Larry e eu vamos até o bar. — expliquei.
— E se eu precisar de você? — perguntou como se estivesse tentando pensar em alguma desculpa esfarrapada para eu não ir.
Sorri de canto de maneira diabólica.
— Para o que precisaria de mim, doutor Uckermann? Para cortar o seu bife? Sua mãe está logo ali, peça para ela fazer isso. — debochei apontando para Alexandra que estava sentada em nossa frente, distraída em uma conversa.
Seu maxilar ficou rígido e eu pude ver ele cerrar os dentes com raiva.
— Não demore. — falou por fim, largando a minha mão.
Eu e Larry caminhamos pelo salão de festas até chegarmos ao bar e nos sentarmos nos banquinhos, um ao lado do outro. Ele pediu duas cervejas e depois que o barman nos serviu, Larry olhou para mim com uma expressão curiosa.
— Por que o Christopher te tratou daquele jeito?
— Que jeito?
— Como se você fosse filha dele, sei lá. — riu.
— Quando eu disse que era uma amiga dele eu estava sendo sucinta. Na verdade eu sou a assistente, ou babá, como uma amiga minha gosta de dizer. — peguei a garrafa aberta e ignorei o copo deixado pelo barman, entornando o líquido direto do gargalo.
Algumas dondocas olharam para mim com uma espécie de repreensão e até nojo, eu chutaria. Rolei os olhos e coloquei a cerveja de volta sobre o balcão.
— E fala daquele jeito com o seu chefe? — pareceu surpreso. — Sempre me disseram que Christopher tinha pulso firme, mas não foi isso que pareceu quando você foi rude.
— Se você trata uma pessoa como ela te trata é fácil domá-la. — pisquei. — Eu cuido de cada detalhe da vida daquele homem, ele não dá um passo sem mim, o mínimo que eu posso fazer é impor respeito.
— Você está super certa. Mas vamos parar de falar sobre o seu chefe. — diminuiu um tom de voz e levou sua mão até a minha.
Oh, merda...
— Claro! Vejamos... — arrastei minha mão para longe da dele. — Megan Morgan. Ela pareceu não gostar muito de mim. Qual é a dela?
Larry fez uma cara de desapontado, depois se ajeitou no banquinho e resolveu entrar no assunto que eu iniciei sem contestar.
— Megan é uma filhinha de papai que se faz de santa na frente do velho, mas abre as pernas para os sócios dele nos bastidores. Ela gosta de se sentir rebelde agindo como uma biscate pelas costas do pai.
— Isso é meio machista. — fiz uma careta. — Ela é solteira, pode dormir com quem quiser. — dei de ombros. Eu não gostava de Megan, mas era a favor dessa coisa de... como era mesmo que se dizia hoje em dia? Sororidade.
— Eu não vejo problema nenhum em alguém solteiro dormir com quem quiser. — ergueu as mãos em rendição. — Acontece que ela sai com homens casados e você tem que concordar que isso é nojento.
— Ah, sim, isso sim. — concordei. — Vai me dizer que você nunca dormiu com ela? — dei uma cotovelada de leve nele, sorrindo de maneira divertida.
— Bom... Eu... — pigarreou.
— Sabia! — ri.
— Só uma vez e a gente tinha bebido demais.
— Eu já fiquei bêbada centenas de vezes e nunca fiz nada que me deixasse arrependida no dia seguinte.
— Jura? Você tem tanto autocontrole assim? — ergueu a sobrancelha desconfiado.
— Por incrível que pareça, eu me controlo muito mais quando estou bêbada. — ri mais uma vez.
— Eu gostaria de ver isso um dia. — sorriu de canto de forma sedutora.
— Não gostaria não. — cortei suas asinhas.
Bebemos mais algumas cervejas enquanto jogávamos conversa fora. Larry era legal quando não estava tentando flertar comigo. Fiz piada com cada uma de suas cantadas, deixando claro que eu não lhe daria nenhuma a******a.
Quando retornamos para a mesa, eu já estava um pouco mais leve pelo álcool, o incômodo causado pelo local chique já não me atingia mais e eu estava falante como nunca. Não prestei atenção na conversa entre os outros até me sentar na cadeira onde estava antes. Todos pareciam envolvidos em um mesmo assunto.
Assim que olhei para meu chefe, notei seu rosto vermelho de raiva, os cotovelos estavam sobre a mesa, o queixo apoiado nas mãos unidas em um punho. Ele olhava para seu pai, que estava falando sobre um assunto que eu custei a entender.
— ...e eu faria exatamente dessa maneira. Iria alavancar os negócios, voltar aos velhos tempos e as ações subiriam como em nossa época de ouro, quando meu pai era CEO. — Victor ia dizendo como se fizesse um discurso para se autopromover.
— Você acha que eu não sou tão bom quanto o vovô!? — Christopher vociferou, olhando incrédulo para o pai. — E acha que você faria a empresa retornar aos "anos de ouro"? Passou os últimos anos rasgando dinheiro em diferentes países, papai, como pode se achar mais preparado do que eu?
E foi aí que eu notei que o clima na mesa não estava dos melhores. Assim como eu, os demais acompanhavam a discussão como uma plateia muda.
— Não estou dizendo que você não é bom no que faz, filho. — Victor suspirou. — Eu tenho muito orgulho do que tem feito e seus métodos são realmente bons, é só que eu faria diferente. E o fato de eu e sua mãe termos optado por conhecer diferentes lugares nos últimos anos não me impediu de continuar a estudar e me renovar em nosso ramo. Eu tive muito tempo para isso.
— E agora resolveu voltar definitivamente pra puxar o meu tapete. Devo agradecer, papai? — foi irônico.
— Você costumava ser bem melhor quando não estava na presidência da empresa. Melhor como pessoa, Christopher. Eu estou preocupado com você e por isso passei os últimos meses me aprofundando em tudo que se refere à empresa. Você não pode perder os anos de sua vida se desgastando com algo que te deixa tão estressado.
— Acha que é isso que me deixa estressado? Acha que é por isso que eu sou tão ranzinza? Por trabalhar demais!? — riu com sarcasmo. — Se é isso que pensa você não me conhece nenhum pouco.
O nome de Maite ecoou em meu cérebro depois que Christopher disse aquela frase. Era por causa dela que ele agia assim, não por causa da empresa.
— Quer saber? — ele ficou de pé. — Continue se autopromovendo, mas fique ciente de uma coisa: eu não sou um garoto e não preciso da sua proteção contra coisas que você acha que me fazem m*l. Vai ter que enfrentar uma batalha pesada se tentar me tirar do meu cargo.
Victor ficou em silêncio. Christopher se preparou para sair, mas antes olhou para mim com a testa franzida.
— Vamos, Saviñon. — falou em tom de ordem, dando as costas esperando que eu o acompanhasse.
Levantei automaticamente, mas fui parada pela mão de Larry em minha cintura.
— Você não tem que ir agora. — ele disse.
Sua frase fez Christopher parar de andar e mesmo de costas deu para ver seus ombros ficarem mais rígidos. Ele girou lentamente, encarando Larry como se quisesse pular em seu pescoço. Conhecendo-o como eu o conhecia, ele queria.
— Tire seus dedos sujos de cima dela antes que eu quebre a sua mão! — rosnou irritado.
Murmúrios horrorizados foram ouvidos atrás de mim e até eu arregalei os olhos, surpresa com a atitude agressiva. Apesar de ser grosso na maior parte do tempo, eu nunca vi Christopher ameaçar ninguém.
— Tudo bem, Larry. — eu mesma tirei a mão dele da minha cintura. — Eu quero mesmo sair daqui. — ainda mais depois desse constrangimento.
Ele assentiu compreensivo e se afastou, deixando que eu seguisse Christopher, que caminhava a passos largos e pesados, deixando transparecer toda a sua fúria. Então essa era a questão estranha que ele tinha com o pai, o fato de Victor estar querendo ficar em seu lugar na empresa.
Eu tinha que quase correr para conseguir acompanhá-lo. Christopher não falou comigo o caminho inteiro, resmungou no elevador coisas que eu não consegui compreender e quando as portas se abriram ele me deixou para trás de novo, indo em direção ao seu quarto. Ele abriu a porta e quando a empurrou para bater, eu passei na frente, sendo atingida em cheio pela madeira.
— Ai! — gritei, passando a mão em meu braço dolorido.
Ao notar o que havia feito, Christopher se virou para mim e desamarrou um pouco a expressão, arregalando os olhos como se tivesse feito uma coisa horrível.
— Você se machucou? — perguntou preocupado.
— Não.
— Ótimo. — e voltou com a carranca. — Agora sai daqui, eu quero ficar sozinho.
Franzi a testa sem acreditar que havia ouvido aquilo e continuei parada no mesmo lugar. Christopher retirou o paletó, o jogou sobre a cama e afrouxou a gravata. Depois foi até o aparador se servir de uísque. Com seu copo cheio, olhou para mim novamente de maneira séria.
— Mandei sair! — foi grosso.
— Por que você me chamou se quer que eu te deixe sozinho? — cruzei os braços.
— Eu não te chamei pra me fazer companhia, Saviñon. — esfregou o rosto com impaciência. — E eu não tenho que explicar nada, apenas saia.
— Não. Eu não vou sair. — falei decidida, depois fui até a porta e a fechei. — Você está puto e precisa de apoio moral.
Christopher soltou um suspiro longo e finalmente pareceu ceder. Ele sabia que eu era teimosa e que não iria adiantar ficar me dando ordens que eu não iria querer cumprir.
— Eu queria muito te demitir. — falou caminhando até a varanda.
— E você tem toda razão em querer fazer isso. — o segui.
Ele parou, colocando a mão sobre a grade e olhou para mim com certa curiosidade.
— Quem em sã consciência fala isso para o próprio chefe? — perguntou com o cenho franzido.
— Eu sou sincera e realista. Você quer me demitir porque eu vou contra tudo o que você gosta de ver em um funcionário. Eu te irrito, mas entrego todas as minhas tarefas como elas têm que ser feitas, mesmo que eu tenha me atrapalhado um pouco no processo. Eu sou grossa e respondo a cada arrogância, mas no final sempre faço o que você precisa, mesmo reclamando. Eu sou imperfeita e eficiente. Você quer me demitir, mas sabe que não deve.
Consegui arrancar um sorriso daquele rosto, mesmo que um breve e quase imperceptível sorriso de canto. Achei que não falar sobre o seu pai fosse o melhor no momento. Christopher não era o tipo de pessoa que desabafava, mas distraí-lo com outros assuntos era a receita perfeita para trazer sua paz de volta. Eu conhecia mesmo aquele cara.
— Você é a única pessoa que eu aturo ultimamente, Dulce. — suspirou, apoiando os cotovelos na grade enquanto olhava para as estrelas.
— Uau, você me chamou pelo meu primeiro nome. — fingi uma expressão de choque.
— Eu já te chamei pelo seu primeiro nome outras vezes.
Sim, quando estava com ciúmes de mim. — pensei comigo mesma, incapaz de verbalizar aquilo.
Me mantive em silêncio e me aproximei dele, ficando na mesma posição, tão perto que nossos braços estavam encostando um no outro.
— Eu tinha esquecido como o céu era bonito à noite. — falei mais para mim mesma. Notei que Christopher virou a cabeça para me olhar. — E de como as estrelas brilham. — continuei dizendo, sem me dar conta de que aquilo iria soar estranho para ele.
— Estou preocupado, cada vez você dá mais sinais de que passou a sua vida em um cativeiro. — brincou.
— Ah, droga, não era pra você descobrir isso! — arregalei os olhos e coloquei minha mão sobre a boca.
— O que... você... — ele ficou mais sério, achando que era mesmo verdade.
Comecei a rir e ele suspirou aliviado, rindo comigo depois. Involuntariamente, pousei minha cabeça em seu ombro enquanto ambos íamos parando de rir gradativamente. Nunca vi Christopher tão leve perto de mim, ainda mais permitindo que eu me aproximasse tanto. Das vezes em que presenciei esse lado dele, eu estava no céu, observando de um monitor. Enfim eu estava conseguindo fazer ele se mostrar para mim, como havia planejado desde o início. Ao menos uma coisa eu fiz certo.
Nós ficamos quietos, mas de uma maneira confortável. Tudo o que eu ouvia era sua respiração pesada. Ergui a minha cabeça e olhei para ele, que já estava olhando para mim. Meus batimentos ficaram descompassados e eu mirei os seus lábios, vendo que ele fez o mesmo. Me senti tentada a me aproximar e sentir o seu sabor, então foi exatamente o que eu fiz.
Quando senti sua respiração bater em minha face, alguma coisa mudou em seu olhar e ele simplesmente virou o rosto, ficando ainda mais sério. Eu fiquei ali, confusa, envergonhada e incrédula. Pareceu que ele ia me beijar, o que estava errado? Mirei o chão, desanimada com a situação. Agora era a hora que ele surtaria e assinaria a minha carta de demissão por justa causa?
— Desculpe. — ao invés disso, ele se desculpou, o que foi super estranho. — Eu não beijo ninguém.
— O que? — franzi a testa.
— Eu não beijo ninguém. — repetiu calmamente, olhando para mim depois, sem a irritação que eu achei que estaria sentindo.
— Por que?
— Beijos são muito íntimos, eu não quero ter esse tipo de i********e com ninguém.
Ficamos nos encarando por alguns segundos até eu começar a rir. Ele franziu a testa olhando para mim como se eu fosse louca.
— Você é muito estranho! — continuei a rir.
— Eu?
— Sim! Como assim muito íntimo? Mais íntimo do que receber um boquete? Ah, pelo amor de Deus!
Ele riu também, negando com a cabeça.
— Você também é muito estranha. Acabou de tentar beijar o seu chefe e age como se não estivesse preocupada em perder o emprego.
— Não estou preocupada porque sei que se o meu chefe fosse um cara normal ele estaria me beijando nesse exato momento. — dei alguns passos para frente, a poucos centímetros do seu rosto.
— Você é inteligente, Saviñon. — sorriu com malícia.
— Sabe... — coloquei minhas mãos sobre o seu peito e o olhei de relance da forma mais sedutora possível. — Eu poderia te beijar em outro lugar.
O sorriso dele cresceu ainda mais e depois de deixar o copo de uísque sobre a mesinha, ele segurou minha cintura com as duas mãos.
— No meu p*u?
— Jesus, não! — arregalei os olhos, caindo na risada junto com ele. — Você é muito pervertido! — dei um tapinha em seu peito.
— Onde quer me beijar, Saviñon?
Mordi meu lábio inferior e fiquei nas pontas dos pés para poder chegar mais perto. Nossas bocas ficaram bem próximas e eu tive que manter muito o controle para não beija-lo. Desviei para sua bochecha e tracei um caminho até seu pescoço, onde eu chupei e mordi algumas vezes. Christopher apertou mais a minha cintura, roçando sua ereção no meu ventre. Ele estava gostando daquilo e talvez eu estivesse gostando bem mais...