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2412 Palavras
DULCE Enquanto dirigia de volta para a casa de Christopher, eu tentava me preparar psicologicamente para gritar com os jornalistas que estavam na frente da propriedade. Nada de polícia, eu usaria até a minha força sobre-humana se precisasse. Era totalmente babaca a forma como eles sequer pensavam na sanidade mental das outras pessoas antes de ir até lá tentar pressionar o Christopher por informações.  Mas diferente do que eu imaginei, o bairro estava muito calmo e tirando o carteiro que entregava encomendas, o lugar estava deserto. Isso levantava uma hipótese interessante. Teria Christopher mentido só para eu achar que tinha um motivo para prestar um serviço a ele? Ele ainda iria querer que eu levasse Thor para passear quando eu entrasse na casa?  Passei pelo portão e assim que abri a porta, o cachorro veio correndo na minha direção e pulou sobre mim com o r**o abanando rapidamente. Em ocasiões antigas, eu teria morrido de pavor, mas agora eu sorri ao sentir algo aquecer em meu peito. Nunca fui muito fã de cachorros, mas aquele gigante fofo estava me amolecendo.  — Oi, Thor, eu não esqueci os seus biscoitos. — acariciei a cabeça dele.  Como se tivesse entendido, ele sentou e ficou quieto olhando para mim. Entendendo o recado, eu abri a minha bolsa tiracolo e tirei de lá o saquinho de biscoitos caninos que comprei em um petshop assim que saí da empresa. Dei alguns para Thor, que pulou de animação enquanto abocanhava os petiscos.  — Não vai comer tudo agora, vamos deixar para mais tarde. — guardei novamente os biscoitos. — Agora me mostre onde está o seu pai.  Comecei a andar pela casa enquanto Thor me seguia. Resmunguei descontente ao notar que Christopher não recolheu os brinquedos do chão como eu havia pedido no post-it. Ele esperava que eu o fizesse? Pois bem, só como lição eu o obrigaria a catar cada um dos objetos enquanto eu o supervisionava. Eu estava cansada de tropeçar por aí, me sentia vivendo em um campo minado.  Quando me aproximava da cozinha, comecei a ouvir uma voz feminina cantando uma música que me era muito familiar.  — "But I can't help falling in love with you..." (Mas eu não consigo evitar de me apaixonar por você).  Travei no lugar no mesmo instante e lembranças antigas invadiram a minha mente. Elvis Presley era um dos meus cantores favoritos, sem dúvidas. Um dos melhores momentos da minha vida foi ter podido ir a um show dele antes de eu falecer. Foi uma noite mágica e inesquecível. E apesar de amar cada letra de cada canção que o rei do rock escreveu, eu tomei um profundo desgosto por Can't help falling in love simplesmente pelo fato de Lia e Nathan terem tornado esta a sua canção de amor.  E agora, como se o destino estivesse rindo da minha cara, havia uma mulher cantando essa mesma música na cozinha do homem por quem eu estava apaixonada.  Finalmente decidi entrar na cozinha e para a minha surpresa, a mulher que cantava a canção era justamente a Lia. Apesar da idade, sua voz estava em perfeito estado. Tinha alguma coisa nela que não era perfeito? E eu digo isso em um bom sentido, não estou sendo invejosa dessa vez.  Christopher estava do outro lado do balcão, de frente para a sua avó. Segurava um copo com sorvete dentro e comia enquanto sorria observando Lia cantar.  — Essa música é muito bonita e a senhora canta tão bem! — Christopher a elogiou.  Nenhum dos dois havia notado a minha presença.  — Obrigada, querido. Essa era a minha música com o Nathan. — soltou um suspiro apaixonado. — Que noites mágicas aquelas em que passamos dançando... — olhou para cima como se estivesse lembrando de algo.  Eu também lembrei. O aniversário de casamento deles, eu bebendo cerveja em um canto e chorando como uma covarde ferida enquanto os dois dançavam agarradinhos.  — Lembro quando o vovô me apresentou aos discos do Elvis. Eu simplesmente viciei em rock antigo e hoje não consigo pensar em um artista melhor que ele.  — Eu lembro de você querendo imitar o penteado do Elvis. — riu. — Era uma graça! Mas seu avô e eu só tomamos gosto por causa da minha melhor amiga. Ela era a maior fã do Elvis que eu já conheci. Depois que a Dulce faleceu ouvir aquelas canções era uma forma de tê-la perto.  Ouvir isso me fez querer chorar e meus olhos lacrimejaram.  — Espera, Dulce? — franziu o cenho. — Caramba, eu tinha esquecido dessa sua amiga. Você me mostrou muitas fotos dela... Parando pra pensar, ela se parece bastante com a minha Dulce.  — Com quem? — Lia arregalou um pouco os olhos, assim como eu também fiz.  Minha Dulce?  — Quer dizer... — pigarreou. — Minha assistente. Foi isso que eu quis dizer. — desviou os olhos ligeiramente.  Senti que meu rosto estava vermelho e um sorriso enorme brotou em minha boca.  — Ora essa, as pessoas podem se parecer, é normal. — Lia ficou séria e deu de ombros.  — É. Tem razão. — ele concordou.  — Com licença! — falei alto, chamando a atenção dos dois, que olharam ao mesmo tempo na minha direção.  — Você chegou! — Christopher falou mais animado do que eu esperava e ao notar o tom que usou, ele próprio tratou de baixar os ombros e parar de sorrir.  — Achei que os jornalistas tinham voltado. — olhei para ele com desconfiança.  — Voltaram, mas eu segui o seu conselho e chamei a polícia. — falou naturalmente.  — Mas... — eu ia rebater, mas eu sabia bem o que estava acontecendo e não precisava ficar encurralando ele. — Tudo bem. Oi, senhora Uckermann, como vai? — sorri para Amelia e me acomodei no assento ao seu lado.  — Bem, na medida do possível. — sua fala foi um pouco indiferente, o que eu achei estranho.  — Isso é bom. Eu acho. — franzi levemente a testa.  — Christopher, não deveria ficar tirando a garota do trabalho por puro capricho. Seu pai precisa de uma secretária.  — Alguém do RH vai substituir a Dulce, não tem problema. — ele argumentou.  — Eu não gosto desse seu lado mimado de achar que pode fazer o que quer o tempo todo. — Lia rolou os olhos.  — Não estou sendo mimado. A empresa é minha.  — E minha. E do seu pai. — agora parecia que ela estava ficando brava. — Só estou dizendo que Dulce não deveria ficar tão grudada em você o tempo todo, você não precisa disso.  — Eu decido do que eu preciso, vovó.  Antes que Amelia retrucasse, o celular de Christopher começou a tocar. Ele pediu licença para atender e saiu da cozinha. Olhei para Lia com curiosidade, sem entender o porquê de ela estar estranha.  — O que diabos deu em você, Lia? — perguntei.  — Eu que deveria te fazer essa pergunta! — exclamou me olhando irritada.  — O que? O que eu fiz?  — Minha Dulce. Ele te chamou de minha Dulce!  — Bom, isso é estranho... Mas eu ainda não entendi o que eu fiz.  — Eu também quero entender o que você está fazendo. — cruzou os braços. — Você disse que estava na Terra para encontrar a alma gêmea do meu neto.  — Sim. — assenti devagar.  — E você pode se colocar como uma opção?  — O que? — forcei uma risada nervosa. — Isso vai contra as regras. — eu não estava mentindo, mas também não estava falando a verdade.  — De qualquer forma, você tem que estar ciente de que o Christopher não é o Nathan.  — O-o que? Do... do que está falando? — se eu pudesse chutar, diria que provavelmente eu estava pálida agora.  — Eu sei, Dulce. — suspirou pesadamente. — Alguns meses depois que você faleceu, o Nathan me contou. Todas aquelas vezes em que eu achei que você estava se tornando antisocial e reclusa quando recusava viajar conosco ou ser madrinha de um dos meus filhos... — negou com a cabeça.  — Eu... — senti um bolo se formando em minha garganta e meus olhos voltaram a lacrimejar. — Eu sinto muito. — minha voz vacilou.  — Não sinta. Você nunca tentou fazer nada para estragar a minha vida. Ao contrário, você ficou ao meu lado e me ajudou sempre que pôde. Você conseguiu ser uma amiga incrível, a melhor de todas, mesmo que aquilo te machucasse.  — Porque eu te amo, Lia. Eu queria ver você... vocês felizes. Isso era o que importava.  — E eu agradeço, Dul. De todo o meu coração. E sou eu quem deve pedir desculpas. Eu não fazia ideia do quanto estava te machucando.  — Não é culpa sua. E sobre o Christopher...  — Ele se parece muito com o avô, eu sei, mas não deixe isso entrar na sua cabeça. Essa obsessão não é saudável, Dulce.  — Eu não sou obcecada pelo Christopher. — franzi a testa, me sentindo ofendida.  — Não, não pelo Christopher. — ergueu a sobrancelha sugestivamente.  — Você está ficando louca. — fiquei de pé e me afastei um pouco dela.  — Posso estar velha, mas eu sou bastante observadora. O Nathan faleceu e não pode ser substituído por ninguém, nem mesmo por seus descendentes.  — Olha, é melhor você calar a boca, Lia. Você não faz ideia do que eu passei enquanto estivesse morta. Não sabe as coisas que eu estou enfrentando agora e nem fazia ideia do que eu sinto ou penso. Eu fui a sua melhor amiga há quarenta e cinco anos atrás. Você não me conhece. — fui dura nas palavras.  Amelia certamente sentiu o impacto do que eu disse, pois a expressão em seu rosto era de desânimo. Doía em mim ter que falar daquela forma, mas eu não podia aceitar que ela insinuasse coisas e agisse como uma loba para proteger o Christopher de mim. Era ofensiva a forma como ela estava deduzindo o que eu sentia. Eu melhor do que ninguém sabia que nada disso era mais sobre o Nathan. Eu queria o Christopher, com todo o seu temperamento ácido e t***o em excesso. Nós duas ficamos em um silêncio desconfortável e eu agradeci mentalmente quando Christopher retornou.  — E então, do que falávamos? — ele perguntou.  — Nada importante. — Amelia pigarreou e ficou de pé. — É melhor eu ir agora, já que a Dulce te fará companhia. — forçou um sorriso.  — Depois a gente pode jantar juntos, o que acha? — Christopher sugeriu.  — Eu vou amar, querido. — agora o sorriso dela foi sincero. — Não precisa me acompanhar até a porta.  Após dar um abraço carinhoso em Christopher, ela se despediu de mim com um aceno positivo de cabeça e um olhar desconfortável.  — Melhor eu levar o Thor para passear. — falei.  — Ah, claro. Eu vou ter que fazer uma vídeo conferência com o Alfonso e alguns jornalistas pra tratarmos do assunto complicado. — bufou e depois se aproximou de mim. — Espero não demorar.  Acariciando a lateral do meu rosto, ele colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha e sorriu de canto, um sorriso que sugeria muitas coisas.  — E depois? Vai precisar de mim pra mais alguma coisa? — eu não conseguia desviar os olhos dos lábios dele.  — Eu tenho algo em mente.  Após dizer aquela frase, Christopher agarrou meu cabelo com firmeza e me puxou para ele. O beijo me pegou de surpresa, pois eu não achei que ele teria aquela iniciativa. Na verdade, eu já estava tentando aceitar a possibilidade de ele simplesmente surtar por ter me beijado na noite anterior. Mas ao invés disso, ele estava aqui querendo dar continuidade à pegação. Presa naquele beijo, eu o abracei e me entreguei totalmente aos movimentos de nossas bocas, achando muito prazeroso a forma como ele sabia usar sua língua. Desci do assento devagar até meus pés tocarem o chão, fazendo com que eu tivesse que ficar nas pontas dos dedos para não correr o risco dos meus lábios se perderem dos dele.  Christopher me deu um leve empurrãozinho até eu estar contra o mármore da bancada. Ali ele viu a chance de tornar o beijo ainda mais quente, fazendo com que eu ficasse molhada, pensando no que queria que ele fizesse comigo e imaginando o que eu faria com ele. Com sua mão em minha cintura, ele a colocou sob o tecido de minha blusa, subindo com seus dedos por minha pele, me deixando arrepiada e mais quente do que realmente estava.  Ele tentou se afastar, mas eu não permiti e o abracei mais forte. Christopher riu contra a minha boca, me beijou mais um pouco e novamente tentou parar o beijo e dessa vez eu permiti, ficando ofegante depois que nossos lábios estavam longe um do outro. Mantive minhas mãos em seus ombros e ele as suas em minha cintura. Estávamos nos olhando com certo desejo e admiração.  — Você é bem forte mesmo. — ele disse. — Melhor eu começar essa reunião logo, quero acabar rápido. — piscou.  — Tudo bem. Eu vou estar bem aqui.  — Eu sei. — sorriu e depois me largou.  O observei enquanto saía da cozinha. Antes de sumir completamente do meu campo de visão, Christopher olhou para mim por cima do ombro e sorriu mais uma vez com um toque de perversidade. E quando eu estava sozinha, me dei conta do que iria acontecer e comecei a ficar nervosa.  Rapidamente, peguei o meu celular e abri o contato de Anahi para lhe enviar uma mensagem.  ESTÁ ACONTECENDO!!! Anahi:  AI MEU DEUS, JÁ???  Sim, mas ele terá uma reunião e eu vou passear com o Thor, então eu terei algumas horas para descobrir como não passar vergonha no sexo.  Anahi: Não temos muito tempo, então apenas assista isso aqui:  Em anexo, ela me mandou alguns links de nome peculiares e quando eu abri um deles, voltei apressada para as mensagens.  VOCÊ ME MANDOU PORNÔ???? Anahi: Berinjelas? Por que diabos ela me enviou berinjelas?  Eu deveria te matar! Anahi: Eu deveria procurar me informar sobre esse modo de comunicação atual, porque eu não fazia ideia do que aqueles emojis significavam. Vendo que Anahi não iria me ajudar mais do que aquilo, eu guardei meu celular e fui procurar a coleira de Thor para o passeio. Ao menos a caminhada poderia me fazer relaxar.
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