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2751 Palavras
DULCE Victor chegou à casa de Christopher acompanhado de Alfonso. Os três se trancaram no escritório e eu aproveitei para ir até a cozinha e preparar alguma coisa para Christopher comer. Ele estava pálido e parecia não ter se alimentado. Peguei algumas coisas da geladeira e preparei alguns sanduíches bem recheados e servi um copo de suco de laranja.  Afastei um pouco as cortinas da janela e avistei os jornalistas ainda lá fora. Seria um incômodo ter que impedir a entrada da luz do sol por causa daqueles parasitas. O único jeito era chamar a polícia para manda-los embora. Não demorou até a polícia chegar e assim que a frente da casa estava vazia, eu abri todas as cortinas e apaguei as luzes para economizar energia.  Quando estava prestes a me sentar em um dos banquinhos do balcão, Thor apareceu na porta da cozinha e parou me encarando.  — Não inventa, você sabe que eu sou mais forte que você. — avisei.  O cão maneou a cabeça para o lado como se estivesse curioso com alguma coisa e então eu notei que ele olhava para o prato cheio de sanduíches que estava sobre o balcão.  — Você quer comer? Tudo bem, eu vou me mexer agora para ir até a despensa pegar a sua ração. Seja um bom garoto e me espere aqui.   A passos controlados e sem desviar minha atenção de Thor, eu entrei na despensa e peguei o saco de ração. Voltei para a cozinha e fui até onde ficavam os potes do cachorro. Assim que eu virei o saco ele pulou em cima de mim e eu gritei por causa do impacto que me fez cair deitada no chão com o saco sobre mim. O resultado foi que eu fiquei coberta de ração e agora Thor estava me fazendo de prato, comendo enquanto eu tentava empurra-lo para sair de cima de mim.  Aproveitei da minha força para afastá-lo e então eu fiquei de pé e o peguei no colo com muita facilidade, algo que seria impossível se eu não estivesse usando o colar de Klaus. Ele se agitou um pouco em meus braços e tentou mastigar o meu cabelo que estava com um pouco de ração entre as mechas. Dei risada quando ele lambeu a minha orelha e parei de rir quando notei Christopher em pé na porta da cozinha olhando para nós com estranheza.  — Como você consegue carregá-lo? Ele pesa tipo uns sessenta quilos.  — Ah... — eu o coloquei de volta no chão e sacudi minha roupa e meu cabelo. — Eu sou bem forte. — sorri sem mostrar os dentes.  — Você não parece o tipo de pessoa que faz musculação.  — É a genética. — esperava que isso o fizesse parar de me questionar.  — Achei que tinha medo dele. — sorriu de canto.  — A gente está se entendendo. — acariciei a cabeça de Thor e sorri para ele.  — Estou vendo. — ele ergueu sua mão até meu cabelo e puxou alguma coisa, depois me mostrou o grão de ração.  Meu rosto ficou vermelho e eu olhei para o chão, me dando conta da bagunça que fiz. Ao menos Thor estava se empenhando em comer parte do que eu derrubei.  — Eu juro que vou limpar tudo. — deixei claro.  — Não precisa. — Christopher pegou o saco de ração e foi até a despensa para guardar o que eu não consegui desperdiçar. — O Thor já está limpando tudo, não é, garoto? — sorriu fraco, dando um tapinha leve nas costas de seu cão.  — Espero que esteja com fome também.  — Dulce, eu não como ração. — franziu a testa.  — Não! — rolei os olhos. — Eu fiz sanduíches. — apontei para o balcão. — Ah, ok. — assentiu. — Isso foi... atencioso.  Ergui as sobrancelhas surpresa por ele ter falado alguma coisa gentil. O observei quando ele foi até o balcão e sentou em um dos bancos, puxando o prato para si. Christopher mordeu um dos sanduíches e depois olhou pela janela.  — E os jornalistas?  — Eu chamei a polícia. — me aproximei dele e sentei ao seu lado.  — Isso só resolve por hoje, amanhã eles devem estar de volta. — suspirou pesadamente.  — Então amanhã eu bato neles com um taco de beisebol. — brinquei.  Christopher riu e olhou para mim de relance como se me analisasse. Antes de seu pai e Alfonso chegarem, ele estava nervoso e parecia muito assustado, mas agora que eles foram embora ele parecia bem melhor.  — Que bom que está aqui, Dulce.  — Uau. — entreabri os lábios.  — O que foi?  — Essa é a segunda coisa legal que você fala pra mim em menos de dez minutos.  — Eu sou legal com você o tempo todo.  — Oi? — comecei a rir alto. — Você nunca me agradeceu por nada!  Parei de rir quando notei que ele se manteve bem sério.  — Bom, obrigado, Dulce. Por hoje e por todos os outros dias.  Paralisei sem acreditar que estava mesmo ouvindo aquilo. Talvez passar por um grande estresse faça as pessoas repensarem suas ações. E agora eu não fazia ideia do que dizer porque nunca imaginei que ele mudaria da água para o vinho tão repentinamente.  Ambos ficamos em silêncio, Christopher continuou comendo enquanto eu batucava o mármore do balcão com as pontas dos dedos.  — Você acredita em mim? — ele perguntou de forma séria sem olhar para mim. — Acredita que eu não fiz isso?  — É claro que eu acredito em você. — pousei minha mão em seu ombro e sorri para ele.  — Mas eu nunca fui muito legal, qualquer uma no seu lugar desconfiaria de mim. — Christopher parecia envergonhado.  — Eu sempre soube que no fundo você era um cara legal. E é bom ver que está permitindo que eu veja esse seu lado agora. De verdade, eu esperei por isso.  Christopher tocou a minha mão que estava em seu ombro e fez um carinho em meus dedos, abrindo um sorriso quase imperceptível.  — A Sadie não me processou judicialmente, ela só contou toda essa história para um site de fofocas. Eu vou denunciá-la por calúnia e difamação e o Alfonso sugeriu que eu fizesse uma coletiva de impressa pra contar a minha versão da história, mas eu não estou pronto pra isso.  — Você não precisa vir a público agora. Tem que cuidar de si mesmo, relaxar um pouco, passar um tempo sozinho.  — Eu não quero ficar sozinho. — fez uma pausa. — O que acha de voltar a ser a minha assistente e passar uns dias aqui?  Mais uma surpresa em um curto período de tempo. Christopher continuou a me encarar até eu notar que fiquei em completo silêncio depois de sua pergunta.  — Está bem. — pigarreei. — Eu fico. Só tenho que ir até em casa pegar minhas coisas e avisar à Blanca.  — Ótimo. Obrigado. E pare de me olhar como se eu fosse de outro mundo. — É que é tão estranho ver você sendo legal. — ri.  — Eu era tão r**m assim?  — Um pé no saco. — Aposto que sentiu a minha falta. — sorriu.  — Senti. — admiti.  — Eu também senti a sua.  Ficamos nos encarando por um tempo, um clima estranho começando a invadir o ambiente. A energia se fez tão intensa que eu podia sentir os pêlos em meus braços se arrepiando. Quando Christopher desviou o olhar, eu soltei o ar de meus pulmões voltando a ficar menos tensa.  [•••] Depois de ir até em casa e fazer uma mala pequena apenas para alguns dias, eu retornei para a casa de Christopher e arrumei minhas coisas em um dos quartos de hóspedes. Enquanto dobrava as minhas roupas, meu celular vibrou sobre a cama e uma notificação do i********: apareceu.  "larrygavin começou a seguir você"  Franzi o cenho e peguei o aparelho. Há dias eu não ouvia falar do Larry. A última vez em que o vi foi na primeira noite do evento quando bebemos juntos e depois o Christopher ameaçou quebrar a mão dele. Achei que depois do incidente o cara não iria querer nem um bom dia meu.  Rapidamente Larry me enviou uma mensagem.  larrygavin: Oi, Dulce, tudo bem? Eu vi as notícias, fiquei preocupado com você. Se precisar de alguém para conversar, eu estou disposto a te dar apoio.  Ele não estava mesmo insinuando o que eu acho que estava, certo? Ele achava que Christopher era culpado e que talvez pudesse ter feito algo contra mim? A minha vontade era de digitar dezenas de palavrões, mas eu apenas o ignorei e joguei o celular de novo na cama.  Peguei meus produtos de higiene pessoal e fui até o banheiro para organiza-los no armário. Enquanto guardava tudo, ouvi a porta do quarto ser aberta.  — Dulce? — Christopher me chamou.  — Estou no banheiro!  — Eu vou pedir o jantar, você tem alguma preferência?  Christopher agindo como uma pessoa normalmente educada seria uma coisa com a qual eu demoraria a me acostumar.  — Eu gosto de pizza.  — Ok.  Fez-se silêncio e eu deduzi que ele havia saído do quarto. Assim que coloquei o shampoo na prateleira do box, eu saí do banheiro e arfei de susto ao ver Christopher em pé parado enquanto olhava no celular com a testa levemente franzida.  — Você me assustou, achei que eu estava sozinha! — reclamei rindo.  Cheguei perto da cama para procurar o meu celular, mas ele não estava mais lá. Foi então que eu me dei conta de que o celular na mão de Christopher não era o dele.  — O que está fazendo? — perguntei com estranheza.  — O que esse merdinha está insinuando!? — ele virou a tela para mim e eu li as notificações das mensagens de Larry detonando o Christopher e insistindo em saber se eu precisava de ajuda.  — Calma. — peguei o celular da mão dele e coloquei sobre a cômoda para evitar que ele o arremessasse em alguma parede. — Não sei o que ele quer comigo, é a primeira vez que ele dá as caras desde que nos vimos em Washington. — eu senti que deveria explicar isso.  — Você pode falar com quem quiser, Dulce, eu não me importo! O que me incomoda é esse cara insinuar que eu fiz alguma coisa de errado com você! Desbloqueia o celular, deixe que eu mesmo responda.  — Não. Você não pode responder todas as críticas na base do ódio. Larry não é o único com esse tipo de pensamento, infelizmente. Você precisa manter o controle e, se puder, ficar longe da internet por enquanto. Eu não sou muito antenada, mas dizem que as pessoas costumam ser maldosas lá.  — Atrás de uma tela todo mundo é corajoso! — bufou, irritado. — Queria que esse filho da p**a dissesse essas coisas na minha cara! — pressionou o maxilar.  — Por favor, respira. — toquei seus braços e o olhei atentamente. — Não gasta a sua sanidade mental. Vamos viver um dia de cada vez, ok? Agora a única coisa com a qual você precisa se preocupar é pedir aquela pizza para o jantar. — falei calmamente como uma forma de apaziguar a situação. Ele respirou fundo, fechou os olhos por um instante e soltou o ar. Depois tornou a abrir o olhos e olhou para mim claramente mais calmo. Christopher assentiu devagar e baixou a guarda, resolvendo seguir o meu conselho.  Pedimos a pizza e depois nós comemos juntos. Toquei em vários assuntos aleatórios para que Christopher pensasse em outras coisas. Descobri que seu gênero de filme favorito era terror, que fez parte de uma banda na adolescência tocando guitarra, que fez uma tatuagem escondido aos dezessete anos e que sua avó o obrigou a fazer várias sessões a lazer para retirar.  — E o que você tatuou? — eu ri.  — Isso é meio constrangedor. — ficou vermelho. — Eu era obcecado pela Angelina Jolie e tatuei o nome dela. — gargalhou.  — Quem é essa? Alguma namorada de escola?  — Como assim você não conhece a Angelina Jolie? — olhou-me chocado. — Ela é uma das atrizes mais famosas de Hollywood!  — É que... — cocei a nuca. Seria difícil escapar dessa.  — Me conta sobre a sua adolescência e o motivo pelo qual você desconhece coisas básicas.  — Nós tínhamos televisão em casa, mas só assistíamos aos canais locais. Na maior parte do tempo ouvíamos rádio. É que sempre era melhor passar o tempo fazendo coisas no mundo real, sabe? — isso porque estávamos nos anos setenta, não por escolha própria.  — Seus pais são hippies, não são?  — Tipo isso. — dei de ombros e sorri sem jeito.  Rapidamente eu perguntei mais sobre a vida dele e nós desviamos o foco de mim. Eu não queria ter que mentir sobre a minha vida e o único jeito era não falar sobre ela.  Mais tarde quando me retirei para dormir, Christopher me fez prometer que faríamos uma sessão de filmes da Lara Croft, personagem famosa dessa tal de Angelina Jolie.  Dormi rapidamente e fui acordada algumas horas mais tarde com o barulho de alguma coisa quebrando. Abri meus olhos e olhei o horário no celular. Quase três da manhã. O que diabos estava acontecendo? Mais uma vez ouvi vidro se estilhaçando e fiquei em alerta.  Vesti um robe e saí do quarto. Pude ouvir Christopher proferir um palavrão alto da sala e quebrar mais alguma coisa. Fui rapidamente até as escadas e o observei prestes a arremessar mais um vaso na parede. Arregalei os olhos e corri até ele, conseguindo pará-lo e tirar o objeto de sua mão antes que o chão da sala ficasse mais cheio de cacos de vidro. Coloquei o vaso de volta em seu lugar e voltei para perto de Christopher.  — O que aconteceu? — perguntei preocupada, segurando seu rosto.  Ele estava aos prantos. Seu rosto estava vermelho e coberto de lágrimas quando ele bufou e seu hálito chegou em meu rosto, eu notei que ele andou bebendo.  — A v***a deu outra entrevista! Acabou de sair! — apontou para o notebook sobre a mesa de centro.  — O que eu disse sobre ficar longe da internet? — fiquei séria.  — Eu não posso... não posso... — soluçou e me puxou para ele, enterrando seu rosto na curva do meu pescoço. — Estou tentando não surtar, Dulce, mas é tão difícil!  — Eu sei. Vem cá. — segurei suas mãos e o levei até o sofá onde nos sentamos. — Não vai ficar mais fácil, eu não vou mentir pra você. Você vai levar muita porrada das pessoas até que essa história seja devidamente esclarecida. E tudo bem você ficar m*l, tudo bem querer surtar, tudo bem chorar, mas não haja assim. — olhei para os cacos no chão. — Não deixe que ela bagunce a sua vida. — acariciei seu rosto, afastando seu cabelo da testa. — Ao invés de sair quebrando tudo, fale com alguém. Fale comigo. A qualquer hora, em qualquer lugar, sempre que precisar me chame e eu vou te apoiar. Eu sempre vou estar aqui.  Mantive minha mão em seu rosto e notei que Christopher parou o choro. Agora ele só olhava pra mim atentamente enquanto respirava fundo, olhando nos meus olhos até desviar a sua atenção para a minha boca. No segundo seguinte, ele se esquivou e seus lábios se chocaram contra os meus. Fiquei quieta por não ter esperado por aquela reação, mas aos poucos senti segurança para retribuir.  Segurei em sua nuca e ele deslizou uma das mãos por minhas costas, segurando meu rosto com a outra. Nossas bocas se encaixaram bem e depois que nossos lábios fizeram reconhecimento, a língua de Christopher deslizou até a minha e eu tomei a iniciativa de aprofundar e tornar o beijo mais intenso. Ele chupou e mordeu os meus lábios com muito desejo e eu soltei um gemido contido em sua boca. O meu murmúrio de prazer lhe deu brecha para avançar ainda mais, fazendo-o me deitar no sofá, ficando por cima de mim sem deixar que seu peso me esmagasse.  Eu estava ficando excitada, mas não queria finalizar o beijo ainda porque esperei muito por aquilo e porque eu sabia o quanto era importante para o Christopher beijar outra pessoa. Eu era importante, ele sentia algo forte por mim, agora eu tinha certeza.
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