DULCE
Se a Blanca não tivesse a ideia de colocar uma música novamente, o lugar teria se mantido no mais completo silêncio. Eu não sabia o que falar com Christopher, porque a única coisa que eu queria era perguntar o que estava acontecendo com ele e eu tinha medo que os meus questionamentos o fizessem recuar e voltar a ser indiferente. Vê-lo ajudar na limpeza com uma expressão contente era o suficiente por enquanto.
Nós descemos do palco para limpar os assentos e uma música pop moderna começou a tocar. Eu naturalmente comecei a mover meus quadris enquanto tirava a poeira com o espanador. De repente eu senti alguma coisa bater em minha b***a e eu gritei pelo susto, olhando para trás e encontrando Christopher rindo enquanto jogava uma flanela em seu ombro.
— Você dança muito m*l. — falou.
— E você ao menos sabe se mexer? — coloquei as mãos na cintura.
— Você ficaria surpresa, Saviñon.
Ele chegou mais perto, pegou sua flanela e a passou por trás das minhas costas, pegando a ponta do outro lado e me puxando de modo que meu corpo se chocou contra o dele. Eu arfei e apoiei as mãos em seu peito, olhando-o com um pouco de nervosismo enquanto ele sorria de canto e me encarava de um jeito sexy, mesmo que não fosse proposital.
Seu rosto chegou mais perto e nossas testas se tocaram, mas a aproximação não foi maior do que isso. Eu e Christopher fechamos os olhos e ele me guiou, começando com movimentos tímidos, firmando suas mãos em minha cintura e fazendo com que eu seguisse os seus quadris de um lado para o outro. Eu podia sentir ele respirar em meu rosto, seu hálito tinha cheiro de baunilha, que eu sabia ser o sabor de cupcake favorito dele. Isso me fez sorrir e involuntariamente aproximar mais a minha boca, fazendo a superfície dos meus lábios roçarem os lábios dele.
Por um momento, achei que Christopher deixaria que eu o beijasse, mas ele hesitou no último segundo e me abraçou, enterrando o rosto na curva do meu pescoço e me guiando para girar com ele no corredor entre os assentos. Tudo bem, ao menos ele não se afastou.
Eu ri quando ele segurou minha cintura e me ergueu no ar, girando comigo até me colocar no chão novamente, meu corpo deslizando pelo seu enquanto nós nos encarávamos. O final da música foi mais lento e nós tornamos a encostar nossas testas com os olhos fechados até tudo estar em silêncio. Mesmo com o fim da música, ele não me largou.
O abracei, envolvendo meus braços em seu pescoço e ele manteve suas mãos enlaçadas em minha cintura. E enquanto eu observava a beleza dos olhos dele, tive certeza de que Christopher sentia sim alguma coisa por mim, mesmo que nem ele próprio pudesse entender ainda o que era. Ele nunca se permitiu ter aquele tipo de contato com nenhuma mulher antes, seus sentimentos se mantiveram adormecidos e seu coração frio. Ele jamais se permitiria se divertir daquela forma com alguém que não fosse importante para ele.
Me dar conta disso me fez ficar mais aliviada, sabendo que independente das coisas que estivessem acontecendo em sua vida pessoal, eu estava de fato conseguindo chegar ao seu coração. E isso não era só sobre evitar que eu fosse para o limbo, mas também sobre a minha vontade de querer tê-lo para mim. Eu estava apaixonada por Christopher. Perdidamente apaixonada.
O barulho de algo caindo no chão fez nós dois sairmos do transe daquele momento. Praguejei mentalmente antes de nos virarmos e olharmos para Blanca, que estava no palco carregando algumas caixas enquanto uma estava jogada aos seus pés com alguns objetos de cenário espalhados pelo chão. Ela olhou para nós como se pedisse desculpas e sorriu sem jeito.
— Por que não pediu ajuda? Você poderia ter se machucado. — Christopher disse enquanto caminhava na direção dela.
— Vocês dois estavam distraídos, eu não quis atrapalhar. — falou de um jeito nada sutil.
Os dois começaram a organizar as caixas enquanto eu terminava o trabalho com os assentos. Quando tudo estava brilhando, saímos do teatro. Antes que Blanca se afastasse com Christopher até o carro dele, eu segurei firme em seu braço, lançando um olhar que já dizia tudo o que eu precisava. Ela assentiu ligeiramente e se despediu.
Christopher, que jamais dizia um "até logo" sorriu para mim e fez um sinal positivo com a cabeça.
Voltei para casa e tentei me concentrar em outras coisas enquanto minha cabeça estava focada em que horas Blanca chegaria. Estava no meu quarto quando ouvi a porta da frente ser aberta. Saí correndo sem medir meus passos e ao chegar ao final da escada, eu tropecei e caí esborrachada no chão.
— Meu Deus! — ouvi Anahi exclamar enquanto corria até mim e me ajudava a ficar de pé. — O que deu em você? — ela estava tentando segurar o riso.
— Eu achei que era a Blanca. — expliquei.
— Ah, essa animação toda não é por minha causa? — brincou fazendo bico. — Você se machucou?
— Não.
— Que bom. — e aí ela começou a rir alto. — Desculpa, eu não podia mais segurar.
Ainda rindo, ela subiu as escadas e me deixou sozinha na sala. A porta da frente abriu novamente e dessa vez era mesmo a Blanca. Sem esperar que ela dissesse alguma coisa, eu fui rápido até ela, a puxei até o sofá e a fiz se sentar.
— Fala. — cruzei os braços em pé na frente dela.
— Ele não quer que você saiba.
— O que? Blanca, olha pra mim. — segurei os ombros dela com certa força e ela arregalou os olhos. — Eu estou morrendo sem saber o que aconteceu! Por favor, me diz!
— Christopher tem medo de que você o veja com maus olhos e não acredite nele. m*l o conhece, então pode ser que...
— Blanca. — a interrompi. — Eu me importo com o Christopher e sei que ele não é um homem que mente. Seja lá o que aconteceu, eu vou acreditar nele. — fui o mais clara possível.
— Tudo bem. — suspirou. — Mas ele me fez prometer que não te contaria, então nada de ir falar com ele sobre isso, ok? Continue agindo naturalmente. Bem, agir naturalmente é meio difícil pra você. — riu. — Só finge demência, o que não vai ser tão difícil.
— Blanca, foco! — falei em um tom alto, fazendo ela parar de rir antes que pensasse em mais uma piada.
— Senta aqui. — indicou o lugar ao seu lado.
Eu sentei e olhei atentamente para ela, garantindo o meu olhar mais desesperado para que ela não ousasse esconder algum detalhe de mim.
— Há um ano atrás mais ou menos, o Christopher passou algumas semanas em Ibiza e conheceu uma modelo australiana chamada Sadie. Os dois passaram um fim de semana juntos e foram flagrados por alguns paparazzis, houve um burburinho sobre um possível relacionamento, mas a Sadie negou tudo e disse que ela e Christopher eram apenas amigos. Depois daquele final de semana eles não se viram e não se falaram mais, como com qualquer aventura que o Christopher tem e esquece.
— Você está me deixando mais ansiosa.
— Calma. — colocou a mão sobre a minha. — A Sadie ligou para o Christopher e disse que abriria um processo contra ele por abuso s****l.
— O que? — fiquei boquiaberta.
— Ela alega que o Christopher a drogou e abusou dela na última noite deles em Ibiza, mas o Christopher nunca teve nenhum contato com drogas, nem mesmo seus amigos usam essas coisas. Christopher tem convicção de que tudo o que aconteceu entre eles foi consentido entre ambas as partes e que ele saberia se ela não tivesse gostado. Estão tentando entrar em um acordo financeiro para que ela não leve isso adiante, mas a Sadie está sendo muito ambiciosa e o Christopher se recusa a deixar que ela enriqueça às custas dele.
— Porque se ele aceitar dar qualquer quantia de mão beijada isso vai dar a******a pra que outras pessoas tentem fazer o mesmo. — deduzi.
— Exatamente.
— Mas se ele não fez isso, ela não tem como provar. Que deixem ela ir em frente com o processo, não vai dar em nada.
— Isso não é só uma questão judicial, Dulce. A mídia e a internet são muito cruéis e independente do resultado que o processo tenha, Christopher vai ser sempre culpado aos olhos dessas pessoas. Podem dizer que o inocentaram por ser um homem rico, por exemplo. Isso realmente acontece bastante, então eu compreendo que as pessoas duvidem do empresário. E ao mesmo tempo me dói porque eu conheço o Christopher e sei que ele jamais faria isso.
— Agora eu entendi porque ele precisou tirar o Alfonso das férias. Isso é uma ameaça à imagem dele.
— E a imagem dele está vinculada à Uckermann. Se o Christopher cair, a empresa cai também. Victor está tentando fortalecer as ações para evitar algo muito preocupante no futuro, mas é difícil saber quanto tempo ainda resta até que a Sadie se canse de dialogar e leve essa mentira ao público.
— Isso é muito mais sério do que eu imaginei... — fiquei de pé e comecei a andar de um lado para o outro.
Se antes eu estava preocupada, agora essa preocupação triplicou. Eu nem podia imaginar como Christopher estava se sentindo com a ameaça de ser acusado de algo que não fez. O pior era que a modelo não precisava de prova nenhuma, bastava jogar isso na mídia e milhares de pessoas comprariam a história facilmente.
— Por favor, Dulce, não conte a ninguém, nem para a Anahi. Eu prometi que não ia te dizer, estou quebrando a confiança do Christopher.
— Ele não confia em mim?
— Você me ouviu? — sorriu de canto. — Ele se preocupa com o que você acha dele. Sabe o que isso quer dizer, não sabe?
Eu deveria estar saltitando de felicidade por saber que Christopher se importava com a minha opinião, mas eu estava muito aflita e não conseguia comemorar nada. Queria sair dali e ir direto para a casa dele consola-lo e oferecer apoio, mas se fizesse isso estaria quebrando a confiança de Blanca em mim.
— Eu queria poder fazer alguma coisa. — suspirei.
— Nenhum de nós pode. Só nos resta orar. — deu de ombros.
— Orar! — exclamei como se uma lanterna tivesse se acendido sobre a minha cabeça.
Blanca franziu a testa, mas eu não expliquei nada, apenas saí correndo direto para o meu quarto e me tranquei lá. Segurei firme em meu colar e chamei o nome de Klaus, pedindo que ele viesse até mim. Ao abrir os olhos, ele estava parado em minha frente.
— Você...
— Eu não posso. — ele me cortou antes que eu pedisse alguma coisa.
— Mas você é um arcanjo!
— Ah, agora você sabe o que eu sou? — estreitou os olhos.
— Por favor, ajuda o Christopher! — segurei seus braços e o olhei com súplica.
— Não faz parte da minha função interferir na vida dos humanos. — falou pausadamente como se quisesse ser o mais claro possível. — Eu encaminho as almas quando vocês morrem, os transformo em anjos, os levo até sua condenação ou reencarnação... Meu trabalho se limita aos reinos fora da Terra.
— Você controla os anjos da justiça. O anjo da justiça do Christopher...
— Ele está fazendo o possível e eu não posso chegar lá e dar instruções sobre como ele deve trabalhar. Eu estaria o beneficiando de certa forma e isso vai contra a minha função.
— Mas você poderia fazer se quisesse, não poderia?
— Dulce, eu tenho mais de dez mil anos. São milênios fazendo o que eu tenho que fazer sem pestanejar. Não vou mudar isso por causa de um humano. Injustiças acontecem o tempo inteiro e não é direito meu interferir. Se acha que um anjo recebe sanções ruins quando quebra regras, o que acha que acontece com um arcanjo?
— Coisas muito piores?
— Meu irmão Lúcifer que o diga. — desviou o olhar. — Desculpe não poder ajudar.
Assenti, sentindo meus olhos lacrimejarem. Eu tinha que aceitar que não poderia receber a ajuda de Klaus. Infelizmente, não poderia pedir nada para qualquer outro ser celestial porque atualmente eu não era bem vista. Ao menos a presença angelical de Klaus me fez sentir melhor e eu consegui dormir naquela noite.
[•••]
Mais uma semana sem ver o Christopher. Blanca havia me dito que ele passou os últimos dias na casa da Lia, que me ligou e me manteve apar do que Christopher estava fazendo e como se sentia. As notícias não eram boas, mas pelo menos eles ainda estavam conseguindo segurar a vaca da Sadie. Se não fosse perigoso demais, eu mesma iria atrás dela e lhe daria uma lição.
Eu tinha acabado de voltar do refeitório da empresa após o horário de almoço. Estava olhando para a tela do computador há alguns minutos, mais especificamente, para a data no canto inferior.
Menos de setenta dias.
O que mais poderia piorar a minha situação? Se a gente atrai o que pensa, eu não sei, mas esse meu pensamento negativo parece ter atraído uma bomba maior. Meu celular vibrou com a chegada de uma mensagem e eu gelei assim que li aquilo.
Anahi:
Você leu o que acabou de sair em um site??? Estão dizendo que o Christopher abusou de uma modelo!
Logo abaixo, o link da notícia.
Fiquei estática olhando para o aparelho em minha mão, minha mente divagando sobre o que aconteceria a seguir. Antes que eu voltasse à realidade, Victor abriu bruscamente a porta de sua sala e me olhou aflito.
— Dulce, bloqueie as chamadas, desative os e-mails e cancele todos os meus compromissos de hoje! — ele dizia enquanto ajeitava seu terno, prestes a ir até o elevador. — Depois disso pode ir para casa, tire o resto do dia de folga.
Eu nem consegui responder. Enquanto minhas mãos tremiam, eu tentava digitar no computador sem errar nada, mesmo com minhas lágrimas embaçando minha visão e caindo sobre o teclado.
Depois de fazer o que Victor havia mandado, eu arrumei minhas coisas com pressa e me enfiei no elevador para sair da empresa. O lugar estava um caos, o burburinho e o pânico haviam se espalhado, pessoas se perguntavam se a empresa iria falir, se perderiam seus empregos e se Christopher era culpado ou não. Eu queria fazer todos os que duvidavam dele engolirem cada palavra.
Liguei para Amelia assim que entrei em meu carro e ela me avisou que Christopher havia retornado para sua casa assim que viu as notícias se espalhando pela internet. Quando cheguei lá, avistei diversos jornalistas e paparazzis plantados na frente da propriedade espreitando e apontando suas câmeras para as janelas como verdadeiros urubus.
Estacionei meu carro do outro lado da rua e saí pisando firme em direção aos portões da casa. Quando me viram, vieram para cima de mim empurrando seus microfones e gravadores na frente do meu rosto.
— A senhorita é amiga de Christopher Uckermann? — alguém perguntou.
— Sou assistente dele. — falei com impaciência, tentando passar por eles.
— Já notou algum comportamento estranho por parte do seu chefe antes?
— Ele já a tratou com desrespeito?
— Alguma vez se sentiu em perigo em seu local de trabalho?
As perguntas negativas vinham de todos os lados sem nenhum freio e eu estava começando a me irritar ainda mais. Cansada de ser educada, eu os empurrei com uma força bruta, sem me importar de machuca-los. Era o único jeito de fazê-los sair da minha frente e calarem a boca.
Usei minha cópia da chave para abrir os portões e antes de entrar avisei que se alguém ousasse colocar um pé dentro dos limites da propriedade eu chamaria a polícia. Tranquei os portões novamente e caminhei apressada até a porta da frente. Abri a porta e atravessei o hall de entrada até a sala de estar, onde vi Christopher deitado no sofá abraçado ao seu cachorro, que mesmo sendo irracional parecia entender o que seu dono estava sentindo.
O lugar estava parcialmente escuro, já que Christopher havia fechado todas as cortinas para que os paparazzis não pudessem capturar fotos dele.
Deixei meu medo de Thor de lado e cheguei mais perto, depois sentei no tapete de frente para Christopher. Ele ergueu a cabeça para me olhar e meu coração se apertou quando eu vi sua cara de choro, seus olhos vermelhos e sua pele molhada. Meus lábios tremeram e ao invés de falar, eu solucei, chorando baixinho.
Christopher estendeu sua mão para mim e eu a segurei. Depois ele levou minha mão para perto do seu rosto e fez com que eu tocasse sua face. Usei meu polegar para acariciar seu rosto. Christopher fechou os olhos e nós ficamos assim por um longo tempo.