DULCE
Acordei apenas quando pousamos, quando a voz do piloto deu o aviso pelo sistema de som. Olhei para Christopher que ainda estava no mesmo lugar com a mesma expressão de antes. Quando descemos, um carro já nos aguardava e nós entramos na parte de trás enquanto o motorista colocava nossas malas no fundo. Tudo permaneceu em silêncio até o carro parar em frente à minha casa.
— Devo voltar normalmente ao trabalho amanhã? — perguntei antes de sair.
— Sim. — foi a única palavra que ele disse.
— Ok.
Saí do veículo e acompanhei o motorista que carregava minhas coisas para a parte de dentro da casa. Com certeza Anahi e Blanca estariam dormindo aquela hora e eu achei melhor não atrapalhar o sono delas. No dia seguinte elas veriam que eu cheguei mais cedo da viagem.
Depois de agradecer ao motorista e trancar a porta, meu celular tocou dentro da bolsa e eu peguei para olhar a mensagem.
Christopher:
Envie um e-mail para meu assessor Alfonso Herrera em "pherrera.assessoria@g*******m". Avise que preciso que ele volte mais cedo de suas férias e que me procure o mais rápido possível. É uma emergência.
Pensei em brincar e enviar uma resposta perguntando se doeria ele mandar um e-mail por conta própria, mas visto o humor piorado de Christopher, era melhor eu simplesmente fazer o que ele disse.
Sentei no sofá e comecei a digitar um e-mail formal com o pouco que Christopher me passou de informação. O que era tão urgente? Para ele precisar de seu assessor só podia ter alguma relação com a sua imagem e carreira. Alguma bomba prestes a explodir? Era uma das muitas possibilidades.
Eu estava ansiosa demais para dormir, ainda mais porque fiquei preocupada no quanto esse acontecimento desconhecido poderia afetar o prazo da minha missão.
— Dulce?
Saltei de susto ao ouvir a voz de Blanca atrás de mim.
— Que susto! Como eu não te ouvi? — ofeguei com a mão sobre o peito.
— Pés de bailarina. — riu enquanto vinha até mim. — O que está fazendo aqui? E que roupa chique é essa?
— O Christopher me arrastou de volta para cá no meio do evento, acredita? E ele nem me disse o motivo, mas parecia ser uma coisa muito séria porque ele mudou totalmente.
— Eu tenho certeza que você saberá logo, afinal, é a assistente dele.
Assenti, concordando.
— Melhor eu tentar dormir um pouco. — fiquei de pé.
— Eu adorei esse vestido, será que cabe em mim?
— Acho que sim. Posso te emprestar depois e você pode até escolher uma das minhas roupas pra você. Eu nem tive chance de usá-las e duvido que eu vá precisar delas outra vez.
— Não duvide de nada, querida. Talvez Christopher a convide como acompanhante em outras ocasiões.
— Claro. — ri. — Boa noite, Blanca.
— Boa noite, Dulce.
[•••]
Cheguei à empresa bem cedo na manhã seguinte e assim que entrei na sala da presidência notei a porta de Christopher aberta e várias pessoas lá dentro, mas ele não estava lá. Em seu lugar, sentado em sua cadeira, estava o Victor. Três homens e três mulheres conversavam com ele de maneira muito séria, como uma reunião tensa. Confusa com tudo aquilo, eu me aproximei da porta e bati na madeira chamando a atenção deles.
— Bom dia, Dulce! — Victor, que até então parecia nervoso, sorriu para mim como se nada estivesse acontecendo.
— Bom dia, Victor. Está tudo bem? — fiquei preocupada.
— Sim. Eu estou substituindo o Christopher por hoje, mas é apenas temporário, logo ele estará de volta, não se preocupe. Se eu precisar de alguma coisa falo com você, ok?
— Ok. — assenti.
— Por favor, querida, feche a porta ao sair, recuse as visitas e não me passe nenhuma ligação até segunda ordem, a menos que seja alguém da família.
— Tudo bem.
— Obrigado, Dulce. — sorriu mais uma vez.
Fechei a porta e fui direto para a minha mesa. Agora eu estava ainda mais aflita e pensando que algo muito sério aconteceu para Christopher não ter vindo trabalhar.
Cerca de meia hora depois, as seis pessoas saíram da sala e me cumprimentaram antes de entrarem no elevador. Eu tinha quase certeza de que havia os visto pelos corredores antes, eram funcionários, mas não quaisquer funcionários. Eles eram diretores de alguns dos setores da empresa. Por que estariam fazendo uma reunião na sala de Christopher e não na sala de reuniões? Antes que eu pudesse continuar os meus questionamos, Victor interfonou.
— Sim? — falei ao atender.
— Só quero avisar que Alfonso Herrera deve estar chegando a qualquer momento para falar comigo.
— É o assessor do Christopher, certo? — muito me admirava que ele tivesse conseguido chegar tão rápido à cidade.
— Sim, ele mesmo. Eu tenho que pedir que não faça nenhuma pergunta, Dulce, me desculpe.
— Tudo bem, sem problemas.
— Obrigado mais uma vez.
— Não há de quê.
Coloquei o telefone de volta no gancho e me peguei achando estranho ter um chefe tão educado. Fiquei até um pouco desconcertada com a maneira gentil com a qual ele me tratou.
As portas do elevador se abriram novamente e Anahi saiu de lá, vindo até mim a passos apressados.
— O que está acontecendo? — ela perguntou alarmada. — Por que parte dos diretores saiu daqui com expressões tão assustadas?
— Não faço a menor ideia. Christopher não veio trabalhar, o pai dele assumiu seu lugar hoje. Deve ser muito sério porque o assessor do Christopher está vindo para cá.
— O Alfonso? — Anahi bufou e rolou os olhos.
— Você o conhece? — sorri.
— Gostaria de não conhecer.
Antes que eu pudesse perguntar qual problema ela tinha com ele, as portas do elevador se abriram novamente e um homem muito bonito e bem vestido saiu de lá. Anahi se virou de frente para ele, depois deu alguns passos para trás até parar ao meu lado e segurou a parte de trás da minha cadeira com certa força. Foi fácil me dar conta de que o bonitão em questão era justamente o tal Alfonso Herrera.
— Bom dia, sou o Alfonso, assessor do Christopher. Tenho uma reunião com o Victor. — ele disse formalmente ao parar em frente à minha mesa.
— Bom dia, senhor Herrera. Victor já está esperando, pode entrar. — eu disse com a mesma cordialidade.
Ao desviar os seus olhos para Anahi, a expressão de Alfonso mudou completamente. Ele sorriu de canto e pareceu relaxar.
— Oi, Annie. Como vai? — a cumprimentou.
— Oi. — ela forçou um sorriso. — O meu estado de espírito não é da sua conta.
Olhei para ela surpresa com tamanha audácia.
— Vejo que o temperamento ainda está abaixo de zero. — Alfonso riu como se fosse divertido ser tratado daquele jeito por Anahi.
— Vou voltar ao trabalho. Vejo você depois, Dulce. — ela disse antes de sair andando e entrar no elevador.
— E eu posso te ver depois também? — Alfonso perguntou.
— Não!
Ele riu novamente, voltando-se para mim. Agora eu estava super curiosa para saber o que aconteceu entre eles. Tinha que me lembrar de perguntar para a Anahi depois.
— Desculpe pela Anahi. — eu falei por impulso.
— Tudo bem, eu já estou acostumado. — sorriu gentilmente. — Dulce, certo?
— Sim.
— Por favor, Dulce, se alguém ligar à procura do Christopher, avise que ele ficará indisponível por alguns dias e que não falará com ninguém no momento. Apenas assuntos profissionais devem ser tratados com o Victor. Assuntos pessoais permanecerão sigilosos.
— E quem poderia ligar para tratar de assuntos pessoais? — mesmo sabendo que não deveria, eu quis perguntar.
— Jornalistas, é claro. Lembre-se: Christopher está indisponível por tempo indeterminado e não aceita recados.
— Ok.
— Agora eu vou me reunir com o Victor e caso haja alguma coisa para acrescentar, eu aviso ao sair. Obrigado, Dulce. — sorriu mais uma vez antes de seguir até a sala da presidência.
Eu estava me roendo, não, me matando para saber o que diabos estava acontecendo. Minha ansiedade era gritante, mas até que o trabalho ajudou a tirar o foco de Christopher e seus problemas. Mesmo tendo muito o que fazer, eu ficava constantemente olhando para a porta da sala da presidência esperando que ela fosse aberta. Talvez durante a reunião Victor e Alfonso possam ter decidido me contar alguma coisa, afinal, eu era a assistente de Christopher, precisava ficar apar do que acontecia em sua vida porque eu cuidava de tudo.
Após longas duas horas, Alfonso saiu de lá, mas não me disse nada animador. Ao contrário, ele cortou as minhas asinhas ao avisar que meus serviços como assistente pessoal estavam dispensados temporariamente, mas que eu continuaria recebendo meu salário normalmente de acordo com o contrato. Minha língua coçou para perguntar de uma vez, mas eu me segurei e apenas assenti concordando com aquilo.
Diferente de Christopher, Victor deixou que eu saísse no mesmo horário que os demais funcionários, mesmo que ele ainda fosse ficar na empresa por mais um tempo. Era mesmo estranho ter um chefe tão legal depois de já estar acostumada a pisar em ovos com Christopher. Ironicamente, eu preferia o meu lindo e arrogante doutor Uckermann.
Durante o jantar, Anahi e Blanca estavam conversando sobre alguma coisa da qual eu não prestava atenção. Eu não tirava Christopher da mente e estava extremamente preocupada.
— Dulce? — Blanca sacudiu o meu ombro. — Está aérea, o que houve?
— Estou preocupada com o Christopher. — admiti. — Ele já se comportou dessa forma antes?
— A ponto de parar de trabalhar? Não que eu me lembre.
— Independente do que seja, espero que acabe e que o Alfonso volte logo para suas férias. — Anahi resmungou.
— Eu queria mesmo perguntar o que aconteceu entre vocês. — sorri, a olhando com curiosidade.
— Desmancha esse sorriso, Dulce. — aborreceu-se. — Alfonso é um filho da p**a.
— Ei, olha essa energia negativa na frente do jantar! — Blanca deu um tapinha na mão dela e eu tive que rir.
— O que ele fez?
— Nós saímos por três meses até ele decidir que não queria me assumir. Eu tenho cara de mulher que serve pra lance casual? Eu quis bater nele quando ele propôs isso! — deu para ver o quanto o assunto a irritava.
— Parece que o seu cupido fez uma má escolha. — ri.
— Se o cupido existisse e ele aparecesse na minha frente, levaria um soco no estômago. — brincou.
— Ai. — murmurei baixinho, colocando a mão sobre a minha barriga.
— Ok, chega dessa energia. — Blanca sacudiu as mãos no ar como se limpasse o ambiente. — Dulce, tem planos para o sábado?
— Bom, agora que o meu chefe me dispensou do cargo de assistente, eu não tenho nada pra fazer. — dei de ombros.
— Pode me ajudar a limpar o teatro onde dou minhas aulas?
— Claro! — eu estava mesmo querendo passar um tempo com a minha irmã.
[•••]
Nos dias que se seguiram, eu não vi e nem soube mais nada em relação ao Christopher. Alfonso vinha todos os dias para falar com o Victor e sempre perguntava se algum jornalista havia ligado, ficando aliviado quando eu dizia que não.
Diversas vezes, eu me peguei abrindo o contato de Christopher, relendo a última mensagem que ele me enviou. Meus polegares balançavam na frente do teclado, suplicando que eu digitasse alguma coisa, mas eu só caía na real e continuava sem me meter. Algo que eu evitava olhar era o calendário. Não saber a data fazia o meu prazo parecer mais irreal.
Como vou fazer ele se apaixonar por mim agora?
No sábado, eu e Blanca fomos até o teatro limpar tudo. Estávamos varrendo o palco quando ela foi até o sistema de som e colocou uma música animada.
— Que tal se libertar um pouco? Você tem estado muito tensa nesses últimos dias. — ela veio até mim e segurou minha mão.
— Eu não danço muito bem. — corei.
— Dulce, só tem eu aqui, ninguém vai te julgar. — sorriu.
Respirei fundo e assenti. Larguei a vassoura e segurei as duas mãos de Blanca. Ela me incentivou a balançar e eu, da forma mais desengonçada possível, tentei dançar como pude. Era uma música da era disco tocando e eu me segurei para não deixar o momento nostálgico me pegar em cheio. Dançar aquela música com a minha irmã mais nova era o cenário perfeito para lágrimas, mas seria estranho demais chorar.
Fechei meus olhos, soltei as mãos dela e girei, tentando fazer a minha mente ir para outro lugar. Imaginei que era o ano de 1966 e que eu estava no baile de formatura, que foi uma noite divertida e inesquecível, mesmo que o meu par não fosse realmente quem eu queria que fosse. Sorri revivendo aquele momento comigo mesma, tendo quase a mesma sensação de felicidade.
O cenário sumiu quando a música foi desligada subitamente. Eu me desequilibrei e tropecei em meus próprios pés, caindo de b***a no chão do palco.
— Que p***a! — xinguei, esfregando minha nádega enquanto ficava de pé.
E foi quando eu olhei para frente que vi Christopher lá embaixo, no centro dos assentos do teatro. Ele estava com as mãos no bolso de sua calça e parecia estar segurando o riso enquanto olhava para mim. Apesar da micro expressão de divertimento – claramente causada pela minha queda – os olhos de Christopher estavam abatidos, quase como se ele não estivesse tendo boas noites de sono.
— Christopher, você chegou mais cedo! — ouvi Blanca dizer ao meu lado e então me lembrei de que ela também estava ali. — Eu disse que iria demorar um pouco por aqui.
Olhei diretamente para ela com a testa franzida. Ela iria se encontrar com o Christopher e nem sequer pensou em me contar? Ela melhor do que ninguém sabia o quanto o sumiço dele estava me afetando.
— Eu pensei em vir te ajudar, mas eu não sabia que você já tinha ajuda. — ele respondeu intercalando o olhar entre mim e ela.
— Você? Limpando alguma coisa? — quase engasguei ao tentar segurar a risada.
— Está duvidando de mim, Saviñon? Aposto que sou muito melhor nisso do que você. — sorriu de canto.
— Eu duvido! — cruzei os braços e o desafiei com o olhar. — Se pudesse, você até me pediria pra limpar a sua b***a toda vez que precisasse ir ao banheiro. — provoquei.
— Ok. Vamos ver quem está certo. — retirou sua jaqueta, deixando-a sobre um dos assentos.
Ele subiu a escada do palco e chegou bem perto de mim, me encarando com firmeza antes de se esquivar e pegar uma vassoura que estava encostada numa parede atrás de mim. Sentir o perfume de Christopher reacendeu muitas coisas no meu corpo e eu soltei um suspiro involuntário.
Christopher se afastou e depois de cumprimentar a Blanca com um beijo no rosto, começou a varrer o chão com muito mais rapidez do que eu. Olhei para a minha irmã que estava sorrindo para ele como uma mãe faria se visse seu filho fazendo alguma coisa que lhe desse orgulho. A encarei até que ela notasse o meu olhar.
Seus lábios se moveram em um silencioso "depois", que foi respondido com um aceno de cabeça da minha parte. Ela sabia alguma coisa e eu a obrigaria a me dizer.