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2925 Palavras
CHRISTOPHER  Não sei se era orgulho, minha sede de poder incontrolável ou qualquer outra coisa. A única coisa que eu sabia era que havia algo muito específico em Dulce e que eu precisava desesperadamente saciar o desejo anormal que ela despertou em mim. No primeiro momento achei que fosse por ela ter me rejeitado, mas pensando bem, eu não continuava tão interessado depois de uma mulher se fazer de difícil por mais de uma noite. Com Dulce a coisa foi tão intensa que eu inconscientemente mudei a forma de me comportar com ela.  Me preocupei se ela gostaria do café da manhã, dei bom dia, sorri o tempo inteiro e sem perceber fiz questão de eu mesmo manter o prato dela cheio e me importei com a opinião dela sobre a comida. O mais provável aqui era que eu estivesse curioso com a novidade de dormir com uma pessoa totalmente diferente dos padrões que eu montei para escolher as minhas parceiras sexuais. Isso acabaria depois que eu transasse com ela, certo? A novidade teria um fim e Dulce voltaria a ser só a minha assistente. Caso ela ficasse sentimental demais, bastava demiti-la.  Depois do café da manhã – onde ela me fez comer cupcakes em público, vale ressaltar – Dulce avisou que daria uma volta pela cidade para conhecer os principais pontos turísticos. Em outros momentos, ela certamente me perguntaria se eu queria acompanhá-la porque ela era super educada, mas dessa vez ela apenas avisou, levantou, pediu licença e foi embora. Isso me fez pensar que ela estava me evitando.  Na hora do almoço, eu fui até um restaurante com o meu pai e nós começamos a falar sobre os negócios. Ele me mostrou todos os pontos principais de seus planos para a empresa, tentando me convencer de que seria uma ótima ideia tê-lo como CEO. Ouvi tudo pacientemente, entendendo e absorvendo cada palavra. O jeito que ele queria trabalhar não era r**m e suas ideias eram mesmo promissoras, mas isso ainda vinha com a enorme condição de que eu seria tirado do meu cargo caso isso fosse para a frente.  Profissionalmente, elogiei e contestei suas ideias, comparando-as com as minhas e até criando junto com ele maneiras de unir alguns pontos do que pensamos. Foi a primeira vez que nos ouvimos de verdade em uma conversa sobre o futuro da empresa.  — Posso fazer uma pergunta? Mas você tem que ser totalmente sincero. — falei, resolvendo voltar ao nível paternidade.  — Claro, filho. — sorriu.  — Por que quer voltar para os negócios? Dessa vez eu quero a verdade, porque essa história de estar preocupado comigo não é fácil de acreditar.  — Por que não? Eu e sua mãe sempre fomos extremamente amorosos e liberais. Por que é tão difícil...  O interrompi.  — A verdade.  Victor olhou para baixo, respirou fundo algumas vezes e depois olhou para mim novamente.  — Quando eu e sua mãe passamos pela Rússia, fomos convidados para a inauguração de uma filial pertencente à uma empresa petrolífera. O dono da multinacional é um antigo sócio e amigo do meu pai e insistiu que eu estivesse presente. Ele estava lá com a assessora dele. Ela é a Maite.  Fiquei quieto, totalmente sério e sem reação alguma. Notando que eu não falaria nada, meu pai cessou a sua pausa e continuou a falar.  — Nós conversamos bastante, ela parece estar muito bem, feliz e realizada com a própria carreira. — sorriu fraco. — Quando ela perguntou sobre você, eu te elogiei bastante, contei sobre como a empresa cresceu depois que você assumiu e... — suspirou.  — E?  — Ela me lembrou de uma conversa que tivemos antes de ela decidir ir embora sem você. — coçou a nuca. — A Maite e eu almoçamos juntos em um dia e ela começou a fazer perguntas sobre você e a sua preparação para assumir a presidência. Eu sabia que ela estava tentando me convencer de assumir no seu lugar, mas eu fui firme em dizer que não queria e que você tinha almejado isso muito mais do que eu. Eu a convenci de que assumir a presidência da empresa era a coisa mais importante da sua vida, o seu maior sonho.  — Onde você está querendo chegar? — eu tinha medo da resposta, mas precisava saber.  — Eu não sabia, Christopher, mas naquele dia a Maite estava tentando encontrar algum motivo que fizesse ela não se importar se você não seguisse os planos da sua carreira. Mas eu fui bom demais na tarefa de promover o quanto aquilo era importante pra você. Eu a desanimei e ela não teve coragem de aceitar que você começasse do zero em outro país por ela.  — p**a que pariu... — resmunguei, irritado.  — Quando nos reencontramos na minha viagem e ela me ouviu dizer o quanto você tinha evoluído, ela resolveu me contar a real intenção de ter me convidado para almoçar naquela tarde.  — E o que você quer agora? Mexer na minha vida de novo? — não adiantava, eu sempre terminaria aquelas conversas com raiva.  — Assumir a presidência da empresa foi uma coisa que eu implantei na sua cabeça desde a sua adolescência. Eu não deixei você acreditar que haviam outras opções. Olho para você agora, para esse muro de pedras instável e me pergunto se eu não tenho relação com isso. Você precisa focar na sua vida pessoal.  — Eu não sabia, pai, mas depois de te ouvir hoje eu sei que sim, você tem muita relação com quem eu me tornei. — fiquei de pé. — Hoje o almoço foi por sua conta.  Ele não respondeu, sabia que não adiantaria tentar me acalmar naquele momento. Mais tarde meu pai tentaria outra conversa que provavelmente teria um fim tão desastroso quanto essa.  A menção de Maite me fez ficar tenso demais e irritado ao extremo. Lembrar dela me deixava puto, porque ela era a personificação do pior momento da minha vida. Eu não precisava relembrar as minhas dores, precisava mantê-las mortas e enterradas sem que influenciassem na minha vida.  Retornei para o hotel e fiquei sozinho em meu quarto por algumas horas, até decidir sair por aí atrás de Dulce. Fazia horas que tinha a visto e não ter controle sobre sua localização era estranho para mim, que ditei cada passo daquela mulher nas últimas semanas.  DULCE Com certeza o Uber era uma das melhores invenções da humanidade. Mesmo nunca tendo estado em Washington, eu me locomovi com tranquilidade pela cidade, apenas pesquisando sobre os pontos turísticos e chamando um motorista sempre que precisava sair por aí. E eu poderia até estar preocupada com os valores da corrida, mas quem estava pagando era o Christopher, que havia me confiado alguns de seus cartões de crédito. Tudo bem gastar o dinheiro dele, eu merecia.  Quando voltei ao hotel, eu vesti um biquíni vermelho, coloquei uma roupa mais leve e fui até a piscina. Estava um pouco mais cheio naquele dia, mas deu para aproveitar bem. Tirei algumas fotos e as publiquei na minha nova conta do i********:. Depois de ser questionada por Anahi sobre o motivo de eu não ter nenhum perfil em uma rede social, lembrei que Klaus havia dito que isso causaria estranheza, então para evitar comentários futuros eu comecei a usar o aplicativo.  Fui até o banheiro da área da piscina. Precisava dar um alívio para a minha bexiga depois das três garrafas de cerveja que bebi. Fui até a pia e depois de lavar as mãos, eu dei uma ajeitada no meu cabelo, agora rebelde devido ao cloro da piscina. Tinha que pensar no que fazer com ele para a segunda noite do evento que aconteceria mais tarde.  A porta do banheiro foi aberta e pelo espelho, eu troquei olhares com Megan, que acabara de entrar. Ela me encarou, cruzou os braços e caminhou até mim como uma cobra prestes a dar o bote.  — Eu estou com tanta peninha de você. — sorriu com deboche.  — E por que? — revirei os olhos.  — Dá pra ver no seu olhar a esperança tola de que irá conquistar o coração do milionário. — riu. — Não adianta, querida, ele vai te usar e te descartar como faz com todas as outras. — ela chegou mais perto, ficou atrás de mim e sussurrou em meu ouvido: — Mas para mim ele sempre vai voltar.  Eu sorri com sarcasmo e tornei a ajeitar o meu cabelo despreocupadamente.  — Christopher é apenas o meu chefe, não que eu te deva explicações. E vir até aqui me afrontar com essas palavras não é o melhor jeito de fingir que você tem mesmo um lugar fixo na vida dele. Se está tão insegura pelo menos disfarça melhor.  Como se eu tivesse tocado em sua ferida, a mulher agarrou o meu braço, me arrastou até a parede mais próxima e me pressionou ali, me apertando com força.  — Estou aqui há muito mais tempo que você, biscate! Acha que pode chegar e ocupar o lugar de favorita? — forçou uma risada. — Eu vou passar por cima de você sem piedade, vai desejar nunca ter me conhecido!  — Me solta. — falei entredentes.  — E se eu não soltar?  Fúria me consumiu e eu me desvencilhei de suas mãos com muita facilidade. Aproveitando o excesso de força que o colar de Klaus me dava, eu segurei os pulsos dela e apertei. Megan grunhiu e se ajoelhou no chão com os olhos cheios de lágrimas. Cheguei bem perto do rosto dela e a encarei.  — Vai mesmo querer entrar numa guerra comigo por causa de um homem que nem te assume!? Cria vergonha na cara, v***a! — a empurrei e ela caiu deitada no chão. — É melhor me deixar em paz, eu não quero confusão com ninguém, mas eu sei me defender!  Saí de lá sem esperar por resposta. Passei pela porta tão depressa que não me dei conta do espaço e esbarrei com força no peito de alguém. Por sorte, alguém forte. Olhei para cima e encontrei o rosto de Christopher. Ele tocou os meus braços e olhou para eles, franzindo a testa em confusão logo depois.  — Alguém te machucou? — perguntou dedilhando a pele vermelha.  Nem precisei responder, pois Megan saiu do banheiro e passou por nós pisando forte enquanto massageava seus pulsos.  — Vocês brigaram? — Christopher não parecia contente em constatar isso.  — Eu só me defendi.  — A Megan é insuportável quando quer, depois eu mando ela te deixar em paz.  — Não preciso que me defenda, eu sei fazer isso sozinha.  — Claro que sabe. — sorriu. — Você quebraria a cara de qualquer um. — tocou a minha cintura.  Outra vez ele estava agindo estranho, galanteador e gentil demais. Olhei para a mão dele ainda na minha cintura e quando ergui a cabeça o peguei olhando para o meu corpo, correndo os olhos de cima a baixo e aproveitando o fato de eu estar apenas de biquíni. — Eu... — limpei a garganta. — Acho que já nadei demais por hoje. Vou subir e tomar um banho. — me desvencilhei de seu toque e comecei a me afastar.  — Quer companhia? — perguntou em um tom galanteador.  Eu parei meu caminhar e olhei para trás, por cima do ombro. Ele estava com um sorriso cínico em seu rosto, ciente de que me afetava com facilidade.  — Até mais tarde, doutor Uckermann. — falei apenas, seguindo meu caminho e ignorando a risada irônica atrás de mim.  Depois de um banho relaxante, eu separei a roupa que usaria naquela noite. Tinha que ser algo fatal, uma roupa que chamasse a atenção das pessoas e prendessem os olhares em mim. Christopher deveria me comer com os olhos e sentir ciúmes dos outros homens que fariam o mesmo.  Experimentei o vestido vermelho super decotado e aprovei o quanto eu fiquei gostosa nele. Eu podia até ser desastrada e sem modos, mas tinha que admitir que era mesmo muito bonita.  Vesti uma roupa mais confortável e dormi pelo resto da tarde, acordando apenas quando já estava perto do horário do evento. Me arrumei às pressas e tive que fazer um coque no meu cabelo, já que não consegui domá-lo. Teria que fazer uma super hidratação no dia seguinte e parar um pouco de ir até a piscina.  Assim que eu coloquei os brincos, a maçaneta da porta do quarto girou, mas a pessoa do outro lado não poderia abrir porque eu havia trancado. Batidas foram dadas e eu levantei para ir atender. Sabia exatamente de quem se tratava.  — Você sabe o significado da palavra privacidade? — perguntei ao abrir a porta, sendo agraciada pela bela visão daquele homem cheiroso e lindo na minha frente.  Ele sorriu me olhando de cima a baixo até voltar para o meu rosto.  — A gente pode deixar o evento de hoje de lado. Tenho uma tarefa pra você. — seu tom era sacana e eu sabia que ele estava falando de algo pervertido.  — Muito engraçado. — rolei os olhos. — Vamos logo. — o empurrei e saí do quarto.  — Você vai assim? — seus olhos pararam em meu decote. — Não acha que está... demais?  — Essa é a intenção.  — Ah. Claro. — assentiu, parecendo desconfortável. — Eu só queria ter certeza de que foi proposital. — pigarreou. — Se alguém te incomodar, sei lá...  — Eu já disse que sei me defender. — o cortei. — Vamos, doutor Uckermann?  — Vamos. — assentiu.  Dessa vez eu não deixei que ele enlaçasse seu braço ao meu. Quando fez menção de fazer isso, eu caminhei rapidamente em direção ao elevador ignorando seu gesto. Dar um gelo em Christopher estava fazendo ele enlouquecer de um jeito que me favorecia e eu faria aquilo até o limite.  Chegamos ao salão de festas e assim que as pessoas nos notaram, senti Christopher pousar sua mão na parte de baixo das minhas costas. Era como se ele quisesse mostrar que estávamos juntos, mesmo sem estarmos de fato. Eu estava gostando dessa coisa de ver meus planos saindo como eu queria.  Não muito longe, eu avistei Larry Gavin que sorriu timidamente e acenou com a cabeça. Eu repeti seu gesto e depois olhei para Christopher.  — Você deveria se desculpar com Larry Gavin.  — Por que? — franziu a testa.  — Você foi agressivo ontem.  — Eu só me desculpo quando estou verdadeiramente arrependido. — forçou um sorriso. — Raramente me arrependo das coisas que digo.  — Ah, é mesmo? Nem notei. — fui sarcástica.  Um garçom passou por nós e Christopher pegou duas taças de champanhe de sua bandeja. Ele me entregou uma delas e ergueu a sua. Nós brindamos e demos um gole, ambos olhando nos olhos um do outro enquanto o líquido era ingerido. Se Christopher medisse suas investidas da maneira correta, talvez eu não me segurasse e acabasse em seu quarto após o evento.  Durante as palestras, Christopher e eu não prestamos atenção nas palavras ditas no palco, porque ficamos constantemente trocando olhares. Eu sabia que meu rosto estava começando a ficar vermelho e eu tentava me segurar para não sorrir igual boba. Me sentia uma adolescente.  O celular dele começou a vibrar e depois de dar uma olhada na tela, ele apoiou a mão em minha cintura e chegou perto do meu ouvido, me fazendo arrepiar.  — Preciso atender. Eu já volto. — sussurrou, beijando meu pescoço em seguida.  Assenti apenas, incapaz de olhar em sua direção. Eu sabia que ele estava com aquele sorriso provocador.  Cerca de dez minutos depois, Christopher voltou passando pelas pessoas como um furacão. Franzi a minha testa ao notar que seu rosto estava um tanto quanto pálido e com uma expressão muito séria, como se ele tivesse voltado ao seu estado normal de rudeza. Quando chegou até mim, ele segurou o meu cotovelo e me guiou com muita pressa para um canto afastado e longe das demais pessoas.  — Vá até seu quarto e arrume suas malas, vamos voltar para a Califórnia. — foi dizendo e eu gelei ao notar o seu tom autoritário típico do chefe firme.  — Agora?  — Sim.  — Por que? O que aconteceu?  — Não tenho tempo para ficar de conversinha, Saviñon. Precisamos sair imediatamente. Ande logo! — deu as costas, mas ao notar que eu não me movi, virou-se para mim de novo. — Que parte de imediatamente você não entendeu?  Eu não sabia o que tinha acontecido, quem o ligou e o que disse, mas eu sabia que não iria adiantar eu ficar ali batendo o pé exigindo explicações. Se fizesse isso, talvez Christopher fosse capaz de me deixar para trás.  Arrumei as minhas malas às pressas e antes mesmo que eu pensasse em trocar de roupa, Christopher atravessou a porta do meu quarto e me apressou para sairmos. Continuei sem fazer perguntas e fiquei assim até chegarmos à pista de pouso e entrarmos no jatinho. Já durante o vôo, Christopher se trancou no banheiro enquanto falava ao celular e gritou irritado algumas vezes. A maioria dos gritos eram palavrões, então não dava para eu entender o que se passava.  Quando as ligações terminaram, ele voltou e se sentou em um banco na fileira do outro lado. Estava quieto, sério e bravo. Passava constantemente as mãos pelo rosto e seu olhar estava vago enquanto olhava pela janela.  Ao invés de ser inconveniente, eu me encolhi na poltrona, apertei meu casaco em volta de mim e fechei os olhos, adormecendo em seguida.
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