Capítulo 4 - Ana

957 Palavras
Ana Eu havia dormido sentada em uma cadeira dura, com o corpo torto e a cabeça apoiada contra a parede fria do hospital. Passei o dia inteiro ao lado da minha mãe, observando cada movimento mínimo do peito dela ao respirar, cada som emitido pelas máquinas. Não consegui comer. Não consegui descansar. Apenas fiquei ali, contando o tempo como se isso pudesse impedir que ele passasse. Meu nome já estava na lista. Essa certeza me acompanhava como um peso constante. Não havia mais como voltar atrás. Mesmo que eu quisesse, mesmo que meu corpo gritasse para fugir, a decisão já havia sido tomada. O dia passou rápido demais. Talvez rápido porque eu estava entorpecida. Quando olhei para o relógio pendurado na parede do corredor, levei alguns segundos para entender o que estava vendo. O ponteiro marcava oito e meia da noite. Meu estômago se revirou. Pouco depois, o celular vibrou na minha mão. Tatiana informava que um táxi me buscaria na porta do hospital. Disse para eu estar pronta. Eu me levantei devagar, caminhei até o quarto e observei minha mãe mais uma vez. Ela dormia, sedada, frágil de um jeito que me partia por dentro. — Aguenta mais um pouco — murmurei, segurando a mão dela. — Eu prometo que vou resolver isso. Saí do hospital com o coração acelerado. O táxi já estava estacionado. O motorista desceu, conferiu meu rosto e me chamou pelo nome, dizendo que havia sido enviado por Tatiana. Entrei no carro com as mãos trêmulas, sentindo o banco frio sob meu corpo. Durante o trajeto, fiquei em silêncio, olhando pela janela enquanto Moscou passava diante dos meus olhos iluminada por luzes artificiais. Tudo parecia distante, como se eu estivesse observando outra vida. Quando o táxi parou em frente a uma boate, senti o ar faltar. A fachada era discreta, mas havia algo ali que me deixava inquieta. Desci com cautela e me aproximei da entrada. Dois seguranças enormes barravam a porta. Perguntaram meu nome. Quando respondi que era Ana, eles trocaram um olhar rápido e abriram passagem. Assim que entrei, fui tomada por uma sensação sufocante. O ambiente era quente, iluminado por luzes baixas e avermelhadas. Havia mulheres espalhadas pelo local, todas usando lingerie. Algumas conversavam, outras apenas observavam, como se estivessem ali há tempo demais. Tatiana estava no centro do espaço, organizando tudo com calma e autoridade. Quando me viu, seu sorriso surgiu imediatamente. — Confesso que já estava preocupada com a possibilidade de você desistir — disse, aproximando-se. — Os homens ficaram muito interessados quando viram sua foto. Eu perderia muito dinheiro se você não viesse. Ela segurou meus ombros com firmeza. — Mas quero que saiba que tudo vai correr bem. Teremos homens da minha confiança dentro do presídio. Eu também estarei lá. Se qualquer coisa acontecer, basta gritar meu nome. Eu entro e tiro você de lá imediatamente. Engoli em seco. — Sei que pode parecer uma pergunta ingênua — comecei —, mas preciso entender como tudo funciona. Tatiana assentiu, como se já esperasse isso. — Eles observam, conversam, escolhem. Em algum momento da noite, você será levada para uma sala reservada. Nada acontece sem organização. Não é improvisado. Respirei fundo antes de perguntar: — E quanto eu posso ganhar? Ela me analisou com atenção, como se estivesse calculando. — Depende de quanto você agrada. Já vi mulheres saírem de lá com vinte mil rublos em uma única noite. Algumas com menos, outras com mais. Depende do homem. Meu coração acelerou ainda mais. — Agora vá tomar um banho — continuou. — Sua lingerie está pronta. Suas roupas estão no cabide. Quero saber se está depilada. Se não estiver, resolvemos aqui. E mais uma coisa: silêncio absoluto. Para qualquer pessoa, você nunca esteve naquele lugar. Hesitei. — Eu não quero me envolver com um homem casado. Tatiana sorriu com um ar experiente. — Problemas surgem com homens conhecidos, não com estranhos. Homens casados costumam ser discretos. As mulheres da máfia não toleram escândalos. Vá se arrumar. Peguei a lingerie e fui para o banheiro. Tomei um banho demorado, deixando a água escorrer como se pudesse lavar o medo. Minha depilação estava em dia. Quando saí, Tatiana me entregou um vestido vermelho, justo, elegante, caro demais para alguém como eu. — Você está linda — disse ela. Eu não me sentia linda. Eu me sentia exposta. Pouco depois, vários carros pretos estacionaram do lado de fora. As mulheres começaram a se dividir em grupos. Fui colocada no mesmo veículo que Tatiana. Permaneci em silêncio durante todo o trajeto, sentindo cada quilômetro me afastar da pessoa que eu era antes. Quando chegamos, entramos pela porta principal do presídio. Guardas nos observaram, mas não disseram nada. Fomos conduzidas até uma sala privada. O local parecia uma boate construída dentro de um lugar que jamais deveria ter música. Bar, iluminação baixa, uma barra de pole dance. Tudo parecia fora de lugar. Algumas mulheres começaram a dançar. Eu permaneci parada, apoiada no balcão, tentando controlar a respiração. Não sabia exatamente o que fazer. Então, os homens começaram a entrar. Eles observavam, avaliavam, comentavam. Alguns diziam coisas que me fizeram estremecer. Meu corpo inteiro tremia. Foi então que ele se aproximou. Ele não sorriu. Não falou nada de imediato. Apenas me encarou. Um olhar frio, dominante, absoluto. Quando ele se aproximou, nenhum outro homem ousou chegar perto. — Eu quero você — disse. Não perguntou. Não esperou resposta. Apenas virou-se e começou a caminhar. Tatiana me encarou com seriedade e fez um gesto claro para que eu o seguisse. Minhas pernas tremiam. Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir. Mas eu vim. Porque naquele momento, entre o medo e a necessidade, eu já tinha escolhido.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR