Anelise Narrando:
Boston.
A casa de Sthefano é ainda mais silenciosa por dentro do que por fora.
Piso num hall iluminado por candelabros modernos, o chão de mármore tão polido que quase espelha meus saltos. Há obras de arte abstratas nas paredes, esculturas nas laterais e o leve aroma de madeira e vinho pairando no ar. Tudo é sóbrio, refinado e… masculino. Como ele.
— Tire o casaco. — Ele diz, fechando a porta atrás de mim, a voz baixa como se estivesse me dando uma ordem camuflada de gentileza.
Obedeço, entregando a peça em suas mãos. Ele a pendura com cuidado em um cabide discreto, depois volta a me encarar.
— Está ainda mais bonita do que naquela noite em Milão.
Sorrio.
— E você continua excelente em elogios perigosos.
Ele me oferece o braço, e eu aceito. Seguimos por um corredor estreito até uma sala de jantar mais íntima, com apenas duas cadeiras e uma mesa bem posta à luz de velas.
— Pensei em algo menos cerimonial e mais… real. Só nós dois. — Sthefano fala enquanto me puxa a cadeira.
Agradeço em silêncio.
Sobre a mesa, pratos finos com porcelana desenhada, talheres prateados e taças de cristal. O vinho já está servido. Tinto, encorpado. O mesmo que ele pediu no restaurante naquele primeiro jantar.
— Você cozinha? — Pergunto, brincando, olhando ao redor.
— Não hoje. Mas um dia, quem sabe. Quando quiser ver minha versão desajeitada.
Dou uma risada leve. Ele se senta em frente a mim. A comida chega pelas mãos de um funcionário silencioso, que sai com a mesma rapidez que entrou.
Durante o jantar, a conversa desliza fácil. Ele fala de viagens, da fusão da Angel’s com uma marca francesa, da próxima campanha que quer lançar comigo como rosto exclusivo. E me escuta também. Sobre minha infância, sobre como aprendi a desfilar com os saltos da minha mãe, sobre meu medo de parecer pequena demais para um mundo tão grande.
— Você não é pequena. — Ele diz, com firmeza. — Nunca foi.
— Às vezes, eu me sinto.
— E eu? — Ele pergunta. — Faço você se sentir grande ou menor?
A pergunta fica no ar por um segundo mais longo do que deveria. Meu olhar cai nas mãos dele. Fortes, bem cuidadas, segurando a taça com precisão.
— Você me faz sentir visível. — Respondo, com honestidade. — E isso… é raro.
Sthefano sorri, mas não comenta. Apenas se levanta devagar, pega sua taça e vem até mim, parando atrás da cadeira.
— Vem. Quero te mostrar uma coisa.
Levanto com ele. Atravessamos uma porta de vidro e damos de cara com uma varanda aquecida, com vista para o jardim interno. Lá fora, as luzes se espalham pelo gramado como estrelas. O mundo inteiro parece calmo, como se segurasse a respiração junto comigo.
— Aqui é onde eu venho pensar. — Ele diz. — Ou fugir, às vezes.
— Fugir do quê?
— De mim mesmo.
Ele se vira para mim. Seus olhos brilham na penumbra. Ele ergue uma das mãos, roça meus cabelos com os dedos e depois segura minha nuca com firmeza. O toque é quente, mas controlado.
— Eu não quero só ver você vencer, Anelise. Eu quero ser parte disso. Quero estar ao seu lado quando o mundo descobrir o que eu já vi.
— E o que você vê?
— Uma mulher que vai incendiar tudo.
Não tenho tempo de responder. Ele me beija.
Dessa vez, sem hesitação. Um beijo profundo, lento, quase doloroso de tão cheio de intenção. Meus dedos se agarram à camisa dele enquanto seus braços me envolvem com força. Sinto sua respiração contra meu rosto, seu coração batendo forte ou talvez seja o meu.
O beijo se desfaz, mas ele não se afasta.
— Vem comigo.
Deixo que ele me conduza por outro corredor, agora em silêncio. As paredes são escuras, acolhedoras. Ele abre a porta de um quarto grande, com cortinas fechadas e uma lareira acesa. A luz âmbar dança nas paredes.
O quarto parece pertencer a outro mundo. E ali, naquele instante, eu também pareço não ser mais a mesma. Sthefano segura meu rosto com ambas as mãos e me beija novamente. Com mais intensidade. Com desejo. Com a calma de quem sabe exatamente o que quer, mas também com a urgência de quem não quer mais esperar.
Meus dedos procuram os botões de sua camisa.
Ele desliza o zíper do meu vestido como quem abre uma promessa. E naquela noite, entre lençóis de linho e promessas veladas, eu me entrego.
A ele. Ao momento e ao começo de algo que ainda não sei nomear… mas já sinto que será impossível de apagar.
Dias depois.
O sol já passava pelas frestas da cortina quando abri os olhos.
Estava deitada em lençóis que cheiravam a lavanda e calor. A lareira ainda crepitava baixinho no canto do quarto, lançando reflexos dourados nas paredes. Por um instante, tudo parecia calmo demais. Como se o mundo tivesse parado para nos dar mais tempo.
Viro a cabeça devagar e Sthefano está ao meu lado, ainda adormecido. O braço dele repousa sobre meu quadril, e seu peito sobe e desce com lentidão. Os traços do rosto estão mais suaves dormindo, quase vulneráveis. Quase.
Fico ali, observando-o, tentando entender o que sinto. Algo entre segurança e vertigem.
Me levanto sem fazer barulho, visto minha camisola de seda e caminho até a varanda do quarto. A cidade ao fundo começa a despertar, mas aqui tudo continua silencioso. Intocado.
Há um bilhete sobre a mesa de canto, com caligrafia familiar:
“Hoje quero te mostrar que a vida ao meu lado pode ser mais doce do que você imagina.
A casa é sua.
O dia é seu.
– S.”
Sorrio sozinha. É romântico. É gentil. É... irresistível.
Mais tarde, já de volta ao meu apartamento, tomo banho e me visto para o dia. Quando chego à sede da Angel’s Company, uma sacola elegante me espera na minha mesa. Dentro, um vestido novo e um bilhete:
“Para o jantar de gala da campanha. Você será o centro do salão. – S.”
Claire chega minutos depois e observa a sacola com um olhar agudo.
— Outra entrega?
— É para o evento da campanha. — Respondo, tentando soar casual.
Ela encosta o copo de café na mesa, arqueando uma sobrancelha.
— Ele está cuidando de tudo, né?
— Ele só quer me ajudar a brilhar.
— Anelise... — Ela se aproxima, abaixa a voz. — Só... não esquece de ser você mesma no meio de tanto brilho emprestado.
— O que isso quer dizer?
— Que é fácil se perder quando alguém te dá o mundo. Às vezes, o mundo vem com uma coleira de ouro.
Sinto um calafrio sutil.
Claire sorri, como se dissesse “desculpa”, mas seus olhos não recuam.
— Só te digo isso porque gosto de você. E porque já vi outras antes de você. Algumas sumiram. Outras… ainda estão tentando lembrar quem eram.
Durante a tarde, faço mais algumas fotos para a campanha. Mas dessa vez, percebo algo diferente.
O stylist diz que Sthefano pediu mudanças específicas no figurino. O fotógrafo menciona que as expressões que ele quer são mais “contidas”, “sutis”, “femininas, porém suaves”.
É como se uma nova versão minha estivesse sendo moldada lentamente. Um refinamento invisível.
No fim do dia, ao sair do estúdio, recebo uma mensagem:
“O carro estará te esperando às 19h30. Você ficará deslumbrante no vestido.
Quero todos os olhares em você, mas apenas meus olhos em cada detalhe.
– S.”
Meus dedos apertam o papel com mais força do que o necessário.
É uma mensagem doce. Mas também... uma promessa? Ou um aviso?
Não sei.
Só sei que, pela primeira vez desde que cheguei a Boston, a palavra brilho parece ter ganhado um outro peso.
E pela primeira vez, as palavras de Claire ecoam mais alto do que as promessas de Sthefano.