Capítulo 07: Apaixonados Escutam Ecos.

1699 Palavras
Anelise Narrando: Boston. Nunca fui boa com espelhos. Desde menina, sempre achei que refletiam mais dúvidas do que certezas. Mas naquela noite, diante do espelho alto no camarim da Angel’s Company, eu me vi e não consegui desviar o olhar. Eu estava linda. O vestido que Sthefano enviou era de um vermelho vinho, profundo, quase escuro. De cetim liso, com costas nuas e um laço dramático na cintura, ele me abraçava com a precisão de uma promessa, os brincos pendiam como estrelas delicadas, e os cabelos, presos em um coque baixo com fios soltos ao redor do rosto, revelavam um pescoço que ele tanto elogiava. Claire apareceu na porta e parou. — Meu Deus… — Está demais? — Perguntei, incerta. Ela sorriu devagar, mas havia algo em seu olhar que não era só admiração. — Está perfeita. Mas... tão perfeita que parece ter sido esculpida pra ele. Fingi que não entendi. Talvez porque eu não quisesse entender, pois tudo o que enche minha cabeça agora são os pensamentos de que essa noite seria única. O motorista me levou até a entrada principal do hotel cinco estrelas onde o jantar aconteceria. Já havia tapete vermelho, flashes, câmeras e pessoas sussurrando nomes. Eu não era ainda uma estrela internacional, mas, naquela noite, eu brilhava como se fosse. Assim que desci do carro, os olhos se voltaram. Mas foi só quando o vi me esperando na base da escadaria que entendi o que significava ser desejada. Sthefano. De terno preto clássico, gravata fina, cabelo penteado para trás e um sorriso que parecia feito só para mim. Ele estendeu a mão, e quando a toquei, senti como se estivesse entrando em outro mundo… o dele. — Você está... — Ele me olhou dos pés à cabeça — Além de qualquer descrição possível. — Você também não está m*l, senhor Maddox. Ele me puxou suavemente pela cintura e sussurrou: — Você é a noite inteira. O salão era deslumbrante. Lustres de cristal, mesas circulares cobertas por arranjos de rosas brancas, taças cintilando sob a luz dourada. Todos vinham até nós, estilistas, patrocinadores, fotógrafos, investidores e em todas as conversas, ele fazia questão de manter uma das mãos em mim, nas costas, na cintura, no ombro. Como se dissesse, sem dizer: ela é minha. Mas eu não via controle, via orgulho e carinho. Eu me sentia... escolhida. — Você está se saindo melhor do que eu esperava. — Ele disse, mais tarde, enquanto brindávamos em um canto reservado da sacada. — Você está surpreso? — Estou fascinado. Seus olhos se prenderam nos meus com aquele peso que só ele conseguia sustentar. — Está gostando de tudo? — Mais do que eu deveria. — E de mim? Minha taça congelou no ar. Ele sabia como me desarmar. — Você é... difícil de resistir, Sthefano. Ele sorriu, satisfeito, e se aproximou até nossas bocas quase se tocarem. — Não resista, então. Mais tarde, enquanto circulávamos pelo salão, um fotógrafo com sotaque italiano se aproximou animado. — Anelise! Você tem um perfil fascinante! Já pensou em editoriais fora da Angel’s? Antes que eu pudesse responder, Sthefano deu um passo à frente. — Ela tem contrato exclusivo com a Angel’s Company, Mario. E qualquer editorial dela será aprovado pela diretoria... ou por mim. Mario riu desconcertado, murmurou algo como “claro, claro” e se afastou. Eu fiquei imóvel por alguns segundos. — Isso foi... necessário? — Perguntei, com um sorriso que tentava amenizar o incômodo súbito. — Só estou protegendo o que é meu. — Eu sou minha, Sthefano. Ele respirou fundo, depois suavizou o tom. — Sim. Mas você sabe do que estou falando. E o pior é que eu sabia. Só que naquele instante, tudo que eu conseguia ver era ele, seu cuidado, sua voz e seu jeito de me colocar no centro de um mundo que eu sempre quis alcançar. Horas depois. Na volta para casa, no carro escuro com vidros fumê, ele segurou minha mão e traçou os contornos dos meus dedos com a ponta dos seus. — Você percebe o que estamos criando? — Um escândalo fashion? — Brinquei. — Um império. E você vai ser a deusa dele. O elogio me atingiu como vinho forte. Eu já não sabia onde terminava o encantamento e começava o vício. Ao chegar em casa, antes que eu pudesse sair do carro, ele me puxou para mais perto e beijou minha testa com uma ternura que rasgou qualquer dúvida silenciosa. — Boa noite, minha estrela. Entrei no apartamento, tirei os saltos e fui direto para a varanda. Sentei no chão frio, com o vestido ainda impecável e o coração descompassado. Claire estava certa sobre algumas coisas, mas ela não conhecia o Sthefano que eu conhecia. O homem que me via, que me moldava com os olhos, que me fazia sentir que eu, Anelise, uma garota do interior, com o rosto em revistas e os pés no chão, finalmente tinha encontrado um lugar para chamar de meu mundo. Talvez, só talvez… Esse mundo tivesse o nome dele e naquele instante, eu não queria mais sair dele. Dia seguinte. Na manhã seguinte ao jantar de gala, acordei com a luz entrando forte pelas janelas do meu apartamento. O vestido da noite anterior ainda estava pendurado no encosto da cadeira. Os brincos repousavam sobre a mesinha de cabeceira, ao lado de um bilhete dobrado com a caligrafia de Sthefano: "Você brilhou mais do que qualquer lustre naquele salão. Em breve, o mundo inteiro vai ver o que eu já sabia desde Milão. – S." Sorri. Fechei os olhos e fiquei assim por alguns minutos, com o bilhete sobre o peito, sentindo como se estivesse vivendo dentro de um sonho cuidadosamente montado. E eu não queria acordar. Na Angel’s Company, fui recebida com sorrisos e cumprimentos, como se eu tivesse sido coroada a nova musa da casa e, de certo modo, talvez tivesse sido mesmo. Claire me esperava com duas xícaras de café. Uma delas já sem açúcar, do jeito que eu havia dito preferir na segunda semana em que nos conhecemos. Pequenos gestos que falam mais do que muita conversa. — Pronta para uma bomba? — Ela perguntou, enquanto caminhávamos pelo corredor central. — Depois dessa semana? Acho que já nem tremo mais. Ela parou, me puxou discretamente para o lado de uma pilastra e abaixou a voz: — A diretoria vai anunciar hoje à tarde que você será o rosto da nova campanha internacional da Angel’s. Paris, Dubai, Tóquio, tudo em primeira classe e tudo com a sua imagem estampada. Fiquei paralisada por alguns segundos, sem entender se tinha ouvido direito. — Isso… isso é real? Claire assentiu devagar. — E pelo que ouvi nos bastidores, foi decisão direta do Sthefano. Ele moveu tudo. O coração disparou. Minha mente tentou processar. Paris. Tóquio. Meu rosto... em revistas do outro lado do mundo. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o assistente de produção surgiu no fim do corredor, ofegante: — Senhorita Anelise, o senhor Maddox pediu que você vá até o escritório dele. Agora. Claire soltou o ar com um suspiro contido. E então disse, com uma voz mais baixa: — Cuidado. Não se perca no tamanho do mundo que ele te dá. O escritório de Sthefano era um aquário de vidro no último andar. Luxuoso, silencioso, estrategicamente isolado do resto da empresa. Ele estava de costas quando entrei, olhando pela janela como quem observava um tabuleiro. — Me chamou? — Perguntei, ainda tentando conter a excitação. Ele se virou, os olhos brilhando de satisfação. — Sim. Fecha a porta, por favor. Obedeci. Assim que me aproximei, ele estendeu um envelope de couro. — Esse é seu primeiro passaporte para o mundo real. A Angel’s escolheu você como o novo rosto da campanha internacional. E quando digo "escolheu", quero dizer: eu escolhi. Senti as pernas fraquejarem. Minhas mãos tremiam enquanto pegava o envelope. — Isso é... inacreditável. — Não é. É apenas o começo do que eu prometi. Ele se levantou devagar, veio até mim e segurou meu rosto com as duas mãos. — Você vai ser maior do que imagina. Mas eu quero estar em cada passo, cuidando e garantindo que ninguém te machuque. — Você já está. — Respondi, e fui completamente honesta. O mundo parecia certo demais ao lado dele. — A primeira viagem será para Paris, daqui a duas semanas. Ficaremos no Ritz. Eu estarei lá com você. — Você também vai? — Claro. — Ele sorriu. — Você é minha estrela. E estrelas não viajam sozinhas. Durante a semana Nos dias que seguiram, tudo foi uma preparação vertiginosa: provas de roupas, reuniões com estilistas franceses, passagens emitidas, entrevistas com revistas de moda e ajustes de roteiro. Fui colocada em meio a um turbilhão, mas em nenhum momento me senti perdida, porque Sthefano sempre estava por perto. Em casa, eu já não dormia com meu celular longe da cama. Toda noite, havia uma mensagem dele. Às vezes um simples “Pensei em você antes de dormir”, outras vezes algo mais denso, como “Você já entende o que provoca em mim?” E todas essas mensagens… me prendiam um pouco mais. Claire começou a ficar mais distante. Aparecia menos nas reuniões, almoçava sozinha, e mesmo quando me via, seus sorrisos vinham pela metade. Um dia, a alcancei no corredor, e perguntei direto: — Você está estranha comigo? Ela hesitou, mas respondeu com sinceridade: — Estou tentando não me decepcionar. — Comigo? — Com o que você está deixando acontecer. Fiquei em silêncio. Ela respirou fundo, passou a mão no cabelo e completou: — Você é uma das melhores pessoas que já conheci aqui dentro. De verdade. Mas não quero ver você ser moldada pra caber num império que não te pertence. Nem numa relação que parece perfeita… só porque ela brilha. As palavras me atingiram… mas não consegui absorvê-las. Porque, por dentro, eu já estava em Paris. Já sentia o toque da cidade, a promessa de luzes e sorrisos, os olhos de Sthefano sobre mim, como faróis que guiavam cada passo meu. Claire podia estar certa. Mas eu estava apaixonada e apaixonados… não escutam ecos. Só sussurros que combinam com seus desejos.
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