capítulo 11

1768 Palavras
Nunca estivemos realmente na mesma sala,só que eu sabia que era ele. Se antes eu estava entrando em pânico, naquele instante já podia confirmar isso. Joseph talvez soubesse que fosse eu.Ele não terminou sua frase e ainda me segurava pela cintura, fazendo com que meu coração ficasse por um fio.O calor que emanava do seu corpo me possuía, e sua respiração estava tão próxima, que quase roubava o meu ar, assim como o perfume. Pigarrei, tentando sair do transe, e me afastei dele, arrumando minhas roupas, mesmo que ninguém pudesse me ver. — Ainda é ridículo este mistério todo.Como acham que vamos conversar ou interagir?—falei irritada, com o coração na mão. — Eu ainda estava confuso se era você ou não, mas suas reclamações não mentem, Samantha. Eu poderia agradecê-lo por me trazer a raiva novamente, entretanto confessaria que ele mexia comigo. — Claro.Até porque sou a única aqui que é odiável. — Cruzei os braços, zangada.Nós não nos víamos, no entanto eu olhava em sua direção com fogo nos olhos. — Sua irritabilidade é acolhedora.Fica próximaao meu desconforto. — Você sempre me vê dessa forma ou...? — Não fique irritada.Não é uma coisa ruim.Na verdade, gosto disso em você. —interrompeu-me. Pude sentir o sorriso em suaface exibida. — Tire este sorriso do rosto! — Como sabe que estou sorrindo, se não pode me ver? —brincou. — Não preciso te ver para saber que está com um sorriso convencido.Todos acham que sou uma piada. — Isso te incomoda? — Por que não me incomodaria?Acha que gosto de ser ridícula? —Eu falava sobre a aproximação e a provável revelação dos nossos rostos. Você não sabia que isso aconteceria, e não lida bem com novidades ou surpresas. — Falando assim, até parece que me conhece há anos. — Gosto de você, então observo os mínimos detalhes, até mesmo na sua voz. E lá estava eu de novo com o coração na mão e envergonhada. Nem foi nada demais. Comporte-se! — Quando isso acabar, vou matar aHoper. — Na verdade, estou gostando.Assim posso saber como é estar perto de você. Eu gostava do Joseph arrogante. Ele era grosso, e isso me mantinha a uma boa distância dele. O novo, que tinha conhecidohá semanas, mexia comigoe me deixava vulnerável. Gostava também da minha vida organizada, sem muitas surpresas.Mas, depois que o experimento começou, não teve um minuto em que eu não pensasse em conhecer esse homem pessoalmente. Prometi a mim mesma que não me envolveria, que seriasó uma nova oportunidade de conversar com alguém, e nada além disso, porém, ali estava eu, desejando desesperadamente ver seu rosto, tocar novamente em sua pele e descobrir que tipo de ligação tínhamos.No breve momento em que nossas peles se tocaram, senti como se estivesse em um vulcão. Pare, Samantha! Esse homem é um completo desconhecido. Você não vai querer se meter com os sentimentos. Sabe bem onde isso iria dar. O clima estava calado.Geralmente,eu gostava disso,todavia, em um local onde não se pode ver o que está ao seu lado, com alguém como Joseph, isso se tornava um tipo de tortura.Tudo culpa deHoper. — Acho melhor eu sair deste lugar. —comuniquei em voz alta o que deveria ter sido apenas um pensamento. — Quero dizer...Estouficando claustrofóbica,mesmo sabendo que não estou em uma caixa minúscula. — Acabamos de chegar. —ele falou surpreso. — Não me diga que está fugindo, como sempre. — Por que, constantemente, me acusa de ser medrosa? — Ouvi um sonoro riso vindo da sua direção e fiquei nervosa. Odiava ser motivo de piada. — Acha engraçada a minha situação? — Não, só estou pensando em como é bom ouvir sua voz de perto.Quando fica irritada, dá para sentir a energia que exala. — Tem sorte por estar uma penumbra aqui, senão chutaria o meio de suas pernas. —Cruzei os braços. — Enfim, me perdoe por sair.É que não estou nada confortável. — Acho que será bom ver a sua expressão de raiva. Quem sabe nos conhecermos longe destas pessoas malucas a agrade mais. — O quê?!— Senti meu corpo congelar, e meu coração parecia que iria sair pela boca. — Você...Quer dizer... — Não vai me falar que está mesmo fugindo de mim, não é?—Podia apostar que ele estava com um sorriso exibido. — Não estou fugindo, senão não teria vindo.E se quiser me acompanhar, não vou impedi-lo.Só não garanto que não vou bater em você se for um exibido convencido. Verdade seja dita: eu estava querendo fugir sim. Não era só a sala, com pessoas conversando no escuro e rindo como se estivessem em um bar, que me deixava tensa, mas também estar tão próxima a ele e saber que ele desejava me ver. Joseph não era um cara com quem sairia para um encontro e depois teria uma noite de sexo. Sempre que fazia isso, ia embora na manhã seguinte e nunca mais via a pessoa,no entanto ele era diferente.Se eu fosse dormir com ele, não iria sumir no outro dia. Na verdade, esse homem despertou em mim algo novo e assustador que me deixava apreensiva. Não aguardei por mais palavras suas.O meu desejo era ficar a uma boa distância dele e esperava que esses segundos me ajudassem a meacalmar mais.O que seria difícil.A cada passo para longe, meu peito só reclamava da situação. Por sorte, em todo ocirco montado pela minha amiga, a porta estava sinalizada. Eu a abri e saí sem olhar para trás, torcendo para não parecer tão dramática. Ele me veria como uma louca medrosa? Andei pelo corredor, sem ouvir passos de mais alguém, edesci as escadas, segurando no corrimão, achando que cairia. Estava feliz por ter me produzido melhor para essa ocasião. Mas você não está aqui por um motivo romântico, sua ridícula! Passar pela porta pesada de vidro me tirou um pouco do peso nas costas. Era como se o ar frio me ajudasse com o corpo em chamas. — O que está fazendo aqui? — A voz da minha amiga me tirou do nervosismo de antes. Ela estava, claramente, irritada, e eu sabia porquê. — Não me diga que vai embora antes de... —Algo a fez calar a boca. Agradeci por isso, mas logo notei que havia alguém atrás de mim. Um imenso arrepio tomou o meu corpo; senti minhas mãos suarem e meu peito quase explodir de ansiedade. Virei-me para comprovar aquilo que já sabia, não estando preparada para ver a imagem de um deus grego saindo pela porta de vidro. Puta merda! Ele é lindo! Bom...Posso estar o confundindo com alguém, porém, se Joseph não desistiu de me conhecer, esse deve ser ele mesmo. Relaxe! Ele é um cara comum que se tornou seu amigo de uma forma estranha, mesmo que seu coração esteja te traindo neste exato momento.Quis me bater por perceber todas as minhas células balançarem pelo homem alto, de cabelos loiros escuros, barba rala e com um corpo sarado, que caminhava até onde eu estava.Senti minhaface ficar vermelha.Ele andava quase que em câmera lenta, encarando-me dos pés à cabeça. Abaixe esse fogo! Ele é só o seu amigo. Desviei meu olhar do seu, impedindo que ele me afetasse ainda mais. Ri, nervosa, em direção àHoper, esperando que minha vergonha passasse. — Não me canso de dizer que todo aquele mistério foi ridículo. —pronunciei. O sorriso nos seus lábios me fez mudar de humor. Conheciacada microexpressão dela.Se eu pudesse ler seus pensamentos, diria que estava adorando toda a situação e que, pior, pensava na possibilidade do seu experimento ter funcionado comigo. — Acredite, Samantha...—Sua voz debochada quase me fez bater nela. — Se não tivesse tido aquele mistério, nenhum de vocês dois estaria aqui, agora. Pelo breve momento seguinte, encarei o homem mais lindo que já havia visto na vida. Ele tinha mesmo um sorriso convencido. Quase pisei no meu próprio pé por estar encarando sua boca bonita. — Sua amiga tem razão. —Ouvir sua voz e a uniràsua imagem me deixou ainda mais abalada. — Devo confessar que não saber quem era você me trouxe a este lugar várias vezes. — Você disse que era porque tínhamos a mesma opinião. —retruquei, trazendo de volta o humor que tanto me salvava. O clima ficou quase estranho, pois Hoper ainda estava entre nós, com aquele olhar de segundas intenções. Joseph, recém-descoberto como uma tentação, olhava para mim enquanto eu tentava não surtar com a situação. — Bem...Já que vocês decidiram pular a última etapa, acho melhor deixá-los sozinhos. —Minha amiga me encarou. Eu não sabia sea pedia para ficar ou a empurrava para bem longe. Enquanto a via entrando no prédio, tentava imaginar o que faria ou diria. —Está melhor agora? —ele questionou. Voltei à realidade, notando que estava sendo encarada pelos olhos atentos dele. Mesmo à noite, sabia que eles eram claros— azuis talvez— e que seus cabelos eram loiros.Conseguia ver o tom mais claro deles. Seu rosto era bem desenhado e seus lábios não eram nem muito finos, nem grossos. Ele era bem alto também — talvez 1,80m. Observei a forma como estava vestido. Sempre que conversávamos,ele dizia ter saído do escritório. Eu não era boba, nem burra. Apesar de não ter dito em palavras, Joseph pertencia a uma família rica, exercendo uma função de poder e hierarquia.Eu só não sabia o nível. Era interessante e revelador unir a ideia ao homem. O terno fino definia bem o seu corpo.O que me era estranho, já que os empresários quase nunca tinham tempo para malhar. Fiquei envergonhada ao notar que o estava avaliando na cara dura. —Você disse que estava desconfortável e claustrofóbica. —Bem...—Pigarrei, claramente nervosa.O pior é que Joseph era tão bom observador quanto eu. —O ar puro ajuda, mas não estou eu mesma ainda. Não dê todas as informações a ele, ou elas podem ser usadas contra você. —Entendo.Então, podemos caminhar. —Indicou o caminho. Minha demora ao concordar pareceu um século, e isso também me irritou.Eu me orgulhava de ser decidida, desencanada e livre de sentimentos como esses, porém o destino— ou melhor dizendo, a Hoper—, estava testando os meus limites. Já tinha passado deles há muito tempo. Criei uma enorme barreira entre mim e outras pessoas, eestava cansada de sempre esperar algo bom, para receber uma negativa que me levava direto ao quarto escuro. Não percebi quando Joseph abriu uma brecha.Estava tão nervosa e ansiosa, que podia ser visível.Algo que odiava. Deixar que as pessoas vissem o meu interior sempre me levava ao chão.
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