Atormentada

4345 Palavras
Segui trabalhando com a Nayara por mais alguns dias e depois de concluir meu trabalho com ela resolvi levar minha mãe para avaliar alguns apartamentos indicados por um cliente do Rodrigo. Encontramos entraves principalmente na estrutura, no valor e nas taxas relativas a condomínio, e por isso precisamos visitar vários apartamentos diferentes. Minha mãe só fazia uma exigência, que o imóvel ficasse em um local mais próximo ao da Thati pra que ela pudesse ajudar a cuidar do neto sempre que preciso. Procuramos por dois dias até encontrar um que lhe agradou em todos os sentidos, da estrutura, preço a localização. - Vamos comprar este minha filha. Eu me senti em casa só em visitá-lo. Depois que colocar meus vasos umas cortinas e tapetes, vai ficar mais aconchegante ainda. Disse ela animada após a visita e imediatamente eu liguei para o Rodrigo e pedi que ele contatasse o cliente dele que era dono da imobiliária. - Vão mesmo fechar o negócio? Não preferem visitar mais alguns? O Rodrigo me perguntou por telefone, e vendo que minha mãe estava alegre eu não hesitei. - Vamos comprar este Rodrigo. Minha mãe até começou a planejar a decoração. Falei rindo dela e ele riu também. - Como preferirem. Vou marcar com o meu cliente pra realizarmos a compra. Ele disse e eu agradeci. - Tudo certo mãe, o Rodrigo vai seguir com a compra. Quer sair pra comemorar? Perguntei para aproveitar a animação dela. - Eu prefiro ir descansar filha. Mas você devia sair um pouco. Pena que a Lívia não está aqui. E como estão às coisas no restaurante, ela disse mais alguma coisa? Perguntou interessada. - A Lívia disse que tem um potencial comprador para o restaurante. Cuido disso quando voltar. - Que bom. Muito bom mesmo. Essa moça tem muito valor Isabel. Disse ela e eu a olhei. - Mãe, eu já disse que somos apenas amigas... Falar nisso, já que a senhora não quer sair, vou perguntar a Dani se ela quer ir comer uma pizza ou um sushi. Falei antes de pegar o celular e ligar para a Daniela. - Pensei que tinha me esquecido. Ela reclamou assim que atendeu. - Eu não. Só estava trabalhando demais e depois visitando apartamentos. Minha mãe achou um ótimo e decidiu comprar. Agora é oficial, logo você terá mais uma companhia no Rio. Falei rindo. - Eu vou adorar ter você e a Dona Lúcia por perto. Vou poder ir visitá-las mais vezes. - Vai sim... Eu liguei pra chamar você pra comer uma pizza ou um sushi. Aceita? - Aceito comer, mas estou cansada demais pra sair. Vem pro flat me visitar. Ela pediu fazendo uma voz manhosa. - Pode ser. Estou no táxi, vou deixar a minha mãe e sigo ao seu encontro. Despedimos-nos brevemente. - Diga a Dani para me visitar em breve que eu faço uma torta de chocolate para ela. Disse a minha mãe. - Vou dizer sim... Ficou mesmo satisfeita com o apartamento? Perguntei só para ter certeza. - Fiquei sim minha filha. O espaço é bom, será confortável para nós duas. Estou aliviada, estava começando a pensar que não iríamos encontrar um bom apartamento. - Garanto que só ficaria sossegada quando encontrasse um do seu agrado. Afirmei e sorrindo ela passou a mão no meu rosto. - Eu sei disso. Você é como seu pai. Ele sempre pensou na família e você é igualzinha. Disse ela me fazendo sentir um nó na garganta. Precisei respirar fundo para não chorar. - Foi ele mesmo quem me ensinou a ser assim mãe. Falei com muito esforço e ela sorriu. - Eu tenho muita sorte por ter vocês duas agora. Confesso que nunca me imaginei vivendo em outro lugar que não fosse nossa casa. Vai mesmo preferir colocá-la para alugar? Ela perguntou me olhando. - No momento acredito que seja o melhor a ser feito mãe. Depois decidimos o que fazer. - Confio completamente em você! Disse ela sorrindo. Um pouco mais a frente nos despedimos e eu segui para a Barra, onde a Dani agora morava. Chegando ao flat ela me recebeu com um sorriso nos lábios e um abraço apertado... A Dani estava com um semblante diferente, tinha o rosto mais corado e os cabelos mais loiros. - Saudade de você Isa. Estava mesmo pensando que não vinha me ver antes de ir embora. Novamente reclamou comigo. - Tem coisas que não mudam. Você pelo jeito só esta mais loira e corada. Falei sorrindo pra ela. - Estou com a cor do litoral amiga... Estou bem? Perguntou rindo. - Linda como sempre. Onde está a Joana? Perguntei sabendo a resposta. - Está na casa dela no Recife, vai vir esse final de semana você ainda vai estar no Rio? - Não eu volto pro Espírito Santo assim que resolver a compra do apartamento, talvez em dois ou três dias. - Senta Isa. Ela pediu toda a vontade. A Dani parecia se sentir bem morando sozinha no flat da Joana. - Como estão às coisas pra você por aqui? Perguntei sem querer ser muito invasiva e ela riu. - Estou adorando. Moro perto do trabalho, vou e volto de carro, aqui sempre tem o que comer e quase nunca tomo chá. Disse sorridente. - E a Maíra? - Ah, foi difícil, mas agora não importa mais Isa... O que vamos pedir pizza ou sushi? Ela desconversou. Coisa que deve ter aprendido com a Blanc. - O que prefere? - Pizza mesmo. Eu almocei uma salada de salmão hoje. - Está muito sofisticada Dani. Ao menos a Blanc está cuidando de você. Falei e ela me olhou estreitando os olhos. - Você fala em um tom da Joana que eu não gosto. Reclamou. - Desculpa, não falei nada demais. - Estou muito feliz com ela, como nunca me senti antes com ninguém. E digo mais, você tem uma implicância com a Joana, mas ela simpatiza muito com você se quer saber. - Foi só jeito de falar Dani, eu também simpatizo com a Joana, ainda mais sabendo que ela está deixando você feliz. Não estou aqui pra falar nada sobre você duas... Vamos de pizza? -Você pede e eu vou pegar um vinho da Joana. Disse ela saltando do sofá e rindo. - Ela não tem ciúmes dos vinhos dela? Perguntei. - Ela disse que me ama mais do que aos vinhos então tenho prioridade. Falou toda contente e eu não resisti, rindo muito. Pedi uma pizza para nós duas e logo a Dani voltou com vinho e alguns queijos. - Está sofisticada Dani. - Eu aprendo super rápido você sabe. Afirmou com um sorriso bobo nos lábios. - Esse é o meu favorito, sempre bebemos juntas quando ela vem. Disse ela após me servir, e a cena que vi em seguida me chamou atenção, a Dani degustando o vinho como fazia a Joana, sentindo o perfume de olhos fechados. - Ela ensinou você a degustar? Perguntei por curiosidade. - Me ensinou algumas vezes. Ela prometeu me levar pra conhecer uma vinícola, então eu pedi que me ensinasse algumas coisas sobre vinho antes. Sem contar que a Paola e a Emilly entende de vinhos eu não quero parecer eternamente uma menina do interior perto delas. Disse me fazendo rir. - Você é uma menina do interior que agora mora em uma cidade grande Dani. - Eu sei Isa, mais um motivo pra querer me adaptar. Ainda mais agora com a Joana. - Se está feliz e quer aprender coisas novas, aproveite. Incentivei percebendo que a Daniela não havia só ficado mais loira e corada, a cabeça dela estava mudando, ela parecia mesmo querer se distanciar do seu jeito de menina do interior. Continuamos conversando e ela falou bastante do trabalho e me fez falar também... Não deixou de especular sobre a Lívia, mostrando uma curiosidade em saber se havia algo mais acontecendo entre nós duas. Garanti com firmeza que não tínhamos nada, ainda que ambas estivéssemos livres e desimpedidas agora. A noite estava muito agradável, mas além da Dani ter que ir trabalhar no dia seguinte eu também tinha meus compromissos. Despedimos-nos com um abraço demorado. - Dá próxima vez que voltar ao Rio será para ficar. Garanti para ela que sorriu. - Adoro pensar que logo vai morar por perto Isa.  Vai poder vir mais vezes me visitar, nós vamos aproveitar a piscina da próxima vez. Sei que adora nadar. Disse sendo carinhosa e eu sorri. - Não nado mais como antes, mas vou vir visitar você sempre que possível. Até mais. - Até mais amiga. Manda um abraço pra Dona Lúcia. - Minha mãe disse que quando você for visitá-la ela faz uma torta de chocolate. - Diga que vou assim que ela se mudar. Afirmou sorrindo. - Digo sim. De certa forma ao nos mudarmos para o Rio o que mais mudaria seria o cenário. Voltei para casa e depois de uma noite de sono desconfortável acordei levemente dolorida. Minha mãe estava animada, ao menos alguém tinha que estar. Logo cedo o Rodrigo passou de carro para nos buscar e levar a imobiliária do cliente dele. Depois de uma curta conversa informal e um café, começamos a falar sobre os valores e as taxas de todo processo de tramitação legal da compra, que seriam feito pela imobiliária. Tanto eu quanto o Rodrigo negociamos um desconto no valor de entrada e minha mãe concordou e assinou a compra do apartamento com certa emoção nos olhos... Não fazia ideia do que ela estava pensando, mas pensei que podia ser no meu pai, pois foi exatamente o que veio na minha mente enquanto ela assinava, imaginei como teria sido a vida deles se tivessem decidido aposentarem-se e vender o restaurante antes. Mas no fundo sabia que meu pai não teria se aposentando tão cedo, ele certamente ficaria bem velhinho cuidando da churrascaria. - Você vai cuidar da mudança? Perguntou o Rodrigo me olhando. - Vou sim. Vou procurar alguma transportadora daqui mesmo. - O que precisar pode falar comigo Isabel. Ele garantiu, mas eu sabia que o Rodrigo não tinha tempo pra quase nada além do trabalho. - Certo. Obrigada... Mãe, eu vou ligar para o nosso gerente, informar da compra. Ainda tinha algumas coisas a resolver para finalizar a compra do apartamento, então dediquei minha atenção a esses detalhes antes de voltar pra casa. Estava ansiosa pra ir embora e dar continuidade a venda do restaurante, não queria deixar a Lívia por mais tempo sozinha, sentia como se estivesse abusando da boa vontade dela. Precisei de mais dois dias no Rio de Janeiro e na sexta-feira pela manhã peguei o ônibus para Vitória e depois para minha cidade. Algumas horas de estrada e uma dor nas costas depois eu cheguei exausta, mas fui direto para o restaurante. - Bem vinda de volta! Disse a Lívia a me ver e eu sorri para ela. - Obrigada Lívia. Novamente só posso dizer que não sei o que faria sem sua ajuda. Fiz questão de lhe agradecer, sem ela estava perdida. - Você precisava de apoio Isabel, fico feliz em ajudar. Agora que voltou vou marcar com o possível comprador do restaurante, ele esteve aqui essa manhã e ficou observando o serviço do almoço. Ficou animado com o movimento. - E como estamos indo? Perguntei só por perguntar, já que ela sempre me mandava os resultados atualizados do caixa. - Muito bem! Sinceramente é uma pena que você tenha que vender o restaurante. Disse me olhando e eu concordei com ela. - É uma pena mesmo, meu pai amava isso aqui, mas a minha mãe perdeu o gosto. - Eu sei, ela voltou com você ou ficou no Rio mesmo. - Ela já ficou lá e não deve voltar aqui tão cedo, se é que um dia volta. Ela pediu que lhe agradecesse e exigiu que fosse visitá-la quando estivesse pelo Rio de Janeiro. - Irei sim. Embora acredite que dificilmente vou sair da minha cidade depois que abrir meu restaurante. Talvez no dia que tirar férias. - Ou em alguma reunião da Salzi. Lembrei e ela concordou. - Verdade. Quem sabe para alguma reunião, se a Joana precisar de mim mais uma vez. Afirmou me fazendo recordar que ela era a minha mentora, escolhida pela Blanc. - Tinha esquecido que sou a sua missão do momento. Por isso está me ajudando tanto? Questionei-a. - Não só por isso, mas por isso também. Em todo caso você também irá me ajudar. Ainda vai comigo a minha cidade? - Claro que vou, faço questão de ajudar você e seu irmão, dentro do possível pra mim. Afirmei e ela sorriu. - Que ótimo... Bom eu vou avisar que você chegou e marcar uma reunião para amanhã... E tenho um recado pra você, não sei exatamente se é o que gostaria de ouvir agora. Disse contraindo o rosto e me deixando automaticamente preocupada. - Um recado de quem? Perguntei. - Delegada Giovanna Macedo. Ela pediu que entrasse em contato quando chegasse. Disse antes de mexer nas gavetas do caixa procurando por um cartão. - Seja lá o que for é melhor você ligar logo. Aconselhou a Lívia e só de ouvir o nome da Delegada eu me lembre da emboscada que sofri. - Vou ligar agora mesmo, do escritório. Marque a reunião com o interessado no restaurante. Reforcei a ideia para que ela desviasse a atenção da história com a Delegada. - Vou ligar agora mesmo. Garantiu se afastando e eu fui para o escritório. Respirei fundo enquanto sentia meu coração acelerar e liguei para o número no cartão. - Delegada Giovanna Macedo. Com quem estou falando? Ela perguntou ao atender. - Boa tarde Delegada, está falando com a Isabel Vilela, do restaurante Vilela. Soube que esteve a minha procura. Falei. - Está de volta à cidade Isabel? - Sim, acabo de chegar. - Precisamos conversar. Prefere vir à delegacia ou devo ir ao seu restaurante? Perguntou me parecendo bem educada. - Do que se trata? Perguntei desconfiada. - É melhor falarmos pessoalmente. - Sendo assim estou no restaurante agora. - Estou indo até você. Disse parecendo ter pressa o que me deixou ainda mais desconfiada. Não esperei por muito tempo já que a delegacia não era longe do restaurante. Assim que ela chegou a Lívia avisou e a trouxe até meu escritório. - Aceita uma água, suco, café? Perguntei a convidando a sentar. - Um café. Ela respondeu e eu pedi que a Lívia nos mandasse café. - Soube o que aconteceu ao seu pai. Meus pêsames, ele era um bom homem. Disse ela que mesmo sendo delicada ainda tinha um jeito meio duro, talvez por ser da polícia. - Ele era mesmo... Agora estou realmente sem entender o que faz uma Delegada me procurar. Falei querendo que ela adiantasse o assunto. - O motivo Isabel, é que um homem foi assassinado em uma situação semelhante à ocorrência que aconteceu com você meses atrás. Inclusive este homem estava trabalhando na mesma empresa que você estava oferecendo consultoria e não encaramos isso como coincidência. Disse ela me fazendo sentir o estômago gelar e me paralisar. - Estamos investigando o ocorrido, e você por enquanto não será intimada a um depoimento oficial, por isso estou aqui pra pedir que fale o que sabe, ou ao menos o que suspeita. Se for algo grave posso oferecer segurança a você por contribuir com a investigação. Ela continuou falando e o nosso café chegou. Aproveitei que ela desviou a atenção de mim por uns segundos para recuperar o fôlego. Não podia abrir a boca e correr o risco de sofrer outra emboscada ou coisa pior. - Delegada, eu realmente não tenho como ajudá-la. E caso estejam cogitando me chamar para prestar um depoimento oficial irei dizer o mesmo que lhe disse no hospital quando me visitou. Afirmei olhando pra ela. - O café é bom. Elogiou. - Sua família não vive mais aqui Isabel, mas um motivo para não temer. Posso protegê-la. Disse me olhando e por um momento eu quis rir da situação. Ela não era só uma delegada, mas também uma mulher muito bonita. - Sinto muito mesmo, o que eu posso lhe oferecer é um convite pra vir jantar aqui quando quiser. Não tenho nada a dizer sobre esse caso que mencionou. Afirmei e ela ficou quieta me olhando enquanto terminava o café. - Esse café é realmente muito bom. Caso mude de ideia tem meu número Isabel. Disse se levantando sem tirar os olhos dos meus. Levantei-me e a acompanhei até a porta do restaurante, onde nos despedimos com um aperto de mãos e eu reforcei o convite para que ela voltasse em outro momento para jantar. - Convidando a Delegada para jantar? Ela é mesmo uma bela mulher. Disse a Lívia se aproximando de mim sem que eu percebesse. - Sim ela é, mas não foi por isso que chamei... Conseguiu falar com o possível comprador? Perguntei mudando de assunto. - Marquei com ele para amanhã às onze. - Certo. Obrigada mais uma vez Lívia. Sorrimos uma para a outra. Depois da visita da Delegada fiquei preocupada. Havia pensado que o acontecido na emboscada era passado, mas agora essa história havia voltado para me atormentar. Passei o resto do dia com medo de ser oficialmente intimada para depor, o que me fez pensar se não teria sido melhor falar a verdade para a Delegada e pedir proteção. No fim do expediente voltei para casa com a Lívia e cansada da viagem fui logo para o meu quarto, onde depois de um banho demorado eu me deitei para dormir. ... - Desce do carro! Não olha pra mim. Disse um homem ao me parar na entrada de casa. - Você pode levar o que quiser. Falei saindo do carro com a chave na mão. - Anda, abre o porta mala! Ele novamente gritou me deixando em pânico. - Entra e fica quietinha. Ordenou assim que abri e eu lhe obedeci apavorada. Assim que ele me trancou comecei a sentir o meu peito se comprimir, não tinha ar para respirar, estava sufocando, desesperada. ... Acordei ofegante, puxando ar e sentido dor no peito. Andei desesperada pelo quarto a procura de uma bombinha de inalação. Não me lembrava da última vez que havia precisado, mas sabia que a Thati tinha uma, por isso saí andando desesperada e bati na porta do quarto onde a Lívia estava dormindo agora. Vendo-me apressada ela se assustou e eu entrei indo direto até as gavetas na cabeceira da cama, onde por sorte havia mesmo uma bombinha. Sentei-me na beira da cama enquanto tentava me acalmar e recuperar o fôlego. Assustada a Lívia se sentou ao meu lado e ficou me olhando. - Isa, do que mais você precisa? Ela perguntou mais calma. - Só respirar. Falei enchendo o peito de ar e soltando lentamente. - Você tem asma? Ela perguntou. - Acho que... Que foi uma crise... De ansiedade. - O que deixou você assim? Ela perguntou preocupada. - Tive um pesadelo... Um pesadelo muito tenso. Como um sequestro sabe. Mandaram-me entrar na mala do carro e eu comecei a perder o ar... E eu acordei assim. - Entendi. Fica calma Isa. Foi só um pesadelo, está tudo bem. Esquece. - Não, não está tudo bem. Você pode correr perigo se ficar aqui e vierem atrás de mim. Pensei apavorada olhando para ela. - Quem vai vir atrás de você? Foi só um pesadelo Isa. - Não, não foi. Foi um aviso... Meses atrás, eu sofri uma emboscada, queriam me matar. E agora com a Delegada querendo que eu vá depor estão de olho em mim. Falei nervosa. - Eu preciso entender do quê você está falando. Que emboscada, o que aconteceu? - Eu levei um tiro, aqui. Mostrei a ela a marca que ficou em meu ombro no lado direito. - Atiraram em mim, queriam me matar. Foi em um trabalho que aceitei, logo percebi que tinha algo de errado e estava decidida a não voltar quando armaram uma emboscada. No dia eu não estava sozinha, a Letícia foi me buscar e por sorte a impulsividade dela a fez agir e fugir. Contei para ela que me ouviu com atenção. - Então foi por esse motivo que a Delegada lhe procurou? - Exatamente. Mataram um homem, que estava trabalhando nessa fábrica. Então ela associou que não é uma coincidência e me pediu para falar mais, prometeu que iria me proteger caso contribuísse com a investigação. Mas eu não posso, simplesmente não posso Lívia. Declarei acelerada. - Eu entendo você Isabel. - Foi uma situação traumática, estressante. Eu precisei tomar remédios porque não dormia direito, e acho que só melhorei porque saí da cidade. Tinha medo de ficar aqui e virem atrás de mim e agora eles podem lembrar que sou uma ponta solta nessa história. Continuava apavorada e meu peito doía me faltando ar. - Você não está sozinha Isabel, eu vou ajudá-la a resolver isso também. Disse se comprometendo como se realmente pudesse fazer algo por mim. - Como vai me ajudar nessa Lívia? Questionei-a. - Ficando do seu lado. Precisa de alguém que lhe dê apoio. E se quer saber, devia considerar falar a verdade com a delegada. Uma conversa informal. Você pode contribuir sem se colocar na linha de frente, sem ter seu nome citado, como em uma denúncia anônima. Sugeriu me atraindo atenção. - Acha mesmo que posso fazer isso assim anonimamente? - Você deveria tentar falar com ela novamente. Aconselhou. - Certo. Você pode ter razão. Eu vou tentar. Vou sondá-la. Ver como posso ajudar sem atrair atenção. Eu não quero ter que falar dessa história, ter que ir depor. Quero esquecer esse fato que me atormentou por tantas noites. Afirmei. - Vou deixar você dormir. Desculpa se assustei você! Pedi sem graça. - Estou aqui pra o que precisar. E se quiser que eu fique ao seu lado quando for falar com a Delegada, eu fico. Não tem que fazer nada sozinha. Ela se ofereceu e só de sentir que ela estava por perto fiquei aliviada. Estar sozinha naquela casa em uma situação como essa me deixariam ainda mais atormentada. Despedimos-nos e eu voltei para o quarto... Tentei dormir, mas não consegui. Ouvi passos no corredor e levantei assustada. Caminhei até a porta e vi uma sombra na direção da cozinha. Peguei um objeto de enfeite no corredor e sai lentamente em busca da sombra e em silêncio ao entrar na cozinha, assustei a Lívia que estava bebendo água. - Você me assustou! Ela exclamou ficando pálida. - Desculpa, mas você também. Pensei que fosse alguém invadindo a casa. Falei e ela riu de nervoso. - Eu só vim pegar mais água pra levar para o quarto. Você não conseguiu dormir? Perguntou me olhando, certamente meus olhos estavam entregando meu cansaço. - Eu não durmo tem uns dias na verdade. - Senta. Vou fazer um chá para nós duas. Camomila que acalma. Ela praticamente me ordenou e eu me sentei. - Essa casa está vazia demais. Fico até incomodada com tanto silêncio. Comecei a desabafar... Estava estranhando ainda mais agora que a minha mãe estava longe. - É uma casa grande, que você morou com toda sua família, faz sentido que ache estranho. Disse ela calmamente. - É tem razão. - Tenta pensar que todos saíram de férias. Sugeriu me fazendo rir. - Eu não quero me enganar e criar uma ilusão. A melhor forma de lidar com a realidade é encarando-a do jeito que é, sem mentiras e sem criar ilusões. Falei de um jeito que lhe chamou atenção. - Está certa. Eu só sugeri isso pra que você conseguisse dormir. Preocupo-me com você! Ela declarou me olhando. - Isso tudo porque sou sua missão na Salzi? Perguntei e ela riu. - Não Isabel, eu gosto de você, sabe disso. Gostei desde que a Joana me mostrou sua foto, e sei que fui inconveniente demais algumas vezes, quando ainda tinha namorada. Lamento ter agido assim, você certamente ficou com uma péssima impressão ao meu respeito. Disse ela. - A de que você é atirada? Brinquei com ela que riu. - É eu sei que passei dos limites. Você é interessante e eu não sei o que pensei. Falou se sentando ao meu lado e me entregando uma xícara com chá. - Obrigada, pelo chá e pelo interessante. Agradeci sorrindo e olhando para ela. Mudamos de assunto enquanto bebíamos o chá, falando amenidades. Ela parecia querer me ajudar a desviar o pensamento daquilo que estava me atormentando, mas eu não conseguia parar de pensar, ainda mais imaginando que poderia colocá-la em perigo. Depois de terminarmos o chá andamos pelo corredor e quando estava prestes a me despedir ela me surpreendeu. - Eu posso dormir do seu lado. Talvez assim se sinta mais segura. Sua sugestão foi bem inusitada. - Você fala de dormir na minha cama, comigo? Perguntei no automático. - Posso colocar um colchão no chão. Ela sugeriu. - Não vou deixar você dormir no chão. Afirmei e por um momento pensei que talvez ela também tivesse com medo de dormir sozinha depois do que contei sobre a emboscada. - Foi só uma sugestão, não quero que pense que estou querendo algo mais com isso... Ela falava e eu a interrompi. - Não estou pensando. É uma boa ideia. Vou me sentir melhor mesmo. Afirmei e ela sorriu. - Vou pegar minhas coisas então. - Certo, eu ajudo você. Ofereci-me e ela novamente sorriu desta vez ficando com o rosto vermelho. Ajudei-a pegar o travesseiro, lençol e alguns objetos pessoais e levar para o meu quarto. Um pouco sem jeito, nos arrumamos na cama e deitamos relativamente afastadas. - Espero que durma bem no meu colchão. Brinquei com ela que riu. - Ele é bem macio, vou dormir sim. E você, tente relaxar, estou aqui com você pra isso. Disse me fazendo rir. - Vou tentar. Afirmei antes de ficar quieta. Cansada e estranhando a presença dela na cama, ainda demorei algum tempo para dormir.
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