Segui trabalhando com a Nayara por mais alguns dias e depois de concluir meu trabalho com ela resolvi levar minha mãe para avaliar alguns apartamentos indicados por um cliente do Rodrigo. Encontramos entraves principalmente na estrutura, no valor e nas taxas relativas a condomínio, e por isso precisamos visitar vários apartamentos diferentes.
Minha mãe só fazia uma exigência, que o imóvel ficasse em um local mais próximo ao da Thati pra que ela pudesse ajudar a cuidar do neto sempre que preciso. Procuramos por dois dias até encontrar um que lhe agradou em todos os sentidos, da estrutura, preço a localização.
- Vamos comprar este minha filha. Eu me senti em casa só em visitá-lo. Depois que colocar meus vasos umas cortinas e tapetes, vai ficar mais aconchegante ainda.
Disse ela animada após a visita e imediatamente eu liguei para o Rodrigo e pedi que ele contatasse o cliente dele que era dono da imobiliária.
- Vão mesmo fechar o negócio? Não preferem visitar mais alguns?
O Rodrigo me perguntou por telefone, e vendo que minha mãe estava alegre eu não hesitei.
- Vamos comprar este Rodrigo. Minha mãe até começou a planejar a decoração.
Falei rindo dela e ele riu também.
- Como preferirem. Vou marcar com o meu cliente pra realizarmos a compra.
Ele disse e eu agradeci.
- Tudo certo mãe, o Rodrigo vai seguir com a compra. Quer sair pra comemorar?
Perguntei para aproveitar a animação dela.
- Eu prefiro ir descansar filha. Mas você devia sair um pouco. Pena que a Lívia não está aqui. E como estão às coisas no restaurante, ela disse mais alguma coisa?
Perguntou interessada.
- A Lívia disse que tem um potencial comprador para o restaurante. Cuido disso quando voltar.
- Que bom. Muito bom mesmo. Essa moça tem muito valor Isabel.
Disse ela e eu a olhei.
- Mãe, eu já disse que somos apenas amigas... Falar nisso, já que a senhora não quer sair, vou perguntar a Dani se ela quer ir comer uma pizza ou um sushi.
Falei antes de pegar o celular e ligar para a Daniela.
- Pensei que tinha me esquecido.
Ela reclamou assim que atendeu.
- Eu não. Só estava trabalhando demais e depois visitando apartamentos. Minha mãe achou um ótimo e decidiu comprar. Agora é oficial, logo você terá mais uma companhia no Rio.
Falei rindo.
- Eu vou adorar ter você e a Dona Lúcia por perto. Vou poder ir visitá-las mais vezes.
- Vai sim... Eu liguei pra chamar você pra comer uma pizza ou um sushi. Aceita?
- Aceito comer, mas estou cansada demais pra sair. Vem pro flat me visitar.
Ela pediu fazendo uma voz manhosa.
- Pode ser. Estou no táxi, vou deixar a minha mãe e sigo ao seu encontro.
Despedimos-nos brevemente.
- Diga a Dani para me visitar em breve que eu faço uma torta de chocolate para ela.
Disse a minha mãe.
- Vou dizer sim... Ficou mesmo satisfeita com o apartamento?
Perguntei só para ter certeza.
- Fiquei sim minha filha. O espaço é bom, será confortável para nós duas. Estou aliviada, estava começando a pensar que não iríamos encontrar um bom apartamento.
- Garanto que só ficaria sossegada quando encontrasse um do seu agrado.
Afirmei e sorrindo ela passou a mão no meu rosto.
- Eu sei disso. Você é como seu pai. Ele sempre pensou na família e você é igualzinha.
Disse ela me fazendo sentir um nó na garganta. Precisei respirar fundo para não chorar.
- Foi ele mesmo quem me ensinou a ser assim mãe.
Falei com muito esforço e ela sorriu.
- Eu tenho muita sorte por ter vocês duas agora. Confesso que nunca me imaginei vivendo em outro lugar que não fosse nossa casa. Vai mesmo preferir colocá-la para alugar?
Ela perguntou me olhando.
- No momento acredito que seja o melhor a ser feito mãe. Depois decidimos o que fazer.
- Confio completamente em você!
Disse ela sorrindo.
Um pouco mais a frente nos despedimos e eu segui para a Barra, onde a Dani agora morava. Chegando ao flat ela me recebeu com um sorriso nos lábios e um abraço apertado... A Dani estava com um semblante diferente, tinha o rosto mais corado e os cabelos mais loiros.
- Saudade de você Isa. Estava mesmo pensando que não vinha me ver antes de ir embora.
Novamente reclamou comigo.
- Tem coisas que não mudam. Você pelo jeito só esta mais loira e corada.
Falei sorrindo pra ela.
- Estou com a cor do litoral amiga... Estou bem?
Perguntou rindo.
- Linda como sempre. Onde está a Joana?
Perguntei sabendo a resposta.
- Está na casa dela no Recife, vai vir esse final de semana você ainda vai estar no Rio?
- Não eu volto pro Espírito Santo assim que resolver a compra do apartamento, talvez em dois ou três dias.
- Senta Isa.
Ela pediu toda a vontade. A Dani parecia se sentir bem morando sozinha no flat da Joana.
- Como estão às coisas pra você por aqui?
Perguntei sem querer ser muito invasiva e ela riu.
- Estou adorando. Moro perto do trabalho, vou e volto de carro, aqui sempre tem o que comer e quase nunca tomo chá.
Disse sorridente.
- E a Maíra?
- Ah, foi difícil, mas agora não importa mais Isa... O que vamos pedir pizza ou sushi?
Ela desconversou. Coisa que deve ter aprendido com a Blanc.
- O que prefere?
- Pizza mesmo. Eu almocei uma salada de salmão hoje.
- Está muito sofisticada Dani. Ao menos a Blanc está cuidando de você.
Falei e ela me olhou estreitando os olhos.
- Você fala em um tom da Joana que eu não gosto.
Reclamou.
- Desculpa, não falei nada demais.
- Estou muito feliz com ela, como nunca me senti antes com ninguém. E digo mais, você tem uma implicância com a Joana, mas ela simpatiza muito com você se quer saber.
- Foi só jeito de falar Dani, eu também simpatizo com a Joana, ainda mais sabendo que ela está deixando você feliz. Não estou aqui pra falar nada sobre você duas... Vamos de pizza?
-Você pede e eu vou pegar um vinho da Joana.
Disse ela saltando do sofá e rindo.
- Ela não tem ciúmes dos vinhos dela?
Perguntei.
- Ela disse que me ama mais do que aos vinhos então tenho prioridade.
Falou toda contente e eu não resisti, rindo muito.
Pedi uma pizza para nós duas e logo a Dani voltou com vinho e alguns queijos.
- Está sofisticada Dani.
- Eu aprendo super rápido você sabe.
Afirmou com um sorriso bobo nos lábios.
- Esse é o meu favorito, sempre bebemos juntas quando ela vem.
Disse ela após me servir, e a cena que vi em seguida me chamou atenção, a Dani degustando o vinho como fazia a Joana, sentindo o perfume de olhos fechados.
- Ela ensinou você a degustar?
Perguntei por curiosidade.
- Me ensinou algumas vezes. Ela prometeu me levar pra conhecer uma vinícola, então eu pedi que me ensinasse algumas coisas sobre vinho antes. Sem contar que a Paola e a Emilly entende de vinhos eu não quero parecer eternamente uma menina do interior perto delas.
Disse me fazendo rir.
- Você é uma menina do interior que agora mora em uma cidade grande Dani.
- Eu sei Isa, mais um motivo pra querer me adaptar. Ainda mais agora com a Joana.
- Se está feliz e quer aprender coisas novas, aproveite.
Incentivei percebendo que a Daniela não havia só ficado mais loira e corada, a cabeça dela estava mudando, ela parecia mesmo querer se distanciar do seu jeito de menina do interior.
Continuamos conversando e ela falou bastante do trabalho e me fez falar também... Não deixou de especular sobre a Lívia, mostrando uma curiosidade em saber se havia algo mais acontecendo entre nós duas. Garanti com firmeza que não tínhamos nada, ainda que ambas estivéssemos livres e desimpedidas agora.
A noite estava muito agradável, mas além da Dani ter que ir trabalhar no dia seguinte eu também tinha meus compromissos. Despedimos-nos com um abraço demorado.
- Dá próxima vez que voltar ao Rio será para ficar.
Garanti para ela que sorriu.
- Adoro pensar que logo vai morar por perto Isa. Vai poder vir mais vezes me visitar, nós vamos aproveitar a piscina da próxima vez. Sei que adora nadar.
Disse sendo carinhosa e eu sorri.
- Não nado mais como antes, mas vou vir visitar você sempre que possível. Até mais.
- Até mais amiga. Manda um abraço pra Dona Lúcia.
- Minha mãe disse que quando você for visitá-la ela faz uma torta de chocolate.
- Diga que vou assim que ela se mudar.
Afirmou sorrindo.
- Digo sim.
De certa forma ao nos mudarmos para o Rio o que mais mudaria seria o cenário.
Voltei para casa e depois de uma noite de sono desconfortável acordei levemente dolorida. Minha mãe estava animada, ao menos alguém tinha que estar. Logo cedo o Rodrigo passou de carro para nos buscar e levar a imobiliária do cliente dele.
Depois de uma curta conversa informal e um café, começamos a falar sobre os valores e as taxas de todo processo de tramitação legal da compra, que seriam feito pela imobiliária. Tanto eu quanto o Rodrigo negociamos um desconto no valor de entrada e minha mãe concordou e assinou a compra do apartamento com certa emoção nos olhos... Não fazia ideia do que ela estava pensando, mas pensei que podia ser no meu pai, pois foi exatamente o que veio na minha mente enquanto ela assinava, imaginei como teria sido a vida deles se tivessem decidido aposentarem-se e vender o restaurante antes. Mas no fundo sabia que meu pai não teria se aposentando tão cedo, ele certamente ficaria bem velhinho cuidando da churrascaria.
- Você vai cuidar da mudança?
Perguntou o Rodrigo me olhando.
- Vou sim. Vou procurar alguma transportadora daqui mesmo.
- O que precisar pode falar comigo Isabel.
Ele garantiu, mas eu sabia que o Rodrigo não tinha tempo pra quase nada além do trabalho.
- Certo. Obrigada... Mãe, eu vou ligar para o nosso gerente, informar da compra.
Ainda tinha algumas coisas a resolver para finalizar a compra do apartamento, então dediquei minha atenção a esses detalhes antes de voltar pra casa. Estava ansiosa pra ir embora e dar continuidade a venda do restaurante, não queria deixar a Lívia por mais tempo sozinha, sentia como se estivesse abusando da boa vontade dela.
Precisei de mais dois dias no Rio de Janeiro e na sexta-feira pela manhã peguei o ônibus para Vitória e depois para minha cidade. Algumas horas de estrada e uma dor nas costas depois eu cheguei exausta, mas fui direto para o restaurante.
- Bem vinda de volta!
Disse a Lívia a me ver e eu sorri para ela.
- Obrigada Lívia. Novamente só posso dizer que não sei o que faria sem sua ajuda.
Fiz questão de lhe agradecer, sem ela estava perdida.
- Você precisava de apoio Isabel, fico feliz em ajudar. Agora que voltou vou marcar com o possível comprador do restaurante, ele esteve aqui essa manhã e ficou observando o serviço do almoço. Ficou animado com o movimento.
- E como estamos indo?
Perguntei só por perguntar, já que ela sempre me mandava os resultados atualizados do caixa.
- Muito bem! Sinceramente é uma pena que você tenha que vender o restaurante.
Disse me olhando e eu concordei com ela.
- É uma pena mesmo, meu pai amava isso aqui, mas a minha mãe perdeu o gosto.
- Eu sei, ela voltou com você ou ficou no Rio mesmo.
- Ela já ficou lá e não deve voltar aqui tão cedo, se é que um dia volta. Ela pediu que lhe agradecesse e exigiu que fosse visitá-la quando estivesse pelo Rio de Janeiro.
- Irei sim. Embora acredite que dificilmente vou sair da minha cidade depois que abrir meu restaurante. Talvez no dia que tirar férias.
- Ou em alguma reunião da Salzi.
Lembrei e ela concordou.
- Verdade. Quem sabe para alguma reunião, se a Joana precisar de mim mais uma vez.
Afirmou me fazendo recordar que ela era a minha mentora, escolhida pela Blanc.
- Tinha esquecido que sou a sua missão do momento. Por isso está me ajudando tanto?
Questionei-a.
- Não só por isso, mas por isso também. Em todo caso você também irá me ajudar. Ainda vai comigo a minha cidade?
- Claro que vou, faço questão de ajudar você e seu irmão, dentro do possível pra mim.
Afirmei e ela sorriu.
- Que ótimo... Bom eu vou avisar que você chegou e marcar uma reunião para amanhã... E tenho um recado pra você, não sei exatamente se é o que gostaria de ouvir agora.
Disse contraindo o rosto e me deixando automaticamente preocupada.
- Um recado de quem?
Perguntei.
- Delegada Giovanna Macedo. Ela pediu que entrasse em contato quando chegasse.
Disse antes de mexer nas gavetas do caixa procurando por um cartão.
- Seja lá o que for é melhor você ligar logo.
Aconselhou a Lívia e só de ouvir o nome da Delegada eu me lembre da emboscada que sofri.
- Vou ligar agora mesmo, do escritório. Marque a reunião com o interessado no restaurante.
Reforcei a ideia para que ela desviasse a atenção da história com a Delegada.
- Vou ligar agora mesmo.
Garantiu se afastando e eu fui para o escritório.
Respirei fundo enquanto sentia meu coração acelerar e liguei para o número no cartão.
- Delegada Giovanna Macedo. Com quem estou falando?
Ela perguntou ao atender.
- Boa tarde Delegada, está falando com a Isabel Vilela, do restaurante Vilela. Soube que esteve a minha procura.
Falei.
- Está de volta à cidade Isabel?
- Sim, acabo de chegar.
- Precisamos conversar. Prefere vir à delegacia ou devo ir ao seu restaurante?
Perguntou me parecendo bem educada.
- Do que se trata?
Perguntei desconfiada.
- É melhor falarmos pessoalmente.
- Sendo assim estou no restaurante agora.
- Estou indo até você.
Disse parecendo ter pressa o que me deixou ainda mais desconfiada.
Não esperei por muito tempo já que a delegacia não era longe do restaurante. Assim que ela chegou a Lívia avisou e a trouxe até meu escritório.
- Aceita uma água, suco, café?
Perguntei a convidando a sentar.
- Um café.
Ela respondeu e eu pedi que a Lívia nos mandasse café.
- Soube o que aconteceu ao seu pai. Meus pêsames, ele era um bom homem.
Disse ela que mesmo sendo delicada ainda tinha um jeito meio duro, talvez por ser da polícia.
- Ele era mesmo... Agora estou realmente sem entender o que faz uma Delegada me procurar.
Falei querendo que ela adiantasse o assunto.
- O motivo Isabel, é que um homem foi assassinado em uma situação semelhante à ocorrência que aconteceu com você meses atrás. Inclusive este homem estava trabalhando na mesma empresa que você estava oferecendo consultoria e não encaramos isso como coincidência.
Disse ela me fazendo sentir o estômago gelar e me paralisar.
- Estamos investigando o ocorrido, e você por enquanto não será intimada a um depoimento oficial, por isso estou aqui pra pedir que fale o que sabe, ou ao menos o que suspeita. Se for algo grave posso oferecer segurança a você por contribuir com a investigação.
Ela continuou falando e o nosso café chegou. Aproveitei que ela desviou a atenção de mim por uns segundos para recuperar o fôlego. Não podia abrir a boca e correr o risco de sofrer outra emboscada ou coisa pior.
- Delegada, eu realmente não tenho como ajudá-la. E caso estejam cogitando me chamar para prestar um depoimento oficial irei dizer o mesmo que lhe disse no hospital quando me visitou.
Afirmei olhando pra ela.
- O café é bom.
Elogiou.
- Sua família não vive mais aqui Isabel, mas um motivo para não temer. Posso protegê-la.
Disse me olhando e por um momento eu quis rir da situação. Ela não era só uma delegada, mas também uma mulher muito bonita.
- Sinto muito mesmo, o que eu posso lhe oferecer é um convite pra vir jantar aqui quando quiser. Não tenho nada a dizer sobre esse caso que mencionou.
Afirmei e ela ficou quieta me olhando enquanto terminava o café.
- Esse café é realmente muito bom. Caso mude de ideia tem meu número Isabel.
Disse se levantando sem tirar os olhos dos meus.
Levantei-me e a acompanhei até a porta do restaurante, onde nos despedimos com um aperto de mãos e eu reforcei o convite para que ela voltasse em outro momento para jantar.
- Convidando a Delegada para jantar? Ela é mesmo uma bela mulher.
Disse a Lívia se aproximando de mim sem que eu percebesse.
- Sim ela é, mas não foi por isso que chamei... Conseguiu falar com o possível comprador?
Perguntei mudando de assunto.
- Marquei com ele para amanhã às onze.
- Certo. Obrigada mais uma vez Lívia.
Sorrimos uma para a outra.
Depois da visita da Delegada fiquei preocupada. Havia pensado que o acontecido na emboscada era passado, mas agora essa história havia voltado para me atormentar.
Passei o resto do dia com medo de ser oficialmente intimada para depor, o que me fez pensar se não teria sido melhor falar a verdade para a Delegada e pedir proteção.
No fim do expediente voltei para casa com a Lívia e cansada da viagem fui logo para o meu quarto, onde depois de um banho demorado eu me deitei para dormir.
...
- Desce do carro! Não olha pra mim.
Disse um homem ao me parar na entrada de casa.
- Você pode levar o que quiser.
Falei saindo do carro com a chave na mão.
- Anda, abre o porta mala!
Ele novamente gritou me deixando em pânico.
- Entra e fica quietinha.
Ordenou assim que abri e eu lhe obedeci apavorada.
Assim que ele me trancou comecei a sentir o meu peito se comprimir, não tinha ar para respirar, estava sufocando, desesperada.
...
Acordei ofegante, puxando ar e sentido dor no peito. Andei desesperada pelo quarto a procura de uma bombinha de inalação. Não me lembrava da última vez que havia precisado, mas sabia que a Thati tinha uma, por isso saí andando desesperada e bati na porta do quarto onde a Lívia estava dormindo agora. Vendo-me apressada ela se assustou e eu entrei indo direto até as gavetas na cabeceira da cama, onde por sorte havia mesmo uma bombinha.
Sentei-me na beira da cama enquanto tentava me acalmar e recuperar o fôlego. Assustada a Lívia se sentou ao meu lado e ficou me olhando.
- Isa, do que mais você precisa?
Ela perguntou mais calma.
- Só respirar.
Falei enchendo o peito de ar e soltando lentamente.
- Você tem asma?
Ela perguntou.
- Acho que... Que foi uma crise... De ansiedade.
- O que deixou você assim?
Ela perguntou preocupada.
- Tive um pesadelo... Um pesadelo muito tenso. Como um sequestro sabe. Mandaram-me entrar na mala do carro e eu comecei a perder o ar... E eu acordei assim.
- Entendi. Fica calma Isa. Foi só um pesadelo, está tudo bem. Esquece.
- Não, não está tudo bem. Você pode correr perigo se ficar aqui e vierem atrás de mim.
Pensei apavorada olhando para ela.
- Quem vai vir atrás de você? Foi só um pesadelo Isa.
- Não, não foi. Foi um aviso... Meses atrás, eu sofri uma emboscada, queriam me matar. E agora com a Delegada querendo que eu vá depor estão de olho em mim.
Falei nervosa.
- Eu preciso entender do quê você está falando. Que emboscada, o que aconteceu?
- Eu levei um tiro, aqui.
Mostrei a ela a marca que ficou em meu ombro no lado direito.
- Atiraram em mim, queriam me matar. Foi em um trabalho que aceitei, logo percebi que tinha algo de errado e estava decidida a não voltar quando armaram uma emboscada. No dia eu não estava sozinha, a Letícia foi me buscar e por sorte a impulsividade dela a fez agir e fugir.
Contei para ela que me ouviu com atenção.
- Então foi por esse motivo que a Delegada lhe procurou?
- Exatamente. Mataram um homem, que estava trabalhando nessa fábrica. Então ela associou que não é uma coincidência e me pediu para falar mais, prometeu que iria me proteger caso contribuísse com a investigação. Mas eu não posso, simplesmente não posso Lívia.
Declarei acelerada.
- Eu entendo você Isabel.
- Foi uma situação traumática, estressante. Eu precisei tomar remédios porque não dormia direito, e acho que só melhorei porque saí da cidade. Tinha medo de ficar aqui e virem atrás de mim e agora eles podem lembrar que sou uma ponta solta nessa história.
Continuava apavorada e meu peito doía me faltando ar.
- Você não está sozinha Isabel, eu vou ajudá-la a resolver isso também.
Disse se comprometendo como se realmente pudesse fazer algo por mim.
- Como vai me ajudar nessa Lívia?
Questionei-a.
- Ficando do seu lado. Precisa de alguém que lhe dê apoio. E se quer saber, devia considerar falar a verdade com a delegada. Uma conversa informal. Você pode contribuir sem se colocar na linha de frente, sem ter seu nome citado, como em uma denúncia anônima.
Sugeriu me atraindo atenção.
- Acha mesmo que posso fazer isso assim anonimamente?
- Você deveria tentar falar com ela novamente.
Aconselhou.
- Certo. Você pode ter razão. Eu vou tentar. Vou sondá-la. Ver como posso ajudar sem atrair atenção. Eu não quero ter que falar dessa história, ter que ir depor. Quero esquecer esse fato que me atormentou por tantas noites.
Afirmei.
- Vou deixar você dormir. Desculpa se assustei você!
Pedi sem graça.
- Estou aqui pra o que precisar. E se quiser que eu fique ao seu lado quando for falar com a Delegada, eu fico. Não tem que fazer nada sozinha.
Ela se ofereceu e só de sentir que ela estava por perto fiquei aliviada. Estar sozinha naquela casa em uma situação como essa me deixariam ainda mais atormentada.
Despedimos-nos e eu voltei para o quarto... Tentei dormir, mas não consegui. Ouvi passos no corredor e levantei assustada. Caminhei até a porta e vi uma sombra na direção da cozinha. Peguei um objeto de enfeite no corredor e sai lentamente em busca da sombra e em silêncio ao entrar na cozinha, assustei a Lívia que estava bebendo água.
- Você me assustou!
Ela exclamou ficando pálida.
- Desculpa, mas você também. Pensei que fosse alguém invadindo a casa.
Falei e ela riu de nervoso.
- Eu só vim pegar mais água pra levar para o quarto. Você não conseguiu dormir?
Perguntou me olhando, certamente meus olhos estavam entregando meu cansaço.
- Eu não durmo tem uns dias na verdade.
- Senta. Vou fazer um chá para nós duas. Camomila que acalma.
Ela praticamente me ordenou e eu me sentei.
- Essa casa está vazia demais. Fico até incomodada com tanto silêncio.
Comecei a desabafar... Estava estranhando ainda mais agora que a minha mãe estava longe.
- É uma casa grande, que você morou com toda sua família, faz sentido que ache estranho.
Disse ela calmamente.
- É tem razão.
- Tenta pensar que todos saíram de férias.
Sugeriu me fazendo rir.
- Eu não quero me enganar e criar uma ilusão. A melhor forma de lidar com a realidade é encarando-a do jeito que é, sem mentiras e sem criar ilusões.
Falei de um jeito que lhe chamou atenção.
- Está certa. Eu só sugeri isso pra que você conseguisse dormir. Preocupo-me com você!
Ela declarou me olhando.
- Isso tudo porque sou sua missão na Salzi?
Perguntei e ela riu.
- Não Isabel, eu gosto de você, sabe disso. Gostei desde que a Joana me mostrou sua foto, e sei que fui inconveniente demais algumas vezes, quando ainda tinha namorada. Lamento ter agido assim, você certamente ficou com uma péssima impressão ao meu respeito.
Disse ela.
- A de que você é atirada?
Brinquei com ela que riu.
- É eu sei que passei dos limites. Você é interessante e eu não sei o que pensei.
Falou se sentando ao meu lado e me entregando uma xícara com chá.
- Obrigada, pelo chá e pelo interessante.
Agradeci sorrindo e olhando para ela.
Mudamos de assunto enquanto bebíamos o chá, falando amenidades. Ela parecia querer me ajudar a desviar o pensamento daquilo que estava me atormentando, mas eu não conseguia parar de pensar, ainda mais imaginando que poderia colocá-la em perigo.
Depois de terminarmos o chá andamos pelo corredor e quando estava prestes a me despedir ela me surpreendeu.
- Eu posso dormir do seu lado. Talvez assim se sinta mais segura.
Sua sugestão foi bem inusitada.
- Você fala de dormir na minha cama, comigo?
Perguntei no automático.
- Posso colocar um colchão no chão.
Ela sugeriu.
- Não vou deixar você dormir no chão.
Afirmei e por um momento pensei que talvez ela também tivesse com medo de dormir sozinha depois do que contei sobre a emboscada.
- Foi só uma sugestão, não quero que pense que estou querendo algo mais com isso...
Ela falava e eu a interrompi.
- Não estou pensando. É uma boa ideia. Vou me sentir melhor mesmo.
Afirmei e ela sorriu.
- Vou pegar minhas coisas então.
- Certo, eu ajudo você.
Ofereci-me e ela novamente sorriu desta vez ficando com o rosto vermelho.
Ajudei-a pegar o travesseiro, lençol e alguns objetos pessoais e levar para o meu quarto.
Um pouco sem jeito, nos arrumamos na cama e deitamos relativamente afastadas.
- Espero que durma bem no meu colchão.
Brinquei com ela que riu.
- Ele é bem macio, vou dormir sim. E você, tente relaxar, estou aqui com você pra isso.
Disse me fazendo rir.
- Vou tentar.
Afirmei antes de ficar quieta.
Cansada e estranhando a presença dela na cama, ainda demorei algum tempo para dormir.