Superando

4628 Palavras
Acordei antes de o celular despertar e por alguns segundos esqueci que não estava sozinha. Lentamente me levantei para não acordar a Lívia que parecia dormir profundamente. Ao ficar de pé não consegui ignorar a visão diante de mim. Ela dormia parcialmente descobertas, com as pernas amostra. Eram belíssimas pernas com coxas torneadas... Olhei para ela por algum tempo e depois me arrumei em silêncio e fui para a cozinha. A Lívia estava sendo muito boa comigo e eu queria lhe compensar de alguma forma. Como não sabia fazer quase nada na cozinha, arrumei a mesa para o nosso café e fiz um suco de laranja. Estava terminando o suco quando ela chegou me cumprimentando. - Bom dia! Dormiu bem? Perguntei e ela sorriu. - Dormi muito bem e você? - Eu também. Ao menos não tive outro pesadelo. - Bom saber. Agora você senta que eu assumo daqui. A cozinha é minha responsabilidade. Disse sorrindo. Ela parecia estar com um excelente humor... Sabia que o meu colchão era confortável, mas começava a pensar que ele fosse o melhor da casa. - Quer uma tapioca? Ofereceu. - Quero sim, de queijo. Pedi e ela me olhou sorrindo. - Pega a massa na geladeira pra mim, por favor... Você pensou em ligar para a Delegada? Perguntou mostrando que havia ficado preocupada com o assunto. - Depois da reunião de hoje eu vou ligar e falar como ela. - Será melhor assim. Eu volto a dizer que se quiser fico ao seu lado quando for falar com ela. Ofereceu-se sendo prestativa e eu sorri. - Tudo bem, eu vou ficar bem agora. Obrigada por se preocupar e por ser uma boa amiga nesse momento. Tenho certeza que a minha mãe só não voltou pra casa porque sabia que você estaria aqui e que não me deixaria sozinha. Considerei por conhecer bem a minha mãe... Embora imaginasse que ela também tivesse pensado que me deixando sozinha com a Lívia alguma coisa aconteceria entre nós duas. - Prefere comer a tapioca com suco ou café? - Café... Aliás, a Delegada elogiou seu café duas vezes ontem. É realmente especial. Afirmei e ela sorriu. - Faço tudo com dedicação e por isso é especial. Ela afirmou piscando o olho pra mim e por um momento eu me lembrei da Letícia... Sua paixão pelo circo transparecia quando ela estava no picadeiro. Foi esse encanto dela que me atraiu no primeiro olhar. Agora eu não fazia mais ideia de quem a Letícia Zatinni havia se transformado. Depois de terminar o café a Lívia se sentou de frente para mim e fez questão de me servir... Sentia-me um pouco estranha com esse tratamento dela e tinha medo de abusar da sua boa vontade, mas ela parecia fazer tudo com tanta naturalidade que eu só ficava quieta a olhando. Tomamos o café juntas e ela aproveitou para falar o que sabia sobre o interessado em comprar o restaurante... O homem de cinquenta anos foi proprietário de um restaurante em Vitória, mas se desfez dele depois de perder a filha que adoeceu e faleceu. Agora ele, a esposa e mais três netos, queriam recomeçar em um lugar mais calmo que a capital. - Como ele soube do restaurante? Perguntei só por curiosidade. - Falei com um conhecido que trabalhar com consultoria empresarial e ele soube por outro contato que o senhor Aluísio estava procurando um restaurante estruturado, pronto para o serviço. Então tudo se encaixou, porque o Aluísio tem uma base francesa e está disposto a manter o cardápio. Prometi que quando acertássemos a venda ainda ficaríamos alguns dias. Disse ela. - Tudo bem, será melhor assim, pra fazermos uma transição estável para todos. Fiquei com uma boa sensação agora. E me ocorreu uma coisa... Será que eles precisam de uma casa para morar? Pensei e a Lívia riu. - Você é mesmo rápida. Não tinha pensado nisso. - Pode ser uma oportunidade que facilite para todos nós... Mais uma vez não tenho como agradecer a sua ajuda Lívia. Foi através dos seus contatos que surgiu esse interessado. Agradeci sorrindo e ela estendeu a mão tocando na minha. - Você não precisa me agradecer o tempo todo. Fico satisfeita em ver você sorrindo. Falou de um jeito carinhoso que me deixou constrangida. - Melhor irmos. Falei tentando esconder meu constrangimento, mas a julgar pelo sorriso dela foi em vão. - Vamos sim. Vou deixar tudo limpo aqui primeiro. Disse ela se levantando. - Deixa comigo, cuido disso. Ofereci-me para que ela não fizesse tudo o tempo todo. - Faço questão! Afirmei olhando pra ela que riu de mim. - Certo. Só tenta não quebrar nada. Brincou irônica. - Não vou me ofender com a sua ironia Lamartine. - Que bom. Vou me arrumar e falar com meu irmão, quando estiver pronta me avisa. Disse ela antes de deixar a cozinha, onde eu fiquei tentando organizar do jeito que a minha mãe costumava fazer... Obviamente ela era muito mais rápida do que eu. Após terminar com a organização da cozinha, andei pela casa tirando fotos pensando em mostrá-las ao senhor Aluísio. Alguns móveis eu e minha mãe planejamos deixar na casa e outros iriam para o apartamento novo, que por ser menor não cabia muita coisa. Tomei um banho, me aprontei e finalmente chamei a Lívia para irmos trabalhar. - Tirei umas fotos da casa pra mostrar ao senhor Aluísio, veja o que acha? Falei entregando o celular para ela que foi passando as fotos até chegar a uma da Letícia que eu não tive coragem de apagar. - As fotos ficaram boas. Ela falou sem graça por ter “visto demais”. - Eu não consegui apagar todas as fotos dela. Mas também não fico olhando. Desabafei. - A Letícia foi sua primeira namorada? Perguntou certamente por pensar que a primeira é a que marca mais. - Na verdade não. Eu namorei, mais ou menos, não oficialmente, uma moça antes dela, a Dafne. A gente ficou por quase dois anos. Quando fiz faculdade em Vitória. Eu voltei pra casa, ela ficou e acabou. Mas com a Letícia foi diferente, eu me apaixonei por ela de verdade. Falei sentindo uma dor no peito... Ainda doía falar dela e só parava de doer ao adormecer. - Sinto muito por você Isabel. Não merece sofrer. Ninguém merece. Se apaixonar pode ser tão bom e gostoso quanto difícil e sofrido. São as coisas da vida, não se controla os sentimentos. Disse ela. - Os sentimentos não, mas os impulsos sim. Nos primeiros dias longe dela eu quis ligar, eu pensei em terminar minhas obrigações aqui na cidade e ir atrás dela. Mas depois de um mês eu só me dei conta de que certas coisas nós devemos deixar ir embora mesmo. Talvez seja melhor para nós duas. Assim eu não atrapalho o sonho dela e nem ela controla os meus. Continuei desabafando... Era difícil guardar tantos sentimento e gerenciá-los sem desmoronar. - Eu não tenho muita experiência com paixão então não posso opinar. Sigo sempre meu coração e acredito que essa seja a melhor opção. Se a Letícia está buscando um sonho tomara que ela consiga realizá-lo, e que você realize os seus também. Ponderou a Lívia. - Sinceramente, ultimamente tenho mais pesadelos que sonhos. Falei e ela riu. - Você passou por muitas coisas ao mesmo tempo. Depois que resolver o que tem pendente, quem sabe não enxerga novas perspectivas com clareza e volta a sonhar. Disse quase que em um tom poético e eu a olhei rapidamente e sorri. A Lívia cada vez me surpreendia mais. Ela tinha um esclarecimento, uma linha coerente de pensamento e uma delicadeza que eu nunca havia percebido em ninguém. Seu discernimento era superior ao meu, perto dela compreendi que todas as certezas que eu julgava ter, de fato eram inconclusivas. Como eu poderia sair do nível onde estava para ir até o nível de convicção onde ela estava, era o que me perguntava. Imaginei que algo na história dela explicava sua maturidade além do seu jeito calmo, focado e organizado. Assim que chegamos ao restaurante reunimos os colaboradores para falar sobre o senhor Aluísio. Fiz questão de garantir, novamente, que ao repassar o negócio pediria que o novo proprietário mantivesse a equipe de trabalho. E a Lívia afirmou que havia mencionado isso quando conversou com ele e que inicialmente estava acertado que aconteceria dessa forma. - No momento em que acertamos com o senhor Aluísio, iremos fazer uma nova reunião para apresentá-lo oficialmente e para que vocês se apresentem. Faremos a transição aos poucos. Garanti para tranquilizá-los. Meus pais haviam se comprometido com todos naquele salão e agora eles estavam sob minha responsabilidade. Pouco tempo depois o senhor Aluísio chegou acompanhado da esposa, a senhora Marlene. Ao vê-los fui tomada por uma energia boa. De certa forma os dois lembravam meus pais. Ao lado da Lívia os recebi no escritório e antes de tudo fiz questão de contar a história do restaurante, que foi construído com o esforço e a dedicação dos meus pais, que sempre cuidaram de tudo de perto, trabalhando de domingo a domingo nele. Ao falar, especialmente do meu pai, senti que estava prestes a chorar e muito atenciosa a Lívia me deixou respirar e continuou falando, mencionando sobre a obra recentemente realizada, que contribuiu com melhoras estruturais e também na ampliação dos espaços. Fiz questão de ressaltar que o restaurante era um dos mais antigos na cidade, e que praticamente todos nela o conheciam e que depois da chegada da Lívia, que colocou sua assinatura da culinária francesa no cardápio, o lugar tinha ganhado uma nova divulgação e estava atraindo clientes das cidades vizinhas. - Passei algumas horas assistindo o serviço na última semana e comentei com a Marlene o movimento do restaurante. Inclusive ficamos curiosos para entender a motivação de vocês a repassarem o negócio. Afinal, recentemente realizaram reforma, fizeram um trabalho com a mídia local, eu pesquisei na internet e vi fotos da inauguração. Disse o Aluísio. - Senhor Aluísio, o que lhe motivou a fechar o restaurante em Vitória foi algo que mudou a rotina da sua família. E esse é o caso aqui também. Meu pai faleceu recentemente e minha mãe decidiu ir morar no Rio de Janeiro, perto da minha irmã mais nova, que vai ter um bebê. Embora eu tenha administrado o restaurante nos últimos anos, não quero ficar aqui sozinha, longe da minha família. Por isso estamos repassando o restaurante, e eu gostaria muito que ele fosse para as mãos de pessoas de bem, que querem se dedicar a ele. E pra ser sincera, senti que vocês podem fazer isso no primeiro momento em que os vi. Esse é um lugar afetivo, familiar. Todos os que trabalham aqui são família.  Para mim, é importante fazer a venda de coração, sabendo que esse ambiente vai continuar sendo agradável a todos que entram nele. Falei emocionada e a senhora Marlene me olhou como se enxergasse minha alma. - Entendemos você e o querer da sua família Isabel. A Lívia me deixou ciente de que todos aqui estão aptos a continuar em seus postos de trabalho e estou disposto a mantê-los. Garantiu o Aluísio. - No que depender de mim, podemos realizar o negócio. Disse ele. - Excelente. Por mim também o negócio está feito... A propósito, estão vindo para a cidade com os seus netos pelo que soube. - Sim, temos três. Camila a mais velha tem quatorze anos, Jorge tem doze e Felipe o caçula tem sete. São nossas três preciosidades. Disse a Marlene como uma avó orgulhosa. - Bom, eu não sei se vocês estão com algum imóvel na cidade, ou pretendem comprar, alugar. Falei. - Estamos decidindo ainda. Temos que nos desfazer da casa em Vitória antes. É provável que aluguemos uma aqui enquanto isso. Disse o Aluísio. - A casa da minha família é muito confortável e eu vou colocá-la para alugar. Tirei umas fotos pra mostrar a vocês, caso tenham interesse. Ela é bem grande, tem cinco quartos, piscina. Abri as fotos no computador para que eles pudessem ver e os dois se olharam sorrindo. - Curiosamente parece um pouco com a nossa em Vitória. Espantou-se o senhor Aluísio. - A nossa tem um quarto a mais. Que não era útil para nada. Disse a Marlene. - Bom temos cinco quartos e um escritório, então é como se fossem seis quartos. Afirmei. - Podemos ir conhecer? Perguntou a Marlene. - Agora mesmo. Faço questão de levá-los. Falei animada. Tudo o que eu queria era resolver tudo de uma só vez. Confiante de que eles gostariam da casa, os levei para conhecê-la e mostrei todos os cômodos. Enfatizei o fato de ser perto do restaurante e de ter uma escola muito boa por perto onde eu e Thati estudamos. O bairro era próximo ao centro e a tudo que eles precisassem. - Gostamos muito Isabel. Você é uma moça bem educada, bem se vê que teve uma boa criação. Podemos acertar a compra do restaurante e o aluguel do imóvel. Mas seria melhor se posteriormente vocês nos vendessem a casa também. Disse ele e eu sorri. - Faremos isso. E quando venderem a casa de Vitória, vocês compram essa. Afirmei pensando que era o meu dia de sorte. Combinamos mais alguns detalhes sobre o processo de venda do restaurante e aluguel da casa, o que me fez perceber que precisava agendar uma data com a empresa que levaria as minhas coisas e da minha mãe para o Rio quanto antes... Para minha felicidade tudo estava indo bem para que eu deixasse a cidade sem ter que voltar para resolver pendências. Entusiasmada, voltei para o restaurante e chamei a Lívia para conversar no escritório. - Você me trás sorte Lívia! Comemorei e no impulso lhe puxei para um abraço. - Eles vão alugar a casa? Ela perguntou rindo da minha empolgação. - Sim. Vão alugar e mais pra frente comprar. E tudo isso está acontecendo por sua causa. Disse a ela que sorriu me olhando fixamente. - Você fica linda sorrindo assim! Falou me deixando sem graça. - Temos que comemorar. Não hoje porque temos serviço, nem amanhã, mas vamos tirar a segunda-feira de folga. Ficar na piscina, aproveitar a casa enquanto podemos. Falei animada e ela concordou. - Vou providenciar umas carnes e petiscos pra gente comer na nossa folga. Mas antes, não querendo atrapalhar sua empolgação, vai falar com a Delegada? Perguntou me trazendo de volta para a realidade. - Acha mesmo que é preciso? Em algumas semanas vou deixar a cidade. Tentei escapar. - Mais um motivo para não deixar nada m*l resolvido. Fale com a Delegada, vai ser melhor. Ela aconselhou e eu resolvi considerar. - Vou ligar agora mesmo então. Falei mesmo ainda estando em dúvida se essa era mesmo uma boa ideia. No escritório, fiz a ligação e prontamente a Delegada se dispôs a vir ao restaurante.  - Quer que lhe faça companhia? Perguntou a Lívia quando a trouxe até mim. - Está tudo bem. Se precisar eu chamo por você. Falei e ela riu. - Chama mesmo? Senti uma malícia em sua fala e ri. - Pode acreditar que sim... Manda café pra gente, por favor. Falei descontraída... Se esse era o intuito dela ao brincar comigo, conseguiu. - Sente-se, por favor! Pedi a Delegada. - Já pedi um café para nós duas. Percebi que gostou. - Gostei bastante. Agradeço. - Delegada eu vou ser bem sincera. Estou vendendo o restaurante, alugando minha casa e em breve deixando a cidade. Não quero ter que voltar para prestar um depoimento. Falei dando início ao assunto. - Você pode contribuir informalmente. Se tiver algo que nos ajude, que seja concreto, não vamos precisar do seu depoimento formal. Disse ela me olhando com atenção. - Vou direto ao assunto então... Vocês estão certos enquanto a ligação com o que aconteceu comigo e com este homem que foi assassinado. Oficialmente eu não vou falar isso que estou lhe dizendo agora. Mas a Fábrica é usada para lavar dinheiro de contrabando, e provavelmente roubo de carga e outras coisas mais. Não pelo proprietário, que eu não creio que participe do esquema, mas sim por parte dos gerentes, e do contador. Se for feita uma auditoria, pelos números você vai ver que entra e saí dinheiro sem justificativa. Eu começaria por aí! Falei e ela me ouviu atentamente. - O investigador, responsável pelo caso, cogitou essa hipótese. Você teve acesso aos documentos, guardou alguma coisa? Perguntou me olhando. - Sou uma profissional que trabalha honestamente. Não guardo informações dos meus clientes. Esses documentos precisam ser analisados oficialmente. Mesmo que tivesse algo não poderia oferecer. Mas garanto que um dia na fábrica, se montar uma operação rápida, terá acesso a muita coisa. Mas eu ficaria de olhos abertos para que ninguém fugisse. Falei sendo totalmente sincera. - Estamos de olho em todos. O café chegou e nos calamos por um momento. - Como falei eu não quero depor oficialmente. Fiz questão de ser bem taxativa. - Essa conversa nunca aconteceu. Você é a minha informante, apenas. Ela garantiu para meu alívio. - O quem tem de especial nesse café? Perguntou. - Provavelmente o talento de uma chefe formada na França. Afirmei rindo. Não fazia ideia de como a Lívia deixava tudo diferente usando os mesmos ingredientes utilizados no restaurante durante anos. - É realmente diferenciado... Agora. Eu tenho que ir. Disse terminando o café com pressa. - Vou confirmar ao investigador que temos uma forma de seguir o caso. Disse ela se despedindo e apertando minha mão. - Obrigada Isabel! Qualquer coisa que precise pode ligar. Colocou-se a disposição. - Espero não precisar, mas obrigada assim mesmo! Sorrimos uma para a outra e eu fiz questão de levá-la até a porta. Ao voltar para o escritório a Lívia me procurou. - Foi uma boa ideia? Perguntou me olhando com expectativa. - Pensei que você tivesse certeza de que era quando me sugeriu. Ela riu. - Custa só responder a minha pergunta? - Foi uma boa ideia. Ao menos parece que sim. Vamos ver no que isso dá. Só não quero perder mais uma noite de sono. Afirmei. - Eu durmo com você de novo pra garantir que fique bem. Disse rindo antes de sair da sala e me deixar sorrindo também... Embora fosse estranho dividir a cama com ela, sem termos nada uma com a outra, era também reconfortante não me sentir sozinha estando em uma casa tão grande e vazia. Trabalhamos normalmente e o movimento foi típico de um sábado. Fechamos mais tarde e voltamos para casa exaustas. As coisas da Lívia ainda estavam em meu quarto, então ela só tomou banho e se vestiu no quarto da Thati e logo veio ficar comigo... E a situação era cada vez mais estranha... Cansadas, nos deitamos e conversamos um pouco antes de dormirmos. ... Estava fechando o portão da garagem pela última vez. Olhando tudo com um sentimento forte de despedida... Quando olhei para frente vi a Letícia. Exatamente como na noite em que ela chegou de táxi com várias bagagens. Saí do carro sem acreditar e ela disse sorrindo: - Voltei pra você! Senti o estômago revirar... Não era possível que ela simplesmente aparecesse assim como se nada tivesse acontecido e o tempo não tivesse passado. - Estou indo embora da cidade Letícia. Não espera vê-la nunca mais. Falei com certa raiva e ela continuou sorrindo e veio me abraçar. - Desista de ir embora. Ficaremos aqui. Seremos felizes nessa casa. Disse ela mexendo com meus sentimentos e embaralhando minha cabeça apenas com suas palavras... Viver ao lado dela foi por um tempo o meu sonho. - Eu te amo! Ela sussurrou antes de me beijar e eu correspondi com vontade e saudade... Continuava sendo a mesma trouxa de sempre. Facilmente entregue ao calor do corpo e intensidade do beijo dela. Fizemos amor lentamente... Desfiz-me em lágrimas ao beijar cada parte do seu corpo e lhe abracei disposta a nunca mais soltá-la... A Letícia querendo ou não, ficaria sempre comigo! ... Acordei abraçando a Lívia e roçando o rosto no seu cabelo... Ela estava me abraçando de volta e eu paralisei por um momento pensando em como sair da situação sem deixar as coisas ainda mais estranhas. - Desculpa Lívia, abracei você no automático.  Falei sem graça e ela só me olhou. - Seus cabelos são bem perfumados. Como consegue trabalhando em uma cozinha? Perguntei disfarçando e ela riu de mim. - Lavando e perfumando. Disse ela e eu ri. - Verdade... Você já pode me soltar agora que eu preciso levantar. Falei e ela riu se afastando. - Acho melhor você voltar para o outro quarto essa noite. Falei sem jeito e ela ficou quieta... Queria saber no que estava pensando. Depois dessa situação constrangedora trabalhamos o dia todo e como o movimento do domingo era grande, não tivemos tempo de nos falar direito. Fechamos mais cedo, pouco depois das nove da noite e voltamos para casa em silêncio. Quando entrei no meu quarto percebi que ela tinha tirado as coisas dela e fiquei calada. - Boa noite Isabel! Disse ela ao se despedir de mim com certa frieza. - Boa noite Lívia! ... Amanhã, vamos relaxar na piscina? Perguntei para confirmar se ela estava com raiva e ela sorriu. - Vamos sim. Descanse um pouco! Disse ela e eu sorri. - Descanse você também! Desejei e assim que ela foi para o quarto eu fiz o mesmo, mas antes de tomar um banho liguei para minha mãe e contei todas as novidades... Ela ficou super feliz, ainda mais por saber que uma família ficaria a frente do restaurante e que as mesmas pessoas comprariam a casa. - Demos sorte filha. Temos muito que agradecer a Lívia, ela é um anjo nas nossas vidas. Disse contente e eu concordei. - Amanhã vamos tirar o dia para aproveitar a piscina e comemorar tudo que está acontecendo. Pena que a senhora não esteja aqui conosco mãe. Falei e ela riu. - Será melhor assim, para vocês duas. Disse me fazendo sentir sua intenção. - Entendi que a Lívia é a nora que a senhora queria, mas somos apenas... - Amigas. Eu sei. Disse ela me interrompendo. - Eu te amo mãe. Agora vou dormir e a senhora faça o mesmo. - Estou vendo uma série. O Rodrigo que colocou pra mim. Mas nunca acaba. Disse ela inocentemente. - Mãe, séries são como novelas, com vários capítulos. A senhora pode pausar e continuar depois. Algumas têm mais de vinte horas. - Ahh por isso, eu estou assistindo tem umas quatro horas. Pensei que fosse como o Titanic. Disse me fazendo rir muito. - Não é como o Titanic mãe. São episódios. A senhora pode assistir por dias. - Nossa eu não sabia disso. - E como saberia, passou a vida toda trabalhando. Quando estiver aí vou lhe ensinar como funciona. A Thati podia ter feito isso. - Sua irmã não esteve muito bem hoje. Passou o dia enjoada, mas faz parte da gravidez. - Desligue a televisão e vá descansar mãe. Eu vou dormir também. Despedimos-nos e eu finalmente pude tomar um banho e me arrumar para dormir. Na segunda-feira, levantei um pouco mais tarde e quando deixei o quarto e fui para a cozinha encontrei o café da manhã pronto e um bilhete da Lívia dizendo que tinha tomado café e ido ao supermercado comprar algumas coisas para petiscarmos. Tomei o café sem pressa, fiz algumas ligações de trabalho, para o Fernando e para Nayara que tinha me enviado mensagem e depois peguei um livro e fui para perto da piscina ler. Estava envolvida na leitura quando a Lívia se aproximou de mim usando uma saída de banho de renda que a deixou muito sexy. - Pensei que encontraria você na piscina a essa altura. Disse sentando ao meu lado e cruzando as pernas de um jeito que chamou minha atenção. - Estava lendo um pouco... Você demorou. - Sentiu minha falta? Perguntou sorrindo. - Senti sim. Não gosto de tomar o café da manhã sozinha. - Se soubesse teria esperado, ou não... É bom que sinta minha falta. Disse rindo bem humorada. - Vamos pra água um pouco. Convidou me olhando nos olhos. - Vou continuar lendo, mas fique a vontade. Falei e ela continuou me olhando e rindo... Levantou-se e tirou a saída de banho parecendo exibir o corpo para mim que não consegui deixar de olhar... - Guarda pra mim. Entregou-me a saída de banho e saiu andando até a piscina e eu continuei olhando... Ela mergulhou na piscina e nadou um pouco... Esqueci-me completamente do livro e fique lhe assistindo... Verdadeiramente estava me deleitando com a visão. - Para de me olhar e vem pra água. Falou chamando minha atenção e eu achei melhor ler depois. Fiquei só de roupa de banho e mergulhei de cabeça. A água estava deliciosa, mas a Lívia aparentava ser ainda mais deliciosa. - O jeito que estava me olhando... Ela começou dizendo e vindo na minha direção com um sorriso. - Você é uma mulher muito bonita. Fez isso de propósito, pra que eu olhasse? - Vou continuar fazendo até você tomar uma atitude. Disse rindo de mim. - Eu tenho que tomar atitude? Você já foi mais atirada. Brinquei com ela. - Você vai fugir de mim, mas eu não vou fugir de você, como quando me abraçou dormindo. Disse rindo. - Como disse eu estava dormindo. - Eu sei. Prefiro que me agarre quando estiver bem acordada. Revelou me fazendo rir. - Está mesmo esperando que eu agarre você? - E você nem suspeita do meu interesse? Respondeu jogando água em mim e eu ri. - Não seja boba. Sabe que considero você uma amiga. Falei jogando água de volta nela. - Isabel Vilela, o jeito que estava me olhando não era de uma amiga... Mas tudo bem, continue se enganando e perdendo tempo quando podia aproveitar o momento. Ela nadou para longe de mim e saiu da piscina. Rindo fui atrás dela... O que eu tinha a perder? Foi o que me perguntei... Saí da piscina e quando ela estava quase se cobrindo eu lhe pedi... - Me deixa olhar um pouco mais pra você! Ela se virou para me encarar e fitou meus olhos sorrindo. - Eu não sou boba, saiba disso. É difícil ignorar você desse jeito. É maldade sua! Acusei-a e ela riu. - Estou carente também. Sinto falta de sexo. Ela admitiu me fazendo sentir o sangue ferver. - Não vou pensar em como será depois. Falei rindo pra ela e segurando em sua cintura... Sentindo uma onda de calor percorrer meu corpo e os meus batimentos acelerarem. - Não pense! Ela sussurrou sorrindo e cerrando os olhos esperando que eu agisse. Apertei seu corpo em meus braços e encostei meu rosto no dela, tomando sua boca lentamente com um beijo suave... Fechei os olhos para senti-la... Era estranho beijar alguém que não fosse a Letícia, mas não era algo tão absurdo, afinal eu estava mesmo solteira. Senti a ponta da língua dela tocar a minha e em seguida as suas mãos em minha nunca. Ela tinha um beijo gostoso e lento e mordia meus lábios sorrindo... Com a proximidade dos nossos corpos sentia ainda mais calor mesmo estando molhada... Ela pausou o beijo e me encarou. - O que foi? Perguntei e ela riu. - Somos duas adultas, sozinhas em uma casa e a sua cama é muito confortável. Disse com certa malícia e eu ri me fazendo de desentendida só para brincar com ela. - O que você quer com a minha cama? - Dessa vez muito mais do que dormir nela!
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