Capítulo 09 : Vazamento

1005 Palavras
Erick Os boatos começaram como um sussurro irritante, ecoando nos corredores de mármore da Ares Corp. No início, eu ignorei. A imprensa sempre fareja onde o dinheiro está, e eu sou um farol ambulante de manchetes. Mas o sussurro se transformou em um rugido. Não eram mais especulações genéricas sobre meus empreendimentos ou minha vida de solteiro. Eram detalhes. Detalhes cirúrgicos sobre o projeto de revitalização da Rocinha, a mesma iniciativa que mantive trancada a sete chaves, acessível apenas a um círculo restrito de executivos. O artigo de hoje, no Jornal do Capital, trazia até um trecho exato de um memorando interno sobre a alocação de fundos para a infraestrutura. O nome do meu pai estava na capa, ligado a insinuações venenosas sobre "interesses escusos" e "especulação imobiliária disfarçada de caridade". Arremessei o tablet na mesa de ébano. O baque surdo quebrou o silêncio opressor da minha cobertura no Leblon. Uma fúria ardente subia pela minha garganta. Não era pelo prejuízo à minha imagem, a essa altura, eu sou blindado contra o fogo da mídia. O que me atingia era a violação. A traição. Levantei-me e caminhei até a janela, observando o Rio de Janeiro se estender como um tapete de luzes cintilantes. De um lado, o asfalto polido; do outro, a silhueta escura e imponente do morro, onde tudo começou e onde, aparentemente, tudo ia desmoronar. A Rocinha. Ariane. A conexão era clara, dolorosamente clara. As informações vazadas tinham a ver com o projeto que me levaria de volta para ela. E só existiam duas possibilidades: um erro operacional catastrófico na segurança de dados da Ares Corp ou um rato. Um maldito e ganancioso rato dentro da minha casa. Liguei para Léo. — Quero uma varredura completa. Nível de acesso, histórico de login, e-mails enviados. De todos que tiveram acesso ao plano estratégico do Projeto Sombra. Comece com a diretoria. A voz dele, geralmente calma, estava tensa. — Erick, isso vai causar pânico. São os caras que jantam na sua mesa. — Exatamente. Pânico é o mínimo que eles merecem. Se um deles vendeu minha visão para um jornal de quinta categoria, eu quero a cabeça dele em uma bandeja de prata antes do fim do dia. — Minha voz era gelo puro. Não havia espaço para hesitação ou misericórdia. O "eu" de antes, talvez hesitasse. O "Erick Lobo" de agora, o bilionário forjado no fogo da ambição e da dor, não perdoa. O suspense me apertava o peito. Não era apenas um vazamento de dados. Era um xeque-mate. Quem quer que estivesse por trás disso, sabia que atingir o projeto era me atingir no ponto mais vulnerável: a herança do meu pai e, pior, a minha tentativa desastrosa de redenção. E se fosse algo mais? Lembrei-me da noite anterior, o cheiro dela ainda impregnado nas minhas roupas, a intensidade da nossa briga. Ariane. A mulher que me repelia com a mesma força que me atraía. Ela sabia o quanto esse projeto era importante. Ela me acusou de usar a comunidade, de ser igual ao meu pai. Seria ela capaz de algo assim? Um golpe preventivo para afastar a Ares Corp de vez? O pensamento era um punhal. — Léo, adicione mais um nome à lista de prioridades: Qualquer contato de imprensa de Ariane, ou de ONGs ligadas a ela. — Ariane? Tem certeza, Erick? — Só faça, Léo. Eu não confio em ninguém. Não mais. Desliguei antes que ele pudesse argumentar. Voltei para a mesa e peguei o memorando impresso que havia sido anexado ao artigo. A fonte, a formatação... era perfeita. Um espelho. Só o traidor poderia ter isso. Sentei-me na cadeira de couro, fechando os olhos. A adrenalina pulsava, mas por baixo dela havia uma sensação fria de isolamento. Bilhões compram poder, não lealdade. O morro me ensinou sobre a lealdade do sangue, dos laços forjados na necessidade. O asfalto me ensinou que o preço de um homem é sempre negociável. A traição dentro da Ares Corp era um golpe estratégico, visando minar minha credibilidade antes que eu pudesse sequer colocar a primeira pedra na Rocinha. Eles sabiam que a opinião pública faria o trabalho sujo, pintando-me como o predador corporativo que invade o lar dos mais fracos. Mas havia um detalhe que a imprensa não sabia. E o traidor também não. Meu pai me ensinou a sempre ter um plano B. E um plano C. O Projeto Sombra era apenas a ponta do iceberg. A verdadeira jogada estava escondida, e dependia de uma única coisa: a confiança de Ariane. Apertei os punhos. Se o vazamento tinha como objetivo afastar Ariane de mim, de me forçar a escolher entre o sucesso da minha empresa e a integridade do meu projeto, ele falhou. Ele só serviu para me lembrar de uma coisa: eu não sou mais o garoto ingênuo que tenta provar seu valor. Eu sou o caçador. Liguei para o meu segurança, Dênis, que estava de prontidão na porta. — Prepare o carro. Não para o escritório. Vamos para a Rocinha. O único jeito de conter o incêndio era ir direto para o epicentro. Eu precisava ver o estrago, medir a temperatura da comunidade. E, acima de tudo, eu precisava encará-la. Ariane. Olhar em seus olhos e saber se o ódio dela era profundo o suficiente para me destruir, ou se ela era a única ali que ainda podia ser minha aliada. Se for um dos meus, eles vão pagar um preço que vai fazer a prisão parecer um resort de férias. Mas se for ela... a dor seria diferente. Seria a morte lenta de qualquer esperança que eu ainda nutria. E a Rocinha, a minha herança amaldiçoada, seria o palco dessa tragédia. Vesti o meu casaco mais escuro, um traje de guerra para o submundo corporativo e o labirinto do morro. O suspense não estava no vazamento; estava na revelação do rosto por trás da máscara. E eu estava pronto para rasgá-la, com ou sem sangue. O jogo tinha acabado de ficar muito, muito pessoal. E eu não perco. Nunca.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR