Capítulo 08 : Não Me Compra

1408 Palavras
Ariane O morro tava quieto do lado de fora, mas não era paz. Era aquele silêncio tenso, o que antecede o caos, que paralisa até o pó no ar, como se o ambiente prendesse a respiração. Eu estava ali, encostada na parede da sala de Dona Nena. O microfone, ainda desligado, era o último elo com quem eu era. Num canto, Lê se encolhia, abraçando o casaco com força. Jota, por sua vez, andava de um lado para o outro perto da porta, inquieto como um cão de guarda confinado em um espaço muito pequeno. E no meio disso tudo… Erick. Ele parecia um erro caro. Um homem que nasceu com portas se abrindo e, de repente, descobriu o que é bater de cara numa parede que não cede. O olhar dele tava aceso, mais sombrio do que antes — como se a noite tivesse mastigado a paciência dele. Eu via a tensão no jeito que ele respirava. Eu via também outra coisa, pior: o jeito que ele me observava. Não era só preocupação. Não era só estratégia. Tinha algo mais denso ali, uma fome escondida por trás de um senso de “dever” que ele provavelmente chamava de proteção. Eu já conhecia esse tipo. Homem que não aceita “não” porque confunde querer com direito. — Você vai comigo — ele disse de novo, como se repetir transformasse em lei. Eu ri sem humor, virando o rosto só o bastante pra encarar o relógio no pulso dele. Brilhava discreto, debochado, enquanto a gente tava ali contando moto lá fora como quem conta batimento cardíaco. — Vai me levar pra onde, CEO? Pro asfalto? Pra dentro do seu carro blindado? Pra sua cobertura com vista bonita? Ele fez menção de responder, mas eu ergui a mão, cortando. — Deixa eu adivinhar: você me coloca num lugar “seguro”, me dá uma equipe, me dá um celular, me dá uma regra… e, quando eu der por mim, eu tô vivendo numa gaiola com ar-condicionado. A expressão dele fechou. — Você tá distorcendo. — Eu tô traduzindo — eu corrigi, fria. — Você fala “ajuda” com a mesma boca que fala “controle” sem perceber. Danilo, parado perto da porta, desviou o olhar por um segundo. Como se até ele soubesse que eu tava acertando. Erick deu um passo na minha direção, e o espaço apertou entre nós. Eu senti o perfume dele de novo, caro, limpo, fora de lugar e senti também a minha raiva crescer, porque tinha uma parte de mim que reagia a ele num nível físico, instintivo… e eu odiava isso. O desejo, quando aparece em hora errada, é traição. — Eu não tô te oferecendo corrente — ele falou baixo. — Tô te oferecendo saída. Eu incline o rosto, irônica. — Saída pra quem? Pra mim… ou pra você? Ele ficou em silêncio um segundo. E esse segundo disse tudo. Eu me aproximei também, ficando perto o suficiente pra ele entender que eu não tinha medo do tamanho dele, nem do olhar dele, nem do nome dele. — Você acha que eu não entendi? — eu sussurrei. — Você desceu aqui achando que ia “resolver rápido”. Agora o morro te engoliu e você quer uma desculpa bonita pra justificar por que tá aqui. Eu não vou ser teu álibi, Erick. A veia no pescoço dele pulsou. — Você não faz ideia do que eu tô enfrentando. — Eu faço, sim — eu rebati, sem subir o tom. — Eu vi arma no chão. Eu vi gente querendo me calar. Eu vi seu nome num esquema sujo que você nem sabia que existia. E eu vi o jeito que você olha pra mim como se eu fosse parte do teu problema… ou parte da tua solução. Ele apertou o maxilar. — Você é parte. — Então aí vai uma verdade que seu dinheiro não compra: eu não sou peça no teu tabuleiro. O silêncio caiu pesado. Dona Nena atravessou a sala com uma firmeza quieta, colocou outra caneca de café na mesa e falou como se estivesse reclamando do tempo: — Menina, se esse homem quiser mandar, manda ele pagar conta de luz primeiro. Lê soltou uma risadinha nervosa, quase um soluço. Jota fez um som de aprovação com a língua. Até Danilo pareceu se segurar pra não sorrir. Erick, porém, não achou graça nenhuma. — Eu posso te proteger, Ariane — ele insistiu, e a voz dele falhou só um pouco na última palavra. Eu percebi. — Posso te colocar longe disso. Você não precisa… — Não precisa o quê? — eu interrompi, e minha voz cortou como linha esticada. — Não precisa ser quem eu sou? Eu ergui o microfone desligado, apontando pra ele como se fosse uma arma. — Minha voz não é hobby, Erick. Minha voz é gente. É uma menina que apanha e ainda canta. É mãe que trabalha e ainda dança um minuto no baile pra lembrar que tá viva. É cria que cresce sabendo que o mundo quer a gente calado, obediente, agradecido. Eu respirei fundo. Senti meu peito arder. — E aí você chega com esse relógio, com esse olhar de dono do mundo, e acha que vai me salvar… como se eu fosse uma dívida sua. Os olhos dele escureceram. Não de raiva só. De algo mais profundo e perigoso. — Você tá sendo injusta. Eu sorri de lado, amarga. — Injusta é a vida aqui todo dia. Você tá só provando um pouquinho. Ele abriu a carteira, um gesto rápido, automático, como quem resolve coisas com a mão e não com conversa. Tirou um cartão preto, colocou na mesa. — Usa isso. O que você precisar. Casa pra sua mãe, segurança, advogado, estúdio, o que for. Eu não tô brincando. Eu olhei pro cartão como se fosse um inseto. E, por um segundo, eu senti a tentação. Porque eu sou humana. Porque eu sei o que dinheiro faz. Eu sei como uma chance muda uma vida. Eu sei como um estúdio bom muda uma carreira. Eu sei como uma porta aberta muda um destino. Mas eu também sei o preço invisível. Eu peguei o cartão com dois dedos, como se fosse algo sujo… e coloquei de volta na mesa com um toque leve, quase educado. — Guarda — eu disse. Ele me encarou, incrédulo. — Você tá recusando. — Tô. — Por orgulho? Eu ri, agora de verdade, só que era riso sem alegria, riso de quem já viu promessa demais virar chantagem. — Não, Erick. Por sobrevivência. Eu me aproximei mais uma vez, baixando a voz. Pra só ele ouvir. — Você não tá oferecendo ajuda. Você tá tentando comprar paz. Tá tentando comprar silêncio. Tá tentando comprar controle sobre uma coisa que te assusta: uma mulher que não te deve nada. Erick respirou pesado, e eu vi o ego dele latejar como ferida aberta. Ele tava acostumado a convencer, a vencer, a dobrar gente com recursos. E eu tava ali, dizendo “não” com calma. Isso humilha um homem do tipo dele mais do que grito. — Eu não preciso do teu cartão — eu continuei, ainda baixo. — Eu preciso que você resolva o teu lixo sem jogar em cima de mim. Ele deu um passo pra trás como se tivesse levado um soco. A sala ficou pequena demais. E então, lá fora, o som de moto parou. Uma pausa seca. Definitiva. Jota colou o ouvido na porta, a mão já pronta. — Tem gente na frente — ele murmurou. Danilo se posicionou imediatamente. Eu vi o corpo dele virar escudo. Erick também se mexeu, rápido, como se o instinto dele finalmente tivesse entendido o lugar. A batida na porta veio forte. Uma. Duas. Três. A voz do lado de fora saiu baixa, grossa, sem pressa: — Ariane… manda o engravatado aparecer. O recado é dele. Meu estômago afundou. Eu olhei pra Erick. E, pela primeira vez, vi nos olhos dele uma coisa que eu não esperava ver tão cedo: medo de perder o controle. Eu engoli seco, apertei o microfone na mão e sussurrei, só pra ele: — Tá vendo? Aqui não é você que escolhe. Aqui o morro chama… e a gente responde. A porta tremeu de novo. E eu soube, com uma certeza amarga, que o “não me compra” tinha acabado de virar sentença… pra nós dois.
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