Erick
Eu já vi coragem de muitos tipos.
A coragem ensaiada de executivo em palco, sorrindo pra câmera enquanto o coração pede socorro. A coragem de advogado blefando no tribunal, com a voz tremendo por dentro. A coragem prática de quem entra num prédio em chamas porque alguém assinou um contrato r**m.
Mas a coragem de Ariane… não parecia coragem.
Parecia instinto.
Ela não “faz pose”. Ela simplesmente não abaixa.
Depois que eu fechei o notebook, o silêncio da casa da Dona Nena ficou pesado, como se todo mundo ali soubesse que as paredes estavam ouvindo. Danilo guardou o pen drive como se fosse uma arma. Talvez fosse. Pro meu inimigo, a prova é pior que bala.
Eu saí do quartinho e encontrei Ariane na sala, de pé, encostada na parede, os braços cruzados. O corpo dela estava cansado, dava pra ver no jeito que os ombros seguravam tensão. Mas o olhar… o olhar dela continuava afiado, firme, como se o medo tivesse batido na porta e ela tivesse respondido com um sorriso.
Ela me observou por cima, como se eu fosse um problema com pernas.
— E aí? — perguntou, seca. — Achou o que veio procurar?
A forma como ela dizia as coisas me irritava porque me cortava qualquer tentativa de controle. Ela não me dava espaço para “conduzir” conversa. Ela puxava a corda e esperava eu me explicar.
Eu não estava acostumado a me explicar.
— Achei — respondi, curto. — E não é bom.
Ariane estreitou os olhos, e pela primeira vez eu vi uma rachadura mínima na postura dela. Não era medo. Era… preocupação bem enterrada.
— Fala.
Eu caminhei até a mesa e apoiei as mãos na madeira, inclinado o corpo. Danilo ficou perto da porta, atento. Dona Nena apareceu com uma caneca de café e colocou do meu lado como se eu fosse só mais um homem exausto. A normalidade dela, naquele cenário, parecia milagre.
— Estão usando meu nome — eu disse, mantendo a voz baixa. — Minha empresa. Há registros falsificados, carga com minha marca… e áudio mencionando uma MC.
Ariane não piscou.
Mas o maxilar dela travou.
— Eu — ela disse, e não era pergunta.
— Você.
O silêncio que veio depois foi mais brutal que qualquer tiro.
Ariane puxou o ar devagar, como se precisasse manter o controle do próprio corpo. Os dedos dela mexeram uma vez no microfone desligado, aquele mesmo, como se fosse um amuleto. Eu notei o gesto e senti uma irritação estranha com o objeto.
O microfone era parte dela. E, por algum motivo, eu queria arrancar aquela parte do mundo.
— Então é isso — ela murmurou, quase pra si. — Não era só “intimidação”. Era recado pra te atingir… e pra me calar.
— Sim.
Ela riu sem humor, um som curto que não tinha alegria nenhuma.
— Engraçado. Eu canto e viro alvo. Você assina papel e vira alvo. No final, sempre sobra pra gente que tá na frente.
Eu observei o rosto dela de perto. A luz fraca da sala desenhava sombra no contorno do nariz, na boca, nos olhos. Ela era bonita, mas não era uma beleza de revista. Era uma beleza viva, perigosa. O tipo de beleza que provoca reação, amor ou ódio e não se importa com qual.
E eu… eu reagia.
Só que minha reação não era simples.
Eu lembrava dela minutos antes, na viela, com arma no chão, homens se aproximando, e ela… ela não recuou. Ela não implorou. Ela não negociou com medo. Ela lutou com raiva.
Aquilo tinha ficado preso em mim como espinho.
— Você é imprudente — eu falei, e percebi que saiu mais duro do que eu pretendia.
Ariane levantou o queixo na mesma hora.
— Eu sou viva.
— Você podia ter morrido.
— E você acha que eu não sei? — ela cortou, os olhos brilhando de um jeito que não era lágrima, era fogo. — Você acha que eu acordo e penso “nossa, que delícia ser símbolo”? Não, Erick. Eu acordo e penso se volto pra casa. Só que eu volto mesmo assim.
Meu nome na boca dela soou diferente. Menos “engravatado”. Mais… humano. Quase me irritou por isso também.
Eu respirei fundo, tentando manter distância emocional. Distância é segurança.
Mas aí a imagem voltou: Ariane jogando a arma por cima do portão, sem hesitar. A coragem crua. A resposta imediata.
Meu peito apertou num ponto que não tinha nada a ver com negócios.
— Você não precisa se provar o tempo todo — eu disse, e foi a coisa mais próxima de “cuidado” que eu me permiti.
Ela me encarou como se eu estivesse falando outra língua.
— Eu não tô me provando. Eu tô sobrevivendo.
A palavra "sobrevivendo" me atingiu em cheio. No meu universo, eu sabia como sobreviver. Mas o universo dela não se dobrava à minha vontade. E, no entanto, eu estava ali, enredado naquele labirinto, tanto por escolha quanto por algo mais profundo.
Minha observação se tornou excessiva. Meu olhar voltava para ela em busca de uma âncora de certeza. Eu calculava mentalmente sua posição na sala, onde seus pés a levariam se a fuga fosse necessária, e qual porta seria o alvo mais rápido.
Isso não era “lógica”.
Isso era possessão disfarçada de estratégia.
E isso me deu nojo… e prazer.
— Eles vão voltar — Danilo avisou, baixo, do lado da porta. — Tem moto rodando devagar lá fora.
Dona Nena fez o sinal da cruz como quem não pede muito, só pede o suficiente.
Ariane não se mexeu. Só apertou o microfone.
— Podem vir — ela disse. — Eu não abaixo.
Eu senti a raiva subir de novo, mas agora era uma raiva diferente: raiva do risco, raiva dela ser tão exposta, raiva de existir um mundo onde alguém aponta arma pra uma mulher por causa de uma música.
E, no meio dessa raiva, eu senti outra coisa, mais escura, mais perigosa:
Eu queria que ela me ouvisse.
Queria que ela obedecesse.
Não porque eu mando. Mas porque eu não suportava a ideia dela cair.
— Você vai sair daqui comigo — eu falei, e a frase saiu como sentença.
Ariane virou o rosto devagar, os olhos fixos nos meus.
— Eu já falei que você não manda em mim.
— Eu não tô mandando — eu menti, sem vergonha. — Eu tô prevenindo.
Ela soltou um riso curto, mas dessa vez teve uma ponta de amargura.
— Prevenção com seu tipo sempre vira prisão.
A frase me acertou em cheio porque era verdadeira demais. Meu tipo transforma proteção em controle sem perceber. Eu sempre fiz isso. Eu sempre achei que era “responsabilidade”.
Só que ali, diante dela, eu não tinha certeza de nada.
Eu queria protegê-la… e queria prendê-la.
E esse conflito me deixou louco, porque eu não gosto de perder para mim mesmo.
Eu dei um passo mais perto. Ariane não recuou. Nunca recua. E aquilo me acendeu com a mesma intensidade com que me assustou.
— Ariane — eu disse, mais baixo, e odiei o jeito que o nome dela ficou na minha boca, íntimo demais. — Se eles queriam te intimidar, eles já sabem que você não tem medo. Então vão tentar outra coisa.
Os olhos dela vacilaram por um instante. Um só. Mas eu vi. Ela entendeu.
— Que coisa? — ela perguntou, a voz menos firme.
Eu segurei o impulso de tocar nela de novo. Eu já tinha tocado e ela me odiou por isso. Eu merecia.
— Eles vão tentar te usar.
Ariane ficou em silêncio, respirando devagar. E, por um segundo, a máscara de “MC da Rocinha” escorregou, mostrando uma mulher real por baixo, cansada, alerta, sozinha em público.
Eu senti algo apertar dentro de mim, algo antigo, feio, que eu não costumava nomear:
necessidade.
— Eu não vou ser usada — ela disse, baixo.
— Você não vai — eu respondi. E dessa vez eu não estava falando como CEO. Eu estava falando como um homem que tomou uma decisão errada e agora não sabe mais voltar atrás. — Não enquanto eu estiver aqui.
O barulho da moto voltou, mais perto.
Danilo tocou no meu ombro, um aviso.
E eu entendi, com uma clareza perigosa, que não era só o escândalo que me prendia naquele morro.
Era ela.
A voz.
O fogo.
A mulher que não abaixa a cabeça… e, sem querer, começou a levantar a minha.