Capítulo 06 : Negócio Sujo

1391 Palavras
Erick Eu já sobrevivi a crises que derrubaram homens inteiros. Reuniões com acionistas que sorriem enquanto afiam facas, ameaças veladas com perfume caro, contratos que valem mais do que bairros inteiros. Eu sei lidar com pânico desde que ele seja meu, dentro das paredes que eu controlo. Mas ali, no morro, com o eco do tumulto ainda grudado na pele e o olhar de Ariane queimando no meu campo de visão, eu entendi uma coisa simples e c***l: Eu tinha trazido sujeira demais pra perto de gente real demais. Danilo me puxou pelo braço, firme, sem delicadeza. Não era falta de respeito. Era instinto de sobrevivência. — A gente não fica parado aqui — ele disse. Eu olhei para Ariane. Um arranhão fino perto da clavícula, suor na testa, a mandíbula travada como se ela mastigava raiva. Ela parecia inteira, mas eu sabia reconhecer o “inteira” de quem aprendeu a não cair na frente dos outros. — Você vem com a gente — eu falei, não como pedido. Ela me encarou como se eu fosse um insulto ambulante. — Eu não vou pra lugar nenhum com você. — Vai, sim — Danilo cortou, e foi a primeira vez que vi alguém falar com Ariane sem tremor. — Pelo menos até sair dessa área aberta. Depois você decide se quer morrer com autonomia. Ariane soltou um riso sem humor. Eu quase achei bonito. Quase. — Você fala engraçado, segurança. — Eu falo vivo. Jota apareceu do lado, sangue seco no canto da boca, expressão fechada. Ele olhou pra mim como quem mede ameaça e utilidade no mesmo pacote. — Tá tendo movimento esquisito, Ari — ele avisou. — Esses caras não vieram sozinhos. Tão testando… e tão marcando. Marcando. A palavra ficou presa no meu peito. Eu não sou homem de superstição, mas eu sei reconhecer padrão. Aquilo não foi “confusão de baile”. Aquilo foi recado com mira: a voz dela incomoda. E, por tabela, incomodava porque eu estava perto. Perto demais. A gente atravessou mais duas vielas, descendo por um caminho que eu jamais encontraria sozinho. A Rocinha não é um lugar; é um labirinto vivo. As ruas mudam de nome no olhar, as saídas viram paredes, e cada esquina parece decidir se te deixa passar. Eu odiava. E, ao mesmo tempo, uma parte de mim… respeitava. Entramos numa casa simples, discreta, cheiro de café e roupa limpa, onde uma senhora nos olhou com a calma de quem já viu tempestade demais pra entrar em pânico por qualquer trovão. — Dona Nena — Ariane disse, e a voz dela amaciou um milímetro. Só um. — É só um minuto. — Minuto aqui é luxo, minha filha — a mulher respondeu, já fechando a porta. — Entra. E cala a boca. Lá dentro, a luz era baixa. O barulho do mundo ficou do lado de fora, como se a casa fosse uma bolha frágil. Ariane encostou na parede, respirando fundo. Eu percebi a mão dela tremer uma vez, rápido, antes de ela esconder os dedos no cabelo. Eu vi. Ela achou que ninguém viu. Danilo me puxou pro canto. — Achamos isso — ele disse, e me mostrou um pen drive pequeno, preto, com uma etiqueta arrancada. — De onde? — Um dos caras deixou cair. Jota pegou antes de qualquer um. Jota deu de ombros, como se aquilo fosse comum. — Quem vem pra intimidar, vem achando que não perde nada. Às vezes perde. Eu fechei a mão no pen drive. Metal e plástico. Tão pouco. E, ainda assim, meu estômago apertou como se eu já soubesse: ali tinha veneno. — Você tem notebook? — perguntei pra Danilo. — No carro. Eu busco. Ariane me cortou com o olhar. — Você vai ligar o computador aqui dentro? — Eu vou descobrir o que tá acontecendo — eu respondi, sem suavizar. — Porque hoje tentaram te calar, Ariane. E isso não foi acaso. Ela abriu a boca, pronta pra me ferir, mas parou no meio. Eu vi o conflito passar pelos olhos dela: orgulho contra instinto, raiva contra realidade. — Não usa meu nome como se tivesse direito — ela disse por fim, a voz baixa. — Eu não quero direito — eu respondi, e senti minha própria sinceridade me incomodar. — Eu quero verdade. Danilo voltou rápido, com um notebook fino e um cabo. A gente se enfiou num quartinho no fundo, um espaço apertado, com uma janela pequena que dava pra um muro. Eu sentei numa cadeira que parecia frágil demais pra me aguentar, e por um segundo eu pensei no absurdo: Erick Monteiro, CEO de bilhões, sentado numa cadeira barata, tentando manter a própria vida fora do noticiário. Danilo conectou o pen drive. A tela piscou. Um arquivo de vídeo. Dois PDFs. Uma pasta com nome genérico: “LOG”. Eu abri o vídeo primeiro. Imagem tremida. Um galpão. Caixas empilhadas com etiqueta da minha empresa — meu logo, minha marca, minha assinatura visual. A câmera se aproximou de um documento colado na lateral de uma das caixas. A imagem focou o suficiente pra eu ler: “Equipamentos de rede – Importação/Exportação – Autorização: E. Monteiro” Meu sangue ficou frio. — Isso é montagem? — Danilo perguntou, mas eu ouvi a tensão na voz dele. Eu abri o PDF. Contrato. Um aditivo. Meu nome no topo, minha assinatura no rodapé. Só que eu conheço minha assinatura como conheço meu próprio pulso. Aquilo era… quase perfeito. Quase. Eu senti uma raiva limpa subir pela garganta. O tipo de raiva que não faz barulho — só promete. — Falsificaram — eu falei. Danilo aproximou o rosto. — O aditivo tá datado de meses atrás. No período em que você tava fora do país. Eu abri a pasta “LOG”. Áudios curtos. Conversas gravadas. Um deles, com qualidade r**m, tinha uma frase que me fez endurecer inteiro: — “Se o Monteiro cair, cai sozinho. A mídia engole. E se a MC abrir a boca… a gente fecha.” MC. Eu apertei o notebook com força, como se fosse estrangular alguém pelo teclado. — Eles sabem da Ariane — eu disse, mais pra mim do que pra Danilo. — Então ela não é só dano colateral — ele respondeu, sério. — Ela é parte do alvo. Minha mente começou a montar o quebra-cabeça com a velocidade de quem foi treinado pra isso: uma operação usando minha empresa como fachada. Uma cadeia de assinatura falsa. Caixas com meu logo. Alguém transportando coisa ilegal com meu nome como escudo. E, quando o escândalo estourou, o bilionário seria a manchete perfeita, o vilão pronto, polido, odiável. Eu fechei os olhos por um segundo. Era uma armadilha elegante. E armadilhas elegantes são as piores, porque parecem inevitáveis. Lá fora, um barulho de moto passou devagar. Depois outra. Depois silêncio. Silêncio demais. Danilo já estava de pé, ouvindo. — Tem gente rondando — ele murmurou. Eu me levantei, indo até a janela pequena. Não dava pra ver a rua, só um pedaço de céu e o topo de um muro. Ainda assim, eu senti: o morro tinha voltado a prender a respiração. Eu pensei em Ariane na sala da frente. Na voz dela cortando o baile. No jeito que ela não abaixou a cabeça nem com arma no chão. No jeito que ela me olhou como se eu fosse lixo caro. E, pela primeira vez em anos, eu senti uma coisa que eu não conseguia transformar em cifra. Medo. Não por mim. Por ela. Eu virei pra Danilo, a decisão já firmando no meu peito como aço. — A gente vai achar quem fez isso — eu disse. — E a gente vai pegar as provas antes que virem fumaça. Danilo assentiu, mas os olhos dele foram pra porta, preocupado. — E a MC? Eu respirei fundo, sabendo que a resposta era perigosa. — A MC… — eu comecei, e o som do nome dela na minha boca pareceu errado e certo ao mesmo tempo. — não vai ser calada. Porque, naquele instante, eu entendi o tamanho do meu erro: Eu desci achando que vinha resolver rápido. Mas eu tinha entrado numa guerra que não aceita pressa. E Ariane… era o tipo de voz que vira símbolo. Símbolo, no morro, ou se protege… ou se enterra.
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