Capítulo 05 : Microfone e Mira

1508 Palavras
Ariane O baile acabou do jeito que o morro odeia: não com aplauso, mas com pressa. A batida ainda tentava existir lá embaixo, insistente, como coração teimoso, mas o cheiro do ar já tinha mudado. Tinha medo misturado com poeira, com suor, com aquela energia de “corre” que ninguém fala em voz alta porque falar atrai. Eu desci a escada lateral com a Lê grudada no meu braço, o Jota na frente abrindo caminho e dois meninos do som carregando uma caixa como se fosse escudo. Por dentro, eu tava segurando a própria respiração pra não tremer por fora. Eu sempre soube que a voz é uma arma. Só não gosto quando alguém aponta de volta. — Ari, teu celular tá sem sinal, né? — a Lê sussurrou, ofegante, enquanto a gente enfiava numa viela mais estreita, longe do fluxo principal. — Tá — respondi, sem olhar. Meus olhos estavam no chão, nas paredes, no alto, em tudo. — E eu não quero sinal. Quero silêncio. Silêncio é o único jeito de ouvir o perigo chegando. A viela se estreitava num ponto em que a luz falhava. A lâmpada do poste piscava, como se brincasse com a nossa cara. Eu senti o arrepio subir pela nuca e parei por um segundo, só o bastante pra deixar meu corpo escutar. Passos. Dois. Não eram da nossa equipe. Jota também sentiu. Eu vi no jeito que ele enrijeceu as costas, no reflexo rápido de olhar pro canto sem virar a cabeça. — Continua — ele disse baixo, pros meninos do som. A voz dele era comando sem gritar. — Sem parar. Meu coração bateu mais forte. Não era pânico. Era raiva. Porque eu sabia o que era aquilo. Intimidação. Querem mostrar que podem. Eu apertei o microfone na mão, mesmo já desligado. Ridículo, eu sei, como se um microfone pudesse virar faca. Mas tinha outra coisa ali: era símbolo. Era o que eu sou. E, no morro, mexer com símbolo mexe com sangue. — Ari… — Lê tentou falar. — Shhh — eu cortei, e apontei pro ouvido, pra ela entender. — Só anda. A gente virou numa curva onde a parede tinha grafite antigo e uma escada que subia pra uma laje baixa. Minha mente começou a desenhar mapa: três saídas possíveis, duas ruins, uma que dependia de sorte. E sorte não é um plano. Os passos atrás de nós ficaram mais próximos. Eu contei pelo som. Quem tá correndo de verdade pisa pesado. Quem tá caçando pisa leve. Leve demais. — Jota — eu sussurrei, sem mover os lábios direito. — Não são cria. Tá muito limpo o passo. Ele respondeu com um “hum” quase inaudível e levou a mão pro rádio preso na cintura. O rádio chiou uma vez, curta e eu entendi: ele tava chamando reforço. Só que reforço no morro não chega como filme. Chega com tempo. E o tempo era exatamente o que a gente não tinha. A viela abriu num pequeno largo entre casas. Tinha uma kombi velha parada, um bar fechado com portão de ferro e uma sombra de árvore que deixava tudo mais escuro. Eu odiei aquele lugar na hora. Lugar perfeito pra encurralar. Jota parou. — Lê, entra na casa da Dona Nena — ele disse, apontando pra uma porta azul do lado esquerdo. — Agora. — Mas— — Agora. Ela obedeceu. Os meninos do som também. Eu fiquei, porque eu não sabia ser outra coisa além de ficar. E foi aí que eles apareceram. Dois homens saíram da sombra como se sempre tivessem estado ali. Um com boné baixo e camisa lisa, o outro com jaqueta escura, mão enfiada no bolso do jeito mais óbvio do mundo. Arma. A minha pele gelou, mas meu rosto não mudou. Eu aprendi muito cedo que expressão é convite. — Ariane, né? — o do boné falou, como se estivesse perguntando a hora. Jota deu um passo na frente, bloqueando a visão. Mas eu me movi pro lado, só pra mostrar que eu não precisava de escudo. — E você é quem? — eu devolvi, a voz firme, como se o medo fosse um som que eu não soubesse fazer. O homem da jaqueta soltou um sorriso torto. — Relaxa. Ninguém quer confusão. Só… conversar. Conversa no morro, às vezes, é sinônimo de “ou você baixa a cabeça ou a gente baixa por você”. Eu senti a raiva subir quente. Pensei na minha mãe, que sempre dizia pra eu cantar baixo, não chamar atenção. Pensei no meu pai, que dizia pra eu cantar alto, porque o mundo já tenta calar a gente de qualquer jeito. Eu respirei. — Vocês escolheram o lugar errado pra bater papo. O do boné deu um passo. O suficiente pra invadir meu espaço. — Você cantou demais hoje, princesa. A palavra “princesa” saiu como deboche. Como ameaça com glitter. — E incomodou gente que não gosta de recado. Eu apertei o microfone com força. A vontade era enfiar aquele metal na garganta dele. Não ia. Eu não ia dar esse prazer. — Se o recado serviu, então tava certo — eu respondi, devagar. — Quem não deve não teme a letra. O homem da jaqueta tirou a mão do bolso só um pouco. Eu vi o brilho do cano e meu estômago virou gelo. Jota não esperou. Ele avançou como raio, derrubando o braço do cara com um golpe seco, e eu ouvi o estalo metálico bater no chão. A arma caiu e escorregou perto da roda da kombi. Tudo aconteceu rápido demais e lento demais ao mesmo tempo. O do boné tentou me agarrar pelo braço, e eu reagi no instinto: girei o corpo, enfiei o joelho na coxa dele e puxei meu braço de volta com força. Doeu. Em mim e nele. O ódio me deixou forte. — Não encosta em mim! — eu rosnei. Ele se irritou, e o olhar dele ficou feio. Sem disfarce. — A voz do morro acha que é intocável. — A voz do morro é o morro — eu interrompi, cuspindo as palavras como faca. Jota e o outro já estavam no chão, trocando soco. Poeira subiu. O homem da jaqueta tentou alcançar a arma caída, rastejando. Eu vi e corri. Meu pé bateu no punho dele antes da mão tocar o metal. Ele grunhiu, virou de lado. Eu não pensei: peguei a arma pelo cano com a mão tremendo e joguei o mais longe possível, por cima do portão do bar fechado. O som do metal caindo do outro lado foi como um sino. O do boné arregalou os olhos por um segundo — surpresa real. Eu senti prazer. c***l. Mas prazer. — Tá maluca! — ele rosnou, avançando de novo. E foi aí que uma sombra maior entrou no largo. Um homem alto, postura dura, veio com velocidade controlada, como quem já decidiu o que fazer. Atrás dele, outro mais velho, corpo em proteção. Eu reconheci a presença antes de reconhecer o rosto. Erick. O terno escuro dele parecia ainda mais fora do lugar ali, mas o olhar… o olhar dele não estava perdido agora. Estava perigoso. — Afasta dela — ele disse, em voz baixa, sem gritar. O do boné riu, nervoso. — Ih, olha só… o engravatado também canta? Erick deu um passo. Só um. Mas foi o suficiente para mudar o ar. Porque tinha gente que não impunha respeito pelo dinheiro e sim pelo jeito de encarar a morte sem piscar. Eu odiei admitir, mas senti um alívio atravessar meu peito como faca ao contrário. Jota levantou do chão com sangue no canto da boca e cuspiu pro lado. — Vocês tão mexendo com a pessoa errada — ele avisou. O homem da jaqueta recuou, percebendo que o jogo tinha virado. O do boné hesitou, olhou pros lados como se esperasse reforço que não veio. Porque no morro, quando a linha fica torta, alguém puxa. — Isso não acabou, MC — ele disse, apontando o dedo pra mim como promessa. Eu dei um sorriso sem alegria. — Nada aqui acaba fácil. Eu sei. Eles sumiram na viela como sombra que sabe se esconder. O silêncio que ficou depois foi pior que o barulho. Porque o silêncio traz pensamento, e pensamento traz medo. Eu respirei fundo, tentando controlar o tremor das mãos. O microfone ainda tava comigo. Ridículo. Mas era meu. Erick me olhou como se eu tivesse acabado de sair de uma guerra. — Você tá bem? — ele perguntou. A pergunta parecia simples, mas eu ouvi outra coisa por trás: você vale o risco? Eu levantei o queixo. O morro me ensinou a não mostrar ferida. — Tô viva — eu respondi. — Aqui isso já é vitória. E, no brilho rápido dos olhos dele, eu vi a confirmação do que eu já sentia desde o baile: Eu tinha virado alvo. E, gostando ou não… aquele homem de relógio caro tinha virado parte da minha noite. Parte do meu problema. Parte do meu perigo.
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