Capítulo 04 : Regra de Sobrevivência

1348 Palavras
Erick Eu aprendi cedo que ordem não se pede. Ordem se impõe. Foi assim que eu virei o homem que eu sou: o CEO que entra numa sala e muda a temperatura do ar só com presença. O bilionário que resolve crise com uma assinatura. O estrategista que controla dano antes que vire incêndio. Mas, ali… no corredor improvisado atrás do palco, com gente correndo, gritos explodindo do lado de fora e um helicóptero roçando o céu como ameaça, eu tive uma certeza desconfortável: Na Rocinha, a ordem não é minha. E eu odiei sentir isso. Danilo surgiu do nada, rápido, o corpo entre mim e qualquer coisa que viesse na nossa direção. O olhar dele já tinha virado cálculo, o tipo de cálculo que salva. — Erick, agora — ele disse, firme, sem me perguntar. Eu ignorei por instinto. Meu instinto sempre foi decidir, não obedecer. Só que o corredor começou a encher de gente empurrada pelo medo, e medo não respeita status. Um ombro bateu no meu peito. Uma mulher quase caiu. Um rapaz passou com os olhos arregalados, gritando alguma coisa que eu não peguei inteira. E Ariane… Ariane estava ali, a centímetros, com o queixo erguido como se o caos fosse só mais um inimigo que ela tinha aprendido a encarar. — Foi tiro? — eu perguntei, seco. — Aqui a pergunta não é “foi” — ela respondeu, os olhos varrendo o lado de fora como radar. — É “vai ter mais?” A resposta era uma facada. Porque ela falava como quem vive isso. Como quem conhece o ritmo do perigo. Eu puxei o celular. Sem sinal. Claro. A sensação de impotência me irritou num nível que eu não deixava ninguém ver. Eu apertei o aparelho na mão como se pudesse obrigá-lo a funcionar. Danilo se inclinou perto. — Sem rede. Vamos pro carro. Agora. Eu olhei em volta. Não era só confusão aleatória. Tinha método. Eu via homens com rádio se movendo contra o fluxo, puxando pessoas, apontando direções. Vi um deles olhar diretamente pra mim, não como curiosidade, mas como reconhecimento. Isso me gelou. — Eles sabem que eu tô aqui — eu falei baixo. Danilo não respondeu, mas a forma como ele apertou a mandíbula foi resposta suficiente. Ariane deu um passo, como se fosse sair do corredor. — Pra onde você vai? — perguntei, e não foi gentileza. Foi comando. Ela me encarou, e o olhar dela tinha um tipo de desprezo que eu não estava acostumado a receber. — Pro lugar que eu não morro, engravatado. Eu segurei o pulso dela antes que ela se movesse. Não forte o bastante pra machucar — mas firme o bastante pra ela sentir que eu não tava pedindo. Ela tentou se soltar no mesmo instante, como um reflexo. — Eu falei pra não encostar em mim. — E eu falei pra você discutir depois — minha voz saiu baixa, controlada, mas o coração batia mais rápido do que eu queria admitir. — Se tem gente te seguindo, você não vai andar sozinha. Os olhos dela brilharam, raiva pura. — Você não manda em mim. — Eu mando em mim — eu corrigi, sem piscar. — E, por enquanto, você tá perto demais do meu problema. A frase foi fria. Calculada. Do jeito que eu sempre falo quando não quero entregar nada. Só que, quando eu disse “meu problema”, eu vi a expressão dela mudar por um segundo. Um micro segundo. Como se ela entendesse que eu não estava falando de ego. Eu estava falando de risco real. Lá fora, um novo estouro, dessa vez mais seco, mais definitivo. A multidão reagiu como onda: gente se empurrando, gritando, derrubando copo, derrubando cadeiras, derrubando dignidade. O baile virou fuga. Danilo se aproximou ainda mais, como um escudo. — Erick, se a gente fica, a gente vira alvo fácil. Vamos. Eu soltei o pulso de Ariane, mas não perdi ela de vista. Não por cuidado. Por necessidade. — Cadê o Rocha? — perguntei, olhando em volta como se fosse possível achar um nome no meio do caos. Ariane soltou um riso sem humor. — Você acha que é só chegar falando nome aqui? — Eu não “acho”. Eu preciso. — Então aprende a primeira regra de sobrevivência — ela falou, e o tom dela ficou sério, quase c***l. — Aqui não adianta querer. Aqui você espera o morro deixar. A frase me feriu de um jeito absurdo. Porque eu não “esperava”. Eu nunca precisei esperar. Eu puxei Danilo pelo ombro e falei rápido, direto: — Traz o carro o mais perto possível. Dois homens na frente, dois atrás. Sem arma aparecendo. E ninguém reage à provocação. Danilo me olhou como se eu tivesse enlouquecido. — Erick, com todo respeito… isso aqui não é seu condomínio. — Eu sei. E eu odiava saber. Mesmo assim, eu continuei, porque controle é vício: — A gente cria um corredor. A gente— Ariane me interrompeu com um olhar que poderia cortar o concreto. — Você vai criar corredor com quem? Com a multidão? Com os becos? Com gente que não obedece seu dinheiro? Ela apontou discretamente pra fora, onde dois homens com rádio e postura de liderança estavam parados, observando, decidindo pra onde a massa devia correr. — Tá vendo eles? — ela disse. — Se você tentar “impor ordem”, você vai virar o motivo da desordem. Eu segui o olhar dela e entendi na hora. A linguagem corporal deles não era de polícia. Não era de segurança privada. Era de… território. Eles eram a lei dali. E eu não fazia parte. Eu avancei um passo na direção deles, calculando uma negociação rápida, objetiva. Se eu desse o nome certo, se eu oferecesse o recurso certo, eu compraria passagem. Mas antes que eu abrisse a boca, um dos caras levantou a mão, não pra mim. Pra multidão. Um gesto simples, e o fluxo mudou, como se todo mundo tivesse recebido uma ordem silenciosa. Quando ele finalmente olhou pra mim, foi com a calma perigosa de quem tem arma e não precisa mostrar. Ele me escaneou: roupa, postura, relógio. E eu vi, nos olhos dele, algo que eu conhecia bem. Avaliação. Só que não era avaliação de negócio. Era avaliação de ameaça. Danilo aproximou a mão do meu braço, um aviso mudo: não. Eu respirei fundo. Engoli o impulso de bater de frente. O impulso de provar que eu não recuo. E foi nesse momento, nesse exato momento, que eu senti, com uma clareza incômoda, que meu poder ali valia menos que nada. Meu nome não abre a porta. Meu dinheiro não comprava respeito imediato. Minha postura não me assustava. Na Rocinha, quem assusta é quem pertence. Ariane se aproximou do meu lado, mas não como aliada. Como alguém que tá sobrevivendo e, por acaso, decidiu não me deixar morrer no caminho. — Vem — ela disse baixo, sem olhar diretamente pra mim. — Se você quiser sair inteiro, você vai me ouvir agora. Eu travei a mandíbula. Eu queria dizer não. Queria mandar. Queria tomar a frente. Mas outro tiro estalou ao longe e o helicóptero pareceu descer mais, como se o céu também tivesse decidido apertar. Eu encarei Ariane. A luz do baile pegava nela de um jeito brutal, suor na têmpora, olhar firme, boca fechada como promessa. Ela não parecia uma garota em perigo. Ela parecia o próprio perigo… só que do lado certo do mapa. Eu assenti, quase imperceptível. — Fala. Ela me olhou como se eu tivesse acabado de engolir o orgulho com vidro. — Primeira regra — Ariane disse. — Aqui, você não escolhe o caminho. Você segue quem conhece o labirinto. E, quando eu dei o primeiro passo atrás dela, eu entendi o tamanho da humilhação. E o tamanho da necessidade. Porque naquela noite, na Rocinha, a única ordem que existia… não era a minha. Era a do morro. E, por algum motivo que eu ainda não sabia nomear, a voz dele tinha o nome dela.
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